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       Ano I - nº 6
  PONTOS IMPORTANTES
Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos
             
A Organização do Futuro:
as macrotendências para os próximos 15 anos

O processo de mudança por que está passando a economia mundial nos últimos vinte anos contribuiu para criar um novo ambiente de negócios. A derrubada das fronteiras nacionais, as mudanças macro e microeconômicas e o desenvolvimento vertiginoso da tecnologia da informação e das telecomunicações levaram à formação da “aldeia global” de Mac Luhan num espaço de tempo muito mais curto do que se previa.

Em conseqüência da queda das barreiras alfandegárias, vem ocorrendo um acesso de parcelas crescentes da população dos países industrializados, e de alguns países emergentes, a novos produtos e serviços. Isso tem contribuído para que se alcance padrões superiores de bem estar numa parcela da sociedade global, mas não permite reduzir as disparidades sociais existentes em muitos países. Assim, perduram as iniqüidades e acentua-se o fosso entre esses países e o restante da população mundial.

O novo ambiente de negócios é fortemente competitivo e exige, das sociedades e das empresas, um esforço permanente no sentido de adaptar seu planejamento estratégico para o quadro extremamente volátil que caracteriza o processo de globalização em nossos dias. Trata-se de uma situação especial, uma vez que simultaneamente existem muitas oportunidades, ao mesmo tempo em que as ameaças crescem com a expansão do alcance dos mercados.

A maneira pela qual as empresas responderem a esse desafio deverá concorrer para definir a posição competitiva de cada qual no futuro próximo. Pode-se afirmar que, entre sociedades ou empresas, na metade da próxima década só haverá dois grupos: o dos sobreviventes e o dos que terão desaparecido.

Macrotendências

Cinco macrotendências estarão influenciando de modo poderoso o ambiente econômico nos próximos anos, moldando o cenário dos negócios e criando impacto sobre as organizações. Essas tendências deverão provocar uma reviravolta em vários dos mercados que se conhece, criando oportunidades novas para aqueles que forem capazes de um posicionamento estratégico adequado e penalizando as organizações que não tenham atentado para o que significam. Essas tendências são as seguintes:

a) demografia;
b) ciência e tecnologia;
c) recursos naturais e meio ambiente;
d) globalização e interrelações na economia global; e,
e) questões de governança corporativa, tanto no planos nacional como no internacional.

A Demografia e seus Caprichos

Quando se aborda a questão demográfica, pode-se constatar que ocorreu uma drástica reversão nas tendências de crescimento populacional. Paul Ehrlich, em seu livro “A Bomba Populacional” (1965), previa um quadro catastrófico segundo o qual a população mundial dobraria a cada 30 anos. Na realidade, o que se verificou foi uma redução bastante sensível nas taxas de natalidade e uma elevação da expectativa média de vida ao nascer, tanto nos países desenvolvidos, como também nos emergentes.

Em conseqüência, o perfil etário do mercado consumidor sofreu uma alteração substancial: menor número de crianças e adolescentes, maior número de pessoas mais idosas na maioria das sociedades, abrindo espaço para uma gama de produtos e serviços destinados à terceira idade e reduzindo o segmento mais jovem de consumo. Ao mesmo tempo, nota-se uma expansão na atuação de fundos de pensão e instituições de previdência privada, uma vez que os sistemas previdenciários públicos – que não previam essa modificação no perfil etário – se acham em grande dificuldade para cumprir sua finalidade.

Finalmente, também o mercado de trabalho sofre um grande efeito dessa tendência, na medida em que pessoas que tem uma expectativa de vida mais prolongada terão a possibilidade de dedicar-se a uma “segunda carreira”, após sua aposentadoria. Haverá, de forma crescente, novas oportunidades para que as organizações, especialmente do terceiro setor, aproveitem a experiência de executivos e técnicos que contam com grande experiência e que poderão dedicar-se a novas atividades de consultoria ou de participação em órgãos consultivos por um período de tempo maior.

A Nova Fronteira Científico-Tecnológica

Outro ponto importante para o futuro das organizações diz respeito ao avanço que se verifica no campo de ciência e tecnologia. No período que Drucker denominou de “era do conhecimento”, tem ocorrido uma expansão muito rápida das atividades de pesquisa e desenvolvimento. Isto ocorre tanto nos organismos estatais de pesquisa e nas universidades, como nas empresas privadas.

Os avanços da microeletrônica, das telecomunicações, da nanotecnologia e da biotecnologia, a introdução de novos materiais, os progressos da medicina e da produção de fármacos, tudo tem contribuído para o surgimento de novos produtos e serviços que, em última análise, ampliam a qualidade de vida do homem. O ciclo de cada produto ou serviço se vê encurtado, ao mesmo tempo em que os recursos requeridos para pesquisa e desenvolvimento são cada vez maiores.

A questão da propriedade intelectual, neste quadro, ganha uma relevância especial. É a forma que se dispõe para proteger esses investimentos vultosos e garantir que os recursos dispendidos possam proporcionar o retorno necessário até para o desenvolvimento de novas atividades de pesquisa e desenvolvimento. A inclusão das questões de patentes na agenda da OMC e na discussão dos acordos para estabelecimento de novas áreas de livre comércio entre países deverá moldar o futuro nos próximos anos.

A Proteção do Meio Ambiente

As alterações no perfil demográfico que já foram referidas e o alongamento da vida das pessoas, conjugadas às modificações no papel do Estado que serão abordadas mais adiante, contribuem para que se adote uma nova visão em relação à preservação dos recursos naturais e proteção ambiental.

A cada momento ganha consistência maior a idéia que essa tarefa não deve ser desempenhada unicamente pelo Estado, mas deve ocupar todos os segmentos da sociedade. Cada qual pode fazer sua parte para que o planeta possa registrar níveis mais reduzidos de poluição e que a água e a atmosfera fiquem mais limpos.

Em conseqüência, além do surgimento de uma legislação de proteção mais rígida, as empresas passam a ser avaliadas também com base na sua contribuição para a criação de melhores condições ambientais. As organizações que não tenham essa preocupação se verão alijadas do processo concorrencial, sendo de destacar que em alguns países essas restrições já se tornaram parte do cenário dos negócios.

Os Efeitos da Globalização

A forte tendência verificada nos últimos quinze anos, no sentido da liberalização do comércio e da derrubada das fronteiras físicas e legais ao transito de mercadorias, serviços e pessoas também é um ponto relevante, devendo acentuar-se nos próximos anos.

No plano das empresas, essa liberalização dos fluxos de comércio tem como característica o acirramento da competição. A abertura dos mercados e a abolição de restrições ao comercio de mercadorias e serviços fez com que se verificasse um desequilíbrio entre oferta e procura, como que “revogando” a lei da escassez. O que acontece atualmente é uma capacidade produtiva global que, em muitos casos, supera amplamente a demanda agregada. Em decorrência desse fato o consumidor dispõe – como nunca antes ao longo do processo de evolução dos negócios – de um excepcional poder de barganha no mercado. O esforço das empresas para atrair e reter o interesse dos consumidores deverá ser cada vez maior nos próximos anos. É importante ressaltar que a diferenciação de produtos e serviços é cada vez mais efêmera, tendo em vista a capacidade de cópia do diferencial pelos demais concorrentes e o avanço tecnológico.

No campo da atuação do Estado, o processo de globalização implica também num grande número de desafios. Será necessário um grande esforço para agilizar o processo de comércio, fornecendo às empresas nacionais a ajuda necessária para que as mesmas se tornem mais competitivas. Isto implica, no cenário interno dos países, em investimentos na infra-estrutura econômica, reforma do judiciário e modificações sensíveis na ordem tributária.

No entanto, outro aspecto fundamental para garantir uma maior competitividade às empresas se acha colocado na orientação da política externa. É preciso desenvolver uma ação consistente em dois sentidos diversos: o alargamento dos mercados e a remoção de obstáculos protecionistas por parte dos países com quem se mantém relações comerciais. Essa ação deverá ser traduzida por um amplo esforço multi e bilateral, que possa contribuir para a ampliação das oportunidades de exportação de mercadorias e serviços.

As Questões de Governança

Outra tendência importante que deverá ter um grande impacto sobre as empresas e os países nos próximos anos é constituída pelas questões de governança.

Inicialmente deve-se destacar que o crescimento e a interligação dos mercados de capitais decorrente do processo de globalização acentua a necessidade de implementação de regras estritas de governança corporativa. Os episódios desagradáveis ocorridos com a Enron, WorldComm e, em menor escala com outras empresas de grande porte nos Estados Unidos, assim como a falência da Parmalat, com seus impactos em escala mundial sobre a vida de milhares de “stakeholders”, impõe a urgente necessidade de princípios de ética e transparência nos negócios. Assim, regras de boa governança corporativa deverão ganhar cada vez maior importância, como meio de proteger os interesses de todas as partes envolvidas nos negócios.

Por outro lado, as macro-questões de governança também vem ganhando destaque crescente. Tanto no plano interno de cada país, como no conjunto das relações políticas e econômicas globais, é essencial garantir uma transparência absoluta em qualquer tipo de relação que venha a ser estabelecida entre países ou mesmo entre segmentos distintos de uma mesma sociedade nacional. Só assim será possível contribuir para que os benefícios advindos do desenvolvimento possam ser acessíveis para todos.

As questões de governança serão um fator determinante de sucesso para que uma dada organização possa atingir os resultados desejados, em sua busca por uma posição de destaque no cenário competitivo global. No plano nacional e internacional, trata-se de uma condição exógena às organizações, enquanto que no nível corporativo a qualidade de gestão, a ética e a transparência dependem apenas da própria empresa.

No plano global, parece urgente uma revisão dos organismos multilaterais, como a ONU, o FMI e a OMC. Será necessário aparelhar esses organismos de modo que possam enfrentar as questões colocadas pela crescente inter-relação dos mercados. Por outro lado, deverá caber a esses organismos, por igual, o acompanhamento das questões decorrentes da não adoção dos princípios básicosde governança corporativa pelas empresas, como meio de prevenir os impactos já verificados no passado recente e criar as condições adequadas para a redução de riscos sobre o ambiente dos negócios.