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SOBRE O ARTISTA YUTAKA TOYOTA

Gostaria que minhas obras nos levassem a uma viagem sideral, multidimensional, em que o positivo e o negativo e todos os opostos, o masculino e o feminino, o In e o Yo, e tudo mais, convivam em plena harmonia.
Toyota

Yutaka Toyoda (com “d”) nasceu no dia 14 de maio de 1931, na cidade de Tendo, ao norte do Japão. O sobrenome, herdado do pai, desde o início de sua carreira no Brasil foi trocado pela imprensa por Toyota (com “t”), e posteriormente adotado.

Quando pequeno, desenhava e fazia aquarelas das paisagens nas diversas estações do ano. Na infância, também conviveu com a marcenaria do pai, tendo contato com a fabricação artesanal de móveis. O irmão de sua mãe era pintor, Jin Ichi Oe, e Toyota gostava de observá-lo. Ganhava as telas inutilizadas do tio, cobria com tinta branca e as reaproveitava. O seu primeiro prêmio de pintura veio em 1946, aos quinze anos, com o quadro Outono, numa tela reutilizada do tio.

Em 1950, foi para Tóquio, ingressou na mais importante Universidade de Artes do Japão, Geidai, no curso de Arte e Artesanato. Fez curso extraclasse de Cenografia, tornando-se assistente do mestre Kenkichi Yoshida, o que contribuiu para sua melhor compreensão do espaço. Tornou-se instrutor técnico do Instituto de Pesquisas Industriais, uma instituição governamental da cidade de Shizuoka.

Devido ao convite do Instituto de Pesquisas de Shizuoka para coordenar a implantação de uma fábrica no Brasil, Toyota veio ao País junto com uma equipe de técnicos. A fábrica nunca funcionou e o artista foi obrigado a retornar ao Japão. Contudo, esse tempo que Toyota ficou por aqui foi suficiente para deixar seu país e imigrar ao Brasil.

De volta a São Paulo, dedicou-se com maior entusiasmo à arte, sua pintura adquiriu formas abstratas geométricas, em busca de uma expressão interior. Nesse período, da década de 60, ele ficou conhecido por uma obsessão do Círculo – Símbolo da Harmonia Cósmica. Essa persistência sob o signo do “Círculo”, Toyota acredita que foi uma manifestação da atitude zen-budista, princípios que acompanharam a sua criação, como a busca pela paz interior e pela compreensão simples e profunda das coisas.

Em meados da década de 60, suas pinturas fizeram grande sucesso no Brasil, com obras aceitas para a VIII Bienal Internacional de São Paulo. A premiação do Primeiro Salão Esso, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, possibilitou ao artista explorar a tradição e a cultura europeias, mudando-se para a Itália. Na Europa, encontrou-se com seu amigo, o diretor do Museu de Arte de São Paulo, Pietro Maria Bardi, que proporcionou sua estada em Florença e serviu como grande estímulo intelectual a Toyota. Nesse período, começou a fazer novas experiências com diferentes materiais nas telas, como terra, areia e linho misturados à tinta.

Após o contato com a arte antiga de Florença, Toyota resolveu conhecer os movimentos atuais, mudando-se para Milão, onde havia uma arte de vanguarda. Durante o tempo em Milão (1966 a 1968), os movimentos de op-art e arte cinética se afirmavam na Europa, e Toyota teve contato com diversos artistas fortemente influenciados por Lucio Fontana, argentino radicado em Milão e mentor do Concetto Spaziale (Conceito Espacial).

Com a vida mais dinâmica, as ideias de rápido, contínuo e mutável foram introduzidas na arte, fazendo com que se falasse de quarta dimensão. Nessa fase, o trabalho de Toyota estava mais limpo e ótico. As figuras geométricas eram elementos principais – quadrados, losangos e até círculos, que se aproximavam de elipses, sofrendo deformações – em faixas paralelas de linhas finas, em tons luminosos, geralmente em um fundo claro. As formas eram concêntricas, repetidas a partir de um possível centro, lembrando a propagação da água em um lago ao cair uma pedra – com a ilusão de ótica, as figuras iam se tornando sólidas.

Toyota acrescentou outros elementos e novos materiais às suas pinturas. Deixando a tinta a óleo de lado, e preocupado com as questões do espaço, procurou materiais contemporâneos e tecnológicos da época, como o alumínio e o poliéster. A madeira continuou apenas como suporte. O artista se preocupava em mostrar uma dimensão que se relacionasse com a simplicidade do pensamento zen e da física de Einstein – que sempre o acompanhou – transmitindo sua concepção de um mundo cósmico. Gravava desenhos em placas de alumínio, geralmente círculos, agora como se estivessem exprimidos, querendo saltar da tela.

Os primeiros objetos que Toyota criou, fixou-os nas paredes – relevos côncavos, convexos, com suporte de madeira forrado de alumínio na parte frontal. Não usava muito o poliéster devido ao alto custo, e pelo mesmo motivo ainda não usava o aço inoxidável. O alumínio foi o mais usado pelo preço acessível e o utilizava polido como espelhos para obter os reflexos. Sobre as superfícies, colocou esferas pintadas de branco, que se deformavam (mais que em seus quadros) no reflexo.

Toyota pretendia comunicar um significado mental e espiritual do espaço. Essa fase de preocupação com a questão espacial foi chamada de In-Yo – símbolo de elementos opostos. O reflexo do alumínio espelhava a obra e o ambiente onde estivesse deformando e criando um novo espaço. A opção por não usar espelhos se deu por eles reproduzirem o ambiente sem deformá-lo, o que não era seu intuito.

Toyota volta ao Brasil com exposições e prêmios que o ajudaram na propagação de suas propostas óticas. Após sua naturalização, em 1971, foi convidado a participar na XI Bienal na Bélgica, representando o Brasil junto com outros artistas. Dessa vez, o cubo toma o lugar da esfera. Na simbologia oriental, o círculo é o céu e o quadrado, a terra, estando o homem entre ambos. Para o artista, o cubo sugere a vida nas cidades grandes, o isolamento das pessoas em apartamentos, com os ângulos retos e forma fechada.

Toyota até hoje trabalha com os três elementos básicos do universo – o círculo, o triângulo e o quadrado –, transferindo para a tridimensão a esfera, a pirâmide e o cubo.

Em 1974, viajou ao Japão para uma exposição, e percebeu que ao viver no ocidente, onde a cultura é voltada para a lógica, conseguiu compreender melhor sua ascendência e desenvolver o lado espiritual do oriente na sua arte.

Nos anos 1970, ao criar volumes monumentais, buscou formas que se relacionassem com o espaço urbano. Toyota era cada vez mais reconhecido como escultor, participando de inúmeras exposições. No entanto, jamais deixou de fazer gravuras, pinturas e desenhos.

Em 1991, o artista recebeu da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) o prêmio de Melhor Escultor de 1990.

Em 2003, Toyota foi condecorado pelo imperador do Japão pelos trabalhos e intercâmbio cultural que realizou entre as duas nações.

Ao longo de sua vida, o artista ganhou alguns dos mais importantes prêmios de arte, em salões e bienais, além de condecorações no Brasil e no Japão pelo seu intenso comprometimento com o intercâmbio cultural entre as nações.

Em 2009, o Museu Brasileiro de Escultura (MuBE) apresentou uma retrospectiva da obra do artista com curadoria de Jacob Klintowitz.

Em 2010, o Museu da Cidade de Tendo, Japão, apresentou também uma retrospectiva com obras, instalação e referências monumentais de seus trabalhos.

Em 2017, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro apresentou nova retrospectiva do artista com curadoria de Denise Mattar. Contando com maior número de obras, a mostra é agora apresentada no Museu de Arte Brasileira da FAAP.

Elsie Lessa (sobre a obra da X Bienal - 1969)
Os olhos da gente viram quadros demais, esculturas demais e estão meio cansados da perfeição ou da monotonia da maioria deles, um impacto já vai sendo coisa rara. Como o convite à infância, o passaporte livre para o conto de fadas da bola de gude gigante do japonês Toyota. Fiquei olhando, esqueci os outros, desliguei-me, namorei-a de vários ângulos, toquei-a com os dedos – era fria e sólida ao contato, como a outra esfera das calçadas da meninice. Era bom vê-la. Dançavam leve no ar os círculos em espiral – eram verdes e azuis –, se fundiam em infinito, olhados de perto eram capazes de devolver os nossos próprios olhos, em puro êxtase. Não sei quanto tempo fiquei olhando para ela. Sei que foi difícil desprender-me dali.

Jayme Maurício (Exposição Galeria Grupo B – RJ - 1972)
A grande peça do pátio, composta de três elementos, é o limiar de uma viagem ao país da luminosidade espelhada. O visitante é induzido a atravessar os dois vãos livres entre eles. E a travessia funciona realmente como tal – um reencontro consigo mesmo em visões deformadas. Quem o transpõe perde suas coordenadas – como se tivesse sido atuado por dentro. 
O espelho de Toyota continua a ser a superfície de metal polido. Há a maior continuidade, é claro, entre o Toyota de agora e o de antes. Acontece apenas que o artista, sem renegar seu sistema preciso e purista de criação, ligou o rigor formal à vertigem sensorial, à própria desorientação – um paradoxo de muita significação e riqueza.

Mário Schenberg
Há inegavelmente uma relação profunda entre essas pesquisas artísticas do século XX e a transformação da concepção de universo físico associado à elaboração do espaço-tempo da Teoria da Relatividade. Na “escultura” de Toyota há uma relatividade fundamental, pois a “obra” depende essencialmente do observador em movimento. Há também uma dependência do observador condicionada à sua entrada óptica na imagem produzida pela reflexão distorcida e fragmentada na superfície metálica. Assim, a observação é modificada pelo próprio ato de observar. Isso tem uma relação natural com a filosofia da Mecânica Quântica, ainda mais revolucionária do que a da Teoria da Relatividade. Há uma convergência misteriosa da Arte e da Ciência em cada período histórico.

Na obra de Toyota há ainda uma retroação do objeto sobre si mesmo, produzida pela reflexão de uma parte por outra, que interage por sua vez com o deslocamento do observador, dando nas últimas obras uma oportunidade de obter efeitos colorísticos de grande beleza e, por vezes, de uma profunda sugestão mágica. As “esculturas” de Toyota são na realidade instrumentos de uma proposta metafísica feita ao observador incauto, que tanto pode vivenciar o problema fundamental de Maya como se deixar embalar pelo encantamento das imagens e cores do mundo ilusório, perdendo a mensagem potencial, mas vivenciando assim a ação de Maya como pura ilusão.

Oscar Niemeyer
O que me agrada na escultura de Toyota é a simplicidade natural e não premeditada. A ideia de utilizar o aço e a cor com seus reflexos imprevisíveis. São objetos que se adaptam a qualquer ambiente e, numa escala maior, à própria arquitetura. Parece que a pureza do aço o atrai e desse material talvez decorram as formas diferentes, construtivas ou geométricas que imagina. Vejo-as, às vezes, numa escala maior, como grandes sinais metálicos cheios de brilho e de luz e as sinto tão belas que gostaria de vê-las incorporadas à nossa arquitetura.

Ivo Zanini
As esculturas em chapas de alumínio e aço de Toyota ganharam nova dimensão na medida em que o artista conseguiu redimensionar formas e oferecer novos espaços às cores no interior das peças. Por intermédio do metal, os volumes continuavam a captar, espelhar, deformar o ambiente e o evanescente, parâmetro da quarta dimensão de Toyota.

Jacob Klintowitz
É possível dizer que a junção e a aparente contradição entre a dureza e o macio, a espontaneidade e a reflexão, o volume e a leveza, a geometria estável e o equilíbrio instável são companheiros constantes de Yutaka, fazem parte do mundo que inventou e são a origem da empatia do público. A alta tecnologia é indissociável da sua delicada concepção. E temos a sensação de que esse voo só existe embalado nesses materiais e em contrastes incomuns. Yutaka Toyota enriquece o nosso olhar no jogo essencial feito de aço, alumínio, reflexos cromáticos de pigmentos ocultos e movimentos eólicos.