Conceitualmente, humildade é a
virtude da modéstia, da condição
de aprendiz. É exatamente esse o
segredo do professor de tendências
financeiras do MBA da FAAP, Luiz
Fernando Figueiredo. Ex-diretor de
Política Monetária do Banco Central e
sócio-fundador da Gávea Investimentos,
que administra US$ 600 milhões em
fundos, Figueiredo tem na humildade a
base de uma carreira brilhante.
Esse paulistano que acaba de completar
40 anos coleciona em seu currículo cargos
de direção em importantes bancos,
associações e comitês do mercado de
capitais. O sucesso, segundo ele, é mais
uma garantia da importância de estar
aberto ao aprendizado, às experiências
de outros profissionais. “Dificilmente
um humilde quebra. Um arrogante quebra
muitas vezes”, ensina.
Graduado em administração na FAAP
em 1989, ele continua freqüentando a casa dando aulas
aos alunos do MBA. De acordo com Figueiredo, a
experiência no MBA da FAAP vem ao encontro de sua
filosofia de trabalho, já que quem ensina também
aprende. Ele conta ainda que por ter estado numa função
pública de tanta importância como a Diretoria de Política
Monetária do Banco Central, o aprendizado está na capacidade
de olhar as várias situações sob ângulos diferenciados.
“Quando você está ‘do outro lado do balcão’, você descobre
que não há verdades absolutas, mas que é preciso
encontrar suas próprias verdades. Uma troca de experiências
como esta é a grande riqueza de ser professor”.
Em dezembro de 2003, ele concedeu entrevista à Revista
Estratégica e se mostrou muito otimista com relação às
tendências econômicas para o próximo ano.
Confira as perspectivas econômicas de Figueiredo para
2004 e sua visão de administração de negócios:
Como o sr avalia nossa economia no
ano de 2003 e o que o sr espera para
2004? Podemos ficar otimistas com as
perspectivas do próximo ano?
Sim, muito otimistas. O ano de 2003
foi um ano de recuperação. Não se
consegue contar a história de 2003
sem falar em 2002, que foi um ano em
que o Brasil quase quebrou e perdeu
totalmente o seu crédito, tanto do
ponto de vista externo quanto do
ponto de vista interno. Para termos
uma idéia, o Brasil deixou de vender
quase R$ 150 milhões em títulos no
mercado local, porque não havia
demanda para esses títulos. Esse era o
status do ano de 2002. Isso porque as
pessoas não sabiam o que iria acontecer
com o novo governo, se iria ser
racional, se as regras do jogo seriam as
mesmas. O novo governo entrou,
mostrando-se absolutamente responsável
e razoável. O ano de 2003 foi de ajuste, de recuperação.
Por isso, no final das contas o País não
cresceu, mas recuperou a capacidade de ser um país
normal. Os números ainda não estão mostrando, mas
o que já começamos a ver é o início de um processo
de crescimento sem inflação, com balança de pagamentos
externos super em ordem. Então, provavelmente
nós teremos um ano de 2004 muito bom.
E quanto aos níveis de emprego? O sr acha que as
taxas de emprego devem melhorar?
Vão melhorar sim. O problema é que o emprego é sempre
o último na cadeia. O custo de contratar e mandar
embora é muito alto, então o que acontece é que, quando
há um processo de recuperação, as empresas aumentam
o número de horas que cada trabalhador cumpre
para ter certeza de que esse aumento de faturamento sejaalgo permanente e não temporário. Se os empresários
tiverem a confiança de que se trata de algo permanente,
daí sim começa um processo de contratação. O Brasil já
está começando a empregar.
Então deveria haver uma mudança substantiva na
questão dos encargos sociais, em todo o esquema de
emprego?
Na verdade, esse assunto está na agenda do próximo ano.
A agenda do governo, em termos de reformas, tem três
pontos: a Reforma do Judiciário, Reforma Política e a
Reforma Trabalhista. Então, 2004 deve começar melhor
para as pessoas e a tendência é que melhore ainda mais ao
longo do ano.
Com relação às viagens do presidente Lula, o sr
espera resultados concretos no aumento das taxas de
exportação e nos investimentos externos no Brasil?
Existia uma crítica do governo atual com relação ao governo
anterior sobre o excesso de viagens. Isso não tem fundamento.
Tanto que esse governo também está fazendo
um número elevado de viagens. O mais importante é que
o Brasil tinha um histórico de ser muito fechado, o que é
muito ruim. É fundamental que o Brasil saia mesmo, vá
viajar, para que esteja muito mais inserido na economia
mundial, do que tem sido na sua história. Isso não é uma
questão de ideologia, mas de ser parte do mundo. O que
nós estamos vendo é uma mudança estrutural e até cultural
com relação à questão de exportação. Esta sempre foi uma
coisa que as empresas deixavam em segundo plano,
porque o lucro da venda dos produtos do mercado interno
sempre foi muito maior do que de exportação. Com a
desvalorização cambial isso mudou e também mudou a
visão dos empresários, trazendo a exportação para ser um
negócio mais permanente para as empresas. Essa situação
faz com que tenhamos cada vez mais surpresas com a performance
da balança comercial.
Qual a sua percepção sobre o corte na taxa básica de
juros dos bancos. Isso vai afetar as receitas para 2004?
Uma coisa é a taxa básica de juros, que é definida pelo
Banco Central. Essa taxa ainda é bastante elevada, da
ordem de 10%, e o Brasil está num processo de redução
dessa taxa. O Banco Central tem todos os meios de
reduzir. Provavelmente em 2004 vamos estar com uma
taxa real de juros mais baixa ao longo do ano. Outra
coisa é a taxa de juros cobrada dos clientes, quando os
bancos fazem empréstimos. Quando temos um ambiente
instável, é muito difícil que os bancos se aventurem a dar
crédito. Com isso, as taxas acabam ficando muito altas e
com isso não se tem oferta de crédito. O que está acontecendo
hoje é que o Brasil está bastante mais estável,
está iniciando um processo de crescimento. E o mercado
de créditos está acompanhando isso. Ou seja, a oferta de
créditos está crescendo bastante. Então, o que podemos
prever para 2004 é que teremos mais crédito e que o
custo do crédito vai ser mais baixo.
Há uma tendência, então, de crescimento entre os
pequenos empresários?
Nós estamos iniciando um ciclo virtuoso.Você tem uma
taxa de juros mais baixa, mais oferta de crédito, mais
disponibilidade de recursos, custo menor dos recursos e
por aí os pequenos empresários vão crescendo.
Para 2004 há um setor da economia que tende a
crescer mais?
Nos últimos anos nós tivemos dois setores que lideraram em
crescimento, ou que não deixaram o Brasil andar para trás.
Um foi o setor exportador e outro foi o setor de agronegócios.
Provavelmente esses dois setores continuarão a crescer,
mas a partir de agora a gente deve ter um crescimento no
setor de bens duráveis, de alimentos e o setor de serviços
também deve se expandir ao longo do ano.
Agora falando um pouco do mundo corporativo.
Nesse mercado global e tão competitivo, quais são
as características dos líderes do futuro? O que eles
devem mudar para garantir uma equipe comprometida
e atualizada?
O executivo tem de ser muito flexível, ter a visão mais
global possível. O que se pede dele é ‘bom senso’, até
menos conhecimento técnico e mais ‘bom senso’ para
administrar as dificuldades e o próprio desenvolvimento
do negócio. O líder deve ser uma pessoa absolutamente
dentro do mundo, ou seja, não só envolvida no negócio
da empresa, mas no contexto nacional e internacional do
mercado daquele produto, para poder entender ou pelo
menos ter uma chance maior de saber para que lado seu
mercado está indo e quais são os seus riscos. É preciso
lembrar que o empresário brasileiro é um dos melhores
empresários do mundo, ele consegue se adaptar aos
sobressaltos que temos todos os anos. Mas o ponto principal
é ser humilde. Uma das coisas mais importantes
para o profissional é a capacidade de ser humilde durante
toda a sua carreira. Porque enquanto você é humilde,
você tem a capacidade de aprender.
Como o sr vê esses profissionais que, por conta de
terem perdido emprego e por dificuldades de recolocação
no mercado, abrem seus próprios negócios? Vemos muitos casos de negócios que não dão certo.
Qual é a falha nesse processo?
Até vários anos atrás, o que estava acontecendo é que a
experiência estava perdendo o seu valor. Então, o modismo
era ter o cara de 22 a 25 anos de idade trabalhando 20
horas por dia e esse era o executivo de alto nível, o executivo
bom. O que se viu é que isso é uma grande bobagem.
É preciso ter sim muita experiência, mas os profissionais
devem se reciclar. Existe esse risco para aquele profissional
mais velho que não se reciclou. Aí sim a situação fica difícil,
mesmo quando ele vai montar o seu negócio. Muitas
vezes por isso é que não dá certo.
E hoje esse profissional mais experiente está sendo
mais valorizado?
O correto não é nem o garoto assumir um cargo que
exija muita experiência e nem o mais velho obsoleto, sem
ter se desenvolvido. Hoje não dá mais para interromper
os estudos, parar de aprender, parar de experimentar em
nenhum momento. O que está acontecendo hoje é que
estamos num mundo de mais equilíbrio. O profissional
experiente é valorizado, mas às vezes ele não quer trabalhar
20 horas por dia.
E qual a importância, na sua visão, da educação continuada,
os cursos de especialização, pós-graduação e
MBA? Onde o profissional que tem MBA se destaca
dos outros? O que ele tem a mais?
Quando o profissional faz MBA, ele estudou o geral, ele
tem uma experiência no mínimo razoável por alguns anos.
Ele volta a estudar com experiência prática. Então ele tem
condição de utilizar melhor esse segundo estudo que está
fazendo, essa reciclagem. Tanto que o MBA normalmente
é muito prático, ele é mais voltado a problemas que estão
acontecendo e muito menos teórico. Às vezes, a grande
dificuldade é que alguns cursos continuam muito teóricos,
muito distantes da realidade. E o MBA é exatamente o
contrário, pelo menos na minha visão.
Com relação aos estudantes de graduação que estão
chegando, que estão entrando agora no mercado,
qual o conselho que o sr daria? O que elas devem
enfatizar na sua vida profissional?
É necessário que eles tenham um conhecimento
abrangente, que estejam absolutamente antenados sobre
o que está acontecendo no mundo. É preciso muita vontade
de trabalhar, ter dedicação e paciência, controlar a
ansiedade, que é normal quando se entra no mercado de
trabalho. O importante não é a especialização e sim a
busca de um conhecimento abrangente e muita disposição.
Antigamente não se comprava o conhecimento
técnico, mas hoje isso é possível. Por exemplo, se um
profissional do ramo de estatística quer fazer uma avaliação
de como está o comportamento de vendas de uma fábrica,
ele pode contratar um especialista nisso. Mas quem vai
avaliar esses dados é aquele que tem experiência no
assunto, que conhece o mercado, que conhece as pessoas.
O especialista vai apresentar os números que ajudam
a tomar a decisão, mas ele não toma a decisão por
você. Um bom exemplo é que antigamente as empresas
decidiam fazer investimentos e depois ficavam 5 ou 10
anos sem investir. Ou seja, é como se ela não estivesse
preocupada em reciclar e se a empresa não investe todo
dia, todo ano, ela quebra.
Mas também é importante ter qualidade de vida,
sair, ir ao cinema e ler para manter-se atualizado?
É importante, mas você pode unir o útil ao agradável. Por
exemplo, eu muitas vezes exploro novas oportunidades
em outros países para fazer investimentos. Recentemente
eu fui para a China. Então, além de reuniões de negócios,
observei as pessoas nas ruas, entendi como é que funciona
o comércio, a cultura... Às vezes é mais importante ler e
entender uma matéria publicada em uma revista do que
estudar uma planilha de custos. Porque a planilha pode
ajudar a entender como a empresa está hoje, mas não ajudará
a entender como é que a empresa poderá fazer
dinheiro lá na frente. O mercado cada vez mais é um
só. Por exemplo, há 20 anos um produtor de soja estava
preocupado apenas em vender as ações no Brasil,
como está a safra em determinado período e etc. Hoje,
se ele não souber o que está acontecendo com as safras
e o preço da soja no mundo, ele literalmente quebra.
Então nesse caso, trata-se de um só mercado.
Talvez, por isso, o nível de stress aumente cada
vez mais?
Tudo é uma questão de como é que você consegue conviver.
Se pessoa está querendo por o ‘burro na sombra’,
realmente ela vai se estressar muito, porque ela nunca
conseguirá fazer isso. Essa é a mensagem final: é
necessário estar sempre escutando, sempre aprendendo,
sempre atento a tudo que está acontecendo, porque o
aprendizado é uma coisa contínua. Aí entra a questão da
humildade, ou seja, estar sempre aberto ao aprendizado.
E o medo que as pessoas têm de serem ‘engolidas’ pelos concorrentes, se forem humildes?
Humildade não quer dizer subserviência. Trata-se de
uma postura. Muitas vezes, sua melhor conversa é
com aquele que tem um menor preparo do que você.
Há momentos em que conversar com o profissional
especialista traz menos ganhos do que conversar com
aquele que está batalhando com erros e acertos. Este
último pode, inadvertidamente, te dar uma idéia,
uma solução para seus problemas, um ponto de vista
sobre o qual você não havia pensado. A humildade é
a base de todo aprendizado.
E quanto à sua experiência na China? Quais foram
suas impressões sobre o povo, a cultura, como as pessoas ganham, poupam e gastam dinheiro na
China?
O Ocidente está descobrindo a China. É quase que
um continente em número de pessoas. A China é
um país que está se tornando importante e não
tenho a menor dúvida de que em dez anos vai ser
a mais importante economia do mundo. Hoje nós
temos de conhecer muito a economia americana,
que é chamada ‘o motor do mundo’. Daqui a dez
anos será a mesma coisa com relação à China.
Trata-se de uma cultura totalmente diferente. A
democracia nunca chegou perto da China e apesar
disso existe uma grande estabilidade no país. As
regras do jogo não mudam, o governo segue sempre
na mesma direção.
Qual foi sua percepção sobre o sistema de trabalho,
os níveis de emprego...
Existe quase que escravidão na China. As pessoas
trabalham muito e ganham quase nada. Por isso, o
país cresce tanto e aquelas pessoas não conhecem
outra vida. Há um antagonismo monumental com
a Europa, por exemplo, onde as pessoas trabalham
pouco. O chinês é muito empreendedor, faz negócios,
cria atividades, é algo que está no sangue. Ao
mesmo tempo ele é muito tradicionalista, machista.
Mas a ocidentalização da economia vem acontecendo
através dos processos de privatização e abertura,
melhora do ambiente para investimentos,
capital externo. A China é o país que mais recebe
investimentos do exterior: US$ 50 ou 60 bilhões
de dólares por ano. Eles crescem de 8 a 10% ao
ano. Por conta disso, eles absorvem muitos produtos
de outros países. No caso do Brasil, os chineses
compram muita commoditie, o que tem ajudado
muito nossa exportação.
O que o Brasil pode aprender com a China, na
sua opinião?
Algum tempo atrás eu ouvi um discurso do nosso
presidente, em que ele citou umas quatro ou cinco vezes
a palavra soberania. Na China, o primeiro ministro
nunca fala a palavra soberania, porque para eles esse é um
item básico. Quando você precisa dizer cinco vezes que
seu país é soberano é porque você não tem certeza disso,
você tem medo disso. Lá é tão óbvio que não é preciso dizer.
Conte-nos um pouco sobre sua empresa, a Gávea
Investimentos.
A Gávea se origina de um sonho que o Armínio Fraga e
eu tínhamos de trabalhar juntos e de montar uma
empresa. Achamos que o melhor negócio seria esse de
administração de recursos de terceiros. Ao todo, são
nove sócios, muitos dos quais ex-companheiros do governo
FHC, como Ilan Goldfjn e Amaury Bier. Trata-se de
uma empresa dividida em alguns setores específicos. Há o
setor de análise de empresas, a área de análise macroeconômica
do Brasil e de outros países, o setor de análise
de risco e a área de operações. Temos três áreas de
research: micro, macro e quantitativa. São dois fundos:
um externo, que é global, de compra e venda de artigos
no mundo inteiro. Esse fundo hoje tem US$ 450
milhões e está fechado para captação de recursos. Outro
fundo é local, que está com R$ 440 milhões, operando
no mercado brasileiro. Temos perto de US$ 600 milhões
sob nossa administração e estamos montando um segundo
negócio que é de administração de patrimônio.