Este ano São
Paulo não contará com sua tradicional Bienal, mas do
dia 24 de maio ao dia 29 de julho realizou-se um evento em homenagem
ao cinqüentenário da mostra e ao seu fundador, Ciccillo
Matarazzo.
"Bienal 50 Anos - Uma Homenagem a Ciccillo Matarazzo" foi
alvo das mais diversas críticas, amplamente divulgadas pela
imprensa, que foram desde o caráter labiríntico de suas
exposições, dificultando o acesso do público,
passando pela ausência de pinturas significativas, até
a debilidade na homenagem efetiva a Ciccillo Matarazzo.
A exposição contou com a divisão em dois grupos,
um contemporâneo e outro histórico, com o acervo do Museu
de Arte Contemporânea, sempre o campeão de visitas de
público em qualquer edição da Bienal.
Mas o que significa este meio século de história para
quem esteve presente desde a sua primordial instalação?
Quem responde a esta questão são três professores
da FACOM, a professora Nydia Lícia de Cardoso, o professor
Máximo Barro e o professor Paulino da San Pancrazio.
Qual
é a importância da Bienal no cenário artístico-cultural
da cidade de São Paulo e do Brasil?
Professora
Lícia: A Bienal é
importante na medida em que mantêm o Brasil no circuito mundial
das artes, obriga a reflexão sobre a nossa produção
artística, e alarga nossos horizontes seja como público,
como artistas ou como organizadores. E para mim o mais importante
é que nos valida como país culturalmente ativo.
Professor
Máximo: O meio paulista
era pobre de arte moderna. Os grandes debates aconteciam quando
das exposições do Salão de Arte, na Galeria
Prestes Maia, habitualmente acadêmica.
Paralelamente, eu também era pobre. Trabalhava numa oficina
mecânica e tudo que me fora ver de moderno estava no segundo
andar da Biblioteca Mário de Andrade, ela também pobre.
Assistir palestras de arte moderna com Sérgio Millet era
um banho lustral.
A inauguração do MASP trouxera um grande panorama
das artes plásticas, das tumbas do primitivo cristão
ao século XX mas havia pouquíssimo do que se praticara
depois de 1930.
No MAM, inversamente, via-se praticamente de 1930 em diante. Muito
abstracionismo, se bem que o que mais me sensibilizou, na época
, foi o painel Tiradentes, de Portinari.
O contato com a modernidade fiz assistindo documentários
nas aulas do Seminário de Cinema e na Mostra Internacional
de curtas metragens que o Caio Scheybi organizou no Cine São
Francisco.
Foi através de uma dessas exibições no MASP
que vi pela primeira vez Paul Delvaux. A cópia era em preto
e branco, mas de qualquer forma, era inigualável para um
jovem de 20 anos.
Imaginem minha alegria quando soube que Paul Delvaux participaria
da Bienal.
Professor
Paulino: Em primeiro lugar todo
e qualquer evento, seja teatro, artes plásticas, literatura,
cinema, principalmente em tempos globalizados, são indispensáveis,
onde influímos e somos influídos, a melhor maneira
de elevarmos a consciência do público é ver
o que ocorre aqui e lá fora.
Então
o que representou a instalação da Primeira Bienal?
Professor
Paulino: Um choque, um deslumbramento,
pela primeira vez nos sentimos cultos, de fato, saímos da
igrejinha para ir para a catedral. Fomos lá como índios,
que ganham muitas coisas e conseguem identificar seu valor.
Por mais que na época eu recebesse influxos dos meios de
comunicação, estes são sempre parciais, então
era uma incógnita o que era a arte moderna, como Picasso,
mas ao chegar bem próximo, presencialmente, sentir sua ressonância
substrata, interagir... foi um grande impacto, como quando vi o
Nascimento de Vênus em Florença, comecei a chorar como
criança.
Professora
Lícia: A I Bienal rompeu
com o regionalismo que imperava na nossa cultura, criou padrões
de criação que não existiam até então,
possibilitou o diálogo internacional entre artistas, cujos
reflexos nós sentimos ainda hoje. Com a Bienal a cidade de
São Paulo inovou na criação de uma mega exposição
que bateu recorde absoluto de público na época. A
criação da Bienal trouxe consigo outros movimentos
importantes como a Bienal de Arquitetura, a Bienal de Teatro e o
Festival Internacional de Cinema de São Paulo. A cidade passou
a ser a partir de então aglutinadora de tendências
vanguardistas, colocando a cidade e o Brasil num lugar de destaque
no mundo. Aliás a I Bienal não foi mais do que a confirmação
do retrato de São Paulo da época, foco de múltiplas
influências culturais, progressista e sedenta por novidades.
Professor
Máximo: Uma machadada vertical.
Um passeio rápido, de duas horas, descortinava aquilo que
poderíamos considerar a vanguarda mais avançada vista
na Europa e América nos anos 40. É bom lembrar que
a guerra terminara em 1945. A arte européia estava tão
desarvorada quanto o futebol. Na Copa do Mundo de 50, no Brasil,
a Inglaterra fora despejada pelos americanos e a Itália suou
copiosamente para vencer o Paraguai mas o Brasil perdeu para Obdulio
Varella.
Ninguém poderia esperar muito de uma Itália saída
do fascismo ou de uma Inglaterra que ainda adorava o vitorianismo.
Mas, sempre, se esperava umas surpresas francesas.
Não resta dúvida que a Bienal mexia com grande parte
da classe A e B. Falava-se dela em qualquer grupelho mais ou menos
alfabetizado. A revista O Cruzeiro, do grupo Chateaubriand, na época,
a de maior divulgação na América Latina, dizia
que no Rio de Janeiro se falava sobre a Bienal com maior insistência
que em S. Paulo.
O impacto gerou polêmicas de toda ordem. Nesse momento eu
ainda era aluno do Seminário de Cinema do MASP. Certa noite,
o Bardi entrou intempestivamente na sala da aula e perguntou se
já havíamos meditado sobre uma bienal. A pergunta
era acachapante porque todos nós ansiávamos visitar
a Bienal, mas o que realmente significaria uma bienal, jamais fora
cogitado. No seu jeitão abusado, suspensório à
mostra, explicou em paulistanês puro. Como era gago, sempre
que a palavra engasgasse ele socorria-se da expressão "não
é verdade?"que, em italiano, corresponde a vero.
Para nossa surpresa, Bardi inicia uma Sinopse do que seria arte
moderna. A desconstrução que o impressionismo formara,
os fauves, o expressionismo que, se percebia, ele não era
muito chegado... Surrealismo, construtivismo, neo plasticismo. Tudo
isso levava à divisão entre figurativismo e abstracionismo.
"Mas é lógico que a maioria dos que irão
é Bienal, vero, nada entendem de arte, e ainda menos de arte
moderna" A frase era vigorosa e ofendia.
Todos os Freqüentadores do barzinho do Museu de Arte Moderna
e o do Clube de Engenharia, o popular clubinho, sabiam que Bardi
e Chateaubriand também haviam cogitado formar uma bienal.
Um dos alunos do Seminário era folclórico pela ausência
total de qualquer julgamento crítico pessoal, um "mata-borrào".
Tudo que ele emitia era assimilado das críticas de Moniz
Viana, Benedito J. Duarte, Alex Viany, salviano Cavalcanti de Paiva
e outros.
Munido de todas as informações do Bardi, noites mais
tarde ele e outros alunos do Seminário foram a uma reunião
no clubinho, quando se discutiria a Bienal. Ao começar a
reunião, boa parte dos convidados já se haviam abastecido
generosamente no barzinho do local. Se muitos dos que pediram a
palavra tinham a forma travada pelo whisky, o que pensar do conteúdo...
É nesse momento que o conhecido mata borrão do Seminário
pede a palavra. Todos olham pasmos para o garotão beirando
18 anos. Que teria ele a dizer a respeito de bienais? O quase imberbe
deita falação, repetindo tudo o que Bardi dissera
noites antes, sem esquecer substantivos e adjetivos. A platéia
fica siderada, inteiramente voltada para ele, não acreditando
em tamanha concentração de saber em quem ainda nem
fora convocado para o exército. Ele preparava o acorde final,
a única coisa que veio ligeiramente modificada "Mas,
afinal, de que serve tudo o que falei sobre arte moderna se VOCÊS
ignoram tudo, principalmente arte...". Foi o sinal! Bofetadas,
murros e até cadeiradas. O clubinho conhecia mais uma noitada
de magnificência.
Não participei da inauguração oficial da Bienal,
acontecida num sábado, com presidente, governador, prefeito,
ministros, secretários e a plutocracia paulista. Porém,
no domingo, lá estava no Trianon, bem antes do horário.
O bilheteiro lançou-me um olhar enigmático, logo que
abriu a portinhola, por ser eu o único comprador. Em seguida
esperei muitos minutos para abrirem a porta principal para mim e
uns dez que chegaram depois. Logicamente fui o primeiro a entrar,
esbaforido, procurando a sessão belga onde encontrava-se
Paul Delvaux.
O choque que o documentário sobre este artista me causara
foi insignificante diante das telas. Como o documentário
fora copiado em preto e branco, eu já me acomodara com a
visão abstrata das duas cores. Mas ao ver as telas de 3 metros
de comprimento, de colorido bizarro, todas em cores frias, as linhas
de fuga renascentistas e, principalmente, as mulheres nuas, olhando-me
ainda mais enigmaticamente que o porteiro, evocando presente, passado
e futuro, numa total abstração. Apenas os acordes
das Gymnopédies poderiam oferecer maior transcendentalidade.
Os calos e pecados da inexorabilidade do tempo embotaram-me em tantas
coisas, mas os olhos e púbis das anjas de Delvaux ainda inebriam.
Como tinha visto o melhor no primeiro momento, o resto apareceu
como menor, mesmo Namorados no Café, de Roger Castel, e o
quadro abstrato de Danilo Di Prete, vencedores estrangeiro e nacional
da Bienal e que tantas celeumas levantaram entre os que se degladiavam
na ingloriosa batalha entre figurativos e abstratos. Nos dois domingos
seguintes lá retornei para confirmar ou não algumas
dúvidas e, principalmente, remetabolizar o impacto que me
causara aqueles olhos e vulvas.
E
sobre o evento comemorativo dos 50 anos de Bienal? Quais são
as suas impressões?
Professora
Lícia: Nesta retrospectiva
a cidade tem a oportunidade de relembrar o que significou a criação
da Bienal e o impacto das suas primeiras mostras. Para os mais jovens
é a chance de saber um pouco sobre Ciccillo Matarazzo, e
sobre a própria exposição. Além de ser
uma preparação para a Bienal de 2002, que tem como
proposta a abertura da exposição para novos artistas
e a preocupação com o real exercício da vanguarda,
a próxima Bienal que terá como tema "Iconografias
Metropolitanas", mostra por parte do atual curador, vontade
de tornar viva a idéia de Ciccillo Matarazzo. Só nos
resta esperar que ela não venha a ser adiada mais uma vez.
Neste aspecto não somos muito sérios, a Bienal no
Brasil pode ser anual, trienal, ou pode não acontecer.
Professor
Máximo: A Bienal atual
tomou um caráter claustrofóbico. 80% dela obedece
à proposta de salas especiais. Entra-se numa área
preparada para tal. O interior é, na maioria das vezes, escuro
porque o elemento preponderante será transmitido por imagens
de TV ou cinética luminosa orientada por computadores. Exigem
uma postura corporal participativa, em uma delas é obrigatório
deitar-se, em outras agachar o tronco. O escuro, a insistência
da música ou ruídos em todas elas deixa claro a procura
da hipnose conseguida há cem anos atrás pelo cinema.
As exceções ficam por conta de uma instalação
luminosíssima, anti apagão, com lustres em diferentes
alturas, numa área inteiramente pintada de branco, intervalada
por dezenas de espelhos redondos que ainda mais intensificam a luminescência.
Coisas parecidos assistimos nos anos 40 e 50 em musicais da Metro
coreógrafos por Gene Kelly. A verdadeira surpresa está
outra sessão, também rica em iluminação,
dedicada a hortaliças. Porém, a insistência
mórbida nos labirintos em trevas leva-nos a um estado de
espírito angustiante. Sinal dos tempos ?
Recebi um choque quando saindo de uma delas deparei com o barzinho
da Bienal, aconchegante, cores vivas, iluminado. Não resisti.
Tomei uma cerveja. Oh tempore, oh mores.
Professor
Paulino: Não fui
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