nº 10 - 2º semestre de 2002 
 

fotográfica; 1945: exposição individual da artista, em São Paulo, no Instituto dos Arquitetos; 1949: no MASP, na 1ª retrospectiva de Anita Malfatti (Marta Rossetti Batista. Anita Malfatti no tempo e no espaço. São Paulo, IBM-Brasil, 1985. P.: 144 e 149-150).

A meu ver, A boba é o mais radical dos trabalhos do mais importante período de exercício artístico de Anita Malfatti: 1915/16...17, dentro de uma carreira que durou pouco mais de meio século, incluindo-se, aí, o primeiro aprendizado. Confluência de "ismos", com predominância de características do expressionismo, mas comparecendo, também, ainda que abrandados, elementos cubistas. Uma afronta, um acinte para o Brasil de 1917, tanto, que o quadro não foi apresentado na referida exposição de 1917-18; tampouco em 1922, na mostra da Semana de Arte Moderna, na qual Anita Malfatti continuava a ser o mais importante dos artistas plásticos participantes, em função das obras feitas no referido período estadunidense.

Verde, azul, vermelho, amarelo, preto; pouca tinta; textura aparente da tela-suporte; ausência de uma "limpeza" no uso das referidas cores. Áreas-cor que se sustentam sem desenho: a cor pela cor; quase inexiste a diferença de tratamento figura/fundo - afinal, trata-se de um retrato (tipológico?); veja-se a blusa - amarelo - da figura, com elementos superficiais (aí, nada vai de depreciativo) de cubismo: não está obedecendo a uma hierarquia, se considerarmos como é tratado o fundo vermelho-azul - justapõem-se; mesmo a face, não fora a estrutura representada pelo desenho que, parcimoniosamente, comparece: o pincel preto que delineia e delimita as áreas-cor: o espaldar da cadeira na qual se senta a modelo, detalhes da blusa, o cinto, sobrancelhas, olhos, nariz, lábios. A estruturapreto, por outro lado, empresta ao ser animado - mulher - e ao inanimado - a cadeira (parte dela) - a mesma importância, igual destaque.

A boba, com seu olhar de boba, dirigido para um ponto fora dos limites do quadro, ignorando o espectador e/ou pintor (a). Para o mesmo ponto se dirigem, também, as linhasmestras da composição. Deslocada socialmente, ou melhor, sem propriamente uma função social, dada a sua condição de boba, no quadro ela também aparece deslocada, "jogada" para um canto - o direito do espectador - vindo isso a contrariar a composição de um retrato, como tradicionalmente se entendia...; por outro lado, dada a forte influência de escola (Expressionismo), nem poderia ser de outra maneira. O jogo de linhas, que convergem para o ponto em que está olhando a figura, "amarra" a composição. Porém, o impacto da assimetria gritante de A boba sofre novo solavanco, ao desviarmos o olhar e atentarmos, também, para o título da pintura: A BOBA:

ABOBA
perfeita simetria - uma metade
espelhando a outra.

O substantivo "bobo" se origina do adjetivo latino balbu(m), que significa "gago"; temos também balbo, em português, significando "gago". Gago é, comprovadamente, uma onomatopéia; portanto pode ser classificada, a palavra, como um hipo-ícone imagem, porém com forte carga simbólica, palavra que é. Ou, numa outra visada: um símbolo, com forte teor de iconicidade. (11) ( Em última instância, considerando-se a questão do fundamento do signo - o que fundamenta, no caso em questão, é a relação de semelhança com o objeto dinâmico - a palavra Gago vem a ser um hipo-ícone… com forte teor simbólico). É provável que balbus (a, um) seja, também, termo onomatopaico... BOBA, balba... ba ba ba, gagueira que se configura, cromaticamente, na metade inferior da tela.

Em cerca de dois anos e meio, Anita Malfatti fez o que as Artes Plásticas do Brasil não haviam feito em cerca de cem e, o que é mais importante, a sua exposição de 1917 abriu caminho para o Movimento Modernista no Brasil.

Roman Jakobson, em célebre ensaio - "Lingüística e Poética" (12) - faz referência, entre outras coisas às abordagens sincrônica e diacrônica aplicadas à Literatura (Poética), podendo ser transpostas para as Artes Plásticas: a sincrônica, considera, independentemente de

" A meu ver, A boba é o mais radical dos trabalhos do mais importante período de exercício artístico de Anita Malfatti..."