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Se um dos problemas fundamentais do executivo
sempre foi o de planejar, o de se ver e ao seu
empreendimento no tempo, ultimamente não
consigo evitar um arrepio de temor quando sinto
como esse tão agudamente humano conceito tem
sido mal avaliado pelos tomadores de decisões. É
inevitável, para o observador minimamente atento, a
grosseria e a insensibilidade para o fato de que, como
quase tudo o que era até há muito pouco, nosso
tempo adquiriu contornos completamente inusitados.
Se lá dos calcanhares de minha formação de historiador
trouxe o perigoso hábito de falar de milênios e de séculos
como se fossem espaços de simples entendimento, o
conviver didático com os muito jovens me fez entender
as dificuldades insuperáveis de compreensão dessas
discrepâncias, sobretudo, quando a dinâmica dos fatos e
a própria essência das inovações assumiram contornos
imperceptíveis e insuspeitados.
Dessa forma é, no mínimo irresponsável, falar em
planejamento quando se desconhece que o tempo
ganhou dimensões e naturezas tão novas e mutáveis
que, certamente, surpreendem até mesmo aqueles
que se dedicaram a tentar domesticar esse verdadeiro
senhor de muitos dos viventes.
Mas importa oferecer fatos que suportem esse
desconforto a que nos referimos de início.
Enquanto nossas vidas, atadas pelos grilhões mecânicos
ou eletrônicos que carregamos ainda em nossos pulsos,
correm em quatro pneus, se desesperam na
incompetência burocrática de morosas filas; enquanto
nossas existências se imaginam programadas no
simplismo de nossas agendas, não nos damos conta dos
paralelismos cotidianos de deveres aparentemente
inconciliáveis, de tempos que vivem calendários díspares.
Nada revela tão eloqüentemente tais disparidades do que
a de um estudo astrológico operado por um sistema
informacional: crenças ou conhecimentos iniciados pelos
sumérios há milênios rodados em nanossegundos;
confrontos do tempo de um calendário de muito longa
duração como diria o historiador Fernand Braudel, de
um tempo que se situa quase que no limiar da
imobilidade, com o tempo de nossas máquinas
inteligentes e seus circuitos que trabalham na
milionésima parte do segundo. Ou será que tais
paralelismos inexistem?
Como evitar a convivência e como compreender os
efeitos dela, entre princípios religiosos multisseculares
que regem as vidas de milhões de seres humanos e a
dinâmica das inovações tecnológicas que se anacronizam
tão logo são colocadas no mercado?
Se as velhas fórmulas cartesianas que fundamentavam
a ortodoxia dos planejamentos econômicos morreram
sob os escombros do século XX, assusta ao educador
a impotência em se conseguir fazer no educando
nascer a sensibilidade para essa historicidade de um
homem que vive esse hibridismo temporal, esse
conviver do extremamente antigo com o quase
sempre desconhecido e vivente novo.
Parece que nossas ampulhetas digitais ainda não
conseguiram nos fazer entender nossas vidas nesses
novos fluxos, vidas que a civilização conseguiu
estender aos limites biológicos de nossa animalidade,
mas que não ganharam a sabedoria e a paz do
silencioso fluir da seiva nos vegetais.
Não se formam profissionais competentes e
sobreviventes nesta era do conhecimento que não
tenham o conhecimento de sua própria essência, que
não percebam que o núcleo de suas lógicas pode estar
completamente comprometido, que não se dêem
contam de que planejam para tempos diversos do que
imaginavam.
Até porque, qualquer coisa que esteja fora da
dimensão de nossa humanidade, é inútil violência que
nos impomos e cujos custos insuportáveis tem sido a
raiz do fim de algumas civilizações.
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