nš 10 - 2º semestre de 2002 
 

mas também ter a intenção de pensar e produzir arte sobre novas bases estéticas, nossos modernistas não foram tão radicais em suas propostas de renovação e revolução em direção a uma nova sensibilidade. No máximo, eles permitiram uma visão instrumental para a fotografia que denota exatamente a falta de uma reflexão mais aprofundada sobre essas novas possibilidades de expressão. O crítico e pesquisador carioca Paulo Herkenhoff, ao comentar essa questão, lembra uma crítica do jovem Oswald de Andrade (1890-1954) publicada em 1921, em defesa do escultor Brecheret, onde ele menciona a fotografia: "(...) de fato, o artista é o ser do privilégio que produz um mundo supraterreno, antifotográfico, irreal que seja, mas um mundo, existente, chocante, profundo (...) Mas isso que faz o crítico julgador de nossas populações (frases assim: como está parecido! Que beleza! É como se fosse ...) é a maior vergonheira de uma cultura. Arte não é fotografia! Nunca foi a fotografia! Arte é expressão, é símbolo comovido" [1].

O texto do então jovem Oswald de Andrade, preconceituoso e intolerante, revela uma opinião conservadora a respeito da fotografia, mais característica do século XIX, que reduzia as potencialidades da fotografia a uma representação mimética, automatizada e realista. Oswald de Andrade deixa transparecer, naquele momento, seu desconhecimento sobre a importância da fotografia nas vanguardas européias, e também evidencia seu desconhecimento de trabalhos importantes que estavam sendo produzidos, inclusive no Brasil. Mesmo se encararmos como uma opinião comparativa, para destacar a importância da arte e minimizar a da técnica, no caso a fotográfica, Oswald de Andrade se mostra anacrônico nesse espaço imagético, pois não conseguiu ir além do senso comum do conservadorismo do século XIX.

Contudo, se olharmos com acuidade o movimento modernista brasileiro é fácil constatar que a fotografia, enquanto registro e documentação, foi bastante utilizada e o cinema também não foi totalmente excluído, uma vez que a revista Klaxon, "mensário de arte moderna", em seu primeiro número, publicado em 15 de maio de 1922, Mário de Andrade (1893-1945), um dos expoentes da Semana de Arte Moderna, registrava: "Klaxon sabe que o cinematographo existe. (...) A cinematographia é a criação artística mais representativa de nossa época. É preciso observar-lhe a lição" [2].

Este fragmento, retirado do texto de abertura da revista, na realidade um editorialmanifesto, denota, depois de alguns meses do acontecimento explosivo da Semana, alguma importância da imagem técnica no movimento modernista, mesmo sabendo da ausência de uma reflexão mais aprofundada sobre a questão. Temos a impressão que Mário de Andrade foi o único 'modernista de carteirinha' que desenvolveu, intuitivamente, alguma atividade com a fotografia. Assinante de diversas revistas especializadas, entre elas a alemã Der Querschnitt (O corte vertical), editada em Berlim, Mário com sua câmera batizada de codaque, desenvolveu entre 1923 e 1931, uma fotografia arrojada e inovadora. Para Telê Ancona Lopez, essa experiência "configura a incursão consciente pela fotografia como linguagem, a redefinição do olhar através da câmera; a experiência artística, marcada por um forte senso de composição. (...) Mário subverte os planos, corta, experimenta o 'close'; calcula, compõe e, já se sabe, não hesita em tomar figuras de costas" [3].

Influenciado pelos trabalhos dos diversos artistas publicados na revista alemã, Mário produz uma fotografia diferenciada, olhando o mundo através da câmera não com o simples objetivo de documentar, mas sim, para criar imagens que fossem intrigantes, capazes de despertar no leitor um senso de novidade e estranhamento. Essa possibilidade de expressão aos poucos encontrou seu caminho: radicalidade nos enquadramentos, sombras acentuadas, formas e ângulos inusitados. Tal qual o artista russo Aleksander Rodtchenko (1891-1956), Mário procurou romper com o procedimento tradicional de fotografar e, principalmente, desarticular os automatismos de visão e perturbar nossas percepções rotineiras.

Porém, antes dessa produção, considerada hoje uma das principais