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Ainda que exercício antropológico rudimentar, sempre
me apraz recompor certas normas em seu contexto
cultural: do pecado mortal aos ditames do
bom-tom, é muito interessantemente útil nos darmos conta
das cadeias de força que geraram tais comportamentos.
Assim,falar da blasfêmia enquanto ataque ao mais venerável e
sagrado, como fonte de danação eterna, nos permite desvendar
as entranhas encharcadas de preconceitos de um dos mais significativos
mecanismos de coragem contestatória ainda que, em
muitos casos, de suicida e contraproducente oposição: não
importa a que religião se referencia, escapando dos limites temporais
e geográfico, é emblemático como essa palavra suscita
uma apriorística reação de repulsa e temor.
O fato é que tudo começou quando o ministro Buarque da
educação fez menção à falta de radicalismo das universidades:
guardados o respeito que o ministro e, sobretudo, o intelectual e
o educador merece, resguardo-me o direito que cabe ao cidadão
de interpretar e de parafrasear.
Há uma espécie de síndrome que se abate sobre as oposições
históricas: um certo conservadorismo engessante que as contamina
quando as mesmas se fazem governo; da mesma forma, é
reação automática a alguns setores dessas oposições, uma adversa
e imatura reação saudosa à iconoclastia perdida ou abandonada
( porque efetivamente inoportuna) nas soleiras das ante-salas do
poder: sinceramente não creio que este seja o problema de nosso
ministro, homem que, afora qualquer crítica que possa ser feita à
sua gestão, aprendemos a admirar como intelectual consistente,
coerente e extremamente ponderado.Daí, acreditarmos que, apesar
de governo, Cristóvão Buarque, fiel às suas origens e na busca
talvez mais sincera do que política de uma das essenciais medulares
da academia, instigou ao questionar procedente e responsável dos
padrões, lembrando que, quase como uma regra, o conhecimento
humano se fez por saltos ousados por sobre verdades institucionais
aparentemente eternas e secularmente defendida.
Há nós que, mesmo no fragor dos “anos rebeldes”, buscávamos
ponderação e prudência no encalço da verdade e, ainda
assim, éramos tentados pela vertigem da contestação, fica muito
fácil entender o sentido do repto do Ministro, de alguém que,
gostaríamos de crer, teme que a esperança que superou o medo
se torne, numa espécie de dialética rebaixada, na desesperança
do comodismo aniquilador; é confortante pensar que, a sombra
do trono não foi suficiente para fazer fenecer um dos traços radicais
que podem, no limite, serem aceitos como necessários: a
sede intelectual infinita que, tornando a idéia da verdade um
conceito transitório, faz com que consigamos a segurança da
própria verdade essencial.
E antes que o título em epígrafe seja interpretado como apelo
promocional, voltemos aos blasfemos, retornemos a aqueles, às
vezes iluminados, às vezes ensandecidos que, quer por condenável
e impensado hábito, quer pela contestação suprema, ousavam se
equilibrar sobre as bordas do inferno e investir contra o Absoluto
ou , de fato, contra seus auto-denominados representantes.
Nos contextos histórico-culturais em que a blasfêmia como
tal assumiu o papel de disciplinamento máximo, no sufocamento
de estruturas teocrático-absolutistas, contrariar os cânomes
de forma pensada e procedente sempre foi, acima de tudo,
declaração total de coerência, testemunho extremo de ideal que
se queria nos limites do humano, do razoável; muito distante da
admiração pelo quixotismo suicida, o que nos move a lembrar
desses muitas vezes incógnitos mártires de seus próprios princípios,
é esse impulso vital que conduz um ser humano, apesar de
riscos extremos a insistir em suas crenças.Em tempos onde a
ausência de princípios, a sua vacuidade e ambigüidade fazem
com que a aventura humana resvale pela miserabilidade moral,
não é exagero lembrar desses homens que não ousaram apenas
afrontar o poder terreno e seus corolários de destruição física
mas, cegos pela sua própria luz interior, não exitaram em oferecem
suas próprias almas imortais em sacrifício ao que acreditaram,
contra tudo e todos.
Em muitos momentos de estagnação moral civilizatória, o que
falta é uma pitada da sanha divina daqueles que, por Deus mesmo
iluminados, fazem com que a humanidade possa superar o lamaçal
imobilizante da mesmice, do preconceito e das vaidades que se
encastelam em verdades.
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