Acompanhando
os últimos acontecimentos internacionais, deparamo-nos com
muitas imagens de mulheres com suas cabeças cobertas por lenços,
como véus. O uso de tal indumentária nos remete a alguns
significados de caráter religioso ou cultural. Esse traje conota
um respeito imposto frente à situação feminina
em determinadas sociedades.
Lembro-me então de uma fotografia de Flávio Damm. Será
que o fotógrafo poderia imaginar que, anos mais tarde, sua
imagem poderia adquirir uma outra interpretação, ou
o confronto entre o oriente e o ocidente? Por ironia, a fotografia
foi realizada em Nova Iorque, onde tudo começou. Jornais de
todo o mundo publicaram exaustivamente a imagem da destruição
do maior símbolo do poder econômico norte americano.
E agora, rompendo a linha do tempo, colocamos a fotografia de Damm
logo após a do ataque ao WTC, criando, assim, uma narrativa
histórica dos fatos que estão abalando o mundo.
Esqueçamos por alguns minutos que a fotografia é um
fragmento espaço-temporal considerada como documento histórico,
no momento em que registra um acontecimento ou fato. Passemos a olhar
a fotografia a partir do seu valor conotativo e iremos perceber que
a imagem realizada décadas atrás ultrapassa aquele olhar
que determinou um recorte do mundo visível e atualiza-se dentro
do contexto político. Mas, antes de devolvê-la a uma
nova linha do tempo - deslocando-a cronologicamente - observemos a
imagem minuciosamente. Ela nos mostra duas mulheres supostamente trocando
olhares entre si e trajando o respeitoso lenço sobre suas cabeças.
A mulher disposta à esquerda apresenta os braços cruzados
e aparece em primeiro plano em uma cena de rua, em oposição,
uma bela e jovem mulher está disposta à direita do quadro,
em uma imagem publicitária. O posicionamento de ambas - uma
voltada para a outra - forma uma imagem especular caricata, colocando-as
também em posição de confronto. Apresenta-se,
então, um discurso dicotômico através dos contrastes
apresentados no plano figurativo, entre a representação
de uma mulher bonita e seu oposto, assim como na plasticidade da composição
da imagem. Contrariando uma das heranças originadas da pintura
- a lei dos terços - a fotografia mostra uma divisão
central, visível graças a uma linha vertical, colocando
frente a frente o real e o imaginário, o conservadorismo e
o arrojado. A linha atravessa e divide o quadro em dois, reforça
o antagonismo existente em cada um dos lados e, através de
uma leitura atualizada, enfatiza a oposição entre oriente
e ocidente (na imagem as figuras ocupam seus espaços invertidos).
O uso do véu, na figura posicionada a esquerda, representa
a posição marginal que a mulher ocupa em países
como o Afeganistão assim como sua submissão diante de
um autoritarismo disfarçado por um discurso religioso. Esse
discurso que impõe o véu visando a proteção
da mulher contra os perigos do mundo, justifica algumas práticas
comuns nesse país, tais como permitir que essa mulher morra
por falta de assistência médica, já que ela não
pode ser atendida por homens e não é permitido que mulheres
exerçam essa profissão (ou outra qualquer). Do outro
lado, a sedutora mulher usa cosméticos (também proibido
nesse país) e está colocada sob os dizeres: "Redone,
Redeemed, Remakable!". Essa mensagem a liberta das conseqüências
do pecado que ela voltou a cometer (o uso de cosméticos tem
como punição chicotadas) e a torna extraordinária,
num mundo onde todas as mulheres aparentam ser iguais dentro de suas
burkas.
Julia
Raposo
Professora de Análise da Imagem da FACOM/FAAP
Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP
e doutoranda em Jornalismo Comparado pela ECA-USP
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