| É
possível traçar um paralelo entre a primeira e a mostra
dos 50 anos?
Professor
Paulino: Como já disse:
não fui, embora eu continue achando importante a Bienal hoje
não sinto mais a arte, ela se distanciou do público,
ela se tornou uma mera brincadeira, mais um jogo do que realmente
apreciação de formas, conteúdos, nuances. Não
consigo me divertir apenas apertando um botão....
A Pop Arte, por exemplo, era "divertidinha" mas não
me significava nada, era apenas a apresentação de
um outro lado.
A arte perdeu seu conceito. O cinema, apesar da atual avalanche
de grandes efeitos de sonoros e visuais, ainda mantém uma
sensibilidade, um sentimento, como recentemente "Dançando
no Escuro".
A arte na primeira bienal eram buscas, ainda no expressionismo,
ou em Mondrian, eram buscas.
Professora
Lícia: Traçar um
paralelo entre a primeira Bienal e esta é lembrar os momentos
de crise dos seus organizadores, Aliás, lembrar da Bienal
é lembrar de crise, de grandes escândalos, de confrontos
que foram criados pelo próprio Ciccillo Matarazzo em 1962
quando transformou a Bienal em Fundação. A partir
desta data o foco principal da exposição passou a
ser o ego e as disputas de seus curadores, muitas vezes esquecendo
da própria razão da exposição. Mas além
das crises, o que liga as duas Bienais, é sem dúvida
a proposta de inovação, o arrojo para propor uma mudança
no cenário da arte contemporânea e sem dúvida
o profissionalismo e a globalização da arte.
Professor
Máximo: Contrariamente,
as primeiras bienais primavam pela luz, algumas excessivas. As obras
que tivessem as paredes voltadas para os dois lados dos janelões
ficavam boa parte do dia expostas diretamente aos raios de sol que
as atravessavam.
As obras, boas ou calamitosas, bastavam-se por si mesmas. Hoje o
texto faz parte da obra, quando não é a própria.
Ficava a impressão que as artes plásticas pretendiam
uma independência em relação às outras
artes, indústria ou costumes. Hoje recorre-se ao telão,
à tela de 360 graus e mesmo, à vitrine.
As primeiras bienais procuravam nos atingir através de choques
estéticos da visão. Hoje elas apelam apara os cinco
sentidos.
Antes, certas obras eram de tal maneira intelectualizadas que mais
pareciam masturbação mental. Hoje a masturbação
é explícita.
Quando me deparei com aqueles trilhos que nunca se encontrariam
no infinito... mas, no andar superior da Bienal, lembrei-me de um
acontecimento da 7a. Bienal. Nela trabalhei intimamente com Geraldo
Ferraz, um dos curadores. Contou-me que quando da montagem da sala
francesa, havia uma escultura, ou coisa que o valha, que consistia
num cano, quadrado, com 10cm cada lado, de aço inoxidável,
lustradíssimo. O material formava um grande quadrado de 3m
x 3m. Podia ser o despojamento total, Podia ser a abstração
geométrica. Podia ser variantes variáveis de variações
várias, isto é, podia ser, também, empulhação.
Geraldão, com a educação e cultura universal
que os anos lhe dera, sagazmente tentava obter do curador por que
trouxera aquilo. Logo que o francês percebeu a matreirice
do brasileiro cortou-lhe o barato com o anátema: "pás
d´explication".
Sábias palavras. Sábio conceito. Quanta coisa explica:
pás d´ explication. Serve para Altamira, serve para
qualquer instalação. Serve tanto para a primeira Bienal
como para a atual. Serve, mesmo, para não explicar o cinema
iraniano.
Seria
possível escolher, entre todas as Bienais, a que fosse mais
expressiva?
Professora
Lícia: É difícil
escolher a Bienal mais importante, Poderíamos destacar as
que ficaram mais famosas: a da Guernica, a do Pollock, a do AI-5,
esta última porque significou a descontinuidade da mostra
e porque eu já entendia o que estava acontecendo. Com relação
as obras que mais me impressionaram, uma me marcou especialmente,
a cabeça de Ivan Serpa
Professor
Máximo: A Segunda Bienal
era a glória. As comemorações do Quarto Centenário
da cidade exigiam tudo se materializasse no apoteótico estilo
de uma sinfonia de Mahler.
Dois grandes pavilhões do recém inaugurado Parque
do Ibirapuera, idealizados por Niemayer - o das Nações
e o dos Estados - transbordavam de modernidade. Se a primeira Bienal
era possível vê-la em 2 horas, a segunda exigia, 2
dias. Era cansativa como toda Bienal ou Museu. Para cada tela importante,
havia dezenas sem a menor qualificação mas, pela primeira
vez, apareciam as Salas Retrospectivas dedicadas a mestres consumados:
Henry Moore, James Ensor, Oskar Kokoschka, Mondrian e a inesquecível
de Paul Klee.
A retrospectiva Picasso além de desenhos, gravuras e pinturas
trouxe a Guernica, que pela primeira vez deixava o Moma de Nova
York para viajar. Numa das tantas vezes que revisitei a obra deparei-me
com dois espanhóis discutindo violentamente, quase a navalhadas,
a estética do quadro, baseados, imaginem só - no realismo
socialista - pregado pelo paizinho de todas as Russias. Nem só
a cidade tinha quatrocentos anos...
Na área brasileira tinha-se um grande panorama dos que já
eram indiscutíveis como Livio Abramo, Goeldi, Flávio
de Carvalho, Teruz, Bandeira, Bonadei, Djanira. Alguns estavam se
cristalizando e outros teriam fama a partir da Bienal: Lula Cardoso,
Geraldo de Barros, Lygia Clark, Lothar Charoux, Flexor, Gobbis,
Krajberg, Manabu, Mohali, Overbeck, Penteado, Wega, Sacilotto, Volpi,
Zanini, Mario Cravo, Leirner, Faiga, Caran e os insuperáveis
Aldemir e Grassmann.
Ter acesso de uma só vez a tamanha diversidade e gozá-los
num só espaço, levou-me às lágrimas.
Como sócio do MAM tinha ingresso livre na Bienal. Visitava-a
todos os domingos, deglutindo lenta e democraticamente Klee e o
Paraguai, Moore e Portugal, Kokoschka e Luxemburgo.
Eram dias de verão senegalesco, de sol vertical. A atmosfera
sufocante duplicava após a viagem de ônibus e a longa
caminhada até o Pavilhão das Nações,
de paletó e gravata, como exigia a ética masculina
da época. A primeira vista, sempre, era ao setor norte americano
onde estavam os móbiles de Calder, às dezenas, volatilizando
espaços horizontais e verticais ao sabor dos grandes ventiladores
espalhados no local, além do vácuo produzido pelos
corpos dos visitantes, À medida que me aproximava do local
da participação americana prelibava o choque térmico
que tomaria. O refrigério acontecia no sentido físico
e metafísico. As volutas graciosas e repetitivas que os objetos
praticavam formavam abstrações espiritualizadas nas
quais nunca encontrei referencial musical por mais que divagasse
Pierrot Lunaire e Webern.
Professor
Paulino: Não sei definir,
a partir de um certo momento perdi o referencial, no fim, o que
sobrou, foram as que me transmitiram sentimentos, dor, raiva, alegrias...
A Bienal passou cada vez mais a perder a expressão. A própria
Feira do Livro, exposições, festivais de cinema se
tornaram circos. A arte moderna se transformou nisto: a visita de
um monte de alunos que sequer refletem sobre o que estão
vendo, é importante mostrar Rodin, mas não o transformar
em mero show, que dias depois já foi esquecido. Claro que
sempre sobra alguma coisa, mas será que o mais valioso não
seria o mostrar em salas de aula, chamando a atenção
para a força dos seus detalhes?
Há
alguma lembrança peculiar sua sobre a Bienal?
Professora Lícia: Tenho sim, meu pai era
assessor do Prof. Bardi quando sob a influencia de Duchamps a Bienal
passou a ter uma leitura diferente que eles chamavam de anti-arte.
Foi chocante, nós andávamos entre aquelas "coisas"
no chão e dependuradas, e a minha mãe e meu pai se
questionavam se aquilo fazia sentido. Enquanto eu e meus irmãos
achamos o maior "barato" porque era parecido com a bagunça
que nós fazíamos lá em casa. Mais do que tudo
a Bienal passava a sensação de pertencer a modernidade
de estar incluída no mundo desenvolvido
Professor
Máximo: Não sou
o senador Arruda mas juro que foi verdade. Ouvia-se repetidamente
que os prêmios da Bienal eram ajustados. Mais pareciam briga
de motoristas. Quem mais berrava estava com a razão. O prêmio
a um cubista em 1955, mesmo que Fernand Léger, era dose elefantina.
Estados Unidos e Itália, comprovadamente assim venceram.
E depois falam do Oscar. da Palma de Ouro. do Leão, do Saci...
Posso jurar que havia marmelada porque estive no meio de um deles.
Certa manhã, em 1957, minha mãe e irmãs me
procuravam ansiosamente. Um funcionário de MASP, ainda hoje
dileto amigo, estava a minha cata desesperadamente. Quando entrei
em contato implorou que fosse imediatamente ao museu porque o Bardi
queria falar comigo. Lá chegando, o velho mestre, ( no sentido
específico do vernáculo porque fora seu aluno em 1947-48-49)
me propunha uma sacanagem. A Bienal está sendo organizada,
nem todos as obras haviam chegado e o Grande Prêmio já
fora destinado ao italiano Giorgio Morandi.
O programa de de rádio, "O Céu É O Limite",
de Tupi, de Chateaubriand, queria alguém para responder sobre
ele. Como haviam contado, vero, que eu tinha grande memória,
ele se responsabilizava em preparar-me para responder, a partir
da semana seguinte. Sou amigo pessoal de Morandi, vero, possuo todos
os livros que falam dele, vero. Podemos ganhar um bom dinheiro!
A oferta era tentadora, principalmente para quem não filmava
há meses, se encontrando no apogeu da miséria. Mas,
refuguei. Tive receio de me borrar todo e decepcionar as expectativas
de quem depositava tantas esperanças em coisa que sempre
fui deficiente: memória. Além disso, com que moral
poderia dali para a frente malhar o Oscar, Cannes, Veneza, Edimburgo,
Locarno e São João do Mertí? Vero.
Professor
Paulino: Fiquei impactado quando
do surgimento das instalações... saí de lá
sem ter entendido, sentindo-me um completo inculto.
Havia, por exemplo, uma piscina de 4 x 5 m com uma tábua
para as pessoas passarem, entendo o sentido, mas não me emociona...
e se não me emociona : "Tchau!"

No Trianon, em 1950 realizou-se a 1 Bienal
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Luciana
Rodrigues
Cineasta e Professora do Curso de Cinema da FACOM
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