1ª
seqüência - Abertura - 0'00 a 2'42
A primeira cena do filme, antes mesmo dos créditos iniciais,
é a de Hal chegando à cidade de carona num trem
de carga. Não há música: apenas o ruído
do trem ao qual logo se sobrepõe o diálogo entre
Hal e o empregado da ferrovia. Este diz a Hal que chegaram aonde
ele queria descer, e pergunta o que veio fazer lá. Hal
explica que tem um amigo muito rico na cidade. O empregado duvida
que alguém aparentemente tão pobre possa ter um
amigo tão rico e, ironicamente, diz que ele também
teve um empurrãozinho do próprio governador, e acabou
arrumando aquele emprego (muito modesto) na ferrovia... Hal irrita-se
com essa reação e fecha bruscamente a porta do vagão:
juntamente com esse ruído da porta é que têm
início a música e, logo depois, os créditos
do filme.
O primeiro aspecto a se notar é o fato de o filme começar
sem música e sem os créditos, algo que não
era muito comum na Hollywood dos anos 50. A primeira cena já
inicia a narrativa. Ao mesmo tempo, quando a música tem
início, o que se ouve não é uma música
típica de abertura. Como a ação começa
antes da música, esta não se encaixa muito bem na
função, tão comum, de arauto do filme. Não
é tampouco o Main Theme (ou Tema Principal, que será
analisado mais abaixo), nem apresenta o material temático
musical que será usado no decorrer do filme,
( procedimento comum nas trilhas sonoras, herdado das aberturas
de óperas). Na verdade, é o tema de Hal que acompanha
essas imagens centradas nesse personagem, embora o filme não
possa ser reduzido à "história de Hal".
Esse tema, em tom menor, tem um componente que, em outras versões
, vai ser importante em muitas passagens: na sua introdução,
logo após três acordes iniciais, ouve-se uma seqüência
de terças descendentes, formada por estas notas:

Ora, em numerosas passagens do
filme, e especialmente no Moonglow and Love Theme (que é,
este sim, o Main Theme) vamos notar uma seqüência de
terças ascendentes. Sabemos que Hal é o personagem
que vai subverter a
ordem, criar o conflito. Metaforicamente, pode-se dizer que o
seu leitmotiv (5) que inclui essas terças descendentes,
da mesma forma "desmonta" o tema principal, com as suas
terças ascendentes.
Essas seqüências de terças ascendentes, que
fazem parte do Love Theme (que é também o Main Theme)
vão aparecer em muitas partes do filme, em tons e figurações
rítmicas variadas. As duas primeiras delas surgem rapidamente,
logo em seguida à abertura, quando Hal se aproxima da casa
de Madge, como que prenunciando o encontro, que se dá logo
em seguida.
2ª
seqüência - Hal encontra Madge - 10'42 a 12'53
Hal está limpando o quintal da casa vizinha quando a dona
da casa o apresenta a Madge. Ouve-se pela primeira vez o Love
Theme, cujas primeiras notas da melodia são uma seqüência
de terças ascendentes:

Ouve-se também, entre outros, o tema de Hal, quando este
pergunta a Flo se esta é a mãe das meninas.
3ª seqüência -
O desfile de Madge, rainha de Neewhollah - 57'38 a 59'50
Neewollah é Halloween ao contrário. Se Halloween
é um ritual invernal, Neewollah é estival. Todos
os anos, durante o piquenique do Dia do Trabalho, comemorado ainda
no verão, a cidade elege a rainha de Neewollah. Desta vez,
a coroa cabe a Madge. E a rainha tem de desfilar para os seus
súditos. Madge assoma num barco ao longe no rio, e um coro,
diegético, faz uma reverência musical a ela, entoando
Neewollah. É uma cena que, sonora e visualmente, lembra
muito os coros de ópera, e que tem como primeira referência
o teatro grego. Como lembra Ney Carrasco em Trilha musical: música
e articulação fílmica,
Em seu aspecto épico, de interferência do narrador,
a canção musical de cinema se assemelha ao coro
da tragédia grega clássica....ela possui o caráter
de impessoalidade que caracteriza a interferência do narrador.
No caso da tragédia grega, essa impessoalidade também
pode ser encontrada no coro, e o recurso cênico usado para
obter-se esse efeito é o da somatória das vozes.
. Muitas pessoas dizendo um mesmo texto simultaneamente tornam
esse texto impessoal, como o comentário de uma consciência
que está acima dos fatos narrados: a consciência
do narrador. (6)
Ora, nesta cena, embora o coro seja diegético, os seus
componentes não são identificados, nem se vê
nenhum rosto em primeiro plano: são, em princípio,
todos os participantes do piquenique. Assim, parece ficar garantido
o caráter épico (de interferência do narrador)
da música desta cena. Depois de Neewollah, o coro canta
Ain't she sweet? canção que já pela pergunta
que encerra no seu título (Ela não é graciosa?)
também exerce a função de comentário
épico. Fazendo uma espécie de contraponto, ouvimos
a professora Rosemary dizer, com despeito: "Quando eu era
jovem era tão bonita quanto ela."
4ª
seqüência - Hal e Madge dançam - 62'36 a
66'22
O baile, à noite, é a última parte do piquenique.
Um tablado à beira-rio. Algumas lanternas japonesas refletidas
na água formam um belíssimo cenário. Hal,
ao som de uma música, tenta ensinar a Millie, a irmã
de Madge, um passo que aprendeu em Los Angeles. Ele diz que primeiro
eles tem que acertar o ritmo, e começa a bater palmas nos
tempos fracos do compasso. Millie, a intelectual desajeitada,
não consegue acompanhá-lo. Madge se aproxima e mostra
que ela pode acompanhar Hal. Eles iniciam uma dança mas,
na verdade, dançam com um mínimo de movimentos e
de maneira sensual. Não trocam uma palavra. O que importa
é a sua aproximação física e os seus
olhares. As cores vivas das lanternas refletem-se nos seus rostos.
A paixão que os atrai está definitivamente manifesta.
A música, pelo menos numa primeira parte desta dança,
é supostamente diegética. Afinal, estamos presenciando
uma cena de baile com música ao vivo. Um quarteto formado
por piano, baixo, bateria e guitarra (que não vemos) executa
um velho sucesso: Moonglow, de Hudson, De Lange e Mills, lançado
em 1934. Ou melhor, a melodia de Moonglow nunca é exposta
tal como é: desde o início, o que ouvimos são
pequenas variações e/ou fragmentos da melodia, na
primeira e na segunda parte. Isto devia ser bastante original
para uma trilha musical de um filme feito em Hollywood em 1955.
Além do que, a elegância dessa concepção
musical combina com a sutileza sem palavras e a sensualidade discreta
passadas pela imagem. Mas há mais informação
musical chegando: ela atinge o seu auge pouco depois, quando,
sobre a harmonia e as variações/fragmentos de Moonglow
tocados pelo quarteto, ouvimos o Love Theme executado pelas cordas
de tal maneira que, ritmica e harmonicamente, torna-se possível
essa audição simultânea, e com as já
conhecidas terças ascendentes como notas iniciais, aqui
no tom de fá maior:

A partir deste momento, a música,
que até aqui poderia ser diegética, torna-se francamente
extradiegética (onde estão as cordas?) e épica
(aqui também no sentido de interferência do narrador).
Se até este ponto ouvia-se um vozerio ao fundo, ele cessa
quando entra o Love theme, dando lugar a um clima onírico,
apenas momentanemanete quebrado por um comentário da vizinha
de Flo - "Eles não são graciosos? Você
dançava assim, Flo" - que de certo modo leva a ação
para um nível mais realista.
5ª
seqüência - Final
Madge parte ao encontro de Hal - 1h49'45 a 1h51'43
Esse mesmo Love Theme será ouvido no final, alternando-se
com o tema de Hal, agora em tom maior, quando, numa vista aérea,
vemos o ônibus em que está Madge ir ao encontro do
trem que leva Hal.
4.
Conclusão
Afirmei que a música de Picnic é basicamente romântica,
sinfônica, e
faz uso de mickeymousing, na melhor tradição de
Hollywood. Ao mesmo tempo,
na cena de dança de Hal e Madge, a música, que começa
(supostamente)como diegética e termina como extradiegética,
já contém elementos da música popular e do
jazz, algo que começava a despontar na música extradiegética
dos filmes dos anos 50 e só se tornaria comum nos anos
60. A sutileza representada pela não-exposição
integral do tema de Moonglow, e o grau de elaboração
presente na sobreposição do Love Theme, que se ouve
juntamente com as variações/fragmentos daquele standard
também devem ser destacados .Essa música, que no
decorrer da apresentação torna-se extradiegética,
aproximando-se dos números de filmes musicais, é
dançada de um modo que se distancia desse gênero
de filmes: o brilho coreográfico próprio dos musicais
(à maneira de um Gene Kelly ou de uma Cid Charisse) cede
lugar à sensualidade. (Conta-se que nem William Holden
nem Kim Novak sabiam dançar, e que por isso essa cena saiu
desse modo, mas afinal o que importa são os resultados).
Outro aspecto a ser destacado são as seqüências
de terças ascendentes (principalmente) mas também
descendentes, trabalhadas em diferentes tons, alturas, timbres
e configurações rítmicas, que são
uma marca da música do filme.
Paralelamente, a história ainda está fincada na
tradição romântica e melodramática,
mas o roteiro já conta com alguns aspectos mais realistas
e sobretudo apresenta, ou sugere, a sexualidade, reprimida ou
não, de alguns personagens de maneira inimaginável
na década anterior - algo que iria explodir nos filmes
feitos a partir dos anos 60.
Assim, creio poder afirmar que Picnic é um filme que faz
uma ponte entre o tradicional e o "moderno" (significando
aqui as mudanças culturais que ocorreram a partir dos anos
60), e a sua música, pelo menos na cena mais celebrada,
a da dança de Hal e Madge, também significa uma
mudança em relação ao padrão das décadas
anteriores.
Irineu
Guerrini Jr.
Professor do Departamento de Radio e Televisão da FACOM/FAAP
Doutorado em Comunicação e Estética do Audiovisual
pela ECA-USP
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