Início insight
 

 



       Ano I - nº 7
  PONTOS IMPORTANTES
Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos
             
Os resultados externos em 2004

Após o término da reunião do FMI em Washington em abril de 2005, em que – pela primeira vez nos anos recentes – as referências ao Brasil não guardavam qualquer relação com a palavra crise, é necessário analisar um dos fatores mais importantes para que se chegasse a esse ponto, que foram os excelentes resultados alcançados no comércio exterior do país.

Mantendo a trajetória iniciada em 2002 e acentuada durante o exercício de 2003, o desempenho externo brasileiro alcançou resultados de grande destaque no ano passado. Diante de um quadro favorável na economia mundial, em que a corrente de comércio se ampliou bastante e onde ocorreu uma notável elevação de preço de commodities, o setor exportador conseguiu registrar um excelente resultado, com as exportações de mercadorias crescendo 32% sobre o ano anterior e alcançando a marca de US$ 96,5 bilhões, que representam cerca de 1,1% das exportações mundiais. É a primeira vez, desde o início do Plano Real, que o país consegue atingir essa participação no comércio internacional de mercadorias, marca que até então era uma característica do período do “milagre brasileiro”, antes da ocorrência do primeiro choque do petróleo, em 1973.

Os resultados alcançados representam uma expansão de 30% nas importações e de 35,9% no saldo da balança comercial e permitiram que se atingisse um superávit de US$ 10,4 bilhões em transações correntes, equivalente a 1,9% do Produto Interno Bruto, duas vezes maior que o resultado do ano anterior.

Quando se busca identificar quais os fatores determinantes desse resultado, conclui-se que, além do desempenho da economia mundial e da evolução favorável do preço de commodities, o ano de 2004 marcou a consolidação de um esforço exportador que se iniciou em 1999, por ocasião da introdução do sistema de taxas flexíveis de câmbio. Esse processo se caracteriza pela elevação continuada da produtividade, pela conquista de maior espaço nos mercados tradicionalmente atendidos pelo país, pela diversificação da pauta de exportações e pela atração de novos parceiros comerciais.

O primeiro aspecto que se deve destacar reside no esforço da economia brasileira em direção da conquista de maior nível de competitividade. Num ano como o de 2004, em que se verificou uma continuada depreciação do dólar americano no mercado de câmbio, somente um aumento de produtividade substantivo, como aquele experimentado, pode explicar parte dos resultados alcançados.

Verificaram-se elevações de 17,5% nos preços de produtos básicos e de 13,8% nos produtos semimanufaturados, que em parte podem ser explicadas pela majoração nos preços de commodities, mas é necessário destacar as expansões de 14,2% na quantidade das exportações de produtos primários e de 7,5% nos produtos semi-industrializados, decorrentes da expansão do comércio internacional no ano de 2004.

Simultâneamente, as exportações de manufaturados registraram uma expansão de 33,5% sobre o ano anterior, alcançando a marca de US$ 52,9 bilhões, que corresponde a 54,88% do total exportado pelo país em 2004. No caso dos produtos manufaturados ocorreu uma expansão de 7,1% no índice de preço dos produtos, ao lado de uma elevação de 23,4% na quantidade exportada.

Ao mesmo tempo, tomando-se por base os valores do dólar comercial de venda durante o exercício, verifica-se que ocorreu uma depreciação de 8,03% no valor da moeda americana entre janeiro e dezembro de 2004.

Assim, constata-se que, mesmo diante de uma apreciação do real, o setor exportador conseguiu ampliar suas vendas ao exterior e que tudo indica ter ocorrido uma expansão importante no valor agregado das exportações de produtos mais sofisticados. Aparentemente, a melhoria de produtividade alcançada mais que compensou a queda nas cotações da moeda americana.

Quanto ao aspecto de expansão e de diversificação dos itens constantes da pauta de exportações, o resultado é também digno de menção. Os doze principais produtos exportados registraram crescimento, devendo-se destacar a expansão de 50,9% nas exportações de material de transporte e de 45,3%, nas de máquinas e equipamentos. Entre esses principais produtos, apenas as exportações de celulose e papel (+2,8%) e de equipamentos elétricos (+ 4,2%), registraram crescimento modesto.

Também se deve considerar o aspecto da destinação das exportações brasileiras. Por um lado, deve-se mencionar a ampliação de vendas para todos parceiros comerciais, com notáveis resultados quanto à diversificação desses parceiros.

Mantendo um vigoroso ritmo de expansão nos mercados tradicionalmente atendidos, as exportações brasileiras alcançaram novos destinos na Ásia, na África e, principalmente na América Latina. Por outro lado, cresceu bastante o comércio do Mercosul, como decorrência do processo de recuperação da economia argentina, com o que as exportações brasileiras para o continente latinoamericano, como um todo, deverão superar as vendas para os Estados Unidos, já no primeiro semestre de 2005.

Finalmente cabe considerar o significado macroeconômico dos resultados alcançados em 2004. O crescimento vigoroso das exportações permitiu com que as importações também pudessem crescer bastante, acima da média de crescimento do comércio mundial. A abertura da economia se ampliou, com as exportações passando a representar 16,1% do PIB e com a corrente de comércio (exportações mais importações) passando para 26,6% desse indicador. Certamente o comportamento do setor externo foi decisivo para que a economia se expandisse 5,2% no ano de 2004, criandose parte dos empregos tão necessários do ponto de vista social.

Todo esse esforço redundou numa melhoria apreciável dos indicadores mais críticos da economia brasileira. O montante destinado ao pagamento de juros caiu substancialmente, de 33,7% das exportações em 2003, para 15,9% no ano seguinte, ao mesmo tempo em que a relação entre a dívida externa líquida e o total das exportações passava de 3,6 para 1,6. A própria decisão do governo brasileiro de não mais contar com uma linha de crédito stand-by com o FMI, objeto do nosso comentário ao início deste ensaio, é conseqüência dessa melhoria de indicadores.

Espera-se, para 2005, que a política econômica continue a ser administrada com critério e que os excelentes resultados em 2004 possam ser mantidos na frente externa. Quanto aos aspectos menos positivos, como a elevada taxa básica de juros, que tem redundado na mais elevada taxa de juros real no mundo, e a questão fiscal, que deverá exigir mais esforço do Governo para seu equacionamento, deverão ser objeto de nosso comentário no futuro próximo.