Dois
por dois
Em textos ficcionais, Freud apresenta
dois pontos sobre o estranhamento que chamam sua atenção,
sendo o segundo conseqüência do primeiro: a decepção
com o desfecho da história (Freud fala do livro de Arthur
Schnitzler, A profecia) que, irá revelar os mecanismos
que iludiram o leitor, e argumenta que o efeito poderá
se prolongar na medida em que o autor mantenha o suspense até
o fim e ainda assim não o revele. Ou seja, que o sentido
não seja estabelecido e o texto continue aberto em processo
de ressignificação posterior. No segundo, afirma
que o escritor criativo pode nos levar em seu mundo representativo
nos aproximando do familiar ou nos distanciando, e nós
aceitamos as regras. Certamente antecipando a recepção
do leitor e, quanto mais competente no jogo for o autor, maior
surpresa ele proporcionará, dentro da perspectiva da intersubjetividade.
Com seu peculiar movimento metafórico,
Freud mostra suas expectativas sobre a desmontagem desse processo:
um grupo de senhoras combina dizer que vai colher flores para
poder ir ao banheiro. Daí, uma pessoa "maliciosa"
manda imprimir o seguinte texto no programa que circula pelos
grupos: 'Pede-se às senhoras que desejem retirar-se à
toilette, que anunciem que vão colher flores'. Essa revelação
metalingüística, metáfora do processo analítico,
deverá fazer, de acordo com Freud, "com que as pessoas
sejam honestas, confessem seus desejos, instintos e pulsões
e então procurem lutar ou renunciar ao que desejam"
. No movimento contrário, cabe ao escritor dirigir o leitor
no sentido das flores, para depois, antes que a toilette seja
revelada, criar outra perspectiva que possa desviá-lo daquele
sentido, mantendo o movimento da aposta. No lugar da pessoa "maliciosa"
temos o movimento das artes cuja função metalingüística
se dirige à arte em sua criação. Primeiramente
pela instabilidade da arbitrariedade do signo saussureano, como
mostra Marcel Duchamp em seus roto-reliefs ou na ambigüidade
da identidade sexual de Rrose Sélavy, seu alterego. Mas,
principalmente pelo deslocamento calculado que provoca ao expor
os ready-mades numa época em que a arte ainda podia dourar
sua aura. O jogo de adivinhação não se dirige,
pelo menos diretamente, ao espectador ou crítico em relação
primária com a arte, mas ao espectador crítico na
relação de "saber que sabe" da arte.
Mais tarde, nos anos 80, essa lógica
multiplica a dobra com a pintura "neo-geo" ou "simulacionismo"
que tenta subverter a representação dentro do sentido
que pode se considerar o de Baudrillard, porém sem sua
relação com a realidade: a reduplicação
sígnica. Ross Bleckner, Phillip Taaffe e Peter Schuyff
são os expoentes dessa arte que Hal Foster chama de "cínica"
devido, principalmente, a um deslocamento da postura crítica
à patética em seu movimento de apontar a falha no
processo de simulação - uma simulação
da simulação em si, um "simulacionismo".
Com fervor crítico, Foster diz:"uma redução
paródica da abstração analítica ou
a reciclagem "campy" da abstração "op"
. Esse processo desembocará no "abjeto" na arte
dos anos 90.
Como Duchamp, Godard se dirigiu
à ilusão do cinema como quem anuncia que quando
se diz que se está colhendo flores, se está, na
verdade, indo a toilette. Em Pierrot le fou, não só
o cinema mas também a publicidade são alvos de suas
ironias e, mais ainda, a publicidade no cinema, fascínio
a ser desmascarado pelo cinema da época. Seu metacinema
afasta a câmera e revela que o carro em movimento é
um truque de luzes e sons. Auto-referente, Godard transporta seu
detetive L. Caution de Alphaville, filme que acontece no futuro
ano de 1990, para Alemanha ano nove (o) zero, em 1990. São
pequenas dobras que uma obra pode provocar reciclando-se a si
mesma e buscando o cúmplice conhecedor de sua série
que, por sua vez, se sentirá narcisicamente homenageado
como especial escolhido receptor da obra. Mais recentemente, o
melodrama musical de Lars Von Tries, Dancer in the dark reduplica
os signos da denúncia ao sistema (no caso americano), das
ilusões dos musicais, dos clichês mais desgastados
das imagens em movimento. O espectador, em dúvida diante
de tal instabilidade sígnica, responde antecipadamente
e com a sanção da mídia: o filme sabe que
sabe. Ou, talvez, assuma que tenha sido antecipado em sua aposta.
Como diria Lacan em seu jogo de identificações apresentado
em forma de sofisma: "apresso-me em me afirmar como tal,
para que esses tais, por mim assim considerados, não me
precedam ao se reconhecerem como o que eles são" .
A psicanálise, de forma
mais didática ou mais nebulosa, proporá a excelência
de seu paradigma para ir além da relação
dual: o operador edípico. Muitas questões a respeito
dessa operação podem ser pensadas, como a oscilação
dos sistemas diádicos e triádicos dentro da própria
psicanálise, mas que não cabem nesse ensaio. Considera-se
aqui que o operador edípico passará pelo mecanismo
da transferência para que o terceiro seja extraído
na operação. Esse operador se estende em vários
sistemas triádicos, que de uma forma ou de outra, se correspondem
como "lembrar, repetir, elaborar", "humor, cômico
e chiste", "id, ego e superego", que em outro momento
foram "inconsciente, pré-consciente e consciente",
entre outros.
Quando Lacan apresenta o sofisma,
ele o faz dentro da perspectiva de uma fundação
subjetiva através de momentos lógicos por ele chamados
de "instante de ver, tempo para compreender e momento de
concluir". São também três tempos e três
processos cognitivos em conformação com três
tempos edípicos. Eles incluem também três
intervalos: um anterior, a emergência e os outros alternados
entre os tempos, a hesitação e a urgência.
Se a urgência de concluir responde diretamente à
emergência do primeiro momento, sem passar pela hesitação,
teremos o ato precipitado (como Macbeth). Se, por outro lado,
a hesitação não segue o ritmo dos tempos
e se descola da cadeia congelando a ação, teremos
o intervalo infinito do ser ou não ser, como Hamlet: tobeornotobeornot
... É nessa posição hameletiana que o espectador
se encontra diante da instabilidade sígnica.
Muitas obras se constroem nesse
intervalo, entre o Je e o Moi, como diria Maurice Blanchot e muitas
outras criam um universo particular cujo recurso de inscrição
no simbólico não se dará pelo processo da
captura diádica antecipadora da relação entre
o que se vê do próprio olho e o que vê de si
no olhar do Outro. São processos de criação
e de construção nas incertezas das conexões
em que o universo de similaridades de elementos e fragmentos se
constituirá de forma muito particular. Tais elementos e
fragmentos são apresentados no texto que vai se dirigir
ao espectador, interpretante em vertigem diante de tal quadro.
O próprio Godard é um mestre dessa fragmentação
e disposição de elementos na construção
de seu universo vertiginoso de imagens, jogando com as duas lógicas:
uma que assegura o sujeito capturado dentro da dúvida e
outra que o lança para a vertigem. No segundo caso, o efeito
é de delíquio, de desmaio, e não de solidificação.
Efeito e antecipação:
considera-se, partindo dessas lógicas, que os autores,
antes de controlarem e dominarem seus estilos, são dominados
e lançados por eles e seria seriamente moralizante acreditar
que haveria uma superioridade estética ou intelectual em
cada perspectiva. Ambas se colocam e se reconhecem dentro da produção
artística e cultural, dentro da ordem simbólica.
Mas, a primeira perspectiva, em seu movimento de antecipar certezas,
não partiria do princípio de que há metalinguagem?
De que, por baixo da mentira do simulacionismo há algo?
Uma consciência irônica que aponta que sabe da mentira?
Sabe como se engenha o processo, principalmente em sua cumplicidade
com o que o autentica como obra estética. O princípio
de que há "Outro do Outro", nas palavras de Lacan.
A partir do Romantismo ficou muito
difundida a idéia do sopro criador da estética ligado
ao "engenho", ao "gênio". Então,
seria a engenhosidade, dentro de uma propriedade intelectual,
que construiria o espírito estético. Aliás,
poderia se fazer uma dialogia entre o "engenho" e o
"espírito" tendo um, sua constituição
lógica diádica e outro, triádica. Um vinculado
à aposta, na direção do "já visto"
e o outro, ao sopro criador na direção ainda desconhecido.
Porém, quanto de espírito há no engenho e
quanto de engenho há no espírito? O caráter
oddness, em jogo rítmico com sameness, se aproximaria da
engenhosidade de seu processo, admirável como tal. Se ele
se constrói como efeito da implacável lógica,
mesmo sendo fruto de um orgulho superegóico, que circula
em torno de si, deverá provocar um prazer que é
certamente identificatório, e nem por isso menos estético.
É o que pode haver de belo e de sublime nos movimentos
do jogo intelectual. A faculdade do engenho serviu de contraponto
para aquilo que se costumou denominar o "gosto" , um
juízo de valor a respeito de alguma produção,
e também para a "fantasia" como referência
ao feitiço, ou fetiche na captura do olhar. Dentro da dicotomia
"engenho" e "fantasia" está contida
a dicotomia 'objeto e sujeito'; e 'natureza e espírito'
por extensão, o que certamente faz oscilar para um lado
ou para outro, o peso da superioridade. Longe de pretender verificar
essa hierarquia, é preciso reconhecer os méritos
do virtuosismo no sentido de reconhecer sua potencialidade de
também gerar vertigem.
Nesse jogo em dobras, será
o contexto que dará sanção ao movimento.
A partir do desdobramento do segundo giro, percebe-se o deslocamento
da referência a qual se afixava a primeira dobra. Marcel
Duchamp, com o readymade, chama a atenção retoricamente
para a questão da cópia e do modelo. Mas, Sherrie
Levine, por exemplo - que se inicia com o movimento neo-geo nos
anos 80 - segundo Foster, simula o abstracionismo sem propósito
reflexivo, sem fazer a crítica da representação
como se poderia pensar. Daí, aquilo que se esperaria de
subversivo da simulação é convertido em objetos
de consumo e imagens da sociedade capitalista atual. Objetos de
fetiche com conteúdos retóricos do "bom intencionismo"
campy que propunham a identificação com as produções
de massa. O pingüim da geladeira nos anos 80, resgatado dos
anos 50, vem com a reafirmação: não nos iludamos,
não há aura. Esperava-se com ele duas reações:
a resposta atrasada desprezando o teor da demonstração
kitsch, ou a resposta do atualizado reconhecendo no gesto o saber
do outro. Não tardou o esvaziamento do gesto que provocou
uma crise com maior potencialidade para discutir justamente o
problema da representação entorno da simulação
pela provocação do "abjeto". Cindy Sherman
emprestará então seu corpo para simulações
mais radicais.
Dessa forma, o "simulacionismo"
sugere a degradação sígnica, a queda da representação
pela extensão do distanciamento do suposto original. Mas
não é esse o aspecto de maior importância,
pois, como teria dito Glauber Rocha ao ver o filme Limite de Mário
Peixoto:"a decadência é bela!". O que essa
dobra sugere no seu jogo que anuncia a toilette como toilette,
é que é sabido que não há flores,
ou seja, que há tempo para a metalinguagem. Mistura de
gozo e ingenuidade do sujeito cartesiano. A lição
que se apreendeu de Lacan é que fazer a metalinguagem é
antecipar o parceiro no jogo do par ou ímpar, pois não
há um Outro - ilusoriamente universal - que garante o Outro.
Jane
de Almeida
Psicanalista, doutora em Comunicação e Semiótica
pela PUC/SP
Professora de Teoria da Comunicação 1
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