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       Ano I - nº 5
  INSIGHT
Henrique Vaialati Neto
             
Surpresa e encantamento nas trilhas da monotonia

Dócil vítima dessa benigna maldição de nossos dias chamada de educação continuada (que fez de nossos lindos diplomas verdadeiros certificados do efêmero humano), vi-me na obrigação de me debruçar sobre um daqueles temas marcados pela “modernidade compulsória”. Foi assim que, após muitas e antigas incursões, bastantes relutante, me dispus a encarar uma pilha de gurus em papel falando de liderança: a muito prolongada vivência do tema sob a ótica política havia feito com que, de forma assumidamente preconceituosa, visse com grande reserva o enfoque da liderança em termos de competência profissional organizacional ou seja, em suas abordagens confessadamente mais pragmáticas.

Já disposto a encarar as náuseas intelectuais comuns aos caminhos da mesmice e da “modernidade pragmática”, comecei a me defrontar, mesmo que muitas vezes à revelia de autores e suas propostas, com muito interessantes questões que me revelaram (além da simples vergonha que o assumir encanecido de preconceitos provoca): não apenas o envelhecimento na desfaçatez intelectual de certos gurus bem como a perspicácia e lucidez histórica de outros que, injustamente, fiz crucificar na minha sanha inquisitorial de acadêmico.

Como não fiz público e nominado meu repúdio, do mesmo modo creio justo não me obrigar penitente a retratações de quem não foi citado.

Assim, além de me surpreender por descobrir o encantamento onde só imaginava a feiúra do mercantilismo literário, pude ser acicatado a perceber que, nestes tempos da Era do Conhecimento, os mais lúcidos apontaram conteúdos que, no caso liderança, nos permitem perceber os incrivelmente largos horizontes que a imprevisibilidade nos obriga enxergar.

Despido do seu consagrado contorno divino de “herói modesto”, o líder aparece, nesse universo de organização extremamente dinâmicas, flexíveis e mutáveis, como um servidor capaz de, quase sempre, comandar pessoas que sabem mais do que ele; surgem visões que o querem como um catalizador da criatividade alheia, como um contador de historias, solidamente ancorado em princípios éticos capaz de motivação exemplar.

Ainda caminhando a esmo nesse encantamento pueril da descoberta, fomos nos dando conta de que, principalmente pensadores da consistência e profundidade e de Drucker e de Morin (acho que fui a extremos respeitáveis), a sensibilidade para a real dimensão histórica que vivemos passa a ser a “competência mater” para a sobrevivência neste milênio já nascido ancião pela celeridade intensa que vive.

É docemente cruel vermos o velho e finado líder herói (tão caro e necessário aos mitos essenciais do capitalismo), hora despojado de suas ricas vestes de prepotência, ser relegado ao mais empoeirado e desinteressante asilo dos “grandes homens”: tal ostracismo, (tanto quanto o aceite unânime de que os novos padrões nas hierarquias organizacionais pressupõem necessidades de lideranças situacionais
bem como estruturas quase planas de poder), revela que a própria essência civilizatória do conceito de poder vive aquela que poderia ser designada como a mais visceral mudança.

Parece que os tempos do poder abrirão espaço definitivo para os tempos da autoridade, tempos nos quais as lideranças como nunca não nascerão das canetas que contratam e promovem, mas do conhecimento e adesão de equipes cada vez
mais bem preparada para o enfrentamento da imprevisibilidade e da mudança e, aos donos daquelas canetas, ficará restritos o referendar das lideranças nessas equipes nascidas.

Desvario utópico e neo-democrático?
Espero que não!
O que sei é que, levado por quem não esperava a repensar algo que imaginava esgotado, dei-me conta de que, em matéria de futuro e de competências futuras, prática será a abordagem que consiga se polarizar no essencial, no profundamente essencial, já que, ante o poder transformador de tempo, tudo que não for fundamental será resíduo não reciclável, lixo imprestável produzido e armazenado pela inconseqüência dos ultrapassados.