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       Ano I - nº 6
  ENTREVISTA: Luiz Fernando Figueiredo
Cynthia Dalvia
e Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos,
São Paulo
             

A HUMILDADE É O SEGREDO DO BOM ADMINISTRADOR

EX-DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL MOSTRA OTIMISMO PARA A ECONOMIA BRASILEIRA EM 2004






Conceitualmente, humildade é a virtude da modéstia, da condição de aprendiz. É exatamente esse o segredo do professor de tendências financeiras do MBA da FAAP, Luiz Fernando Figueiredo. Ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e sócio-fundador da Gávea Investimentos, que administra US$ 600 milhões em fundos, Figueiredo tem na humildade a base de uma carreira brilhante.

Esse paulistano que acaba de completar 40 anos coleciona em seu currículo cargos de direção em importantes bancos, associações e comitês do mercado de capitais. O sucesso, segundo ele, é mais uma garantia da importância de estar aberto ao aprendizado, às experiências de outros profissionais. “Dificilmente um humilde quebra. Um arrogante quebra muitas vezes”, ensina.

Graduado em administração na FAAP em 1989, ele continua freqüentando a casa dando aulas aos alunos do MBA. De acordo com Figueiredo, a experiência no MBA da FAAP vem ao encontro de sua filosofia de trabalho, já que quem ensina também aprende. Ele conta ainda que por ter estado numa função pública de tanta importância como a Diretoria de Política Monetária do Banco Central, o aprendizado está na capacidade de olhar as várias situações sob ângulos diferenciados.

“Quando você está ‘do outro lado do balcão’, você descobre que não há verdades absolutas, mas que é preciso encontrar suas próprias verdades. Uma troca de experiências como esta é a grande riqueza de ser professor”.

Em dezembro de 2003, ele concedeu entrevista à Revista Estratégica e se mostrou muito otimista com relação às tendências econômicas para o próximo ano.

Confira as perspectivas econômicas de Figueiredo para 2004 e sua visão de administração de negócios:

Como o sr avalia nossa economia no ano de 2003 e o que o sr espera para 2004? Podemos ficar otimistas com as perspectivas do próximo ano?

Sim, muito otimistas. O ano de 2003 foi um ano de recuperação. Não se consegue contar a história de 2003 sem falar em 2002, que foi um ano em que o Brasil quase quebrou e perdeu totalmente o seu crédito, tanto do ponto de vista externo quanto do ponto de vista interno. Para termos uma idéia, o Brasil deixou de vender quase R$ 150 milhões em títulos no mercado local, porque não havia demanda para esses títulos. Esse era o status do ano de 2002. Isso porque as pessoas não sabiam o que iria acontecer com o novo governo, se iria ser racional, se as regras do jogo seriam as mesmas. O novo governo entrou, mostrando-se absolutamente responsável e razoável. O ano de 2003 foi de ajuste, de recuperação. Por isso, no final das contas o País não cresceu, mas recuperou a capacidade de ser um país normal. Os números ainda não estão mostrando, mas o que já começamos a ver é o início de um processo de crescimento sem inflação, com balança de pagamentos externos super em ordem. Então, provavelmente nós teremos um ano de 2004 muito bom.

E quanto aos níveis de emprego? O sr acha que as taxas de emprego devem melhorar?

Vão melhorar sim. O problema é que o emprego é sempre o último na cadeia. O custo de contratar e mandar embora é muito alto, então o que acontece é que, quando há um processo de recuperação, as empresas aumentam o número de horas que cada trabalhador cumpre para ter certeza de que esse aumento de faturamento sejaalgo permanente e não temporário. Se os empresários tiverem a confiança de que se trata de algo permanente, daí sim começa um processo de contratação. O Brasil já está começando a empregar.

Então deveria haver uma mudança substantiva na questão dos encargos sociais, em todo o esquema de emprego?

Na verdade, esse assunto está na agenda do próximo ano. A agenda do governo, em termos de reformas, tem três pontos: a Reforma do Judiciário, Reforma Política e a Reforma Trabalhista. Então, 2004 deve começar melhor para as pessoas e a tendência é que melhore ainda mais ao longo do ano.

Com relação às viagens do presidente Lula, o sr espera resultados concretos no aumento das taxas de exportação e nos investimentos externos no Brasil?

Existia uma crítica do governo atual com relação ao governo anterior sobre o excesso de viagens. Isso não tem fundamento. Tanto que esse governo também está fazendo um número elevado de viagens. O mais importante é que o Brasil tinha um histórico de ser muito fechado, o que é muito ruim. É fundamental que o Brasil saia mesmo, vá viajar, para que esteja muito mais inserido na economia mundial, do que tem sido na sua história. Isso não é uma questão de ideologia, mas de ser parte do mundo. O que nós estamos vendo é uma mudança estrutural e até cultural com relação à questão de exportação. Esta sempre foi uma coisa que as empresas deixavam em segundo plano, porque o lucro da venda dos produtos do mercado interno sempre foi muito maior do que de exportação. Com a desvalorização cambial isso mudou e também mudou a visão dos empresários, trazendo a exportação para ser um negócio mais permanente para as empresas. Essa situação faz com que tenhamos cada vez mais surpresas com a performance da balança comercial.

Qual a sua percepção sobre o corte na taxa básica de juros dos bancos. Isso vai afetar as receitas para 2004?

Uma coisa é a taxa básica de juros, que é definida pelo Banco Central. Essa taxa ainda é bastante elevada, da ordem de 10%, e o Brasil está num processo de redução dessa taxa. O Banco Central tem todos os meios de reduzir. Provavelmente em 2004 vamos estar com uma taxa real de juros mais baixa ao longo do ano. Outra coisa é a taxa de juros cobrada dos clientes, quando os bancos fazem empréstimos. Quando temos um ambiente instável, é muito difícil que os bancos se aventurem a dar crédito. Com isso, as taxas acabam ficando muito altas e com isso não se tem oferta de crédito. O que está acontecendo hoje é que o Brasil está bastante mais estável, está iniciando um processo de crescimento. E o mercado de créditos está acompanhando isso. Ou seja, a oferta de créditos está crescendo bastante. Então, o que podemos prever para 2004 é que teremos mais crédito e que o custo do crédito vai ser mais baixo.

Há uma tendência, então, de crescimento entre os pequenos empresários?

Nós estamos iniciando um ciclo virtuoso.Você tem uma taxa de juros mais baixa, mais oferta de crédito, mais disponibilidade de recursos, custo menor dos recursos e por aí os pequenos empresários vão crescendo.

Para 2004 há um setor da economia que tende a crescer mais?

Nos últimos anos nós tivemos dois setores que lideraram em crescimento, ou que não deixaram o Brasil andar para trás. Um foi o setor exportador e outro foi o setor de agronegócios. Provavelmente esses dois setores continuarão a crescer, mas a partir de agora a gente deve ter um crescimento no setor de bens duráveis, de alimentos e o setor de serviços também deve se expandir ao longo do ano. Agora falando um pouco do mundo corporativo.

Nesse mercado global e tão competitivo, quais são as características dos líderes do futuro? O que eles devem mudar para garantir uma equipe comprometida e atualizada?

O executivo tem de ser muito flexível, ter a visão mais global possível. O que se pede dele é ‘bom senso’, até menos conhecimento técnico e mais ‘bom senso’ para administrar as dificuldades e o próprio desenvolvimento do negócio. O líder deve ser uma pessoa absolutamente dentro do mundo, ou seja, não só envolvida no negócio da empresa, mas no contexto nacional e internacional do mercado daquele produto, para poder entender ou pelo menos ter uma chance maior de saber para que lado seu mercado está indo e quais são os seus riscos. É preciso lembrar que o empresário brasileiro é um dos melhores empresários do mundo, ele consegue se adaptar aos sobressaltos que temos todos os anos. Mas o ponto principal é ser humilde. Uma das coisas mais importantes para o profissional é a capacidade de ser humilde durante toda a sua carreira. Porque enquanto você é humilde, você tem a capacidade de aprender.

Como o sr vê esses profissionais que, por conta de terem perdido emprego e por dificuldades de recolocação no mercado, abrem seus próprios negócios? Vemos muitos casos de negócios que não dão certo. Qual é a falha nesse processo?

Até vários anos atrás, o que estava acontecendo é que a experiência estava perdendo o seu valor. Então, o modismo era ter o cara de 22 a 25 anos de idade trabalhando 20 horas por dia e esse era o executivo de alto nível, o executivo bom. O que se viu é que isso é uma grande bobagem. É preciso ter sim muita experiência, mas os profissionais devem se reciclar. Existe esse risco para aquele profissional mais velho que não se reciclou. Aí sim a situação fica difícil, mesmo quando ele vai montar o seu negócio. Muitas vezes por isso é que não dá certo.

E hoje esse profissional mais experiente está sendo mais valorizado?

O correto não é nem o garoto assumir um cargo que exija muita experiência e nem o mais velho obsoleto, sem ter se desenvolvido. Hoje não dá mais para interromper os estudos, parar de aprender, parar de experimentar em nenhum momento. O que está acontecendo hoje é que estamos num mundo de mais equilíbrio. O profissional experiente é valorizado, mas às vezes ele não quer trabalhar 20 horas por dia.

E qual a importância, na sua visão, da educação continuada, os cursos de especialização, pós-graduação e MBA? Onde o profissional que tem MBA se destaca dos outros? O que ele tem a mais?

Quando o profissional faz MBA, ele estudou o geral, ele tem uma experiência no mínimo razoável por alguns anos. Ele volta a estudar com experiência prática. Então ele tem condição de utilizar melhor esse segundo estudo que está fazendo, essa reciclagem. Tanto que o MBA normalmente é muito prático, ele é mais voltado a problemas que estão acontecendo e muito menos teórico. Às vezes, a grande dificuldade é que alguns cursos continuam muito teóricos, muito distantes da realidade. E o MBA é exatamente o contrário, pelo menos na minha visão.

Com relação aos estudantes de graduação que estão chegando, que estão entrando agora no mercado, qual o conselho que o sr daria? O que elas devem enfatizar na sua vida profissional?

É necessário que eles tenham um conhecimento abrangente, que estejam absolutamente antenados sobre o que está acontecendo no mundo. É preciso muita vontade de trabalhar, ter dedicação e paciência, controlar a ansiedade, que é normal quando se entra no mercado de trabalho. O importante não é a especialização e sim a busca de um conhecimento abrangente e muita disposição. Antigamente não se comprava o conhecimento técnico, mas hoje isso é possível. Por exemplo, se um profissional do ramo de estatística quer fazer uma avaliação de como está o comportamento de vendas de uma fábrica, ele pode contratar um especialista nisso. Mas quem vai avaliar esses dados é aquele que tem experiência no assunto, que conhece o mercado, que conhece as pessoas. O especialista vai apresentar os números que ajudam a tomar a decisão, mas ele não toma a decisão por você. Um bom exemplo é que antigamente as empresas decidiam fazer investimentos e depois ficavam 5 ou 10 anos sem investir. Ou seja, é como se ela não estivesse preocupada em reciclar e se a empresa não investe todo dia, todo ano, ela quebra.

Mas também é importante ter qualidade de vida, sair, ir ao cinema e ler para manter-se atualizado?

É importante, mas você pode unir o útil ao agradável. Por exemplo, eu muitas vezes exploro novas oportunidades em outros países para fazer investimentos. Recentemente eu fui para a China. Então, além de reuniões de negócios, observei as pessoas nas ruas, entendi como é que funciona o comércio, a cultura... Às vezes é mais importante ler e entender uma matéria publicada em uma revista do que estudar uma planilha de custos. Porque a planilha pode ajudar a entender como a empresa está hoje, mas não ajudará a entender como é que a empresa poderá fazer dinheiro lá na frente. O mercado cada vez mais é um só. Por exemplo, há 20 anos um produtor de soja estava preocupado apenas em vender as ações no Brasil, como está a safra em determinado período e etc. Hoje, se ele não souber o que está acontecendo com as safras e o preço da soja no mundo, ele literalmente quebra. Então nesse caso, trata-se de um só mercado.

Talvez, por isso, o nível de stress aumente cada vez mais?

Tudo é uma questão de como é que você consegue conviver. Se pessoa está querendo por o ‘burro na sombra’, realmente ela vai se estressar muito, porque ela nunca conseguirá fazer isso. Essa é a mensagem final: é necessário estar sempre escutando, sempre aprendendo, sempre atento a tudo que está acontecendo, porque o aprendizado é uma coisa contínua. Aí entra a questão da humildade, ou seja, estar sempre aberto ao aprendizado.

E o medo que as pessoas têm de serem ‘engolidas’ pelos concorrentes, se forem humildes?

Humildade não quer dizer subserviência. Trata-se de uma postura. Muitas vezes, sua melhor conversa é com aquele que tem um menor preparo do que você. Há momentos em que conversar com o profissional especialista traz menos ganhos do que conversar com aquele que está batalhando com erros e acertos. Este último pode, inadvertidamente, te dar uma idéia, uma solução para seus problemas, um ponto de vista sobre o qual você não havia pensado. A humildade é a base de todo aprendizado.

E quanto à sua experiência na China? Quais foram suas impressões sobre o povo, a cultura, como as pessoas ganham, poupam e gastam dinheiro na China?

O Ocidente está descobrindo a China. É quase que um continente em número de pessoas. A China é um país que está se tornando importante e não tenho a menor dúvida de que em dez anos vai ser a mais importante economia do mundo. Hoje nós temos de conhecer muito a economia americana, que é chamada ‘o motor do mundo’. Daqui a dez anos será a mesma coisa com relação à China. Trata-se de uma cultura totalmente diferente. A democracia nunca chegou perto da China e apesar disso existe uma grande estabilidade no país. As regras do jogo não mudam, o governo segue sempre na mesma direção. Qual foi sua percepção sobre o sistema de trabalho, os níveis de emprego... Existe quase que escravidão na China. As pessoas trabalham muito e ganham quase nada. Por isso, o país cresce tanto e aquelas pessoas não conhecem outra vida. Há um antagonismo monumental com a Europa, por exemplo, onde as pessoas trabalham pouco. O chinês é muito empreendedor, faz negócios, cria atividades, é algo que está no sangue. Ao mesmo tempo ele é muito tradicionalista, machista. Mas a ocidentalização da economia vem acontecendo através dos processos de privatização e abertura, melhora do ambiente para investimentos, capital externo. A China é o país que mais recebe investimentos do exterior: US$ 50 ou 60 bilhões de dólares por ano. Eles crescem de 8 a 10% ao ano. Por conta disso, eles absorvem muitos produtos de outros países. No caso do Brasil, os chineses compram muita commoditie, o que tem ajudado muito nossa exportação.

O que o Brasil pode aprender com a China, na sua opinião?

Algum tempo atrás eu ouvi um discurso do nosso presidente, em que ele citou umas quatro ou cinco vezes a palavra soberania. Na China, o primeiro ministro nunca fala a palavra soberania, porque para eles esse é um item básico. Quando você precisa dizer cinco vezes que seu país é soberano é porque você não tem certeza disso, você tem medo disso. Lá é tão óbvio que não é preciso dizer. Conte-nos um pouco sobre sua empresa, a Gávea Investimentos. A Gávea se origina de um sonho que o Armínio Fraga e eu tínhamos de trabalhar juntos e de montar uma empresa. Achamos que o melhor negócio seria esse de administração de recursos de terceiros. Ao todo, são nove sócios, muitos dos quais ex-companheiros do governo FHC, como Ilan Goldfjn e Amaury Bier. Trata-se de uma empresa dividida em alguns setores específicos. Há o setor de análise de empresas, a área de análise macroeconômica do Brasil e de outros países, o setor de análise de risco e a área de operações. Temos três áreas de research: micro, macro e quantitativa. São dois fundos: um externo, que é global, de compra e venda de artigos no mundo inteiro. Esse fundo hoje tem US$ 450 milhões e está fechado para captação de recursos. Outro fundo é local, que está com R$ 440 milhões, operando no mercado brasileiro. Temos perto de US$ 600 milhões sob nossa administração e estamos montando um segundo negócio que é de administração de patrimônio.