| Meu objetivo neste
paper é discutir uma questão filosófica a partir
de uma experiência concreta de inserção na atividade
docente, experiência esta realizada nos dois últimos
semestre (2000/2 e 2001/1) na Faculdade de Comunicação
da FAAP, nos curso de Publicidade e Propaganda, Cinema, Rádio
e TV e Relações Públicas. Refiro-me a disciplina
"Sistemas de Comunicação" . Através
da discussão que pretendo aqui esboçar, busco, além
de expor o tema filosófico específico (o percurso "teórico"
que sustenta minha argumentação e a experiência
concreta em si), abrir um diálogo entre meus pares acerca de
nossa (desacreditada, diria alguns) atividade pedagógica humanística.
Quanto ao percurso filosófico teórico, trata-se de um
quadro de referências caracterizado por um olhar "pessimista"
sobre nossa sociedade ocidental contemporânea, gerador de "uma
angústia profunda" (termo este utilizado pelos alunos
e alunas ao se referirem a experiência com o conteúdo
dos temas tratados na disciplina) mas que causa também uma
experiência de gratificante "compreensão lúcida"
de nossa sociedade atual, quadro teórico este delimitado pelos
seguintes pensadores: Alexis de Tocqueville (século XIX), Alain
Finkielkraut, Peter Sloterdijk, Amos Oz (único romancista incluído)
e Manuel Castells . Não vou descrever "passo a passo"
o caminho metodológico pois meu foco aqui não é
prioritariamente pedagógico (o uso da experiência com
a disciplina em questão tem aqui mais um caráter de
dado empírico que é parte integrante da argumentação
filosófica a ser exposta), mas reflexivo. Minha intenção
é discutir a grade de conceitos trabalhados pelos pensadores
acima citados a fim de sustentar a seguinte hipótese: tem sido
de grande valor estabelecer com o alunado uma discussão tendo
como referência uma crítica dura ao que Finkielkraut
chama de "derrota do pensamento" e "redução
da capacidade cognitiva" causada pelo modelo de sociedade norte-americana
instalada ainda no séc. XIX (Tocqueville) em nome de um projeto
de "retardamento mental alegre" (Amos Oz) a partir (mas
não exclusivamente) do que Sloterdijk define como "prática
filosófica terrorista " ou "pensamento no mal estar"
(Finkielkraut/Amos Oz).
Por que associar a discussão filosófica
"pura" a um quadro experencial específico? Desde
os séculos XVI e XVII, séculos de Francis Bacon e
John Milton, o ser humano vem fazendo uma profunda reflexão
com relação a sua natureza sensualista como base de
sua condição de agente noético . Para Milton,
Adão e Eva pecaram, porque só experimentando poderiam
compreender a natureza do mal e do bem: a experiência verticaliza
e é condição de possibilidade da reflexão.
A referência "experimental" aqui se deve também
ao fato da atividade pedagógica em si ser objeto de grande
descrédito por parte dos docentes e discentes: entre pares,
descreve-se constantemente a "morte da educação".
Prova disso é a tentativa, travestida do discurso "transformista"
da crença infantil
"no novo", de buscar transformar a educação
em algo "mais em dia com nosso tempo". O uso de termos
vagos é proposital. Muitas vezes a reflexão em nossa
época se dissolve em gramáticas especulativas vazias.
Sabemos que a universidade é uma instituição
medieval, mas que obviamente passou por transformações
fundamentais. Todavia, pára além da discussão
da forma x conteúdo, uma mudança específica
(no que nos referimos normalmente como "conteúdo")
me interessa e voltarei a ela quando dialogar com Finkielkraut acerca
do que ele descreve como a "invasão do modelo terapêutico"
na vida acadêmica e intelectual. O risco de se concentrar
na suposição, como é o caso de autores como
Pierre Levy, de que processos de alteração "formalista"
de base tecnológica são a chave para um suposto "aperfeiçoamento"
da produção do conhecimento, é o esquecimento,
entre outras coisas, da "encarnação" econômico-social
de todo conceito (como se Marx, Weber, Horkheimer, Adorno, entre
outros, nunca tivessem existido), e que por isso mesmo, sendo a
utopia informatico-dependente em muito uma grande fronteira do capital
(juntamente com a biotecnologia), nesta utopia tecnoformalista (microsoft-dependent)
harmonizam-se um viés reflexivo de baixa consistência
filosófica com uma tendência de altíssima demanda
mercadológica : seria de se esperar, em uma cultura altamente
econômico-dependente como a nossa, sofrermos a pressão
da segunda (a pressão econômica) como se fosse a evidência
conseqüente a uma lógica irrefutável da primeira
(reflexão de baixa consistência conceitual) . Quanto
ao que me referi acima como "uma mudança específica"
na academia desde sua fundação medieval, tenho em
mente o fato de que na idade média a universidade era um
lugar de reflexão dissociado das demandas de sobrevivência
na imanência: refiro-me a noção de ofício.
O lugar da técnica "profissionalizante" era a oficina.
Na universidade não se formava "profissionais"
como hoje mas se discutia as chamadas questões últimas.
Facilmente poderíamos descrever tais questões como
"inúteis", na medida em que não estão
implicadas na "sobrevivência". Obviamente que a
"utilidade" de questões como essas (de onde viemos,
qual a intenção na Criação?, Sou livre
ou determinado pela vontade de Deus?, etc) em uma época voltada
para o Transcendente, como a medieval, se colocava como legítima.
Não podemos simplesmente reduzir tais problemas a pura "inutilidade".
Para nós hoje, seres da imanência, da história
e da técnica controladora da natureza (projeto baconiano),
tais problemas parecem "acadêmicos". O que podemos
sim é evidenciar o fato de que esta "utilidade"
implicada no saber medieval tinha a ver com a então acreditada
eternidade da alma, o que condicionava os homens e mulheres medievais
a ter sob severa desconfiança o caráter temporário
da existência corpórea e portanto um olhar crítico
sobre qualquer contéudo afetivo, cognitivo e noético
que privilegiasse um saber voltado para a imanência da corrupção
na temporalidade. Assim sendo, não é tanto o problema
da "utilidade" em si, mas o distanciamento desta com relação
ao pensamento eternidade-dependente que marca um enorme diferencial
com relação ao movimento em direção
a técnica que tomou conta da universidade (assumindo sua
vocação "burguesa" contemporânea).
Hoje, a universidade é muito mais uma "grande oficina"
- no sentido medieval - do que era a Sorbonne, Oxford ou Colônia,
entre outras, no período pré-moderno. Podemos na realidade
afirmar que o "resto medieval" na vida acadêmica
hoje fica limitado ao espaço normalmente denominado de "humanidades"
ou similares , no qual se insere a discussão que levo a cabo
na referida disciplina. De certa forma, habito o ócio interno
a formação técnica dos meus alunos e alunas.
A tendência, por exemplo, a forçar as disciplinas de
humanidades (fenômeno universal e não particular) a
assumir um caráter mercado-dependente é simplesmente
uma figura do processo através do qual uma sociedade capitalista
tende a devorar todas as relações entre os seres humanos
(e com o mundo) reduzindo-as a vítimas dessa "fraca"
e (atualmente) autoritária ciência denominada economia.
Ainda que está questão da crescente
tendência a imanência que carateriza a chamada "modernidade",
que a rigor já surge nos textos de Thomas de Aquino, seja
fundamental, não é ela meu foco aqui, pois me levaria
a uma discussão muito adentro do pensamento medieval e teológico
em geral, e pretendo na realidade me manter dentro de um referencial
que já assume a tal "modernidade" como um fato
que determina até a limitação do vocabulário
que faço uso. Assim sendo, quando fizer referência
a "utilidade" e "inutilidade" - seguindo Tocqueville
- já assumirei o sentido desta oposição tomando
o "inútil" como aquilo que não está
diretamente implicado com a intenção do ser humano
moderno em construir sua "redenção" na imanência,
isto é, assumir o horizonte do temporário e da matéria
como o único onde se dá o drama humano da sobrevivência:
qualquer "felicidade" é sempre uma "felicidade"
na história. E mais: a utilização de "inútil"
como aquilo que não atende as necessidades da engenharia
geral da sobrevivência é perfeitamente enquadrado nos
jogos de linguagem que são praticados pelos nosso alunos
e alunas. Outra questão importante que infelizmente não
posso contemplar nos limites deste breve paper é aquela que
acima me referi como o "descrédito da educação
humanística" - aliás, o foco aqui é exatamente
seu suposto caráter inútil. De modo resumido, não
acredito nesta falsa escatologia (o que revela uma certa filiação
platônico-iluminista na minha argumentação):
tomando emprestado as palavras do crítico americano Walter
Kaufmann no seu "From Shakespeare to Existentialism" ,
não creio que Sócrates ou Shakespeare tenham vivido
ou dialogado com homens e mulheres "melhores", mais atentos
ou de maior boa vontade do que aqueles com os quais dialogamos e
convivemos. Como é característico do habitante da
"cultura da felicidade" que é a nossa, não
sabemos lidar com o complexo , e portanto, facilmente capitulamos
diante da impenetrabilidade natural do humano.
"Encontrei
um marinheiro americano a quem perguntei por que os navios de seu
país são construídos para durarem pouco pouco,
e respondeu-me, sem hesitar, que a arte da navegação
faz a cada dia, progressos tão rápidos, que o mais
belo navio cedo se tornaria quase inútil, (...).
(...).
A igualdade desenvolve em cada homem o desejo de julgar por si só
mesmo; (...)
(...).
(...). Na América, a parte puramente prática das ciências
é admiravelmente cultivada, e trata-se com o maior cuidado
da porção teórica imediatamente necessária
a aplicação; (...). Mas não há quase
ninguém nos Estados Unidos que se dedique à porção
essencialmente teórica e abstrata dos conhecimentos humanos.
(...).
Nada é mais necessário ao cultivo das altas ciências,
ou da porção elevada das ciências, do que a
meditação, e nada há de menos próprio
à meditação do que o interior de uma sociedade
democrática. (...). Todos se agitam: (...). Em meio a este
tumulto universal, (...), a esta marcha contínua dos homens
em direção a fortuna, onde encontrar a calma necesssária
às combinações profundas da inteligência?
(...).
(...); ora, os hábitos do espírito convenientes à
ação nem sempre convém ao pensamento. Com freqüência,
o homem de ação se contenta com aproximações,
(...). Nas épocas em que todo mundo age, é-se, portanto,
geralmente levado a dar valor excessivo à presença
de espírito e às concepções superficiais
da inteligência e, ao contrário, a depreciar-se, demasiado,
o trabalho profundo e lento.
(...).
(...). A maioria dos homens que compõem essas nações
é muito ávida de prazeres materiais e atuais. Para
os espíritos com essa disposição, qualquer
método que leve, por caminho mais curto, à riqueza
(...), toda descoberta que facilite os prazeres e os aumente, parecem
o esforço mais grandioso da inteligência humana. (...).
Porque a civilização romana morreu em conseqüência
da invasão dos bárbaros, não devemos crer facilmente
que a civilização não poderia morrer de outra
maneira. Se as luzes que nos esclarecem viessem a extinguir-se um
dia, a civilização definharia, pouco a pouco, por
si própria. À força de encerrar-se na aplicação,
perder-se-iam de vista os princípios, e, quando se tivesse
esquecido os princípios inteiramente, seguir-se-iam mal os
métodos que deles derivam; não se poderiam inventar
novos, e, se empregariam, sem inteligência e sem arte, processos
eruditos que não se compreenderiam mais.
(...). Não se deve, portanto, sossegar, pensando que os bárbaros
ainda estão longe de nossas portas; pois, se há povos
que deixam arrancar a cultura de suas mãos, há outros
que a abafam com os próprios pés."
Tocqueville, A. de, "Democracia na América" (fragmentos)
, in vol. Tocqueville, col Pensadores, Abril Cultural, SP, 1983,
pgs. 276 a 281.
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