1.
Introdução - Os primeiros contatos
Lembro-me de que o primeiro contato
que tive com Picnic (Férias de Amor) (1) foi através
da sua música. Não havia visto o filme - que é
de 1955 - no seu lançamento, mas recordo-me que lá
pelo final dos anos 50 o famoso "Moonglow and Love Theme"
já era tocado com certa freqüência por algumas
emissoras de rádio de São Paulo, refletindo o êxito
que essa música tivera nos Estados Unidos. Em 1960, o filme
foi reprisado num cinema de bairro e fui vê-lo num domingo.
O roteiro, o trabalho de alguns atores, a belíssima fotografia
em tela larga e, acima de tudo, o clima onírico da sua
seqüência mais conhecida - a dança de Hal e
Madge - só fizeram aumentar o meu fascínio, que
havia começado com a audição pelo rádio
de um pequeno segmento da sua trilha musical. No dia seguinte,
como estava em férias escolares, pude empreender uma maratona
de um dia inteiro por lojas de discos, até achar, no fim
da tarde, um 78 rotações com dois dos temas principais
de Picnic., que com o tempo foi devidamente gasto numa velha vitrola.
Daquela época até hoje, pude revê-lo algumas
vezes no cinema e incontáveis vezes em vídeo. Se
nos primeiros contatos o que valeu para que eu percebesse estar
diante de uma obra singular foi acima de tudo a intuição
( embora no meu tempo de adolescente eu não desse conta
de todas as mensagens que o filme passava), em épocas mais
recentes uma maior experiência de vida e algum conhecimento
de música e cinema têm-me ajudado a entender melhor
por que esse filme me encantava, e ainda me encanta, assim como
a toda uma geração.
2.
Sinopse
Nos anos 50, em Halstead, uma pequena cidade dos Estados Unidos,
todo mundo parece feliz e tranqüilo. Todos estão tomando
parte do piquenique do Dia do Trabalho, lá comemorado em
setembro. Mas essa tranqüilidade é apenas superficial.
Preconceitos e repressões policiam a mente dos seus habitantes.
As frustrações dominam a sua vida, especialmente
a das mulheres.
Quem faz esses fantasmas aflorarem e estabelece o conflito é
Hal Carter (William Holden), um drifter - alguém que não
pára em nenhum emprego e em nenhum lugar. Ele chega a Halstead
de carona num trem de carga, e está a procura de seu ex-colega
de faculdade Alan Benson (Cliff Robertson), que é filho
do homem mais rico da cidade e talvez lhe arrume um emprego. Alan
namora Madge Owens (Kim Novak), tida como a garota mais bonita
do lugar, e vê nela apenas um troféu a ser exibido.
O pai de Alan é contra esse namoro, por Madge ser de família
pobre. Madge trabalha numa loja de quinquilharias, e tem uma irmã
mais nova, Millie (Susan Strasberg), a intelectual da família
que despreza os seus dotes femininos. Flo (Betty Field) a mãe
das garotas, almeja um bom casamento para Madge e talvez a universidade
para Millie. O marido de Flo abandonou-a há muito tempo,
e para complementar o orçamento doméstico, ela aluga
um quarto da casa para uma professora solteirona, Rosemary (Rosalind
Russel), que tem Howard (Arthur O'Connel) como um namorado pouco
empenhado nessa relação.
Hal conhece Madge acidentalmente, enquanto limpava o terreno da
casa vizinha para ganhar uns trocados. Eles logo se sentem mutuamente
atraídos. Ele também desperta o interesse de Millie,
a irmã de Madge, e de Rosemary, a professora solteirona.
Hal encontra Alan, que lhe mostra os enormes silos pertencentes
ao seu pai e, desapontando-o, diz que ele tem que começar
por baixo na empresa. Ele empresta a Hal um carro para levar Millie
ao piquenique.
No piquenique, Madge é eleita a rainha da festa. Hal provoca
o despeito da professora Rosemary, já que o interesse desta
não é correspondido por ele. Depois que Madge é
coroada, na cerimônia de Neewhollah (Halloween ao contrário),
Hal e Madge dançam sensualmente, enquanto Millie assiste
frustrada a esse encontro. Ela se embriaga com uma garrafa de
bebida trazida por Howard, o namorado de Rosemary (e não
por Hal), e sente-se muito mal. Quando Flo, a mãe, quer
saber como aquilo sucedera, a professora Rosemary põe a
culpa em Hal, que tinha trazido Millie para a festa. Hal tenta
explicar o que aconteceu, mas seu amigo Alan, já enciumado,
não lhe dá apoio, e Rosemary, raivosamente, projeta
a sua frustração dizendo a Hal que está ficando
velho e não obteve nada da vida. Hal foge no carro emprestado
por Alan, e este pede que a polícia vá atrás
dele, alegando que ele tinha roubado seu carro. Hal consegue escapar
e encontrar Madge. Eles passam a noite juntos. Madge volta para
casa. No dia seguinte, apesar do dramático pedido de sua
mãe para que ela fique, Madge parte ao encontro de Hal.
3.
A trilha musical e a articulação audiovisual
A trilha musical de Picnic é composta, na sua maior parte,
de música
original. Mas também conta com alguns standards da música
americana, entre eles, Ain't she sweet, Pennies from heaven e
Moonglow, esta última combinada com um tema do filme, como
veremos mais adiante. A música original ainda se insere
na tradição das trilhas de Hollywood que começou
nos anos 30: basicamente romântica, sinfônica, e com
o uso de mickeymousing (2). Picnic não é um filme
musical, mas a música, tanto diegética (3) como
extradiegética (4) , tem uma enorme importância na
sua narrativa. Sua música original é altamente elaborada
e muito bem articulada com o discurso visual. Vou tentar comprovar
essas afirmações analisando quatro trechos desse
filme.
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