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O processo de mudança por que está passando a economia
mundial nos últimos vinte anos contribuiu para
criar um novo ambiente de negócios. A derrubada
das fronteiras nacionais, as mudanças macro e microeconômicas
e o desenvolvimento vertiginoso da tecnologia da informação
e das telecomunicações levaram à formação da “aldeia
global” de Mac Luhan num espaço de tempo muito mais
curto do que se previa.
Em conseqüência da queda das barreiras alfandegárias, vem
ocorrendo um acesso de parcelas crescentes da população dos
países industrializados, e de alguns países emergentes, a novos
produtos e serviços. Isso tem contribuído para que se alcance
padrões superiores de bem estar numa parcela da sociedade
global, mas não permite reduzir as disparidades sociais existentes
em muitos países. Assim, perduram as iniqüidades e acentua-se
o fosso entre esses países e o restante da população mundial.
O novo ambiente de negócios é fortemente competitivo e
exige, das sociedades e das empresas, um esforço permanente
no sentido de adaptar seu planejamento estratégico para o
quadro extremamente volátil que caracteriza o processo de
globalização em nossos dias. Trata-se de uma situação especial,
uma vez que simultaneamente existem muitas oportunidades,
ao mesmo tempo em que as ameaças crescem com a expansão
do alcance dos mercados.
A maneira pela qual as empresas responderem a esse desafio
deverá concorrer para definir a posição competitiva de cada
qual no futuro próximo. Pode-se afirmar que, entre sociedades
ou empresas, na metade da próxima década só haverá dois
grupos: o dos sobreviventes e o dos que terão desaparecido.
Macrotendências
Cinco macrotendências estarão influenciando de modo
poderoso o ambiente econômico nos próximos anos,
moldando o cenário dos negócios e criando impacto sobre
as organizações. Essas tendências deverão provocar uma
reviravolta em vários dos mercados que se conhece, criando
oportunidades novas para aqueles que forem capazes de um
posicionamento estratégico adequado e penalizando as
organizações que não tenham atentado para o que significam.
Essas tendências são as seguintes:
a) demografia;
b) ciência e tecnologia;
c) recursos naturais e meio ambiente;
d) globalização e interrelações na economia global; e,
e) questões de governança corporativa, tanto no
planos nacional como no internacional.
A Demografia e seus Caprichos
Quando se aborda a questão demográfica, pode-se constatar
que ocorreu uma drástica reversão nas tendências de crescimento
populacional. Paul Ehrlich, em seu livro “A Bomba
Populacional” (1965), previa um quadro catastrófico
segundo o qual a população mundial dobraria a cada 30
anos. Na realidade, o que se verificou foi uma redução bastante
sensível nas taxas de natalidade e uma elevação da
expectativa média de vida ao nascer, tanto nos países desenvolvidos,
como também nos emergentes.
Em conseqüência, o perfil etário do mercado consumidor
sofreu uma alteração substancial: menor número de crianças e
adolescentes, maior número de pessoas mais idosas na maioria
das sociedades, abrindo espaço para uma gama de produtos e
serviços destinados à terceira idade e reduzindo o segmento
mais jovem de consumo. Ao mesmo tempo, nota-se uma
expansão na atuação de fundos de pensão e instituições de previdência
privada, uma vez que os sistemas previdenciários
públicos – que não previam essa modificação no perfil etário –
se acham em grande dificuldade para cumprir sua finalidade.
Finalmente, também o mercado de trabalho sofre um
grande efeito dessa tendência, na medida em que pessoas que
tem uma expectativa de vida mais prolongada terão a possibilidade
de dedicar-se a uma “segunda carreira”, após sua
aposentadoria. Haverá, de forma crescente, novas oportunidades
para que as organizações, especialmente do terceiro
setor, aproveitem a experiência de executivos e técnicos que
contam com grande experiência e que poderão dedicar-se a
novas atividades de consultoria ou de participação em órgãos
consultivos por um período de tempo maior.
A Nova Fronteira Científico-Tecnológica
Outro ponto importante para o futuro das organizações
diz respeito ao avanço que se verifica no campo de ciência e
tecnologia. No período que Drucker denominou de “era do
conhecimento”, tem ocorrido uma expansão muito rápida
das atividades de pesquisa e desenvolvimento. Isto ocorre
tanto nos organismos estatais de pesquisa e nas universidades,
como nas empresas privadas.
Os avanços da microeletrônica, das telecomunicações, da
nanotecnologia e da biotecnologia, a introdução de novos
materiais, os progressos da medicina e da produção de fármacos,
tudo tem contribuído para o surgimento de novos
produtos e serviços que, em última análise, ampliam a qualidade
de vida do homem. O ciclo de cada produto ou serviço
se vê encurtado, ao mesmo tempo em que os recursos requeridos
para pesquisa e desenvolvimento são cada vez maiores.
A questão da propriedade intelectual, neste quadro,
ganha uma relevância especial. É a forma que se dispõe para
proteger esses investimentos vultosos e garantir que os
recursos dispendidos possam proporcionar o retorno
necessário até para o desenvolvimento de novas atividades
de pesquisa e desenvolvimento. A inclusão das questões de
patentes na agenda da OMC e na discussão dos acordos
para estabelecimento de novas áreas de livre comércio entre
países deverá moldar o futuro nos próximos anos.
A Proteção do Meio Ambiente
As alterações no perfil demográfico que já foram referidas e
o alongamento da vida das pessoas, conjugadas às modificações
no papel do Estado que serão abordadas mais adiante,
contribuem para que se adote uma nova visão em relação à
preservação dos recursos naturais e proteção ambiental.
A cada momento ganha consistência maior a idéia que
essa tarefa não deve ser desempenhada unicamente pelo
Estado, mas deve ocupar todos os segmentos da
sociedade. Cada qual pode fazer sua parte para que o
planeta possa registrar níveis mais reduzidos de poluição
e que a água e a atmosfera fiquem mais limpos.
Em conseqüência, além do surgimento de uma legislação
de proteção mais rígida, as empresas passam a ser avaliadas
também com base na sua contribuição para a criação de
melhores condições ambientais. As organizações que não
tenham essa preocupação se verão alijadas do processo concorrencial,
sendo de destacar que em alguns países essas
restrições já se tornaram parte do cenário dos negócios.
Os Efeitos da Globalização
A forte tendência verificada nos últimos quinze anos, no
sentido da liberalização do comércio e da derrubada das fronteiras
físicas e legais ao transito de mercadorias, serviços e pessoas
também é um ponto relevante, devendo acentuar-se nos
próximos anos.
No plano das empresas, essa liberalização dos fluxos de
comércio tem como característica o acirramento da competição.
A abertura dos mercados e a abolição de restrições ao
comercio de mercadorias e serviços fez com que se verificasse
um desequilíbrio entre oferta e procura, como que “revogando”
a lei da escassez. O que acontece atualmente é uma
capacidade produtiva global que, em muitos casos, supera
amplamente a demanda agregada. Em decorrência desse fato
o consumidor dispõe – como nunca antes ao longo do
processo de evolução dos negócios – de um excepcional
poder de barganha no mercado. O esforço das empresas para
atrair e reter o interesse dos consumidores deverá ser cada vez
maior nos próximos anos. É importante ressaltar que a
diferenciação de produtos e serviços é cada vez mais
efêmera, tendo em vista a capacidade de cópia do diferencial
pelos demais concorrentes e o avanço tecnológico.
No campo da atuação do Estado, o processo de globalização
implica também num grande número de desafios. Será
necessário um grande esforço para agilizar o processo de
comércio, fornecendo às empresas nacionais a ajuda
necessária para que as mesmas se tornem mais competitivas.
Isto implica, no cenário interno dos países, em investimentos
na infra-estrutura econômica, reforma do judiciário e
modificações sensíveis na ordem tributária.
No entanto, outro aspecto fundamental para garantir uma
maior competitividade às empresas se acha colocado na orientação
da política externa. É preciso desenvolver uma ação
consistente em dois sentidos diversos: o alargamento dos
mercados e a remoção de obstáculos protecionistas por parte
dos países com quem se mantém relações comerciais. Essa
ação deverá ser traduzida por um amplo esforço multi e
bilateral, que possa contribuir para a ampliação das oportunidades
de exportação de mercadorias e serviços.
As Questões de Governança
Outra tendência importante que deverá ter um grande
impacto sobre as empresas e os países nos próximos anos é
constituída pelas questões de governança.
Inicialmente deve-se destacar que o crescimento e a
interligação dos mercados de capitais decorrente do processo
de globalização acentua a necessidade de implementação
de regras estritas de governança corporativa. Os episódios
desagradáveis ocorridos com a Enron, WorldComm e, em
menor escala com outras empresas de grande porte nos
Estados Unidos, assim como a falência da Parmalat, com
seus impactos em escala mundial sobre a vida de milhares de
“stakeholders”, impõe a urgente necessidade de princípios
de ética e transparência nos negócios. Assim, regras de boa
governança corporativa deverão ganhar cada vez maior
importância, como meio de proteger os interesses de todas
as partes envolvidas nos negócios.
Por outro lado, as macro-questões de governança também
vem ganhando destaque crescente. Tanto no plano
interno de cada país, como no conjunto das relações políticas
e econômicas globais, é essencial garantir uma
transparência absoluta em qualquer tipo de relação que
venha a ser estabelecida entre países ou mesmo entre segmentos
distintos de uma mesma sociedade nacional. Só assim será
possível contribuir para que os benefícios advindos do desenvolvimento
possam ser acessíveis para todos.
As questões de governança serão um fator determinante de
sucesso para que uma dada organização possa atingir os resultados
desejados, em sua busca por uma posição de destaque
no cenário competitivo global. No plano nacional e internacional,
trata-se de uma condição exógena às organizações,
enquanto que no nível corporativo a qualidade de gestão, a
ética e a transparência dependem apenas da própria empresa.
No plano global, parece urgente uma revisão dos organismos
multilaterais, como a ONU, o FMI e a OMC. Será
necessário aparelhar esses organismos de modo que possam
enfrentar as questões colocadas pela crescente inter-relação
dos mercados. Por outro lado, deverá caber a esses organismos,
por igual, o acompanhamento das questões decorrentes
da não adoção dos princípios básicosde governança corporativa
pelas empresas, como meio de prevenir os impactos já
verificados no passado recente e criar as condições adequadas
para a redução de riscos sobre o ambiente dos negócios.
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