Como resultado de
sua viagem pelos Estados Unidos, Tocqueville publica sua monumental
"Democracia na América"(1835), obra fundamental para
pensarmos as raízes da sociedade atual "globalizada".
Para alguns pode parecer estranho pensarmos que um francês de
viés aristocrático do XIX poderia nos ensinar algo sobre
nós mesmos. A imagem de Tocqueville andando pela América
é quase a de um diletante, uma espécie de "Baudelaire
das ciências sociais", mas suas observações
sobre a emergente sociedade democrática americana são
precisas, e de certo modo, assustadoras - como vimos na curtíssima
seleção exemplificada acima. Poder-se-ia dizer que suas
preocupações enquanto "liberal" pós-revolucionário
que era se constituíam na tentativa de ver como uma democracia
empiricamente verificável poderia harmonizar liberdade e igualdade
sem que tal processo implicasse em uma espécie de totalitarismo
da maioria. Tocqueville observa que o modelo americano é "irresistível"
e que muito provavelmente se tornará hegemônico justamente
por romper com a carga do grande contexto europeu que era o "Passado"
- a "tradição" estéril. O homem americano,
menos preocupado com o passado, é voltado para o futuro, para
o veloz, o que de certo modo lhe dá uma certa "leveza".
O rompimento com a hierarquia por nascimento cria a nova hierarquia
pelo sucesso. Despreocupado com qualquer longa cadeia de raciocínio
que resvale no abstrato (que implica no desperdício desta fundamental
"commodity" que o tempo), o habitante da jovem democracia
não perde tempo com idéias complicadas que não
deixem ver sua transparente objetividade utilitarista . Nosso novo
homem abre mão facilmente daquilo que denominaríamos,
arcaicamente (ou aristocraticamente), "verdade" profunda
do conhecimento por uma forma de saber (mais "ágil")
que de fato cause uma alteração no real, alteração
esta produtiva, no sentido de moldar o mundo a partir de nossas necessidades
instrumentais: da verdade a ação útil. Tocqueville
conta aqui uma espécie de história social da filosofia
americana que surgirá uns 50 anos depois através de
autores como John Dewey e William James, o pragmatismo ("pragma"
em grego ático significa algo como "ação").
O pragmatismo é uma filosofia de alto teor relativista que
abrindo mão da discussão acerca da "verdade"
opta pela idéia de "ação real" sobre
o mundo como critério da consistência cognitiva dos enunciados.
Mas Tocqueville não está interessado na "sofisticação"
intelectual produzida pela sociedade americana, mas na sua "filosofia
banal" da ação útil. A paixão pela
utilidade associada a impaciência cognitiva e a recusa do passado
visto como inútil na equação de dominação
da vida, gera uma prática noética que se constituirá
na objetividade específica que Finkielkraut denomina "redução
cognitiva" : Tocqueville identifica no novo homem uma vocação
para pensar o conhecimento somente enquanto engenharia (termo meu),
desqualificando qualquer outra forma de saber como colateral. Outro
traço interessante no modo de se relacionar com o conhecimento
é a tendência americana a preferir se "informar"
com outros homens iguais a ele do que seguir o modo antigo de conhecer
via o saber estabelecido "academicamente" no tempo: nasce
assim aquilo que Tocqueville descreve como algo muito próximo
ao que entendemos hoje como opinião pública. É
mais importante conhecer e concordar com o que a maioria julga ser
real do que conhecer ou concordar com algo que se distancie do que
a maioria toma como verdadeiro. Na realidade, assim como Bacon afirmou,
o conhecimento (a ciência moderna, na fala de Bacon) deve transformar
a natureza a partir da satisfação das nossas necessidades.
A jovem democracia americana realiza tal mandamento e radicaliza:
desprezo pelo saber que não leve a cabo esta máxima
do controle instrumental e que for lento em seus resultados. A hipótese
de Tocqueville é que o modelo americano produzirá uma
sociedade implicada com a construção do bem estar (o
direito iluminista reduzido a engenharia da "felicidade",
daí seu caráter irresistível) e que como na democracia
americana a função cognitiva e noética está
submetida ao modelo instrumental, o resultado deverá ser uma
contínua redução do interesse pela complexidade
(sendo a simplicidade definida pela função redutora
da reflexão a instrumento), condenando este cidadão
ao risco de ficar "menos inteligente", experimentando uma
redução também de vocabulário e da capacidade
(diria eu) hermenêutica. O jovem americano (que poderá
vir a se transformar no bárbaro que derrota a civilização
pisando nas luzes da cultura), apresenta, aos olhos de Tocqueville,
um claro desinteresse intelectual e volitivo pelo que não seja
experimentado em termos de satisfação de suas necessidades.
"Mas
Deus, isso para mim é um exemplo típico do desastre
cultural em que vivemos. A literatura sempre esteve ligada, na cultura
que a criou, e mais profundamente desenvolveu, a ocidental, à
idéia de resistência de simplificação
do real . Sempre foi uma instância de resistência ao
empobrecimento do espírito. Paulo Coelho , como sucesso na
França representa a total decadência, pois além
- e eu li o Alquimista, como curiosidade - de ser uma pura aglomeração
de bobagens e clichês, é extremamente mal escrito,
feito em uma linguagem para quem não tem absolutamente hábito
de ler."
Alain Finkielkraut
Para Finkielkraut vivemos uma situação
diretamente derivada da realização "infernal"
das hipóteses de Tocqueville. Segundo ele, o Ocidente teria
desde a Grécia iniciado a construção de um
projeto de transformação do chamado homo sapiens natural
naquilo que deveria ser um homo sapiens de fato inteligente, e esta
transformação seria levada a cabo exatamente pela
"vida com o pensamento" definida como uma formação
(PAIDÉIA) realizada através da educação
do homem para se tornar um ser racional - este é o lugar
da filosofia na Républica. Todavia, ao contrário do
que os mais apressados desconhecedores da obra de Platão
pensam, o que está em jogo ali não é uma "fuga
mundi" para o mundo da metafísica. Há em Platão
um esgotamento das possibilidades da razão, esgotamento este
que implica na múltipla herança de seu pensamento:
resumidamente, ceticismo, racionalismo, metafísica e mística
- além da reflexão política, é claro.
O conflito entre tais "herdeiros" revela o alcance da
reflexão de Platão no combate ao relativismo sofista
. O que é patente no percurso platônico é a
complexidade que se desdobra do seu olhar sobre o mundo (assim como
do olhar sofista, que nada tem a ver com um certo "relativismo
diet" contemporâneo). Na linha da reflexão desenvolvida
por Finkielkraut, é exatamente essa "vida com o pensamento"
que foi derrotada (a "derrota do pensamento" a qual fiz
alusão acima). O projeto de vida com razão, que implicava
na crescente complexidade do mundo investigado foi retomada, grosso
modo, pelo iluministas franceses e ingleses, tendo como foco da
crítica naquele momento toda a metafísica ocidental
e o pensamento religioso político, filosófico e social
(para não dizer psicológico) . Para os iluministas,
o homem novo iria romper com as amarras do passado e construir a
nova sociedade a partir dali, chegando a Cultura racional universal
e progressista - chave da emancipação: a vida com
o pensamento emanciparia o homo sapiens da sua condição
instintual atávica vítima de crenças não
racionais. Evidentemente tal projeto é um dos fatores que
animam a revolução francesa. Do outro lado do Reno,
alemães produziam a grande escola de pensamento conhecida
como romantismo alemão, concentrada na demonstração
do caráter irredutível do contexto em se tratando
do ser humano. A razão não só é histórica
(e não livre como pensavam os iluministas), como psico-socialmente
(diria eu em linguagem atual) condicionada (trata-se do conceito
de VOLKSGEIST). Os românticos criam a idéia contemporânea
de "cultura regional", aquela cultura na qual o hábito
de tomar cerveja e Machado de Assis são os dois, igualmente,
exemplos de cultura brasileira. Não há hierarquia
interna a cultura, nem externa, porque não se pode comparar
culturas, logo, não se pode afirmar que Flaubert ou Balzac
seriam superiores a Paulo Coelho, porque são apenas exemplos
de culturas distintas - daí a incomensuralibidade na qual
beberá a antropologia posterior. Os desdobramentos de tal
reflexão são enormes, inclusive aquele que será
um dos objetos de crítica de Finkielkraut: a "defesa"
radical do valor da memória contra a História, "defesa"
esta muito feita como conseqüência do pensamento benjaminiano
e que implicaria na dispersão da História em tradições
locais intransponíveis a uma síntese construtiva do
passado como instância racional produtora de "esclarecimento".
Não posso me deter nestes desdobramentos. Farei referência
apenas àquele que discuto na disciplina em questão:
para Finkielkraut não é o romantismo alemão
em si o "zumbi" pós-moderno, aquele bárbaro
que com patadas disfarçadas de discurso articulado derrota
o projeto de encarar a complexidade do mundo. Este bárbaro
é um misto da idéia iluminista de rompimento com o
passado, mais a busca de emancipação pessoal, associado
ao caráter crítico ao projeto da razão platônica/iluminista
feita pelos românticos alemães, crítica essa
que no romantismo está associada a um profundo e elaborado
mergulho na tradição e na história. Associando
a idéia do direito de julgar por si próprio, recusando
o saber estabelecido (e por isso sem repertório), ao relativismo
da incomensurabilidade que inviabiliza o juízo (reduzindo-o
a vaga noção de "gosto"), o "zumbi"
facilmente chega a enunciados do tipo "cada um é cada
um", "esse Platão não está com nada",
ou "esse tal de Freud não sabia nada" do alto dos
seus 19 anos mergulhados em altíssima literatura. Tocqueville
havia identificado a raiz de tal processo ao perceber a impaciência
generalizada na democracia americana: a "redução
cognitiva" é este resultado. Por estar submetido a um
sistema - inclusive atuante na própria "intelligenzia"
- que opera a partir do modelo redutor, é normal que o saber
seja transformado em "modelo terapêutico": conceito
que descreve a submissão do saber intelectual e acadêmico
a um saber que está implicado antes de tudo com a economia
da auto-estima. O que é melhor para uma mulher de 50 anos
submetida a violenta competição das mais jovens, dentro
de uma economia que estimula a circulação do afeto
(justamente porque esta variação de parceiros gera
riqueza, aumento da fantasia de realização do desejo
e baixo comprometimento), pensar que existe uma valquíria
imortalmente bela e forte dentro de si, ou uma ser perdido no seu
desejo mortal, como uma Emma Bovary ou uma Ana Karenina? É
óbvio que um descendente do "marinheiro" de Tocqueville
optará pela auto-ajuda: o fato evidente que a vida humana
é insuportável para a maioria das pessoas, e que,
como diz Sloterdijk, "na reta final, ontologicamente, somos
todos perdedores" , precisa ser escamoteado para aliviar o
sofrimento. É inegável o impasse humano, "somos
mortais", e nossos projetos fracassam, sendo o horror do envelhecimento
uma prova de tal fato, não pretendo subestimar isso. A crítica
de Finkielkraut, com quem concordo, é que a universidade
não é o lugar de trabalhar a auto-estima, é
o lugar de trabalhar a cognição e a noesis, o saber
sem implicação com o bem estar. Por exemplo, é
óbvio que politicamente é um absurdo a discriminação
de homossexuais (devendo ser punida como crime), mas daí
a afirmar categoricamente que existe algo chamado "escolha
sexual" e que a homossexualidade (ou a heterossexualidade)
é uma 'opção" livre é uma bobagem.
Não há como afirmar isso diante de uma simples inspeção
empírica na própria história de cada um, sendo
o fenômeno sexual muito mais um processo que se instala a
revelia do indivíduo. Mas, e não é por acaso
que essa "neo-esquerda pedagógica" é produto
da sociedade por onde Tocqueville passeava, o modelo terapêutico
é útil se abrirmos mão do fato que a discussão
acerca dos comportamentos sexuais é lenta e difícil
(sabemos pouco sobre ela), para abraçarmos a idéia
de que é mais útil ensinarmos teorias implicadas com
as necessidades sociais e psicológicas dependentes do problema
da auto-estima porque elas têm um efeito benigno no convívio
social . O resultado é claro: ao longo do tempo altera-se
o "saber estabelecido" transformando-o em formulas de
sucesso pessoal. Daí o projeto ocidental de uma alienação
alegre como descendente "freak" da emancipação
iluminista. A loira de 50 anos, que se vangloria por saber "menos"
acerca da vida do que a filha, é apenas a figura trágica
dessa idiotia estabelecida em discurso. Para Finkielkraut é
inevitável a derrocada da capacidade humana de ser inteligente
se ficarmos presos na recusa do complexo e do "desagradável"
enquanto indivíduos implicados na formação
intelectual dos mais jovens. Quando atuamos sob redução
cognitiva a serviço da economia da auto-estima, facilitando
a condição humana, praticando uma reflexão
"peter pan", aceleramos a derrota do pensamento, pisando
nele com os pés.
"Destruir
o passado é o programa de nossa época: apagar a capacidade
humana de ser um animal consciente. Isso é muito sério.
Não devemos lembrar, só lucrar, trabalhar demais para
comprar demais. Nesse processo de erosão da memória
coletiva perdemos a consciência."
Amos Oz
Todo dia pela manhã, antes do sol
nascer, Amos Oz, que mora no deserto ao sul de Israel, passeia pela
paisagem de pedras e areia a fim de aí se afastar do "ruído"
de um mundo transformado em shopping center "brega". Segundo
Oz, o deserto aumenta sua perspectiva: sendo produto da erosão
geológica total, o vazio do deserto remete o homem e a mulher
a sua condição de ser insustentável ontologicamente.
Para Oz é necessário criarmos instrumentos para sobrevivermos
ao processo de retardamento mental que o neocapitalismo tem como
programa. O adulto infantilizado é o consumidor ideal: sem
repertório crítico, porque destruído por uma
formação para a "aeróbica da alegria",
não elabora suas frustrações, transformando-se
em um ser para o consumo. Oz não concorda com Tocqueville
que isso seja um produto necessário da sociedade americana,
mas unicamente da sua vertente radicalizada ultimamente como "vending-machine".
O "zumbi" de Finkielkraut aqui se aproxima da criança
alegre de 40 anos, diante da vitrine colorida e barulhenta que é
o mundo atual. A infantilização cria o vácuo
existencial necessário para ontologia do consumo - liturgia
dessa pseudo-ciência chamada economia neoliberal. A abordagem
do mundo feita pelo adulto retardado será necessariamente
voltada a simplificação do mundo e a resistência
a qualquer tentativa "cansativa" de complexidade, principalmente
se não retro-alimentar seu narcisismo infantil. O projeto
aqui é a juventude eterna: do cimento injetado nos seios
a paralisação da musculatura da face como combate
a ofensa que é a ruga, rapidamente chegamos a inviabilidade
da atividade cognitiva e noética, que também é
signo de envelhecimento, pois implica em lentidão e mal estar.
Não é suficiente ser jovem fisicamente, é necessário
ter "uma mente jovem": daí a necessidade de um
retardamento alegre. O "velho" aqui, além do "quase-morto",
que forçosamente nos recorda nossa finitude esteticamente
feia, é o lugar do resistente indesejável a força
"sem limites" do jovem. Equação ridícula,
pois obviamente fadado a derrota. E mais: não há melhor
modo de trair um jovem do que permiti-lo crer livremente naquilo
que pensa. O projeto de juventude eterna é um dos maiores
desastres sociais segundo Oz, pois inviabiliza o processo natural
do amadurecimento, exilando a espécie humana do seu futuro.
"O
fato é que a vida não tem sentido e somos todos perdedores
na reta final".
Peter Sloterdijk
Evidentemente, o que vimos neste breve percurso
que aqui apresentei é uma visão "pessimista"
da nossa cultura. Todavia, e aqui é fundamental o recurso
a experiência referida acima acerca da disciplina onde discuto
esses temas, tal olhar parece realizar aquilo que o alemão
Peter Sloterdijk considera a única forma possível
hoje para se praticar o pensamento não infantil (Oz) e não
reduzido (Finkielkraut), a saber, uma reflexão que estabeleça
uma "intoxicação voluntária", ou
seja, "um terrorismo filosófico". Como nos afirmam
tanto Oz como Finkielkraut o "pessimismo" com relação
a nossa sociedade infantil não implica desistência
do pensamento mas seu fortalecimento. Na realidade, a experiência
tem nos revelado que o modelo baseado tanto no relativismo cômico
que desconhece sua própria história enquanto drama
da razão tentando se sustentar, como na reflexão dependente
da economia da auto-estima e na infantilização do
adulto (formas tardias de "otimismo") é que interrompe
a vocação do ser humano para a razão. Segundo
Sloterdijk, o mundo pós-metafísico que nos legou a
modernidade pós-nietzschiana/freudiana/marxiana é
um cenário de "horror" e deste cenário a
tendência natural é a fuga, mas fuga em direção
a "condição de Alice". Horror porque o ser
humano, apesar de mentir o tempo todo através de um self-marketing
associado a uma engenharia de auto-estima, permanece uma vítima
ontológica (social e psicológica) da sua derrota inevitável.
O olhar "pessimista" aqui representa na realidade um exemplo
deste "terrorismo filosófico" que fala Sloterdijk,
na medida em que gerando uma visão distante do modelo Sandy/Cinderela,
desperta nos alunos e alunas (com isso não quero deixar a
impressão que penso que a concepção de mundo
"aeróbica da alegria" seja exclusividade daqueles
de 20 anos) uma perspectiva distante do torpor da "alegria
narcísica", abrindo a possibilidade da experiência
reflexiva dura como "algo novo" (com perdão da
má palavra) e que aponta para o risco que eles/elas mesmos/mesmas
correm ao se descobrirem vítimas de um modelo redutor de
sua capacidade intelectual: o pavor de se reconhecer nos casos "clínicos"
trabalhados por mim e pelos autores com os quais dialogo: o crente
na lenda pessoal, o homem de meia idade ridículo afogado
em sua "baba", a mulher de 50 anos sozinha e caída,
o ignorante que acredita nas "histórias ao portador",
enfim o bárbaro de Tocqueville. Outro exemplo concreto, e
último, é o tema da dissolução da família
trabalhado pelo sociólogo Manuel Castells. Falar-se em "crise"
do casamento é uma banalidade. O término da banalidade
se inicia quando ocorre a descoberta que os mecanismos que geram
a dissolução estão em funcionamento em mim.
Evidentemente que o que está em jogo não é
uma defesa da família nem do casamento: não opero
na ingenuidade dessa militância normativa. O que está
em jogo é a percepção de que eu - enquanto
indivíduo que acompanho a reflexão dura sobre as razões
do desastre que é o casamento - provavelmente terei a mesma
experiência de fracasso. Aquela atitude "antiga"
de pensar que sou membro de uma geração que realmente
"se resolveu" mediante recursos que diminuem os atritos
(como não ter filhos - os "dinks", double income
no kids -, baixa expectativa afetiva, comportamento diametralmente
oposto aos país, alto investimento profissional - no caso
das mulheres -, superação de comportamentos "machistas"
- no caso dos homens - infidelidade racionalmente programada, etc)
se dissolve: continuo buscando afeto incondicional, perenidade,
compromisso, prole amada, mas opero a partir dos modos inventados
pela contemporaneidade falsamente "resolvida", modos esses
que inviabilizam estatisticamente a permanência do "contrato
de amor", a saber, baixa tolerância, alta expectativa
afetiva associada ao baixo comprometimento, alto investimento narcísico-profissional,
preguiça para educar os filhos disfarçada em uma pseudo-pedagogia
da liberdade infantil mas que na realidade compromete a relação,
precariedade financeira, etc. A descoberta do provável fracasso
afetivo é devastador: os liberados permanecem românticos,
mas evidentemente reconhece-se que não há lugar para
isso em uma cultura que se assume como narcísica. O resultado
(esperado) é uma busca de reflexão que se afaste dos
modelo de auto-estima exatamente porque esse é o equivalente
da criança que quer a todo custo ser amada. Enfim, a equação
"reflexão/bem-estar" é para iniciantes.
"(...)
umas das atitudes necessárias para enfrentar o mundo no futuro
é olhá-lo de modo oblíquo, indireto, como alguém
que combate a Medusa , pois do contrário, quem olhar de frente
será transformado em pedra".
Luiz Felipe Pondé
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Luiz
Felipe Pondé
Professor de Filosofia e Sistemas de Comunicação
e Chefe do Departamento de Humanidades da FACOM / FAAP
Filósofo, pós-doutor em Epistemologia pela Universidade
de Giessen, Alemanha
Autor do livro "Homem Insuficiente"
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