Início insight
 

 



       Ano I - nº 7
  INSIGHT
Henrique Vaialati Neto
             
As areias digitais

Se um dos problemas fundamentais do executivo sempre foi o de planejar, o de se ver e ao seu empreendimento no tempo, ultimamente não consigo evitar um arrepio de temor quando sinto como esse tão agudamente humano conceito tem sido mal avaliado pelos tomadores de decisões. É inevitável, para o observador minimamente atento, a grosseria e a insensibilidade para o fato de que, como quase tudo o que era até há muito pouco, nosso tempo adquiriu contornos completamente inusitados.

Se lá dos calcanhares de minha formação de historiador trouxe o perigoso hábito de falar de milênios e de séculos como se fossem espaços de simples entendimento, o conviver didático com os muito jovens me fez entender as dificuldades insuperáveis de compreensão dessas discrepâncias, sobretudo, quando a dinâmica dos fatos e a própria essência das inovações assumiram contornos imperceptíveis e insuspeitados.

Dessa forma é, no mínimo irresponsável, falar em planejamento quando se desconhece que o tempo ganhou dimensões e naturezas tão novas e mutáveis que, certamente, surpreendem até mesmo aqueles que se dedicaram a tentar domesticar esse verdadeiro senhor de muitos dos viventes.

Mas importa oferecer fatos que suportem esse desconforto a que nos referimos de início.

Enquanto nossas vidas, atadas pelos grilhões mecânicos ou eletrônicos que carregamos ainda em nossos pulsos, correm em quatro pneus, se desesperam na incompetência burocrática de morosas filas; enquanto nossas existências se imaginam programadas no simplismo de nossas agendas, não nos damos conta dos paralelismos cotidianos de deveres aparentemente inconciliáveis, de tempos que vivem calendários díspares.

Nada revela tão eloqüentemente tais disparidades do que a de um estudo astrológico operado por um sistema informacional: crenças ou conhecimentos iniciados pelos sumérios há milênios rodados em nanossegundos; confrontos do tempo de um calendário de muito longa duração como diria o historiador Fernand Braudel, de um tempo que se situa quase que no limiar da imobilidade, com o tempo de nossas máquinas inteligentes e seus circuitos que trabalham na milionésima parte do segundo. Ou será que tais paralelismos inexistem? Como evitar a convivência e como compreender os efeitos dela, entre princípios religiosos multisseculares que regem as vidas de milhões de seres humanos e a dinâmica das inovações tecnológicas que se anacronizam tão logo são colocadas no mercado? Se as velhas fórmulas cartesianas que fundamentavam a ortodoxia dos planejamentos econômicos morreram sob os escombros do século XX, assusta ao educador a impotência em se conseguir fazer no educando nascer a sensibilidade para essa historicidade de um homem que vive esse hibridismo temporal, esse conviver do extremamente antigo com o quase sempre desconhecido e vivente novo.

Parece que nossas ampulhetas digitais ainda não conseguiram nos fazer entender nossas vidas nesses novos fluxos, vidas que a civilização conseguiu estender aos limites biológicos de nossa animalidade, mas que não ganharam a sabedoria e a paz do silencioso fluir da seiva nos vegetais.

Não se formam profissionais competentes e sobreviventes nesta era do conhecimento que não tenham o conhecimento de sua própria essência, que não percebam que o núcleo de suas lógicas pode estar completamente comprometido, que não se dêem contam de que planejam para tempos diversos do que imaginavam.

Até porque, qualquer coisa que esteja fora da dimensão de nossa humanidade, é inútil violência que nos impomos e cujos custos insuportáveis tem sido a raiz do fim de algumas civilizações.