|
Situação
No. 2
KANE É UM TÍPICO PRODUTO AMERICANO
Nenhuma sociedade européia poderia
produzir um filme tão totalmente americano. Quantas vezes
o cinema europeu abordou a manipulação da imprensa
e da política? Nunca!
A censura francesa permitia nus, A Mulher do Padeiro, Le Cocu Magnefic,
proxenetismo, droga mas, não havia a menor possibilidade
deles tocarem no Presidente da República, generais, clero.
Gloria Feita de Sangue, de Stanley Kubric gramou sete anos para
ser liberado na França. Com a imprensa européia acontecia
o mesmo porque além dela ser menor como meio de comunicação
influente, sempre esteve submissa ao dirigismo estatal ou aristocrático.
Os europeus podem ter abordado a justiça em maior profundidade,
porém, liberdade é apanágio da sociedade americana.
Durante quatro anos a imprensa inglesa ignorou o affair Príncipe
de Gales- Wally Simpson, para gozação de toda a imprensa
mundial. Todo europeu simpatizava e ainda simpatiza com o poder
indagativo da imprensa americana, apesar dos malefícios que
o jornalismo marron de Hearst cometia.
Bastante significativo é que em muitos paises da Europa,
o titulo original do filme de Orson Welles fosse mudado para O Quarto
Poder.
Imprensa e política manipulada sempre acompanharam o cinema
americano e, bem antes de Kane, em A Mulher Faz o Homem, de Frank
Capra, era o motivo central do conteúdo. Front Page teve
quatro versões no cinema americano. No cinema europeu seria
anacrônica.
Quantas vezes o cinema europeu tratou de eleições
? No cinema americano a votação é uma constante.
Aparece até quando os passageiros da carruagem de, No Tempo
das Diligências, de John Ford, decidem se vão em frente,
entrando no território dos índios, ou voltam para
casa. A liberdade, em 1940, não podia fazer parte do menu
europeu porque sua existência era puramente literária,
vigorando apenas nas aspirações da bandeira da Revolução
Francesa. Em 1940 a Europa estagnara-se em ditaduras civis, militares
e, principalmente, monárquicas. Itália, Alemanha,
Portugal. Espanha, Rússia, Grécia, Turquia, Romênia,
eram ditaduras. As poucas exceções? Suissa, Suécia,
Inglaterra e o Front Populaire francês que poucas saudades
deixou em matéria de liberdades. Para aferição
mais profunda bastaria somar as demografias dos dois lados citados.
O tema central de Kane, o poder absolutista e
seus corolários maléficos ou não, é
uma constante no cinema americano desde o período mudo. Ele
vem travestido, ora como chefe da máfia, ora capitão
de empresa, ora dono de banco e mesmo nos diretores tirânicos
dos teatros da Broadway, tipo Orson Welles.
E
SE OS DEUSES DECIDISSEM QUE KANE SERIA PRODUZIDO NA EUROPA?
Péssima idéia. Crepúsculo do Deuses.
Em 1941 quem iria dirigi-lo, por exemplo, na
França, independente do fato de estarem em guerra.
Jean Renoir, Marcel Carné ou René Clair seriam impensáveis.
O mais indicado, e nem por isso, o ideal, seria o Julien Duvivier
de Golém e A Carroça Fantasma.
Quais os atores que poderiam interpretar Kane,
Bernstein ou Leland.
Jean Gabin ou Louis Jouvet balbiciando Rosebud seria ridículo.
Longinquamente, Michel Simon, Raimu (Welles o admirava), Pierre
Fresnay, Lucien Coedel.
E das mulheres quem poderia interpretar Susan ou Emily.
Annabella, Arletty, Françoise Rosay, Viviane Romance, Madeleine
Robinson, Edwiges Feulleie ou Danielle Darrieux? Arriscaríamos
apenas uma: Michéle Morgan.
Quem poderia substituir Greg Toland na fotografia.
Armand Thrirard, Henry Alekan, Christian Matras, Claude Renoir,
Phelipe Agostini? A todos faltaria gabarito.
Ficamos nos exemplos franceses porque seria perversidade fazer a
mesma pergunta em relação ao cinema italiano da época.
Não só italiano, mas também sueco e soviético.
Possivelmente somente o nazista andaria pelas redondezas se lembrarmos,
Noite de Baile.
Apenas como divagação. Jean Renoir,
visto por Sadoul como o maior diretor do cinema universal naquela
quadra, certamente para uma das esposas de Kane chamaria Nora Gregor
e para Bernstein, Marcel Dalio. Não é de todo impensável
que ele mesmo se escalasse para Leland.
Que tal o maquiador de La Régle du Jeu,
que massacra o rosto de Nora Gregor, maquiando as várias
idades de Kane, Susan e Leland.
Contrariamente, no cinema americano muitos poderiam
substituir o ator Welles. Spencer Tracy, Henry Fonda, Walter Huston,
Claud Rains, Burges Meredith. Edward G. Robinson ou Laird Gregar
com enormes vantagens.
Para Lelland, Glen Ford, William Holden.
Para as duas esposas haveria Elem Drew, Margareth
Sullavan, Ane Baxter, Katerine Hepburn,Judy Garland, Donna Reed,
Betty Field, Rosalind Russel, Mary Astor, Carole Lambard, Joan Leslie
e a incomensurável Ida Lupino.
Para a fotografia James Wang Howe, Joseph Rutemberg,
Joseph August, John Alton, Joe Mac Donald, John Lawton Jr, Sol Polito,
Bert Glenon, Nicolas Mussuraca, Tony Gaudio, Joseph Walker.
É evidente que diretores, interpretes
e fotógrafos, cada qual tem seu estilo. Nossa comparação
não se refere a fazer igual mas, ter a competência
de fazer.
UM
POUCO DE GENÉTICA
Exemplo escarrado onde Welles e Mankiewicz se
apoiaram para conceber Kane é, O Poder e a Glória,
1934, argumento de Preston Sturges, ex repórter, colega de
redação e garrafa de Mankiewicz.
Tom Garner é um personagem ambicioso,
de origem humilde que a custa de expedientes, mesmo amorais, torna-se
magnata das estradas de ferro. Para isso não hesita em pisar
nos amigos, filho e esposa. O filme começa numa cerimônia
fúnebre em sua homenagem e, aos poucos, fora da cronologia,
como Kane, tomamos contato com sua figura controversa.
Mankiewich e Welles tomaram o mesmo conteúdo
e radicalizaram a forma. Os flash back aparecerão em maior
número e profundidade. Eles trabalharão sobre nove
datas, começando em 1870, quando o menino William Foster
Kane tem seu destino debatido pelos pais e o preceptor. Em total
desprezo para com a cronologia, transitarão inortodoxicamente
por 1898- 1915- 1916- 1917- 1918- 1929- 1932 e, finalmente, 1940,
época da filmagem, correspondendo á segunda seqüência
do filme, momento da morte rosebádica de Kane.
< página anterior
próxima página
>
|