nº 9 - 2 semestre de 2001      


Máximo Barro

Numa enquête realizada em 1950, na Europa, entre críticos e historiadores de cinema de todo o mundo, pedia-se qual os dez maiores filmes de daqueles primeiros 50 anos de existência.
O resultado, como tudo provindo de enquetes, foi bastante controvertido, para não dizer, confessavelmente político.
As únicas menções de filmes americanos eram devidas a Charlie Chaplin que, logicamente, portavam um caráter confrontatório para com as perseguições macartistas.
No mais, tínhamos O Encouraçado Potenkim, em primeiro lugar, seguido, entre outros de A Grande Ilusão, Roma- Cidade Aberta e, até, incrivelmente, Breve Encontro, de David Lean.

Griffith nem mesmo em décimo lugar aparecia. Nascimento de Uma Nação e Intolerância eram rasamente ignorados, pouco adiantando cogitar se se devida à procedência americana ou desconhecimento dos clássicos. Nem mesmo o rebelde Stroheim foi lembrado.

Dez anos depois, quiçá os mesmos homens votando novamente, tornaram a preterir obras lapidares, que ainda hoje influenciam mas, felizmente, Breve Encontro fora banido para sempre. Eisenstein continuou ao lado de Renoir, Rosselini, De Sicca e outros, enquanto Chaplin diminuirá para apenas um título.

Não esqueçamos que a época propiciava maniqueísmo flagrante. Pio XII e Stalin. Comunismo e capitalismo. América e Europa.

Na década setenta o neo-realismo fora esquecido e Cidadão Kane era lembrado nos últimos lugares. Em 80 sua posição melhorava e logo após já vinha em primeiro lugar posto que voltou a ocupar em 2000, quando fizeram a amostragem referente aos dez que maiores influências deixaram no século XX.

O que poderia ter contribuído para esta reavaliação? Uma nova geração de votantes? Fim do muro de Berlim? Globalismo? É útil não esquecermos que desde 1990, surgiram títulos de obras que amargavam o Índex Prohibitorum dos mais desmoralizantes como o até ali repudiado musical americano, taxado como autêntico ópio do povo. O gênero esteve e ainda está representado por Cantando na Chuva, possivelmente porque os votantes desconheciam crassamente, Yolanda e o Ladrão ou Ziegfield Follies. Quem sabe, em 2010 tenhamos O Americano em Paris, como o maior filme de todos os tempos, ao lado do total esquecimento de Potenkin. Coisas da transitoriedade e dos interesses nada confessáveis dos donos do ideário cinematográfico mundial.

Muita razão tinha o diretor brasileiro quando proclamou: a pornô chanchada de hoje, será o clássico de amanhã.

Que espécie de conceito deve ter levado aquele punhado de homens a votarem em Kane como a obra cinematográfica mais importante de todos os tempos se, nem mesmo dentro da filmografia de Wells é a melhor?
A exibição de pirotecnia?
Vingança contra o que significava Hearsts ?
Ato contestatório aos produtores, por ser o único filme de Welles que não foi mutilado? Nesse caso esqueceram, Stroheim, Vigo, Griffith, Stiller, .....

Como Kane é antes de tudo um filme ambíguo, bifronte, multi facetário, até mesmo inconcluso (o personagem questionado falece na segunda seqüência), ainda hoje está aberto a outros exegetas para que compareçam com mais interpretações honestas, ( as desonestas ganham na proporção de 1X10) pois as indefinições de Kane ainda podem oferecer respostas divergentes e nem por isso, incorretas.

Fugindo ao ramerrão das perguntas de praxe que fazem sobre Kane, poderíamos, inclusive para fustigar, indagar no puro estilo da página 2 da Folha de São Paulo: QUAL A NACIONALIDADE DO FILME CIDADÃO KANE ?

                 

Situação No. 1
KANE É INDISCUTIVELMENTE UM FILME EUROPEU

O cinema americano sempre fez taboa rasa da intelectualização. Seus argumento são rasteiros, primários, endereçados a um público de mentalidade juvenil, de poucos predicados educacionais e indagativos.
Jamais o cinema americano havia tocado em tema tão candente, mexendo em baús indevassáveis, tabus intocáveis.
Nenhum trabalho de Ford, Willer, Capra, Wellman ou Hawkes, daquele momento, pode competir conteudisticamente com Renoir, Eisenstein, Pabst, Murnau ou Dreiher.

A vanguarda nunca esteve nas cogitações da política de estúdio. Filmes desse gênero são privativos de culturas mais refinadas. O fato de Orson Welles ter nascido no Winconsin, de pais americanos é insignificante porque sua formação artística foi concretizada no breve tempo que habitou a Europa. Seu estilo é marcadamente europeizante, para não falar francamente germânico. Há tomadas inteiras chupadas do expressionismo alemão da fase muda. É um trabalho reconhecidamente elogiado por todos os europeus, recebendo sempre melhores receitas na Europa do que na América, provando, inclusive, que até entre as camadas populares é melhor assimilado na Europa.

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