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9 - 2 semestre de 2001 |
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Tania da Costa Garcia
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Pra
que discutir com Madame:
Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora
Por causa do samba
Madame diz que o samba tem pecado
Que o samba é coitado
Devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de dor
Madame diz que o samba é democrata
É música barata
Sem nenhum valor
Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que o samba é vexame
Pra que discutir com Madame
No carnaval que vem também com o
povo
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na avenida entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno
Meu Deus que horror
O samba brasileiro, democrata
Brasileiro na batata é que tem valor.
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Este samba da autoria de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, de
1956, incorporado ao repertório de João Gilberto
com sotaque de bossa nova, não é só mais
uma canção valorizando o samba e dando de ombros
para aqueles que costumam desdenhar do gênero. A referida
Madame que afirma ser o "samba música barata, sem
nenhum valor" realmente existiu. Magdala da Gama de Oliveira,
tornou-se conhecida como crítica de rádio, escrevendo
numa coluna do jornal Diário de Notícias (durante
três décadas foi um dos mais importantes jornais
do país. Lidera a circulação no Rio de janeiro
e ganha a fama de um veículo de opinião livre e
independente, atingindo um alto padrão de credibilidade)
e assinando com o pseudônimo de Mag. Mag, conseguiu entrar
para a história da MPB, pelos ataques deferidos contra
o samba. De acordo com os opositores de Madame a intenção
da autora era diminuir o samba, desclassificá-lo como música
brasileira.
Mas se Mag tinha seu espaço na imprensa para condenar a
canção popular e seus compositores, do outro lado
havia aqueles que gastavam tempo e pena para fazer a defesa do
réu. Fernando Lobo, compositor e jornalista, não
suportando o pedantismo de Mag, escreve em 1944, uma artigo na
revista O Cruzeiro, utilizando-se inteligentemente do mesmo repertório
da inimiga do samba para desautorizar seus argumentos. Assim,
sob o título Sugestão a Madame, Lobo, responde às
ofensas de Magdala : "O dia de hoje está ai, bem diverso
e distante da infância de madame. Como está o samba?
Ah! Nos EUA rolando dentro das películas e passando nos
microfones civilizados do mundo inteiro. Não são
os dentes estragados dos homens do regional, nem a ausência
dos smockins, nem o sono do tocador de cavaquinho ou os enfeites
baratos das cabrochas, que destroem o samba. Todos esses fatos
são derivados de uma situação social e material
diversa de que madame conhece e desfruta. O samba não tem
culpa. Mozart que tinha maus dentes e não pagava as dívidas,
Chopin, a que George Sand muito ajudou. Schubert e muitos outros,
foram na época, os mesmos miseráveis que são
os nossos tocadores populares. (...). Vamos ver até onde
chega a ignorância humana! Portinari já pintou o
samba, já refletiu nas suas telas a expressão de
nossa música. Villa Lobos aí está. Toda a
grandeza de sua obra é apoiada nos ritmos populares do
Brasil. E os que vêm de fora, da terra de Chopin, ou de
Mozart, de Ravel ou de Stravinsky, ficam sempre deslumbrados ante
a beleza positiva e grandeza do nosso ritmo! Por que matar o samba,
ó impiedosa Madame? Sendo ele alegria da gente humilde
é também a alegria dos da sua classe e ao mesmo
tempo o alicerce de uma música definitiva que se esboça
no cenário musical brasileiro. (...). "
Nos anos 40 Carmen Miranda fazia sucesso nos Estados Unidos -
país, visto por muitos brasileiros, como o exemplo de nação
moderna e civilizada. Estrelando no cinema norte-americano, Carmen
apresentava na terra do Tio Sam e em outros países da Europa
o samba como o ritmo brasileiro. Se os yankees haviam aprovado
o gênero, como Madame, tão aculturada, podia reprová-lo?
Continuando a desconstruir os argumentos de Mag que insistia em
desprestigiar o samba por ser música oriunda das camadas
populares, Lobo lembra da pobreza dos compositores eruditos e
da valorização da canção popular por
artistas brasileiros respeitados pela elite como o compositor
Vila Lobos e o pintor Candido Portinari.
Mas a contenda não para aí. Em 1946 foi a vez de
Afoché indignar-se com a arrogância elitista de Magdala
e mandar-lhe um recado: "... Temos lido críticas severas,
principalmente de inimigos deliberados e intransigentes da canção
popular como essa sofisticada e venerável matrona que se
assina Mag e que não compreende outra música, outra
emoção, outro sentimento que não seja o RAFINÉE.
Na mesma época que vemos Villa Lobos Stokowsky, Mignone
e outros musicistas de classe exaltarem a música fonte,
que é esta nascida da própria alma ingênua
da rua, do coração do povo, uma professora fracassada
e medíocre e de nível cultural abaixo da linha aceitável,
investe diariamente, com a bateria de sua intransigência,
contra tudo que é música popular, que vise a alegria
da massa ou encontre o caminho de seu agrado. (...). Todos os
compositores brasileiros, a seu ver, são analfabetos e
ignorantes. É impossível para Mag, que um lustrador
de móveis como Heitor dos Prazeres cante com ingenuidade
e sincera emoção a canção de seu amor.
E no entanto a National Gallery, de Londres expôs quadros
desse mesmo lustrador de móveis, Heitor dos Prazeres. Crítica
é livre, mas o leitor dessas críticas exige, antes
de tudo, honestidade. E é permitido voltar-se contra os
pareceres mal dados, se eles revelam vícios de origem,
suspeição má fé e intenção
de ser do contra de qualquer jeito. Se a maneira de Mag analisar
as canções populares variasse à medida que
fosse achando exceções, ainda era possível
acreditar em um louvado propósito. Mas nada disso acontece.
Tudo é ruim. Nada presta...."
O jornalista não polpa palavras, pretendendo desacreditar
Magdala frente ao leitor a acusa de incompetente para criticar
o samba, Para Afoché, o ponto de partida de Mag era o preconceito,
assim tendo só ouvidos para a música erudita, o
rafinée, não era capaz de discernir a boa da má
música popular fazendo tábua rasa de tudo.
Mas não bastasse os revides dos jornalista nos anos 40,
às posições de Magdala assumidas publicamente
em relação ao samba, fariam render ainda, dez anos
depois desse último artigo assinado por Afoché,
a canção marota da autoria de Haroldo Barbosa e
Janet de Almeida, Pra que discutir com Madame. Aliás essa
é uma boa pergunta, já que Mag era considerada limitada
intelectualmente, equivocada e pretensiosa ao querer julgar o
que deveria e o que não deveria ser a música brasileira,
por que mereceu tanto destaque, dispondo estes jornalistas a combate-la?
O fato é que essa contenda, embora fosse travada com Mag,
tem início lá nos anos 30, quando o rádio,
tateando em busca de uma programação mais ao gosto
do ouvinte, passou a difundir a canção popular carioca
- de acordo com os registros da imprensa da época - como
a canção popular nacional. No mesmo período,
investindo no sucesso que o samba conquistava no rádio,
o cinema nacional produziu os musicais carnavalescos, contribuindo
para tornar o gênero conhecido nacionalmente.
A luta das representações em torno da constituição
de uma identidade nacional marcaram sobremaneira o governo de
Getúlio Vargas que pretendia promover a unidade a fim de
assegurar o seu poder, eliminando as possíveis tensões
entre os diferentes segmentos sociais. Dessa maneira, ao mesmo
tempo que encontravam-se sediados no Ministério da Educação
e Saúde compositores eruditos como Villa Lobos, Vargas
não deixava de reconhecer os sambas e as marchinhas, como
representante legítimos da música brasileira.
Todavia, se essa era a postura de um governante populista, que
buscava harmonizar a sociedade ao promover um simbólico
comum, capaz de integrar aqueles setores sociais, até então
marginalizados de cidadania, no cotidiano as rixas continuavam.
Aliás em torno das mesmas representações
que pretendiam promover a unidade, como por exemplo a música.
O samba, pela sua origem negra e popular sempre foi hostilizado
por aqueles setores mais conservadores que se viam identificados
com a cultura européia. Para estes segmentos, aceitar o
samba como música nacional, significava internamente "misturar-se
ao povo" que tanto rejeitavam e externamente admitir um Brasil
atrasado, primitivo inferior às nações desenvolvidas.
Por isso pessoas como Magdala tentavam a todo custo rechaçar
o samba como identidade nacional. Esta é, portanto, uma
longa história que não termina nos anos 30, ou nos
40 e tão pouco nos 50. Apesar de nos anos 60 a bossa nova
aproximar os mais elitistas da canção popular, a
letra da composição de Haroldo Barbosa não
perde a sua contemporâneidade, pois as fronteiras sociais,
apesar de todo o hibridismo reinante na cultura de massa, continuariam
se perpetuando simbolicamente através da música.
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BIBLIOGRAFIA
ANDERSON,
B. - Nação e Consciência Nacional. São
Paulo. Ed. Scipione, 1995.
CABRAL, Sérgio.- No tempo de Almirante - Uma história
do Rádio e da MPB. RJ. Ed. Francisco Alves, 1990.
SQUEFF, E. & WISNIK, J.M. - O Nacional e o Popular na
Cultura Brasileira - Música. SP. Ed. Brasiliense,
1982.
SOUZA, Otávio.- Fantasias de Brasil: as identificações
na busca da identidade nacional. SP. Ed. Escuta, 1994.
TINHORÃO, José Ramos.- Música Popular
- do Gramofone ao Rádio e TV. SP. Ed. Ática,
1978.
_____________________.-
Música Popular - De índios, Negros e Mestiços.
RJ. Ed.
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Tania
da Costa Garcia
Professora de Sociologia da Comunicação da FACOM/FAAP
e de História da Comunicação da FIAM
Mestre em Ciências Sociais e Doutora em História
Social pela USP
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