nº 9 - 2 semestre de 2001      


Julia Raposo
Acompanhando os últimos acontecimentos internacionais, deparamo-nos com muitas imagens de mulheres com suas cabeças cobertas por lenços, como véus. O uso de tal indumentária nos remete a alguns significados de caráter religioso ou cultural. Esse traje conota um respeito imposto frente à situação feminina em determinadas sociedades.

Lembro-me então de uma fotografia de Flávio Damm. Será que o fotógrafo poderia imaginar que, anos mais tarde, sua imagem poderia adquirir uma outra interpretação, ou o confronto entre o oriente e o ocidente? Por ironia, a fotografia foi realizada em Nova Iorque, onde tudo começou. Jornais de todo o mundo publicaram exaustivamente a imagem da destruição do maior símbolo do poder econômico norte americano. E agora, rompendo a linha do tempo, colocamos a fotografia de Damm logo após a do ataque ao WTC, criando, assim, uma narrativa histórica dos fatos que estão abalando o mundo.

Esqueçamos por alguns minutos que a fotografia é um fragmento espaço-temporal considerada como documento histórico, no momento em que registra um acontecimento ou fato. Passemos a olhar a fotografia a partir do seu valor conotativo e iremos perceber que a imagem realizada décadas atrás ultrapassa aquele olhar que determinou um recorte do mundo visível e atualiza-se dentro do contexto político. Mas, antes de devolvê-la a uma nova linha do tempo - deslocando-a cronologicamente - observemos a imagem minuciosamente. Ela nos mostra duas mulheres supostamente trocando olhares entre si e trajando o respeitoso lenço sobre suas cabeças. A mulher disposta à esquerda apresenta os braços cruzados e aparece em primeiro plano em uma cena de rua, em oposição, uma bela e jovem mulher está disposta à direita do quadro, em uma imagem publicitária. O posicionamento de ambas - uma voltada para a outra - forma uma imagem especular caricata, colocando-as também em posição de confronto. Apresenta-se, então, um discurso dicotômico através dos contrastes apresentados no plano figurativo, entre a representação de uma mulher bonita e seu oposto, assim como na plasticidade da composição da imagem. Contrariando uma das heranças originadas da pintura - a lei dos terços - a fotografia mostra uma divisão central, visível graças a uma linha vertical, colocando frente a frente o real e o imaginário, o conservadorismo e o arrojado. A linha atravessa e divide o quadro em dois, reforça o antagonismo existente em cada um dos lados e, através de uma leitura atualizada, enfatiza a oposição entre oriente e ocidente (na imagem as figuras ocupam seus espaços invertidos). O uso do véu, na figura posicionada a esquerda, representa a posição marginal que a mulher ocupa em países como o Afeganistão assim como sua submissão diante de um autoritarismo disfarçado por um discurso religioso. Esse discurso que impõe o véu visando a proteção da mulher contra os perigos do mundo, justifica algumas práticas comuns nesse país, tais como permitir que essa mulher morra por falta de assistência médica, já que ela não pode ser atendida por homens e não é permitido que mulheres exerçam essa profissão (ou outra qualquer). Do outro lado, a sedutora mulher usa cosméticos (também proibido nesse país) e está colocada sob os dizeres: "Redone, Redeemed, Remakable!". Essa mensagem a liberta das conseqüências do pecado que ela voltou a cometer (o uso de cosméticos tem como punição chicotadas) e a torna extraordinária, num mundo onde todas as mulheres aparentam ser iguais dentro de suas burkas.

Julia Raposo
Professora de Análise da Imagem da FACOM/FAAP
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP
e doutoranda em Jornalismo Comparado pela ECA-USP