nº 9 - 2 semestre de 2001      


Luciana Rodrigues
Este ano São Paulo não contará com sua tradicional Bienal, mas do dia 24 de maio ao dia 29 de julho realizou-se um evento em homenagem ao cinqüentenário da mostra e ao seu fundador, Ciccillo Matarazzo.
"Bienal 50 Anos - Uma Homenagem a Ciccillo Matarazzo" foi alvo das mais diversas críticas, amplamente divulgadas pela imprensa, que foram desde o caráter labiríntico de suas exposições, dificultando o acesso do público, passando pela ausência de pinturas significativas, até a debilidade na homenagem efetiva a Ciccillo Matarazzo.
A exposição contou com a divisão em dois grupos, um contemporâneo e outro histórico, com o acervo do Museu de Arte Contemporânea, sempre o campeão de visitas de público em qualquer edição da Bienal.
Mas o que significa este meio século de história para quem esteve presente desde a sua primordial instalação? Quem responde a esta questão são três professores da FACOM, a professora Nydia Lícia de Cardoso, o professor Máximo Barro e o professor Paulino da San Pancrazio.

Qual é a importância da Bienal no cenário artístico-cultural da cidade de São Paulo e do Brasil?

Professora Lícia: A Bienal é importante na medida em que mantêm o Brasil no circuito mundial das artes, obriga a reflexão sobre a nossa produção artística, e alarga nossos horizontes seja como público, como artistas ou como organizadores. E para mim o mais importante é que nos valida como país culturalmente ativo.

Professor Máximo: O meio paulista era pobre de arte moderna. Os grandes debates aconteciam quando das exposições do Salão de Arte, na Galeria Prestes Maia, habitualmente acadêmica.
Paralelamente, eu também era pobre. Trabalhava numa oficina mecânica e tudo que me fora ver de moderno estava no segundo andar da Biblioteca Mário de Andrade, ela também pobre. Assistir palestras de arte moderna com Sérgio Millet era um banho lustral.
A inauguração do MASP trouxera um grande panorama das artes plásticas, das tumbas do primitivo cristão ao século XX mas havia pouquíssimo do que se praticara depois de 1930.
No MAM, inversamente, via-se praticamente de 1930 em diante. Muito abstracionismo, se bem que o que mais me sensibilizou, na época , foi o painel Tiradentes, de Portinari.
O contato com a modernidade fiz assistindo documentários nas aulas do Seminário de Cinema e na Mostra Internacional de curtas metragens que o Caio Scheybi organizou no Cine São Francisco.
Foi através de uma dessas exibições no MASP que vi pela primeira vez Paul Delvaux. A cópia era em preto e branco, mas de qualquer forma, era inigualável para um jovem de 20 anos.
Imaginem minha alegria quando soube que Paul Delvaux participaria da Bienal.

Professor Paulino: Em primeiro lugar todo e qualquer evento, seja teatro, artes plásticas, literatura, cinema, principalmente em tempos globalizados, são indispensáveis, onde influímos e somos influídos, a melhor maneira de elevarmos a consciência do público é ver o que ocorre aqui e lá fora.

Então o que representou a instalação da Primeira Bienal?

Professor Paulino: Um choque, um deslumbramento, pela primeira vez nos sentimos cultos, de fato, saímos da igrejinha para ir para a catedral. Fomos lá como índios, que ganham muitas coisas e conseguem identificar seu valor.
Por mais que na época eu recebesse influxos dos meios de comunicação, estes são sempre parciais, então era uma incógnita o que era a arte moderna, como Picasso, mas ao chegar bem próximo, presencialmente, sentir sua ressonância substrata, interagir... foi um grande impacto, como quando vi o Nascimento de Vênus em Florença, comecei a chorar como criança.
Professora Lícia: A I Bienal rompeu com o regionalismo que imperava na nossa cultura, criou padrões de criação que não existiam até então, possibilitou o diálogo internacional entre artistas, cujos reflexos nós sentimos ainda hoje. Com a Bienal a cidade de São Paulo inovou na criação de uma mega exposição que bateu recorde absoluto de público na época. A criação da Bienal trouxe consigo outros movimentos importantes como a Bienal de Arquitetura, a Bienal de Teatro e o Festival Internacional de Cinema de São Paulo. A cidade passou a ser a partir de então aglutinadora de tendências vanguardistas, colocando a cidade e o Brasil num lugar de destaque no mundo. Aliás a I Bienal não foi mais do que a confirmação do retrato de São Paulo da época, foco de múltiplas influências culturais, progressista e sedenta por novidades.

Professor Máximo: Uma machadada vertical. Um passeio rápido, de duas horas, descortinava aquilo que poderíamos considerar a vanguarda mais avançada vista na Europa e América nos anos 40. É bom lembrar que a guerra terminara em 1945. A arte européia estava tão desarvorada quanto o futebol. Na Copa do Mundo de 50, no Brasil, a Inglaterra fora despejada pelos americanos e a Itália suou copiosamente para vencer o Paraguai mas o Brasil perdeu para Obdulio Varella.
Ninguém poderia esperar muito de uma Itália saída do fascismo ou de uma Inglaterra que ainda adorava o vitorianismo. Mas, sempre, se esperava umas surpresas francesas.
Não resta dúvida que a Bienal mexia com grande parte da classe A e B. Falava-se dela em qualquer grupelho mais ou menos alfabetizado. A revista O Cruzeiro, do grupo Chateaubriand, na época, a de maior divulgação na América Latina, dizia que no Rio de Janeiro se falava sobre a Bienal com maior insistência que em S. Paulo.
O impacto gerou polêmicas de toda ordem. Nesse momento eu ainda era aluno do Seminário de Cinema do MASP. Certa noite, o Bardi entrou intempestivamente na sala da aula e perguntou se já havíamos meditado sobre uma bienal. A pergunta era acachapante porque todos nós ansiávamos visitar a Bienal, mas o que realmente significaria uma bienal, jamais fora cogitado. No seu jeitão abusado, suspensório à mostra, explicou em paulistanês puro. Como era gago, sempre que a palavra engasgasse ele socorria-se da expressão "não é verdade?"que, em italiano, corresponde a vero.
Para nossa surpresa, Bardi inicia uma Sinopse do que seria arte moderna. A desconstrução que o impressionismo formara, os fauves, o expressionismo que, se percebia, ele não era muito chegado... Surrealismo, construtivismo, neo plasticismo. Tudo isso levava à divisão entre figurativismo e abstracionismo. "Mas é lógico que a maioria dos que irão é Bienal, vero, nada entendem de arte, e ainda menos de arte moderna" A frase era vigorosa e ofendia.
Todos os Freqüentadores do barzinho do Museu de Arte Moderna e o do Clube de Engenharia, o popular clubinho, sabiam que Bardi e Chateaubriand também haviam cogitado formar uma bienal.
Um dos alunos do Seminário era folclórico pela ausência total de qualquer julgamento crítico pessoal, um "mata-borrào". Tudo que ele emitia era assimilado das críticas de Moniz Viana, Benedito J. Duarte, Alex Viany, salviano Cavalcanti de Paiva e outros.
Munido de todas as informações do Bardi, noites mais tarde ele e outros alunos do Seminário foram a uma reunião no clubinho, quando se discutiria a Bienal. Ao começar a reunião, boa parte dos convidados já se haviam abastecido generosamente no barzinho do local. Se muitos dos que pediram a palavra tinham a forma travada pelo whisky, o que pensar do conteúdo... É nesse momento que o conhecido mata borrão do Seminário pede a palavra. Todos olham pasmos para o garotão beirando 18 anos. Que teria ele a dizer a respeito de bienais? O quase imberbe deita falação, repetindo tudo o que Bardi dissera noites antes, sem esquecer substantivos e adjetivos. A platéia fica siderada, inteiramente voltada para ele, não acreditando em tamanha concentração de saber em quem ainda nem fora convocado para o exército. Ele preparava o acorde final, a única coisa que veio ligeiramente modificada "Mas, afinal, de que serve tudo o que falei sobre arte moderna se VOCÊS ignoram tudo, principalmente arte...". Foi o sinal! Bofetadas, murros e até cadeiradas. O clubinho conhecia mais uma noitada de magnificência.
Não participei da inauguração oficial da Bienal, acontecida num sábado, com presidente, governador, prefeito, ministros, secretários e a plutocracia paulista. Porém, no domingo, lá estava no Trianon, bem antes do horário. O bilheteiro lançou-me um olhar enigmático, logo que abriu a portinhola, por ser eu o único comprador. Em seguida esperei muitos minutos para abrirem a porta principal para mim e uns dez que chegaram depois. Logicamente fui o primeiro a entrar, esbaforido, procurando a sessão belga onde encontrava-se Paul Delvaux.
O choque que o documentário sobre este artista me causara foi insignificante diante das telas. Como o documentário fora copiado em preto e branco, eu já me acomodara com a visão abstrata das duas cores. Mas ao ver as telas de 3 metros de comprimento, de colorido bizarro, todas em cores frias, as linhas de fuga renascentistas e, principalmente, as mulheres nuas, olhando-me ainda mais enigmaticamente que o porteiro, evocando presente, passado e futuro, numa total abstração. Apenas os acordes das Gymnopédies poderiam oferecer maior transcendentalidade.
Os calos e pecados da inexorabilidade do tempo embotaram-me em tantas coisas, mas os olhos e púbis das anjas de Delvaux ainda inebriam.
Como tinha visto o melhor no primeiro momento, o resto apareceu como menor, mesmo Namorados no Café, de Roger Castel, e o quadro abstrato de Danilo Di Prete, vencedores estrangeiro e nacional da Bienal e que tantas celeumas levantaram entre os que se degladiavam na ingloriosa batalha entre figurativos e abstratos. Nos dois domingos seguintes lá retornei para confirmar ou não algumas dúvidas e, principalmente, remetabolizar o impacto que me causara aqueles olhos e vulvas.

E sobre o evento comemorativo dos 50 anos de Bienal? Quais são as suas impressões?

Professora Lícia: Nesta retrospectiva a cidade tem a oportunidade de relembrar o que significou a criação da Bienal e o impacto das suas primeiras mostras. Para os mais jovens é a chance de saber um pouco sobre Ciccillo Matarazzo, e sobre a própria exposição. Além de ser uma preparação para a Bienal de 2002, que tem como proposta a abertura da exposição para novos artistas e a preocupação com o real exercício da vanguarda, a próxima Bienal que terá como tema "Iconografias Metropolitanas", mostra por parte do atual curador, vontade de tornar viva a idéia de Ciccillo Matarazzo. Só nos resta esperar que ela não venha a ser adiada mais uma vez. Neste aspecto não somos muito sérios, a Bienal no Brasil pode ser anual, trienal, ou pode não acontecer.

Professor Máximo: A Bienal atual tomou um caráter claustrofóbico. 80% dela obedece à proposta de salas especiais. Entra-se numa área preparada para tal. O interior é, na maioria das vezes, escuro porque o elemento preponderante será transmitido por imagens de TV ou cinética luminosa orientada por computadores. Exigem uma postura corporal participativa, em uma delas é obrigatório deitar-se, em outras agachar o tronco. O escuro, a insistência da música ou ruídos em todas elas deixa claro a procura da hipnose conseguida há cem anos atrás pelo cinema. As exceções ficam por conta de uma instalação luminosíssima, anti apagão, com lustres em diferentes alturas, numa área inteiramente pintada de branco, intervalada por dezenas de espelhos redondos que ainda mais intensificam a luminescência. Coisas parecidos assistimos nos anos 40 e 50 em musicais da Metro coreógrafos por Gene Kelly. A verdadeira surpresa está outra sessão, também rica em iluminação, dedicada a hortaliças. Porém, a insistência mórbida nos labirintos em trevas leva-nos a um estado de espírito angustiante. Sinal dos tempos ?
Recebi um choque quando saindo de uma delas deparei com o barzinho da Bienal, aconchegante, cores vivas, iluminado. Não resisti. Tomei uma cerveja. Oh tempore, oh mores.

Professor Paulino: Não fui

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