nº 9 - 2 semestre de 2001      


Irineu Guerrini Jr.

 

1ª seqüência - Abertura - 0'00 a 2'42

A primeira cena do filme, antes mesmo dos créditos iniciais, é a de Hal chegando à cidade de carona num trem de carga. Não há música: apenas o ruído do trem ao qual logo se sobrepõe o diálogo entre Hal e o empregado da ferrovia. Este diz a Hal que chegaram aonde ele queria descer, e pergunta o que veio fazer lá. Hal explica que tem um amigo muito rico na cidade. O empregado duvida que alguém aparentemente tão pobre possa ter um amigo tão rico e, ironicamente, diz que ele também teve um empurrãozinho do próprio governador, e acabou arrumando aquele emprego (muito modesto) na ferrovia... Hal irrita-se com essa reação e fecha bruscamente a porta do vagão: juntamente com esse ruído da porta é que têm início a música e, logo depois, os créditos do filme.
O primeiro aspecto a se notar é o fato de o filme começar sem música e sem os créditos, algo que não era muito comum na Hollywood dos anos 50. A primeira cena já inicia a narrativa. Ao mesmo tempo, quando a música tem início, o que se ouve não é uma música típica de abertura. Como a ação começa antes da música, esta não se encaixa muito bem na função, tão comum, de arauto do filme. Não é tampouco o Main Theme (ou Tema Principal, que será analisado mais abaixo), nem apresenta o material temático musical que será usado no decorrer do filme,
( procedimento comum nas trilhas sonoras, herdado das aberturas de óperas). Na verdade, é o tema de Hal que acompanha essas imagens centradas nesse personagem, embora o filme não possa ser reduzido à "história de Hal".
Esse tema, em tom menor, tem um componente que, em outras versões , vai ser importante em muitas passagens: na sua introdução, logo após três acordes iniciais, ouve-se uma seqüência de terças descendentes, formada por estas notas:

Ora, em numerosas passagens do filme, e especialmente no Moonglow and Love Theme (que é, este sim, o Main Theme) vamos notar uma seqüência de terças ascendentes. Sabemos que Hal é o personagem que vai subverter a
ordem, criar o conflito. Metaforicamente, pode-se dizer que o seu leitmotiv (5) que inclui essas terças descendentes, da mesma forma "desmonta" o tema principal, com as suas terças ascendentes.
Essas seqüências de terças ascendentes, que fazem parte do Love Theme (que é também o Main Theme) vão aparecer em muitas partes do filme, em tons e figurações rítmicas variadas. As duas primeiras delas surgem rapidamente, logo em seguida à abertura, quando Hal se aproxima da casa de Madge, como que prenunciando o encontro, que se dá logo em seguida.

2ª seqüência - Hal encontra Madge - 10'42 a 12'53

Hal está limpando o quintal da casa vizinha quando a dona da casa o apresenta a Madge. Ouve-se pela primeira vez o Love Theme, cujas primeiras notas da melodia são uma seqüência de terças ascendentes:


Ouve-se também, entre outros, o tema de Hal, quando este pergunta a Flo se esta é a mãe das meninas.

3ª seqüência - O desfile de Madge, rainha de Neewhollah - 57'38 a 59'50
Neewollah é Halloween ao contrário. Se Halloween é um ritual invernal, Neewollah é estival. Todos os anos, durante o piquenique do Dia do Trabalho, comemorado ainda no verão, a cidade elege a rainha de Neewollah. Desta vez, a coroa cabe a Madge. E a rainha tem de desfilar para os seus súditos. Madge assoma num barco ao longe no rio, e um coro, diegético, faz uma reverência musical a ela, entoando Neewollah. É uma cena que, sonora e visualmente, lembra muito os coros de ópera, e que tem como primeira referência o teatro grego. Como lembra Ney Carrasco em Trilha musical: música e articulação fílmica,
Em seu aspecto épico, de interferência do narrador, a canção musical de cinema se assemelha ao coro da tragédia grega clássica....ela possui o caráter de impessoalidade que caracteriza a interferência do narrador. No caso da tragédia grega, essa impessoalidade também pode ser encontrada no coro, e o recurso cênico usado para obter-se esse efeito é o da somatória das vozes. . Muitas pessoas dizendo um mesmo texto simultaneamente tornam esse texto impessoal, como o comentário de uma consciência que está acima dos fatos narrados: a consciência do narrador. (6)

Ora, nesta cena, embora o coro seja diegético, os seus componentes não são identificados, nem se vê nenhum rosto em primeiro plano: são, em princípio, todos os participantes do piquenique. Assim, parece ficar garantido o caráter épico (de interferência do narrador) da música desta cena. Depois de Neewollah, o coro canta Ain't she sweet? canção que já pela pergunta que encerra no seu título (Ela não é graciosa?) também exerce a função de comentário épico. Fazendo uma espécie de contraponto, ouvimos a professora Rosemary dizer, com despeito: "Quando eu era jovem era tão bonita quanto ela."

4ª seqüência - Hal e Madge dançam - 62'36 a 66'22

O baile, à noite, é a última parte do piquenique. Um tablado à beira-rio. Algumas lanternas japonesas refletidas na água formam um belíssimo cenário. Hal, ao som de uma música, tenta ensinar a Millie, a irmã de Madge, um passo que aprendeu em Los Angeles. Ele diz que primeiro eles tem que acertar o ritmo, e começa a bater palmas nos tempos fracos do compasso. Millie, a intelectual desajeitada, não consegue acompanhá-lo. Madge se aproxima e mostra que ela pode acompanhar Hal. Eles iniciam uma dança mas, na verdade, dançam com um mínimo de movimentos e de maneira sensual. Não trocam uma palavra. O que importa é a sua aproximação física e os seus olhares. As cores vivas das lanternas refletem-se nos seus rostos. A paixão que os atrai está definitivamente manifesta.
A música, pelo menos numa primeira parte desta dança, é supostamente diegética. Afinal, estamos presenciando uma cena de baile com música ao vivo. Um quarteto formado por piano, baixo, bateria e guitarra (que não vemos) executa um velho sucesso: Moonglow, de Hudson, De Lange e Mills, lançado em 1934. Ou melhor, a melodia de Moonglow nunca é exposta tal como é: desde o início, o que ouvimos são pequenas variações e/ou fragmentos da melodia, na primeira e na segunda parte. Isto devia ser bastante original para uma trilha musical de um filme feito em Hollywood em 1955. Além do que, a elegância dessa concepção musical combina com a sutileza sem palavras e a sensualidade discreta passadas pela imagem. Mas há mais informação musical chegando: ela atinge o seu auge pouco depois, quando, sobre a harmonia e as variações/fragmentos de Moonglow tocados pelo quarteto, ouvimos o Love Theme executado pelas cordas de tal maneira que, ritmica e harmonicamente, torna-se possível essa audição simultânea, e com as já conhecidas terças ascendentes como notas iniciais, aqui no tom de fá maior:

A partir deste momento, a música, que até aqui poderia ser diegética, torna-se francamente extradiegética (onde estão as cordas?) e épica (aqui também no sentido de interferência do narrador). Se até este ponto ouvia-se um vozerio ao fundo, ele cessa quando entra o Love theme, dando lugar a um clima onírico, apenas momentanemanete quebrado por um comentário da vizinha de Flo - "Eles não são graciosos? Você dançava assim, Flo" - que de certo modo leva a ação para um nível mais realista.

5ª seqüência - Final

Madge parte ao encontro de Hal - 1h49'45 a 1h51'43
Esse mesmo Love Theme será ouvido no final, alternando-se com o tema de Hal, agora em tom maior, quando, numa vista aérea, vemos o ônibus em que está Madge ir ao encontro do trem que leva Hal.

4. Conclusão

Afirmei que a música de Picnic é basicamente romântica, sinfônica, e
faz uso de mickeymousing, na melhor tradição de Hollywood. Ao mesmo tempo,
na cena de dança de Hal e Madge, a música, que começa (supostamente)como diegética e termina como extradiegética, já contém elementos da música popular e do jazz, algo que começava a despontar na música extradiegética dos filmes dos anos 50 e só se tornaria comum nos anos 60. A sutileza representada pela não-exposição integral do tema de Moonglow, e o grau de elaboração presente na sobreposição do Love Theme, que se ouve juntamente com as variações/fragmentos daquele standard também devem ser destacados .Essa música, que no decorrer da apresentação torna-se extradiegética, aproximando-se dos números de filmes musicais, é dançada de um modo que se distancia desse gênero de filmes: o brilho coreográfico próprio dos musicais (à maneira de um Gene Kelly ou de uma Cid Charisse) cede lugar à sensualidade. (Conta-se que nem William Holden nem Kim Novak sabiam dançar, e que por isso essa cena saiu desse modo, mas afinal o que importa são os resultados).
Outro aspecto a ser destacado são as seqüências de terças ascendentes (principalmente) mas também descendentes, trabalhadas em diferentes tons, alturas, timbres e configurações rítmicas, que são uma marca da música do filme.
Paralelamente, a história ainda está fincada na tradição romântica e melodramática, mas o roteiro já conta com alguns aspectos mais realistas e sobretudo apresenta, ou sugere, a sexualidade, reprimida ou não, de alguns personagens de maneira inimaginável na década anterior - algo que iria explodir nos filmes feitos a partir dos anos 60.
Assim, creio poder afirmar que Picnic é um filme que faz uma ponte entre o tradicional e o "moderno" (significando aqui as mudanças culturais que ocorreram a partir dos anos 60), e a sua música, pelo menos na cena mais celebrada, a da dança de Hal e Madge, também significa uma mudança em relação ao padrão das décadas anteriores.

Irineu Guerrini Jr.
Professor do Departamento de Radio e Televisão da FACOM/FAAP
Doutorado em Comunicação e Estética do Audiovisual pela ECA-USP

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