nº 9 - 2 semestre de 2001      


Edson Gardin
18 de setembro de 1950: às 21 horas, Dr. Assis brindava dizendo: "Vamos saudar a inauguração do mais subversivo instrumento de comunicação deste século!"

"Câmera Um", programa feito apenas com uma câmera e "ao vivo", contava histórias de terror e suspense - eram peças de teatro do tipo grande guigno. O nome vem do teatro francês que fazia esse tipo de peça. Para a época, um programa com direção avançada e ousada, pois baseava-se nos filmes de Hitchcock, entre os quais "The rope" (no Brasil, "Festim diabólico"). A inovação apresentada pelo grande cineasta consistia em dirigir o filme inteiro num único plano e, para eliminar os cortes, paredes e móveis do cenário se moviam. Jacy Campos, diretor do "Câmera Um", colheu glórias pela sua audácia para a época.

Tudo (desde o momento de entrar no ar até seu fechamento) era "ao vivo". Lenda ou fato, a atriz Neide Alexandre, como garota propaganda, querendo demostrar a resistência de um prato que o fabricante dizia ser inquebrável, jogou-o no chão!!!!!! Dito e feito!!!! Espatifou-se e nem era possível chamar "nossos comercias, por favor!!!"

A televisão era um espetáculo diário com 12 a 14 horas ininterruptas, trabalhava-se sete dias por semana, com muito improviso, pouca responsabilidade e todos os problemas eram resolvidos com muita criatividade.

" Que a televisão não seja sempre vista como a montra condenada, a fenestra sinistra, mas tomada pelo que ela é de Poesia." - " Santa Clara, Padroeira da Televisão", de Caetano Veloso, no disco Circuladô - 1991.

1960 e a televisão brasileira já estava a todo vapor: chegava o vídeo-tape, as novelas abraçavam uma maior audiência, os seriados americanos chegavam sem parar (quem não se lembra de "Papai sabe tudo"). Também ia ao ar o "Grande Teatro", às segundas-feiras, com um elenco de atores do TBC - Teatro Brasileiro de Comédia, que incluía Sérgio Brito, Ítalo Rossi e Fernanda Montenegro. A TV Tupi de São Paulo, juntamente com a TV Record, apresentavam os melhores programas de entretenimento para um país que vivia a própria ditadura, selvagem, agressiva e intimidadora. Na certa, assistir televisão era para poucos, só em preto e branco e, muitas vezes, na casa do vizinho - o televizinho: aquele mais rico da rua que era invejado por todos, pois ele tinha uma "TELEVISÃO".

Também nessa época surge a Jovem Guarda, apresentada por um rapaz franzino, tímido, que a TV Record transformaria no maior cantor brasileiro de todos os tempos. "Essa garota é papo firme..." e tantos outros sucessos levaram Roberto Carlos a ter uma das maiores audiências das tardes de domingo. Hoje, Rede Globo e SBT brigam com a incapacidade e o besteirol eletrônico para ver quem é o primeiro (pior).

Ninguém da época dos pioneiros imaginaria assistir atentados terroristas ao vivo na caixinha mágica (apelido que ganhou nos últimos tempos), com imagens tão impressionantes que só o cinema, até então, tinha ousado criar.

"A televisão é honesta : a cada 15 minutos ela interrompe os programas para dizer: 'nós estamos aqui para vender extrato de tomate e sabonete.' Não se deve cobrar dela uma função educativa, porque a vocação dela é ser comercial". Sílvio de Abreu

"Almoço com as estrelas", programa de 1966 apresentado por Airton Rodrigues e Lolita Rodrigues, esteve no ar por vários anos pela TV Tupi de São Paulo. Sua receita era simples: os artistas mais famosos da época sempre marcavam sua presença e, com isso, ganhou muitos pontos de audiência. Assim como Hebe Camargo, que em 1963 iniciou uma nova fase deixando a emissora e se dedicando ao casamento com Décio Capuano.

Mas a TV Tupi já experimentava a concorrência e a televisão carioca começava a ganhar espaço também em São Paulo, com artistas de primeira linha. O apresentador Flávio Cavalcanti fazia quadros com Antônio Carlos Jobim (até então um desconhecido maestro em início de carreira): ninguém podia perder a "Noite de Gala".

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