nº 9 - 2 semestre de 2001      


Luciana Rodrigues
É possível traçar um paralelo entre a primeira e a mostra dos 50 anos?

Professor Paulino: Como já disse: não fui, embora eu continue achando importante a Bienal hoje não sinto mais a arte, ela se distanciou do público, ela se tornou uma mera brincadeira, mais um jogo do que realmente apreciação de formas, conteúdos, nuances. Não consigo me divertir apenas apertando um botão....
A Pop Arte, por exemplo, era "divertidinha" mas não me significava nada, era apenas a apresentação de um outro lado.
A arte perdeu seu conceito. O cinema, apesar da atual avalanche de grandes efeitos de sonoros e visuais, ainda mantém uma sensibilidade, um sentimento, como recentemente "Dançando no Escuro".
A arte na primeira bienal eram buscas, ainda no expressionismo, ou em Mondrian, eram buscas.

Professora Lícia: Traçar um paralelo entre a primeira Bienal e esta é lembrar os momentos de crise dos seus organizadores, Aliás, lembrar da Bienal é lembrar de crise, de grandes escândalos, de confrontos que foram criados pelo próprio Ciccillo Matarazzo em 1962 quando transformou a Bienal em Fundação. A partir desta data o foco principal da exposição passou a ser o ego e as disputas de seus curadores, muitas vezes esquecendo da própria razão da exposição. Mas além das crises, o que liga as duas Bienais, é sem dúvida a proposta de inovação, o arrojo para propor uma mudança no cenário da arte contemporânea e sem dúvida o profissionalismo e a globalização da arte.

Professor Máximo: Contrariamente, as primeiras bienais primavam pela luz, algumas excessivas. As obras que tivessem as paredes voltadas para os dois lados dos janelões ficavam boa parte do dia expostas diretamente aos raios de sol que as atravessavam.
As obras, boas ou calamitosas, bastavam-se por si mesmas. Hoje o texto faz parte da obra, quando não é a própria.
Ficava a impressão que as artes plásticas pretendiam uma independência em relação às outras artes, indústria ou costumes. Hoje recorre-se ao telão, à tela de 360 graus e mesmo, à vitrine.
As primeiras bienais procuravam nos atingir através de choques estéticos da visão. Hoje elas apelam apara os cinco sentidos.
Antes, certas obras eram de tal maneira intelectualizadas que mais pareciam masturbação mental. Hoje a masturbação é explícita.
Quando me deparei com aqueles trilhos que nunca se encontrariam no infinito... mas, no andar superior da Bienal, lembrei-me de um acontecimento da 7a. Bienal. Nela trabalhei intimamente com Geraldo Ferraz, um dos curadores. Contou-me que quando da montagem da sala francesa, havia uma escultura, ou coisa que o valha, que consistia num cano, quadrado, com 10cm cada lado, de aço inoxidável, lustradíssimo. O material formava um grande quadrado de 3m x 3m. Podia ser o despojamento total, Podia ser a abstração geométrica. Podia ser variantes variáveis de variações várias, isto é, podia ser, também, empulhação. Geraldão, com a educação e cultura universal que os anos lhe dera, sagazmente tentava obter do curador por que trouxera aquilo. Logo que o francês percebeu a matreirice do brasileiro cortou-lhe o barato com o anátema: "pás d´explication".
Sábias palavras. Sábio conceito. Quanta coisa explica: pás d´ explication. Serve para Altamira, serve para qualquer instalação. Serve tanto para a primeira Bienal como para a atual. Serve, mesmo, para não explicar o cinema iraniano.

Seria possível escolher, entre todas as Bienais, a que fosse mais expressiva?

Professora Lícia: É difícil escolher a Bienal mais importante, Poderíamos destacar as que ficaram mais famosas: a da Guernica, a do Pollock, a do AI-5, esta última porque significou a descontinuidade da mostra e porque eu já entendia o que estava acontecendo. Com relação as obras que mais me impressionaram, uma me marcou especialmente, a cabeça de Ivan Serpa

Professor Máximo: A Segunda Bienal era a glória. As comemorações do Quarto Centenário da cidade exigiam tudo se materializasse no apoteótico estilo de uma sinfonia de Mahler.
Dois grandes pavilhões do recém inaugurado Parque do Ibirapuera, idealizados por Niemayer - o das Nações e o dos Estados - transbordavam de modernidade. Se a primeira Bienal era possível vê-la em 2 horas, a segunda exigia, 2 dias. Era cansativa como toda Bienal ou Museu. Para cada tela importante, havia dezenas sem a menor qualificação mas, pela primeira vez, apareciam as Salas Retrospectivas dedicadas a mestres consumados: Henry Moore, James Ensor, Oskar Kokoschka, Mondrian e a inesquecível de Paul Klee.
A retrospectiva Picasso além de desenhos, gravuras e pinturas trouxe a Guernica, que pela primeira vez deixava o Moma de Nova York para viajar. Numa das tantas vezes que revisitei a obra deparei-me com dois espanhóis discutindo violentamente, quase a navalhadas, a estética do quadro, baseados, imaginem só - no realismo socialista - pregado pelo paizinho de todas as Russias. Nem só a cidade tinha quatrocentos anos...
Na área brasileira tinha-se um grande panorama dos que já eram indiscutíveis como Livio Abramo, Goeldi, Flávio de Carvalho, Teruz, Bandeira, Bonadei, Djanira. Alguns estavam se cristalizando e outros teriam fama a partir da Bienal: Lula Cardoso, Geraldo de Barros, Lygia Clark, Lothar Charoux, Flexor, Gobbis, Krajberg, Manabu, Mohali, Overbeck, Penteado, Wega, Sacilotto, Volpi, Zanini, Mario Cravo, Leirner, Faiga, Caran e os insuperáveis Aldemir e Grassmann.
Ter acesso de uma só vez a tamanha diversidade e gozá-los num só espaço, levou-me às lágrimas.
Como sócio do MAM tinha ingresso livre na Bienal. Visitava-a todos os domingos, deglutindo lenta e democraticamente Klee e o Paraguai, Moore e Portugal, Kokoschka e Luxemburgo.
Eram dias de verão senegalesco, de sol vertical. A atmosfera sufocante duplicava após a viagem de ônibus e a longa caminhada até o Pavilhão das Nações, de paletó e gravata, como exigia a ética masculina da época. A primeira vista, sempre, era ao setor norte americano onde estavam os móbiles de Calder, às dezenas, volatilizando espaços horizontais e verticais ao sabor dos grandes ventiladores espalhados no local, além do vácuo produzido pelos corpos dos visitantes, À medida que me aproximava do local da participação americana prelibava o choque térmico que tomaria. O refrigério acontecia no sentido físico e metafísico. As volutas graciosas e repetitivas que os objetos praticavam formavam abstrações espiritualizadas nas quais nunca encontrei referencial musical por mais que divagasse Pierrot Lunaire e Webern.

Professor Paulino: Não sei definir, a partir de um certo momento perdi o referencial, no fim, o que sobrou, foram as que me transmitiram sentimentos, dor, raiva, alegrias... A Bienal passou cada vez mais a perder a expressão. A própria Feira do Livro, exposições, festivais de cinema se tornaram circos. A arte moderna se transformou nisto: a visita de um monte de alunos que sequer refletem sobre o que estão vendo, é importante mostrar Rodin, mas não o transformar em mero show, que dias depois já foi esquecido. Claro que sempre sobra alguma coisa, mas será que o mais valioso não seria o mostrar em salas de aula, chamando a atenção para a força dos seus detalhes?

Há alguma lembrança peculiar sua sobre a Bienal?

Professora Lícia: Tenho sim, meu pai era assessor do Prof. Bardi quando sob a influencia de Duchamps a Bienal passou a ter uma leitura diferente que eles chamavam de anti-arte. Foi chocante, nós andávamos entre aquelas "coisas" no chão e dependuradas, e a minha mãe e meu pai se questionavam se aquilo fazia sentido. Enquanto eu e meus irmãos achamos o maior "barato" porque era parecido com a bagunça que nós fazíamos lá em casa. Mais do que tudo a Bienal passava a sensação de pertencer a modernidade de estar incluída no mundo desenvolvido

Professor Máximo: Não sou o senador Arruda mas juro que foi verdade. Ouvia-se repetidamente que os prêmios da Bienal eram ajustados. Mais pareciam briga de motoristas. Quem mais berrava estava com a razão. O prêmio a um cubista em 1955, mesmo que Fernand Léger, era dose elefantina. Estados Unidos e Itália, comprovadamente assim venceram. E depois falam do Oscar. da Palma de Ouro. do Leão, do Saci...
Posso jurar que havia marmelada porque estive no meio de um deles. Certa manhã, em 1957, minha mãe e irmãs me procuravam ansiosamente. Um funcionário de MASP, ainda hoje dileto amigo, estava a minha cata desesperadamente. Quando entrei em contato implorou que fosse imediatamente ao museu porque o Bardi queria falar comigo. Lá chegando, o velho mestre, ( no sentido específico do vernáculo porque fora seu aluno em 1947-48-49) me propunha uma sacanagem. A Bienal está sendo organizada, nem todos as obras haviam chegado e o Grande Prêmio já fora destinado ao italiano Giorgio Morandi.
O programa de de rádio, "O Céu É O Limite", de Tupi, de Chateaubriand, queria alguém para responder sobre ele. Como haviam contado, vero, que eu tinha grande memória, ele se responsabilizava em preparar-me para responder, a partir da semana seguinte. Sou amigo pessoal de Morandi, vero, possuo todos os livros que falam dele, vero. Podemos ganhar um bom dinheiro!
A oferta era tentadora, principalmente para quem não filmava há meses, se encontrando no apogeu da miséria. Mas, refuguei. Tive receio de me borrar todo e decepcionar as expectativas de quem depositava tantas esperanças em coisa que sempre fui deficiente: memória. Além disso, com que moral poderia dali para a frente malhar o Oscar, Cannes, Veneza, Edimburgo, Locarno e São João do Mertí? Vero.

Professor Paulino: Fiquei impactado quando do surgimento das instalações... saí de lá sem ter entendido, sentindo-me um completo inculto.
Havia, por exemplo, uma piscina de 4 x 5 m com uma tábua para as pessoas passarem, entendo o sentido, mas não me emociona... e se não me emociona : "Tchau!"


No Trianon, em 1950 realizou-se a 1 Bienal

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Luciana Rodrigues
Cineasta e Professora do Curso de Cinema da FACOM