nº 9 - 2 semestre de 2001      


Máximo Barro

Situação No. 2
KANE É UM TÍPICO PRODUTO AMERICANO


Nenhuma sociedade européia poderia produzir um filme tão totalmente americano. Quantas vezes o cinema europeu abordou a manipulação da imprensa e da política? Nunca!
A censura francesa permitia nus, A Mulher do Padeiro, Le Cocu Magnefic, proxenetismo, droga mas, não havia a menor possibilidade deles tocarem no Presidente da República, generais, clero. Gloria Feita de Sangue, de Stanley Kubric gramou sete anos para ser liberado na França. Com a imprensa européia acontecia o mesmo porque além dela ser menor como meio de comunicação influente, sempre esteve submissa ao dirigismo estatal ou aristocrático. Os europeus podem ter abordado a justiça em maior profundidade, porém, liberdade é apanágio da sociedade americana.
Durante quatro anos a imprensa inglesa ignorou o affair Príncipe de Gales- Wally Simpson, para gozação de toda a imprensa mundial. Todo europeu simpatizava e ainda simpatiza com o poder indagativo da imprensa americana, apesar dos malefícios que o jornalismo marron de Hearst cometia.
Bastante significativo é que em muitos paises da Europa, o titulo original do filme de Orson Welles fosse mudado para O Quarto Poder.
Imprensa e política manipulada sempre acompanharam o cinema americano e, bem antes de Kane, em A Mulher Faz o Homem, de Frank Capra, era o motivo central do conteúdo. Front Page teve quatro versões no cinema americano. No cinema europeu seria anacrônica.

Quantas vezes o cinema europeu tratou de eleições ? No cinema americano a votação é uma constante. Aparece até quando os passageiros da carruagem de, No Tempo das Diligências, de John Ford, decidem se vão em frente, entrando no território dos índios, ou voltam para casa. A liberdade, em 1940, não podia fazer parte do menu europeu porque sua existência era puramente literária, vigorando apenas nas aspirações da bandeira da Revolução Francesa. Em 1940 a Europa estagnara-se em ditaduras civis, militares e, principalmente, monárquicas. Itália, Alemanha, Portugal. Espanha, Rússia, Grécia, Turquia, Romênia, eram ditaduras. As poucas exceções? Suissa, Suécia, Inglaterra e o Front Populaire francês que poucas saudades deixou em matéria de liberdades. Para aferição mais profunda bastaria somar as demografias dos dois lados citados.

O tema central de Kane, o poder absolutista e seus corolários maléficos ou não, é uma constante no cinema americano desde o período mudo. Ele vem travestido, ora como chefe da máfia, ora capitão de empresa, ora dono de banco e mesmo nos diretores tirânicos dos teatros da Broadway, tipo Orson Welles.

E SE OS DEUSES DECIDISSEM QUE KANE SERIA PRODUZIDO NA EUROPA?
Péssima idéia. Crepúsculo do Deuses.

Em 1941 quem iria dirigi-lo, por exemplo, na França, independente do fato de estarem em guerra.
Jean Renoir, Marcel Carné ou René Clair seriam impensáveis. O mais indicado, e nem por isso, o ideal, seria o Julien Duvivier de Golém e A Carroça Fantasma.

Quais os atores que poderiam interpretar Kane, Bernstein ou Leland.
Jean Gabin ou Louis Jouvet balbiciando Rosebud seria ridículo. Longinquamente, Michel Simon, Raimu (Welles o admirava), Pierre Fresnay, Lucien Coedel.


E das mulheres quem poderia interpretar Susan ou Emily.
Annabella, Arletty, Françoise Rosay, Viviane Romance, Madeleine Robinson, Edwiges Feulleie ou Danielle Darrieux? Arriscaríamos apenas uma: Michéle Morgan.

Quem poderia substituir Greg Toland na fotografia.
Armand Thrirard, Henry Alekan, Christian Matras, Claude Renoir, Phelipe Agostini? A todos faltaria gabarito.


Ficamos nos exemplos franceses porque seria perversidade fazer a mesma pergunta em relação ao cinema italiano da época. Não só italiano, mas também sueco e soviético. Possivelmente somente o nazista andaria pelas redondezas se lembrarmos, Noite de Baile.

Apenas como divagação. Jean Renoir, visto por Sadoul como o maior diretor do cinema universal naquela quadra, certamente para uma das esposas de Kane chamaria Nora Gregor e para Bernstein, Marcel Dalio. Não é de todo impensável que ele mesmo se escalasse para Leland.

Que tal o maquiador de La Régle du Jeu, que massacra o rosto de Nora Gregor, maquiando as várias idades de Kane, Susan e Leland.

Contrariamente, no cinema americano muitos poderiam substituir o ator Welles. Spencer Tracy, Henry Fonda, Walter Huston, Claud Rains, Burges Meredith. Edward G. Robinson ou Laird Gregar com enormes vantagens.
Para Lelland, Glen Ford, William Holden.

Para as duas esposas haveria Elem Drew, Margareth Sullavan, Ane Baxter, Katerine Hepburn,Judy Garland, Donna Reed, Betty Field, Rosalind Russel, Mary Astor, Carole Lambard, Joan Leslie e a incomensurável Ida Lupino.

Para a fotografia James Wang Howe, Joseph Rutemberg, Joseph August, John Alton, Joe Mac Donald, John Lawton Jr, Sol Polito, Bert Glenon, Nicolas Mussuraca, Tony Gaudio, Joseph Walker.

É evidente que diretores, interpretes e fotógrafos, cada qual tem seu estilo. Nossa comparação não se refere a fazer igual mas, ter a competência de fazer.

UM POUCO DE GENÉTICA

Exemplo escarrado onde Welles e Mankiewicz se apoiaram para conceber Kane é, O Poder e a Glória, 1934, argumento de Preston Sturges, ex repórter, colega de redação e garrafa de Mankiewicz.

Tom Garner é um personagem ambicioso, de origem humilde que a custa de expedientes, mesmo amorais, torna-se magnata das estradas de ferro. Para isso não hesita em pisar nos amigos, filho e esposa. O filme começa numa cerimônia fúnebre em sua homenagem e, aos poucos, fora da cronologia, como Kane, tomamos contato com sua figura controversa.

Mankiewich e Welles tomaram o mesmo conteúdo e radicalizaram a forma. Os flash back aparecerão em maior número e profundidade. Eles trabalharão sobre nove datas, começando em 1870, quando o menino William Foster Kane tem seu destino debatido pelos pais e o preceptor. Em total desprezo para com a cronologia, transitarão inortodoxicamente por 1898- 1915- 1916- 1917- 1918- 1929- 1932 e, finalmente, 1940, época da filmagem, correspondendo á segunda seqüência do filme, momento da morte rosebádica de Kane.

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