nº 9 - 2 semestre de 2001      


Jorge Anthonio e Silva

Partidos estão os vasos harmoniosos,
Os pratos com a face grega,
As cabeças douradas dos clássicos.
Mas o barro e a água continuam a girar
Nos casebres dos oleiros.
(Brennand)

         


Nunca os alemães foram tão helênicos como no Século XVIII. Tempo da grande interlocução com o passado clássico, para a Filosofia significou um renascimento, com a retomada do pensamento grego, aquele de que as ações humanas devem ser conduzidas por ideais, construídos pelo ato da subjetividade inteligente, passíveis de materialização ou não. Com indagações correlatas na França onde os resultados do pensamento foram corporificados em estruturas modelares da transformação social, o Século das Luzes (Aufklarung) na Alemanha, fez vibrar a força da crença no eu ideador, fundando na subjetividade o instrumento para a recepção e intelecção do mundo, historicamente marcado por problemáticas de coação individual e coletiva, dentro de sistemas sócio-políticos de indiferença aos ideais de liberdade e justeza pública.

A Kant (1724/1804) coube a árdua e sacrificante tarefa de construir um complexo sistema de pensamento, uma moderna Teoria do Conhecimento, buscando a validade lógica do saber tendo como pressuposto (stricto sensu) a razão, à qual confere o arbítrio da liberdade, da universalidade do conhecimento puro com as inovadoras leituras dos referenciais do apriorismo e do aposteriorismo. A influência do solitário pensador, da então Königsberg sobre toda a reflexão filosófica que lhe seguiu foi definitiva, assim como foi definitiva sua influência na intelecção das realidades da arte.

Com Crítica da Razão Pura (1781) revelou aos segmentos da criação reflexionante a determinação causal e mecânica do reino da natureza, lendo ontologicamente o homem como ser imerso na realidade dos fenômenos, buscando decifrá-los. Legou daí estudos sobre a subjetividade do tempo e do espaço instâncias, sem as quais, o conhecimento inexiste. Com a Crítica da Razão Prática (1788) deu a conhecer uma teoria sobre o homem do querer moral, da vontade e da ação, e cuja determinação prática é a liberdade. Sua Crítica da Faculdade de Julgar (1790) forneceu as bases teóricas para o que se pode caracterizar como o criticismo romântico alemão e as fundações de uma nova Estética. Enquanto na França são erguidas barricadas e a guilhotina desce sobre cabeças coroadas, na Alemanha, sob a égide de Kant pesquisa-se a beleza, o passado, a moral; Goethe (1749/1832) completa suas Elegias Romanas e uma intelectualidade vibrante busca a unidade lingüística e cultural alemã com o ideal da Weltliteratur. Poesia, escultura, teatro, pintura, música e o gosto pelo belo foram copiosamente investigados ao tempo em que a Estética (Aisthesis = sensação, sentimento) se impunha como um segmento teórico individual de reflexão e como disciplina particular de conhecimento crítico-filosófico.

A Baumgarten, deve-se essa individuação estabelecida já em 1750 com a obra Estética Acromática, tratado definidor da "ciência do belo". Em 1755 vêm à luz as reflexões acerca da imitação de obras gregas, de Winckelmann, fundador da arqueologia científica e da historiografia alemã, e em 1766, na mesma direção, Lessing examina a arte relacionalmente, ao publicar o Laocoonte, ou Sobre as fronteiras da Pintura e da Poesia, análise redimensionadora do pensamento estético e precursora da especificidade significativa de duas categorias de representação até então postas na mesma base, a música e as artes belas. Mas é sob Kant que ocorre um verdadeiro redimensionamento filosófico no Ocidente com resultados que incluem o trabalho reflexionante do médico, dramaturgo, poeta professor e editor, Johann Christoph Friedrich von Schiller (1759/1804).

É, ao lado de Goethe a grande expressão no fértil contexto em que se inaugura um caráter inovador de análise da Estética e da crítica filosófica. Autor diferenciado entre seus pares, pode ser analisado na medida de seu teatro, de sua lírica e de sua postura crítico-filosófica. Refletindo a Estética como intermediação possível para a educação e o aprimoramento ético da humanidade, em 1784 publica O Teatro Considerado como Instituição Moral, opúsculo que propugna um estado conciliador entre os sentidos e a razão, tendo a arte teatral feito um meio para esse objetivo, com o concurso da catarse trágica que purifica as paixões e adensa a razão reorientando-a. A visão cosmológica do homem, como no mundo helênico, é outro evidente sinal na obra do pensador de Marbach. Para o homem grego a arte se presentificava na habilidade inteligente do fazer, na tekné, o que lhe garantia um princípio epifânico de totalidades entre si e o homem, pois que a transcendência da arte deveria estar em cada realizar empírico humano. Entende Schiller que a especialização constante do mundo objetivo fez desaparecer o senso de sacralidade antes impresso no viver comum, como entendida a habilidade para a realização de coisas, que tanto faz regenerar sentimentos adormecidos no homem, pondo-o como instrumento estético em conjunção do geral e do particular, entre o transitório e o permanente, entre o físico e o metafísico. Equilibrando antagonismos com a sábia inflexão dos pincéis, da voz que glorifica o som, das mãos que escrevem églogas e dos cinzéis que da pedra bruta fazem uma representação sensível, o artista demonstra criativamente a força da Estética na conformação da nobreza do caráter, porque razão e sensibilidade são o substrato do fazer artístico na criação e na formulação do objeto de arte. O verdadeiro feito da arte demanda o humano jogo das formas sensível e racional na recepção e convoca o fruidor a juízos. Por isso a arte pode ser instrumento de educação. No ato da contemplação, o fruidor conjuga o entendimento ao belo receber daquela, pondo-se em suspensão ao integrar-se amorosamente ao que vê. O que seria do mundo sem as categorias da arte? Um estoque de técnica e ciência reduzido a relações causais, preso à lógica das relações utilitárias. O mundo da cultura seria uma questão prática, de causa e efeito apenas, como o é o da natureza. Mas, embora a natureza seja o grande modelo de beleza mimética e um mistério a ser constantemente desvendado pela razão científica, ela não é capaz de significar, ela não tem a autonomia do signo porque é só do homem a tarefa de criar representações, e a mais visceral de todas é a arte, feita de intelecção e sensibilidade, as matérias primas do ser.

O que também individualiza Schiller na Alemanha do Século XVIII é sua capacidade de pensar multidisciplinarmente a arte, fazendo-a possibilidade analítica no sentido do julgamento ético da atitude histórica (Mary Stuart, Guilherme Tell, Joana D´Arc, A Conjuração de Fiesco, Dom Carlos) com personagens que, não poucas vezes, são postos em xeque entre o vício e a virtude.

A constante tendência a amalgamar a criação literária com o exercício reflexivo da filosofia em Schiller resulta em sua Poesia Filosófica na pequena obra que mais se justifica como tratado do pensamento: A Educação Estética do Homem numa série de Cartas (Über die ästhetische Erziehung des Menschen in Eine von Briefe). Trata-se de um ensaio escrito de fevereiro a dezembro de 1793 na forma de cartas ao seu mecenas, o príncipe dinamarquês Friedrich Christian von Schleswig-Holstein-Sondenburg-Augustemburg, as Cartas de Augustemburg, como comumente conhecidas, são um registro de excelência para a pesquisa sobre o Romantismo e o Idealismo alemão, tal a sua característica de composição filosófico-literária. O hábito do texto confessional e epistolar vinha sendo objeto da investigação intelectual e revelou em 1782 um primor de invenção narrativa com a magnificência da obra francesa Les Liaisons Dangereuses, do jacobino Choderlos de Laclos. O girondino Schiller, enfraquecido com a febre fria mas maduro como dramaturgo e poeta, adota essa forma de escritura e, sob a influência de Kant, Schelling (1775/1854), dos sensualistas ingleses, especialmente o Conde de Shaftesbury (1671/1713), tendo sempre presente a escritura de Goethe (1749/1832), produz um tratado estético como confessional agradecimento intelectual ao príncipe que, o subsidiou nos difíceis últimos anos com uma pensão de mil táleres. Com isso conforma seu estudo literário-filosófico sobre a possibilidade da educação ética da humanidade fundamentada no recurso estético, pautado na lógica das relações entre o sujeito e toda a sua alteridade, intermediados pelo belo, escopo da obra de arte, instrumento que aprimora. Fica aqui dada a sua contribuição analítica sobre os temas em voga em seu tempo; a Estética e a Educação. Trata-se de um pequeno roteiro analítico em 27 cartas que vieram a converter-se em possibilidade de direcionamento do caráter para a grandeza do belo viver, da bela recepção do mundo, do belo responder aos fenômenos da existência.

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