nº 9 - 2 semestre de 2001      


Irineu Guerrini Jr.

 

Ficha Técnica:

Picnic (Férias de Amor) - 1955

Direção: Joshua Logan
Roteiro: Daniel Taradash, baseado em peça de William Inge
Fotografia: James Wong Howe
Música original: George Dunning

Elenco:
William Holden......................Hal Carter
Kim Novak............................Madge Owens
Rosalind Russell...................Rosemary Sidney
Susan Strasberg...................Millie Owens
Arthur O'Connell....................Howard Bevans
Cliff Robertson......................Alan Benson
Betty Field.............................Flo Owens


1. Introdução - Os primeiros contatos

Lembro-me de que o primeiro contato que tive com Picnic (Férias de Amor) (1) foi através da sua música. Não havia visto o filme - que é de 1955 - no seu lançamento, mas recordo-me que lá pelo final dos anos 50 o famoso "Moonglow and Love Theme" já era tocado com certa freqüência por algumas emissoras de rádio de São Paulo, refletindo o êxito que essa música tivera nos Estados Unidos. Em 1960, o filme foi reprisado num cinema de bairro e fui vê-lo num domingo. O roteiro, o trabalho de alguns atores, a belíssima fotografia em tela larga e, acima de tudo, o clima onírico da sua seqüência mais conhecida - a dança de Hal e Madge - só fizeram aumentar o meu fascínio, que havia começado com a audição pelo rádio de um pequeno segmento da sua trilha musical. No dia seguinte, como estava em férias escolares, pude empreender uma maratona de um dia inteiro por lojas de discos, até achar, no fim da tarde, um 78 rotações com dois dos temas principais de Picnic., que com o tempo foi devidamente gasto numa velha vitrola. Daquela época até hoje, pude revê-lo algumas vezes no cinema e incontáveis vezes em vídeo. Se nos primeiros contatos o que valeu para que eu percebesse estar diante de uma obra singular foi acima de tudo a intuição ( embora no meu tempo de adolescente eu não desse conta de todas as mensagens que o filme passava), em épocas mais recentes uma maior experiência de vida e algum conhecimento de música e cinema têm-me ajudado a entender melhor por que esse filme me encantava, e ainda me encanta, assim como a toda uma geração.

2. Sinopse
Nos anos 50, em Halstead, uma pequena cidade dos Estados Unidos, todo mundo parece feliz e tranqüilo. Todos estão tomando parte do piquenique do Dia do Trabalho, lá comemorado em setembro. Mas essa tranqüilidade é apenas superficial. Preconceitos e repressões policiam a mente dos seus habitantes. As frustrações dominam a sua vida, especialmente a das mulheres.


Quem faz esses fantasmas aflorarem e estabelece o conflito é Hal Carter (William Holden), um drifter - alguém que não pára em nenhum emprego e em nenhum lugar. Ele chega a Halstead de carona num trem de carga, e está a procura de seu ex-colega de faculdade Alan Benson (Cliff Robertson), que é filho do homem mais rico da cidade e talvez lhe arrume um emprego. Alan namora Madge Owens (Kim Novak), tida como a garota mais bonita do lugar, e vê nela apenas um troféu a ser exibido. O pai de Alan é contra esse namoro, por Madge ser de família pobre. Madge trabalha numa loja de quinquilharias, e tem uma irmã mais nova, Millie (Susan Strasberg), a intelectual da família que despreza os seus dotes femininos. Flo (Betty Field) a mãe das garotas, almeja um bom casamento para Madge e talvez a universidade para Millie. O marido de Flo abandonou-a há muito tempo, e para complementar o orçamento doméstico, ela aluga um quarto da casa para uma professora solteirona, Rosemary (Rosalind Russel), que tem Howard (Arthur O'Connel) como um namorado pouco empenhado nessa relação.


Hal conhece Madge acidentalmente, enquanto limpava o terreno da casa vizinha para ganhar uns trocados. Eles logo se sentem mutuamente atraídos. Ele também desperta o interesse de Millie, a irmã de Madge, e de Rosemary, a professora solteirona. Hal encontra Alan, que lhe mostra os enormes silos pertencentes ao seu pai e, desapontando-o, diz que ele tem que começar por baixo na empresa. Ele empresta a Hal um carro para levar Millie ao piquenique.


No piquenique, Madge é eleita a rainha da festa. Hal provoca o despeito da professora Rosemary, já que o interesse desta não é correspondido por ele. Depois que Madge é coroada, na cerimônia de Neewhollah (Halloween ao contrário), Hal e Madge dançam sensualmente, enquanto Millie assiste frustrada a esse encontro. Ela se embriaga com uma garrafa de bebida trazida por Howard, o namorado de Rosemary (e não por Hal), e sente-se muito mal. Quando Flo, a mãe, quer saber como aquilo sucedera, a professora Rosemary põe a culpa em Hal, que tinha trazido Millie para a festa. Hal tenta explicar o que aconteceu, mas seu amigo Alan, já enciumado, não lhe dá apoio, e Rosemary, raivosamente, projeta a sua frustração dizendo a Hal que está ficando velho e não obteve nada da vida. Hal foge no carro emprestado por Alan, e este pede que a polícia vá atrás dele, alegando que ele tinha roubado seu carro. Hal consegue escapar e encontrar Madge. Eles passam a noite juntos. Madge volta para casa. No dia seguinte, apesar do dramático pedido de sua mãe para que ela fique, Madge parte ao encontro de Hal.

3. A trilha musical e a articulação audiovisual
A trilha musical de Picnic é composta, na sua maior parte, de música
original. Mas também conta com alguns standards da música americana, entre eles, Ain't she sweet, Pennies from heaven e Moonglow, esta última combinada com um tema do filme, como veremos mais adiante. A música original ainda se insere na tradição das trilhas de Hollywood que começou nos anos 30: basicamente romântica, sinfônica, e com o uso de mickeymousing (2). Picnic não é um filme musical, mas a música, tanto diegética (3) como extradiegética (4) , tem uma enorme importância na sua narrativa. Sua música original é altamente elaborada e muito bem articulada com o discurso visual. Vou tentar comprovar essas afirmações analisando quatro trechos desse filme.

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