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Numa enquête realizada em 1950, na
Europa, entre críticos e historiadores de cinema de todo
o mundo, pedia-se qual os dez maiores filmes de daqueles primeiros
50 anos de existência.
O resultado, como tudo provindo de enquetes, foi bastante controvertido,
para não dizer, confessavelmente político.
As únicas menções de filmes americanos eram
devidas a Charlie Chaplin que, logicamente, portavam um caráter
confrontatório para com as perseguições macartistas.
No mais, tínhamos O Encouraçado Potenkim, em primeiro
lugar, seguido, entre outros de A Grande Ilusão, Roma- Cidade
Aberta e, até, incrivelmente, Breve Encontro, de David Lean.
Griffith nem mesmo em décimo lugar aparecia.
Nascimento de Uma Nação e Intolerância eram
rasamente ignorados, pouco adiantando cogitar se se devida à
procedência americana ou desconhecimento dos clássicos.
Nem mesmo o rebelde Stroheim foi lembrado.
Dez anos depois, quiçá os mesmos
homens votando novamente, tornaram a preterir obras lapidares, que
ainda hoje influenciam mas, felizmente, Breve Encontro fora banido
para sempre. Eisenstein continuou ao lado de Renoir, Rosselini,
De Sicca e outros, enquanto Chaplin diminuirá para apenas
um título.
Não esqueçamos que a época
propiciava maniqueísmo flagrante. Pio XII e Stalin. Comunismo
e capitalismo. América e Europa.
Na década setenta o neo-realismo fora
esquecido e Cidadão Kane era lembrado nos últimos
lugares. Em 80 sua posição melhorava e logo após
já vinha em primeiro lugar posto que voltou a ocupar em 2000,
quando fizeram a amostragem referente aos dez que maiores influências
deixaram no século XX.
O que poderia ter contribuído para esta
reavaliação? Uma nova geração de votantes?
Fim do muro de Berlim? Globalismo? É útil não
esquecermos que desde 1990, surgiram títulos de obras que
amargavam o Índex Prohibitorum dos mais desmoralizantes como
o até ali repudiado musical americano, taxado como autêntico
ópio do povo. O gênero esteve e ainda está representado
por Cantando na Chuva, possivelmente porque os votantes desconheciam
crassamente, Yolanda e o Ladrão ou Ziegfield Follies. Quem
sabe, em 2010 tenhamos O Americano em Paris, como o maior filme
de todos os tempos, ao lado do total esquecimento de Potenkin. Coisas
da transitoriedade e dos interesses nada confessáveis dos
donos do ideário cinematográfico mundial.
Muita razão tinha o diretor brasileiro
quando proclamou: a pornô chanchada de hoje, será o
clássico de amanhã.
Que espécie de conceito deve ter levado
aquele punhado de homens a votarem em Kane como a obra cinematográfica
mais importante de todos os tempos se, nem mesmo dentro da filmografia
de Wells é a melhor?
A exibição de pirotecnia?
Vingança contra o que significava Hearsts ?
Ato contestatório aos produtores, por ser o único
filme de Welles que não foi mutilado? Nesse caso esqueceram,
Stroheim, Vigo, Griffith, Stiller, .....
Como Kane é antes de tudo um filme ambíguo,
bifronte, multi facetário, até mesmo inconcluso (o
personagem questionado falece na segunda seqüência),
ainda hoje está aberto a outros exegetas para que compareçam
com mais interpretações honestas, ( as desonestas
ganham na proporção de 1X10) pois as indefinições
de Kane ainda podem oferecer respostas divergentes e nem por isso,
incorretas.
Fugindo ao ramerrão das perguntas de praxe
que fazem sobre Kane, poderíamos, inclusive para fustigar,
indagar no puro estilo da página 2 da Folha de São
Paulo: QUAL A NACIONALIDADE DO FILME CIDADÃO KANE ?

Situação No. 1
KANE
É INDISCUTIVELMENTE UM FILME EUROPEU
O cinema americano sempre fez taboa rasa da intelectualização.
Seus argumento são rasteiros, primários, endereçados
a um público de mentalidade juvenil, de poucos predicados
educacionais e indagativos.
Jamais o cinema americano havia tocado em tema tão candente,
mexendo em baús indevassáveis, tabus intocáveis.
Nenhum trabalho de Ford, Willer, Capra, Wellman ou Hawkes, daquele
momento, pode competir conteudisticamente com Renoir, Eisenstein,
Pabst, Murnau ou Dreiher.
A vanguarda nunca esteve nas cogitações
da política de estúdio. Filmes desse gênero
são privativos de culturas mais refinadas. O fato de Orson
Welles ter nascido no Winconsin, de pais americanos é insignificante
porque sua formação artística foi concretizada
no breve tempo que habitou a Europa. Seu estilo é marcadamente
europeizante, para não falar francamente germânico.
Há tomadas inteiras chupadas do expressionismo alemão
da fase muda. É um trabalho reconhecidamente elogiado por
todos os europeus, recebendo sempre melhores receitas na Europa
do que na América, provando, inclusive, que até entre
as camadas populares é melhor assimilado na Europa.
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