nš 10 - 2º semestre de 2002 
 

manifestações do moderno na fotografia brasileira, podemos destacar outros trabalhos de semelhante impacto e importância. Sem sombra de dúvida o mais eloqüente deles, foi o desenvolvido por Valério Vieira (1862-1941), fotógrafo, pintor e músico, que subverteu todos os parâmetros de visualidade a partir de uma produção única, desenvolvida logo nos primeiros anos do século XX. Artista de raro talento, foi um empreendedor e pioneiro em disponibilizar sua técnica a serviço de uma estética de caráter teatral-ilusionista.

Nascido em Angra dos Reis, Valério Vieira estudou na Academia Nacional de Belas Artes e iniciou sua carreira de fotógrafo em meados de 1880, desenvolvendo atividades no Vale do Paraíba, depois em Caxambu e Ouro Preto, ambas em Minas Gerais e, finalmente, estabeleceu-se em São Paulo em meados da década de 1890. Associou-se inicialmente com Aguiar, com estúdio localizado na Rua XV de Novembro, 19, ao lado de outros profissionais importantes, como Gaensly & Lindemann(estabelecido no número 28, entre 1894 e 1908) e Giovanni Sarracino (instalado no número 20, a partir de 1906). Mais tarde, em 1902, Valério estabeleceu-se sem sócios e seu estúdio Photographia Valério tornou-se um dos mais freqüentados pela burguesia ascendente paulistana, incluindo artistas, políticos e intelectuais. Com certeza, sua obra tinha especificidades técnicas e estéticas que estavam à frente de seu tempo e pareciam antecipar o momento de inserção do Brasil na moderna era industrial.

Ousado em suas propostas, marcou sua produção artística com soluções técnicas revolucionárias para sua época, subvertendo todos os parâmetros de visualidade a partir de uma produção singular, desenvolvida nas duas primeiras décadas do século passado. Sua obra mais conhecida, Os Trinta Valérios, produzida em 1900, premiada com a medalha de prata na Louisiana Purchase Exposition, em St. Louis, EUA, em 1904, é, com certeza, o paradigma da modernidade da fotografia brasileira. Através dessa imagem Valério Vieira buscou na fotografia não só um meio que registrava com perfeição o mundo visível, mas uma linguagem capaz de expressar idéias próprias, mostrando que o artista com a câmera pode ser imaginativo e criar obras de complexidade incomum.


Os Trinta Valérios, uma fotomontagem sensacional, traz uma inédita composição de quase trinta auto-retratos articulados num sofisticado painel mostrando uma imaginação desconcertante, desconhecida até então na fotografia brasileira. Divertida e provocativa, a obra é pioneira no gênero em nosso país, e muito à frente de trabalhos similares que espantaram a mundo da fotografia nas décadas seguintes. Um gigantesco auto-retrato construído a partir de poses diferentes em que Valério Vieira desempenha todos os papéis: dos músicos, maître, garçom, platéia, e até mesmo o busto sobre um móvel e os retratos pendurados na parede. Além da originalidade, merece destaque a qualidade do acabamento, resultado de seu profundo conhecimento técnico e domínio absoluto do processo de trabalho.

"Os Trinta Valérios", 1900,
Cartão Postal, edição Azotea.

Ousado em suas propostas, Valério deixou em sua produção artística soluções técnicas inovadoras para sua época. Seu estúdio era um dos mais procurados pela burguesia paulistana esclarecida, justamente porque encontrava em seu trabalho uma forte marca autoral, comparativamente mais expressiva que a de outros profissionais. Uma fotografia na qual predominava mais a idéia de construção e jogo do que uma simples operação de reproduzir o mundo tal qual ele se apresenta. Não sabemos ainda quais foram as influências e os artistas que mais atingiram Valério Vieira, mas com certeza seu amplo leque de relacionamentos, foi fundamental para tornar sua obra, particularmente a