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       Ano I - nº 6
  INSIGHT
Henrique Vaialati Neto
             
A apologia da blasfêmia

Ainda que exercício antropológico rudimentar, sempre me apraz recompor certas normas em seu contexto cultural: do pecado mortal aos ditames do bom-tom, é muito interessantemente útil nos darmos conta das cadeias de força que geraram tais comportamentos.

Assim,falar da blasfêmia enquanto ataque ao mais venerável e sagrado, como fonte de danação eterna, nos permite desvendar as entranhas encharcadas de preconceitos de um dos mais significativos mecanismos de coragem contestatória ainda que, em muitos casos, de suicida e contraproducente oposição: não importa a que religião se referencia, escapando dos limites temporais e geográfico, é emblemático como essa palavra suscita uma apriorística reação de repulsa e temor.

O fato é que tudo começou quando o ministro Buarque da educação fez menção à falta de radicalismo das universidades: guardados o respeito que o ministro e, sobretudo, o intelectual e o educador merece, resguardo-me o direito que cabe ao cidadão de interpretar e de parafrasear.

Há uma espécie de síndrome que se abate sobre as oposições históricas: um certo conservadorismo engessante que as contamina quando as mesmas se fazem governo; da mesma forma, é reação automática a alguns setores dessas oposições, uma adversa e imatura reação saudosa à iconoclastia perdida ou abandonada ( porque efetivamente inoportuna) nas soleiras das ante-salas do poder: sinceramente não creio que este seja o problema de nosso ministro, homem que, afora qualquer crítica que possa ser feita à sua gestão, aprendemos a admirar como intelectual consistente, coerente e extremamente ponderado.Daí, acreditarmos que, apesar de governo, Cristóvão Buarque, fiel às suas origens e na busca talvez mais sincera do que política de uma das essenciais medulares da academia, instigou ao questionar procedente e responsável dos padrões, lembrando que, quase como uma regra, o conhecimento humano se fez por saltos ousados por sobre verdades institucionais aparentemente eternas e secularmente defendida.

Há nós que, mesmo no fragor dos “anos rebeldes”, buscávamos ponderação e prudência no encalço da verdade e, ainda assim, éramos tentados pela vertigem da contestação, fica muito fácil entender o sentido do repto do Ministro, de alguém que, gostaríamos de crer, teme que a esperança que superou o medo se torne, numa espécie de dialética rebaixada, na desesperança do comodismo aniquilador; é confortante pensar que, a sombra do trono não foi suficiente para fazer fenecer um dos traços radicais que podem, no limite, serem aceitos como necessários: a sede intelectual infinita que, tornando a idéia da verdade um conceito transitório, faz com que consigamos a segurança da própria verdade essencial.

E antes que o título em epígrafe seja interpretado como apelo promocional, voltemos aos blasfemos, retornemos a aqueles, às vezes iluminados, às vezes ensandecidos que, quer por condenável e impensado hábito, quer pela contestação suprema, ousavam se equilibrar sobre as bordas do inferno e investir contra o Absoluto ou , de fato, contra seus auto-denominados representantes.

Nos contextos histórico-culturais em que a blasfêmia como tal assumiu o papel de disciplinamento máximo, no sufocamento de estruturas teocrático-absolutistas, contrariar os cânomes de forma pensada e procedente sempre foi, acima de tudo, declaração total de coerência, testemunho extremo de ideal que se queria nos limites do humano, do razoável; muito distante da admiração pelo quixotismo suicida, o que nos move a lembrar desses muitas vezes incógnitos mártires de seus próprios princípios, é esse impulso vital que conduz um ser humano, apesar de riscos extremos a insistir em suas crenças.Em tempos onde a ausência de princípios, a sua vacuidade e ambigüidade fazem com que a aventura humana resvale pela miserabilidade moral, não é exagero lembrar desses homens que não ousaram apenas afrontar o poder terreno e seus corolários de destruição física mas, cegos pela sua própria luz interior, não exitaram em oferecem suas próprias almas imortais em sacrifício ao que acreditaram, contra tudo e todos.

Em muitos momentos de estagnação moral civilizatória, o que falta é uma pitada da sanha divina daqueles que, por Deus mesmo iluminados, fazem com que a humanidade possa superar o lamaçal imobilizante da mesmice, do preconceito e das vaidades que se encastelam em verdades.