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9 - 2 semestre de 2001 |
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Jorge Anthonio e Silva
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A Educação
Estética do Homem é, inicialmente uma composição
reflexiva como proposta de se ver o homem como organismo vivo
em constante transformação no seu compromisso com
a prática política. O caráter político
fortemente impresso nas nove primeiras cartas vai lentamente cedendo
passo para a pesquisa de âmbito metafísico, até
tornar-se um estudo antropogênico sobre a liberdade do sujeito.
Para o endendimento de Schiller o homem deve ser lido como uma
obra de arte porque é nesta que está manifesta a
totalidade de todo o saber livre, fazendo vibrar no contingente
logicamente produzido, a universalidade da transcendência.
O grande objeto sensível, como Las Meninas, de Velázquez,
A Ronda Noturna, de Rembrandt, Morte em Veneza, de Thomas Mann,
o Fausto, de Goethe e a sublime teia de Arthur Bispo do Rosário
exemplificam essa universalidade transformadora do conhecimento
através de objetos representativos, meros signos da liberdade
e da autonomia.
A qualidade estética no
homem é aquele bem novo que lhe permite a auto-determinação,
porque lhe restitui a liberdade de fazer de si instrumento em
evolução constante. Ser estético é
superar a contingência dada pela natureza das coisas e intoxicar
de cada um os rastros, com a segunda criadora do ser; a beleza.
Se para Kant a beleza está relacionada à ação
teórica, à subjetividade, para Schiller ela se faz
ato, relaciona-se à ação prática,
por isso pode-se falar de uma Estética Objetiva. O homem
físico deve tender ao moral, passando pelo estético.
Para isso a condição ideal do cidadão é
a de munir-se de vontade, buscando em si a superação
das paixões que obnubilam os julgamentos e do homem não
é outra a tarefa senão a de emitir juízos.
Quando Sartre afirma que o homem está condenado à
própria liberdade, fala como um antagonista pós-schilleriano,
que acaba por confirmar este último. Baseia-se no árduo
castigo das escolhas que, fatalmente, pressupõem um abandono.
Se tenho isso, não posso ter aquilo, reza a leitura rasa
do pensador francês. Para Schiller, ser estético
é fazer realizar em si e no coletivo a própria natureza
do homem que é o apetite pela liberdade, onde reside a
justeza e o divino do caráter humano, ainda que das escolhas
sobrevenha o abandono. Tanto no sujeito quanto na cultura, a liberdade
é um ideal a ser conquistado pela razão e fruído.
Na Carta VII, Schiller discute a liberdade sob a égide
do comportamento e do caráter alegando que onde o homem
natural abusa de seu arbítrio da maneira mais desregrada,
mal se lhe pode mostrar sua liberdade; onde o homem artificial
quase não usa a sua liberdade, não se lhe pode tomar
o arbítrio (§ 2). O problema da liberdade, chave do
sistema de Kant, vem da idéia cosmológica de uma
absoluta espontaneidade, resultante da elevação
da categoria de causalidade à da incondicionalidade. Kant
distingue dessa liberdade transcendental e que é a causalidade
absolutamente pensada, a liberdade prática que é
autonomia da vontade. Toma a razão como pressuposto da
liberdade e tem esta como causa prática no homem, uma vez
que transformadora para o aprimoramento e dotada de um caráter
inteligível e capaz de dar ao homem a lei do seu agir.
Mas a liberdade é anterior ao homem e está impressa
no mundo como força promotora do aperfeiçoamento
da máquina do universo que tem em seus desígnios
o acaso. Diferente é a liberdade experimentada pelo homem:
um efeito só possível no que Schiller determina
como homem in totum. Entende que esse homem é o que já
desenvolveu seus dois impulsos fundamentais (§ 1) Na idéia
de desenvolvimento está o aspecto temporal de cada um,
tanto no homem individual quanto em toda a humanidade. Depreende-se
que o percurso para a liberdade está prefigurado na força
mobilizadora da vontade sintonizada com a harmonia desses impulsos
. Na possibilidade de sua humanidade plena, o homem está
por princípio determinado pelo desequilíbrio natural
entre esses impulsos e, embora sendo o domínio da razão
a sua maior conquista, está ainda sujeito à prevalência
do sensível porque a condição humana é
a da contradição. Nos períodos da vida em
que não desenvolveu por completo sua liberdade (por isso
está temporalidade e pode evoluir) é um poder tornar-se
pessoa porque ainda determinado pelas sensações.
Antropologicamente o homem é,
primeiro, sensível porque antes de ter todos os recursos
da razão desenvolvidos, vive sob a primazia das leis dos
sentidos. Experimenta, sente, responde fisicamente. A razão
absoluta está nele, carecendo do trabalho constante para
o amadurecimento e nisso a educação, seja pela imitação,
seja pela construção no aprender, atua e desenvolve
o papel constituidor do caráter. Esta é a concepção
estética de Schiller, uma teoria de fases evolutivas, na
qual a beleza não é objeto da experiência
sensualizante e agradável aos sentidos apenas, com também
não é construída somente pela razão
porque o sensível e o racional devem estar postos em relação
de equilíbrio harmônico no sujeito livre e este em
relação de homeostase com os fenômenos. Exemplo
concreto é dado no § 4 da Carta XX quando sustenta:
Todas as coisas que de algum modo
possam ocorrer no fenômeno são pensáveis sob
quatro relações diferentes. Uma coisa pode referir-se
imediatamente a nosso estado sensível (nossa existência
e bem-estar); esta é sua índole física. Ela
pode, também, referir-se a nosso entendimento, possibilitando-nos
conhecimento: esta é sua índole lógica. Ela
pode, ainda referir-se a nossa vontade e ser considerada como
objeto de escolha para um ser racional: esta é sua índole
moral. Ou, finalmente, ela pode referir-se ao todo de nossas diversas
faculdades sem ser objeto determinado para nenhuma isolada entre
elas: esta é sua índole estética. Um homem
pode ser-nos agradável por sua solicitude; pode, pelo diálogo
dar-nos o que pensar, pode incutir respeito pelo seu caráter;
enfim, independentemente de tudo e sem que tomemos em consideração
alguma lei ou fim, ele pode aprazer-nos na mera contemplação
e apenas por seu modo de aparecer. Nessa última qualidade
julgamo-lo esteticamente. Existe, assim, uma educação
para a saúde, uma educação do pensamento,
uma educação para a moralidade, uma educação
para o gosto e a beleza.
A semelhança com as quatro
fases de Aristóteles é clara, um vez que para o
estagirita os objetos do mundo compreendem quatro causas: a material,
a eficiente, a final e a formal. A partir do objeto (causa material)
Schiller propõe três possibilidades de leitura ajuizadas
pela mente. Uma vez apresentado o objeto do conhecimento ao sujeito,
irrompem os juízos que são os três pilares
constituidores de toda a intelecção do mundo. Dado
o fenômeno, pela Lógica é reconhecido em sua
constituição de materialidade. Sobre ele o sujeito
estabelece juízos de valores, instalando-o na métrica
da Moral e, finalmente, pode ser lido em sua totalidade de bem
pela Estética. O homem schilleriano é um universo
em perene construção, um sujeito renovado dentro
da alteridade do mundo, fonte de renovos e instrumento em busca
da perfeição. Por mais aprisionado que esteja à
ignorância é convocado pela sua natureza racional
a sair da imanência para transcender a tudo, tornando-se
uma divindade em si na medida da busca de sua plenitude duradoura.
Se o homem não quer o aprisionamento à natureza
apenas, satisfazendo as necessidades básicas roussonianos;
a perpetuação, o descanso e a alimentação,
é porque está dotado do livre-arbítrio e
este é a ante-sala do conhecimento verdadeiro, sem a mácula
da crença apenas. Conhecer é o destino do homem,
por isso recusa-se a ser apenas natureza. Por isso desafiou o
Criador, porque quer a razão esclarecer os domínios
da natureza, universalizando o que conhece, tornando tudo uma
possibilidade de discurso, porque a linguagem é a substância
do pensamento. É preciso indagar, nunca estar satisfeito
com o que se sabe, buscar na ordem da vontade o ilimitado porque
a razão faz habitar na espécie algo indizível
que apenas se consegue chamar pobremente de liberdade. Mas a liberdade
existe como potência e deve ser transformada em ato pela
razão. Como na semente a primeira está inserida,
mas só se corporifica no ato futuro de ser fruto, dependendo
da ação, do cuidado, da rega. Um fruto que carece
da ação transformadora da natureza para que se perpetue
na constância do messidor. Significa, ainda, buscar a generalidade
na medida em que se rompem espaços, abrindo brechas através
do motor secreto das representações com as quais
o homem cria universos de beleza inteligente como a Lógica,
a Política, a Metafísica, e a Teologia. Mas também
realiza, em seu lento processo em direção à
infinitude, algo em muito inútil, em muito sem função
imediata como a poesia, a música, enfim, a arte dos belos
quadros, das leves esculturas, da leveza da dança. Toda
a arte é libertadora porque desaprisiona, elimina interditos
pondo o sujeito em sua condição divina, fazendo
nele existir um continuum utópico porque vai idealisticamernte
além do que é meramente dado. Se a arte é
um projeto de infinitude é porque em nada se enquadra a
não ser como relação aprimoradora entre si
o artista e o fruidor. É preciso educar-se esteticamente
para que em cada um se garanta a justeza e o rigor dignificante
dos juízos inexoráveis.
O pensador de Marbach pensa a educação de forma
contrária a Rousseau (1712/1778) e semelhante a Kant. Ela
deve ser um instrumento de construção do sujeito
pautado na liberdade da vontade para o aprimorar-se. Mais que
isso, deve ser um exercício constante que busca equilibrar
os sentidos e a razão, ambos fonte de todo o julgamento
realizado pelo sujeito e em desarmonia, com a sujeição
de um ao outro. Quando o sentidos impõem-se unilateralmente
como determinação da conduta, quando as paixões
determinam a ação, a possibilidade de erro nos juízos
sobre os fenômenos do mundo é evidente porque o saber
empírico apenas, obscurece a razão. Mas só
a razão apartada das humanidades sensíveis não
dá conta do homem em sua completude, porque aniquila a
amorosidade transcendente do caráter. Elimina aquilo que
no homem é o repertório de sua própria humanidade;
o belo sentimento. Nesse caso, ignorar a amorosidade do outro
desfaz toda a beleza que dignifica o homem em seu destino de colocar-se
positivamente em todas as suas dimensões de conhecimento
no cosmos. Educar-se significa buscar o equilíbrio entre
essas duas instâncias antagônicas, fazendo-as plasmar-se
em homeostase para que o mundo e seus fenômenos sejam constantemente
o palco da serenidade, do equilíbrio e da justeza humana.
É como olhar as estrelas à noite e perceber a harmonia
do Cosmos, o movimento plástico sereno e firme dos astros,
o equilíbrio dos movimentos que se complementam e perpetuam
no grande teatro da escuridão. Se a razão e os sentidos
constroem a subjetividade, a interioridade humana, que assim o
façam tomando-se a bela humanidade como um caminho evolutivo
para o ideal da perfeição. O ser schilleriano, portanto,
é ético porque se auto-regula dentro de uma verdadeira
ciência do comportamento, pondo-se no mundo como motor de
uma ética universal em sua plena humanidade. É quando
a arte é vista como um caminho educativo sem precedentes.
O homem, ele mesmo é o próprio modelo de arte, porque
aos olhos de sua humanidade é belo e, consequentemente,
bom e verdadeiro. O modelo justifica a assertiva de que a experiência
da beleza extingue toda a instabilidade inscrita numa desarmonia
interior recorrente, uma vez que a beleza promove a interação
livre de todas as forças psíquicas.
Schiller não legou um sistema educacional, de base antropológica,
(como o Emílio), que desse conta de uma prática
empírica dessa eticidade. Sua reflexão não
se esgota no tempo porque é hipótese de uma ética
social de matiz clássico com a busca de totalidades na
inserção humana no mundo, para ele esquecida quando
a poesia separou-se da vida cotidiana. Acredita que a possibilidade
de um mundo fundamentado nesses princípios humanizadores
pode existir, uma vez que já existiu na história.
A Polis de Epicuro, a Metempsicose, ou transmigração
das almas platônica, a música das esferas de Pitágoras,
a beleza racional da Matemática e a democracia garantida
pela Gerúsia ou Conselho dos Anciães foram construções
estéticas na metafísica e na convivialidade grega.
Se a arte está contaminando toda a ação humana,
ela pode ser um princípio ético a todo procedimento,
agregando no mundo da diversidade e de fragmentos, um princípio
e um fim de beleza totalizadora. Nada mais adequado a todas as
épocas, pois todas as épocas e todos os povos, ainda
que na dureza da vida primitiva, desenvolveram sistemas de representações
artísticas. Podem carecer de uma ciência particular,
de uma observação astronômica sistematizada,
de uma matemática plena, mas uma arte e formas particulares
de crença na sacralidade, nunca lhes faltoui. Por isso
a beleza no conhecer. Qualquer ele, e por isso, também,
as meigas e fortes palavras proféticas da Carta XXV Quando
surge a luz no homem, deixa de haver noite fora dele; quando se
faz silêncio nele, a tempestade amaina no mundo, e as forças
conflituosas da natureza encontram repouso em limites duradouros.
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BIBLIOGRAFIA
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França, 1998
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Jorge
Anthonio e Silva
Professor
de História da Arte II na FACOM
e de Ética no Programa de Pós-Graduação
do Centro Universitário Ibero-Americano
Autor de O Fragmento e a Síntese - Sobre a Educação
Estética do Homem,
de Friedrich von Schiller, (Ed. Perspectiva-SP - no Prelo)
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