nº 9 - 2 semestre de 2001      


Luiz Felipe Pondé
Meu objetivo neste paper é discutir uma questão filosófica a partir de uma experiência concreta de inserção na atividade docente, experiência esta realizada nos dois últimos semestre (2000/2 e 2001/1) na Faculdade de Comunicação da FAAP, nos curso de Publicidade e Propaganda, Cinema, Rádio e TV e Relações Públicas. Refiro-me a disciplina "Sistemas de Comunicação" . Através da discussão que pretendo aqui esboçar, busco, além de expor o tema filosófico específico (o percurso "teórico" que sustenta minha argumentação e a experiência concreta em si), abrir um diálogo entre meus pares acerca de nossa (desacreditada, diria alguns) atividade pedagógica humanística. Quanto ao percurso filosófico teórico, trata-se de um quadro de referências caracterizado por um olhar "pessimista" sobre nossa sociedade ocidental contemporânea, gerador de "uma angústia profunda" (termo este utilizado pelos alunos e alunas ao se referirem a experiência com o conteúdo dos temas tratados na disciplina) mas que causa também uma experiência de gratificante "compreensão lúcida" de nossa sociedade atual, quadro teórico este delimitado pelos seguintes pensadores: Alexis de Tocqueville (século XIX), Alain Finkielkraut, Peter Sloterdijk, Amos Oz (único romancista incluído) e Manuel Castells . Não vou descrever "passo a passo" o caminho metodológico pois meu foco aqui não é prioritariamente pedagógico (o uso da experiência com a disciplina em questão tem aqui mais um caráter de dado empírico que é parte integrante da argumentação filosófica a ser exposta), mas reflexivo. Minha intenção é discutir a grade de conceitos trabalhados pelos pensadores acima citados a fim de sustentar a seguinte hipótese: tem sido de grande valor estabelecer com o alunado uma discussão tendo como referência uma crítica dura ao que Finkielkraut chama de "derrota do pensamento" e "redução da capacidade cognitiva" causada pelo modelo de sociedade norte-americana instalada ainda no séc. XIX (Tocqueville) em nome de um projeto de "retardamento mental alegre" (Amos Oz) a partir (mas não exclusivamente) do que Sloterdijk define como "prática filosófica terrorista " ou "pensamento no mal estar" (Finkielkraut/Amos Oz).

Por que associar a discussão filosófica "pura" a um quadro experencial específico? Desde os séculos XVI e XVII, séculos de Francis Bacon e John Milton, o ser humano vem fazendo uma profunda reflexão com relação a sua natureza sensualista como base de sua condição de agente noético . Para Milton, Adão e Eva pecaram, porque só experimentando poderiam compreender a natureza do mal e do bem: a experiência verticaliza e é condição de possibilidade da reflexão. A referência "experimental" aqui se deve também ao fato da atividade pedagógica em si ser objeto de grande descrédito por parte dos docentes e discentes: entre pares, descreve-se constantemente a "morte da educação". Prova disso é a tentativa, travestida do discurso "transformista" da crença infantil
"no novo", de buscar transformar a educação em algo "mais em dia com nosso tempo". O uso de termos vagos é proposital. Muitas vezes a reflexão em nossa época se dissolve em gramáticas especulativas vazias. Sabemos que a universidade é uma instituição medieval, mas que obviamente passou por transformações fundamentais. Todavia, pára além da discussão da forma x conteúdo, uma mudança específica (no que nos referimos normalmente como "conteúdo") me interessa e voltarei a ela quando dialogar com Finkielkraut acerca do que ele descreve como a "invasão do modelo terapêutico" na vida acadêmica e intelectual. O risco de se concentrar na suposição, como é o caso de autores como Pierre Levy, de que processos de alteração "formalista" de base tecnológica são a chave para um suposto "aperfeiçoamento" da produção do conhecimento, é o esquecimento, entre outras coisas, da "encarnação" econômico-social de todo conceito (como se Marx, Weber, Horkheimer, Adorno, entre outros, nunca tivessem existido), e que por isso mesmo, sendo a utopia informatico-dependente em muito uma grande fronteira do capital (juntamente com a biotecnologia), nesta utopia tecnoformalista (microsoft-dependent) harmonizam-se um viés reflexivo de baixa consistência filosófica com uma tendência de altíssima demanda mercadológica : seria de se esperar, em uma cultura altamente econômico-dependente como a nossa, sofrermos a pressão da segunda (a pressão econômica) como se fosse a evidência conseqüente a uma lógica irrefutável da primeira (reflexão de baixa consistência conceitual) . Quanto ao que me referi acima como "uma mudança específica" na academia desde sua fundação medieval, tenho em mente o fato de que na idade média a universidade era um lugar de reflexão dissociado das demandas de sobrevivência na imanência: refiro-me a noção de ofício. O lugar da técnica "profissionalizante" era a oficina. Na universidade não se formava "profissionais" como hoje mas se discutia as chamadas questões últimas. Facilmente poderíamos descrever tais questões como "inúteis", na medida em que não estão implicadas na "sobrevivência". Obviamente que a "utilidade" de questões como essas (de onde viemos, qual a intenção na Criação?, Sou livre ou determinado pela vontade de Deus?, etc) em uma época voltada para o Transcendente, como a medieval, se colocava como legítima. Não podemos simplesmente reduzir tais problemas a pura "inutilidade". Para nós hoje, seres da imanência, da história e da técnica controladora da natureza (projeto baconiano), tais problemas parecem "acadêmicos". O que podemos sim é evidenciar o fato de que esta "utilidade" implicada no saber medieval tinha a ver com a então acreditada eternidade da alma, o que condicionava os homens e mulheres medievais a ter sob severa desconfiança o caráter temporário da existência corpórea e portanto um olhar crítico sobre qualquer contéudo afetivo, cognitivo e noético que privilegiasse um saber voltado para a imanência da corrupção na temporalidade. Assim sendo, não é tanto o problema da "utilidade" em si, mas o distanciamento desta com relação ao pensamento eternidade-dependente que marca um enorme diferencial com relação ao movimento em direção a técnica que tomou conta da universidade (assumindo sua vocação "burguesa" contemporânea). Hoje, a universidade é muito mais uma "grande oficina" - no sentido medieval - do que era a Sorbonne, Oxford ou Colônia, entre outras, no período pré-moderno. Podemos na realidade afirmar que o "resto medieval" na vida acadêmica hoje fica limitado ao espaço normalmente denominado de "humanidades" ou similares , no qual se insere a discussão que levo a cabo na referida disciplina. De certa forma, habito o ócio interno a formação técnica dos meus alunos e alunas. A tendência, por exemplo, a forçar as disciplinas de humanidades (fenômeno universal e não particular) a assumir um caráter mercado-dependente é simplesmente uma figura do processo através do qual uma sociedade capitalista tende a devorar todas as relações entre os seres humanos (e com o mundo) reduzindo-as a vítimas dessa "fraca" e (atualmente) autoritária ciência denominada economia.

Ainda que está questão da crescente tendência a imanência que carateriza a chamada "modernidade", que a rigor já surge nos textos de Thomas de Aquino, seja fundamental, não é ela meu foco aqui, pois me levaria a uma discussão muito adentro do pensamento medieval e teológico em geral, e pretendo na realidade me manter dentro de um referencial que já assume a tal "modernidade" como um fato que determina até a limitação do vocabulário que faço uso. Assim sendo, quando fizer referência a "utilidade" e "inutilidade" - seguindo Tocqueville - já assumirei o sentido desta oposição tomando o "inútil" como aquilo que não está diretamente implicado com a intenção do ser humano moderno em construir sua "redenção" na imanência, isto é, assumir o horizonte do temporário e da matéria como o único onde se dá o drama humano da sobrevivência: qualquer "felicidade" é sempre uma "felicidade" na história. E mais: a utilização de "inútil" como aquilo que não atende as necessidades da engenharia geral da sobrevivência é perfeitamente enquadrado nos jogos de linguagem que são praticados pelos nosso alunos e alunas. Outra questão importante que infelizmente não posso contemplar nos limites deste breve paper é aquela que acima me referi como o "descrédito da educação humanística" - aliás, o foco aqui é exatamente seu suposto caráter inútil. De modo resumido, não acredito nesta falsa escatologia (o que revela uma certa filiação platônico-iluminista na minha argumentação): tomando emprestado as palavras do crítico americano Walter Kaufmann no seu "From Shakespeare to Existentialism" , não creio que Sócrates ou Shakespeare tenham vivido ou dialogado com homens e mulheres "melhores", mais atentos ou de maior boa vontade do que aqueles com os quais dialogamos e convivemos. Como é característico do habitante da "cultura da felicidade" que é a nossa, não sabemos lidar com o complexo , e portanto, facilmente capitulamos diante da impenetrabilidade natural do humano.

"Encontrei um marinheiro americano a quem perguntei por que os navios de seu país são construídos para durarem pouco pouco, e respondeu-me, sem hesitar, que a arte da navegação faz a cada dia, progressos tão rápidos, que o mais belo navio cedo se tornaria quase inútil, (...).
(...).
A igualdade desenvolve em cada homem o desejo de julgar por si só mesmo; (...)
(...).
(...). Na América, a parte puramente prática das ciências é admiravelmente cultivada, e trata-se com o maior cuidado da porção teórica imediatamente necessária a aplicação; (...). Mas não há quase ninguém nos Estados Unidos que se dedique à porção essencialmente teórica e abstrata dos conhecimentos humanos. (...).
Nada é mais necessário ao cultivo das altas ciências, ou da porção elevada das ciências, do que a meditação, e nada há de menos próprio à meditação do que o interior de uma sociedade democrática. (...). Todos se agitam: (...). Em meio a este tumulto universal, (...), a esta marcha contínua dos homens em direção a fortuna, onde encontrar a calma necesssária às combinações profundas da inteligência? (...).
(...); ora, os hábitos do espírito convenientes à ação nem sempre convém ao pensamento. Com freqüência, o homem de ação se contenta com aproximações, (...). Nas épocas em que todo mundo age, é-se, portanto, geralmente levado a dar valor excessivo à presença de espírito e às concepções superficiais da inteligência e, ao contrário, a depreciar-se, demasiado, o trabalho profundo e lento.
(...).
(...). A maioria dos homens que compõem essas nações é muito ávida de prazeres materiais e atuais. Para os espíritos com essa disposição, qualquer método que leve, por caminho mais curto, à riqueza (...), toda descoberta que facilite os prazeres e os aumente, parecem o esforço mais grandioso da inteligência humana. (...).
Porque a civilização romana morreu em conseqüência da invasão dos bárbaros, não devemos crer facilmente que a civilização não poderia morrer de outra maneira. Se as luzes que nos esclarecem viessem a extinguir-se um dia, a civilização definharia, pouco a pouco, por si própria. À força de encerrar-se na aplicação, perder-se-iam de vista os princípios, e, quando se tivesse esquecido os princípios inteiramente, seguir-se-iam mal os métodos que deles derivam; não se poderiam inventar novos, e, se empregariam, sem inteligência e sem arte, processos eruditos que não se compreenderiam mais.
(...). Não se deve, portanto, sossegar, pensando que os bárbaros ainda estão longe de nossas portas; pois, se há povos que deixam arrancar a cultura de suas mãos, há outros que a abafam com os próprios pés."


Tocqueville, A. de, "Democracia na América" (fragmentos) , in vol. Tocqueville, col Pensadores, Abril Cultural, SP, 1983, pgs. 276 a 281.

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