Os impasses da política econômica brasileira nos anos 90

_________________________________________________________________________________________________

Érico Henrique Garcia de Brito e Áquilas Mendes*

Resumo: Os anos 90, como os 80, foram denominados por parte da literatura econômica como mais um período de "década perdida". Ainda que essa última década disponha de características da política econômica distinta em relação aos anos 80, há quem afirme que os motivos desse comportamento possam ser explicados por conseqüências inevitáveis da irresponsabilidade governamental de períodos anteriores e de decisões tomadas no âmbito da definição da política econômica interna nesses últimos dez anos. A supremacia crescente do "mercado", do financeiro e do privado sobre o público também contribuiu para esse quadro, conforme o demonstram as várias indagações que se encontram neste artigo. Ele analisa o sentido da política econômica nos anos 90, com destaque à inserção brasileira no processo das reformas "neoliberais", bem como o processo de privatização ao longo desses anos, confrontando-o com os fins que exerceu na agenda do setor público nesse período. Por fim, trata da dinâmica das contas públicas nos diversos períodos da década e avalia seu impacto na adoção de uma nova diretriz de política fiscal.
Palavras-chave: ajuste fiscal, dívida pública, déficit público, privatização.

Introdução

O Plano Real e a estabilização das taxas de inflação foram, sem dúvida, os principais eventos na seara econômica no decorrer da década de 90. Importante salientar, no entanto, que o plano e seus desdobramentos posteriores foram concebidos a partir dos mesmos ideais "neoliberais" que pautaram os programas de estabilização de nossos vizinhos latinos, qual sejam: aumento acelerado das importações de bens, serviços e capitais; âncora cambial e juros elevados (Mercadante, 1998). Ou seja, o próprio sucesso do plano levou a economia nacional a uma série de desequilíbrios macroeconômicos (Fiori, 1998).
Para que se possa entender a dinâmica e a lógica por trás desse processo, faz-se necessário considerar as iniciativas e reformas promovidas pelo Estado a fim de reduzir a interferência estatal nos "mercados" e promover a competitividade na economia, que ocorrem com mais vigor a partir de 1990.

A implementação de uma série de medidas que contribuíram para o contínuo esfacelamento do setor público, por outro lado, provocou a "ressurreição" dos credores internacionais que, ao contrário da década anterior, assistiam a uma crise de excesso de liquidez (Filgueiras, 2000). A "boa-vontade" de financiar a economia brasileira dava-se, principalmente, por meio de capitais de curto prazo a juros elevados, de investimentos diretos ou, em alguns anos mais especificamente, pelos recursos destinados ao processo de privatização 1 .
Os novos e abundantes recursos facilitaram o "fim" da inflação crônica e são, em grande parte, a causa da quebra do dogma de que a estabilização deveria estar, obrigatoriamente, acompanhada de uma política de maior austeridade fiscal (que de fato só seria adotada com a crise cambial de 1999), como veremos no decorrer deste artigo, dogma este que Franco coloca de maneira categórica:

"Claramente, se não houver ajuste fiscal simultâneo à estabilização, ela fracassará de forma rápida e retumbante." 2 (Franco, 1995, p. 232)

Tratava-se, na visão de Giambiagi, de uma violação dos fundamentos fiscais de qualquer programa de estabilização, e provava ser errada a assunção dos pensamentos econômicos à época, dado o sucesso estrondoso do Plano Real frente aos seus antecessores, embora inegável a importância do ajuste no médio e longo prazo (Giambiagi, 1997).

Esquecem-se esses autores de que a estabilização, de fato, poderia ser mantida por um prazo reduzido sem a aprovação das reformas e ajustes necessários. O preço da estabilização era pago pelas receitas de privatização e pelos capitais especulativos, às custas de, passada a euforia produtiva dos primeiros anos de estabilização, desemprego e recessão. Por outra ótica, tinha-se que o financiamento do componente externo (leia-se: conseqüentes desequilíbrios em conta corrente) atuava como protelador principal das inevitáveis medidas amargas que viriam a ser implementadas após 1999.

Nesse contexto, este artigo analisa o fio condutor da política econômica nos anos 90, com destaque para a inserção brasileira no processo das reformas "neoliberais", conduzida de maneira equivocada a partir do início da década. Em segundo lugar, é abordado o processo de privatização, com ênfase na última fase do PND (Programa Nacional de Desestatização), de maneira a confrontá-lo com os fins que este exerceu na agenda do setor público no período em questão. Em terceiro lugar, o artigo analisa a dinâmica das contas públicas nos diversos períodos da década, culminando na crise de 1999 e seu impacto na adoção de uma nova diretriz de política fiscal.

Como pano de fundo, ilustrar-se-á que o país permanece ao sabor das freqüentes turbulências que conduzem o capital internacional, o que é fruto de um modelo de desenvolvimento extremamente voltado para fora e cronicamente dependente. Os humores externos continuam a ditar as regras da sustentabilidade do problema financeiro crônico do setor público brasileiro, salvo todas as peculiaridades que diferenciam os anos 90 dos demais períodos da história econômica recente.

O "Neoliberalismo" chega ao Brasil

Ao fim dos anos 80, com o insucesso de sucessivos planos de estabilização, o país estava mergulhado na estagnação econômica e beirava a hiperinflação. Nesse contexto, os ideais liberais em curso no mundo encontraram espaço para se desenvolver no país e inaugurar, com o governo Collor, a "era liberal" no Brasil. O intervencionismo estatal, a exemplo do que já ocorria nos países centrais e em algumas economias latinas, era constantemente "satanizado" e cedia lugar, de forma acelerada, a propostas de desregulamentação total da economia, abertura comercial completa, Estado mínimo, privatizações etc.

A discussão acerca da reformulação da participação do Estado remetia às questões referentes ao próprio papel deste no desenvolvimento nacional, papel que deveria ser deixado em segundo plano, em prol de uma postura que deveria limitar-se apenas à de regulador, conforme defende Malan:

"É uma nostalgia dos anos 50 a idéia de que é o Estado que vai promover o desenvolvimento, através do gasto público, mandando a conta para sociedade através do imposto inflacionário, do endividamento que recai sobre gerações futuras, ou de impostos que caiam sobre gerações presentes. É nesse sentido que eu acho que o nome do jogo aqui é o aumento da poupança privada e a redução da despoupança pública, como tenho chamado a atenção há algum tempo" (Malan, 1999).

Franco é mais enfático quanto ao papel que o setor público deveria desempenhar nos anos 90:

"... o setor público não terá muita capacidade de originar investimentos como teve nos anos anteriores a 1983. A responsabilidade pelo crescimento nos anos a seguir deverá recair predominantemente sobre o setor privado" (Franco, 1999, p. 62).

No entanto, essa visão não era compartilhada por diversos autores que discordavam da política de abandono dos investimentos estatais em prol da iniciativa privada, questionando a eficiência presumida do setor privado sobre o setor público, e apontando os riscos iminentes de dependência econômica dos investimentos privados. O argumento de Sayad ilustra essa visão:

"Sem gasto público, o nível de atividade e de emprego passam a depender do estado de ânimo e das opiniões dos empresários sobre o governo. Assim, se o governo não atender suas reivindicações e ouvir suas opiniões, os investimentos se reduzem, o desemprego aumenta e há fugas de capitais (se houver mobilidade de capital). Sem gasto público, a opinião do capital resgata sua importância e efetividade" (Sayad, 1999, p.130-131).

Logo, o Estado passaria a simples subordinado dos interesses corporativos e aos interesses do sistema financeiro internacional. O monopólio estatal seria substituído pelos oligopólios privados, estes com o objetivo principal de recuperar o valor pago nas privatizações3 e, em muitos casos, adotando políticas próprias que confrontavam os objetivos que o setor público tradicionalmente representa.

Difícil seria, sob uma outra ótica, discordar da visão de Malan e Franco. De fato, o Estado brasileiro não seria capaz de comportar uma política desenvolvimentista nos moldes das décadas de 60 e 70. O modelo de substituição de importações, que fora o grande propulsor do desenvolvimento nesse período, estava esgotado, o que abria uma lacuna ideológica em toda a América Latina para a proliferação dos ideais de caráter "neoliberal", que não passavam de um aprofundamento da centralização e concentração do capital sob um novo paradigma, uma nova roupagem. A internacionalização do capital colocava em lados opostos países ricos e pobres, tornando-se claro que os Estados mais fracos deveriam submeter-se às novas exigências do sistema financeiro internacional.

Fazia-se necessário, portanto, rediscutir o estratégico papel do Estado no desenvolvimento nacional. Havia, de fato, a necessidade de sua redefinição. No entanto, as reformas com esse intuito (abertura, privatização) não podem ser vistas como um objetivo em si, um rumo inevitável pelo qual não se possa discutir um novo modelo de intervenção estatal, mais adequado ao novo cenário econômico e que permita recuperar, inclusive, os investimentos públicos.

Por fim, apesar do fraco desempenho econômico nacional no intervalo 1980-2000, algumas diferenças podem ser apontadas. Em primeiro lugar, as elevadas taxas de inflação e políticas macroeconômicas caóticas dos 80, enquanto que a década seguinte estigmatizou-se pelo bem sucedido plano de estabilização. Em segundo, a "década perdida" dos anos 80 apresentou forte interferência estatal, enquanto os 90 ficaram conhecidos como "a década perdida com reformas orientadas para o mercado". Por último, o tom de desesperança ao fim da década de 80 contrastava com as perspectivas otimistas acerca de uma trajetória de crescimento sustentável num ambiente de estabilização ao fim dos anos 90 (Pinheiro et al, 2001).

Dentre as diversas reformas palatáveis ao mercado tratadas no escopo deste artigo, o processo de privatizações tem extrema relevância (em determinados anos, papel crucial) na discussão dos impactos sobre o déficit e a dívida, razão pela qual lhe é dedicada uma seção particular.

A "Febre" repentina das privatizações

À medida que o próprio papel do Estado era rediscutido no fim dos anos 80, com uma redefinição dos limites de espaço público e privado em favor deste último, uma malha de transformações passaria a refletir o receituário "neoliberal" posto em prática. Políticas de caráter ortodoxo com o objetivo de controlar a inflação e o déficit público eram acompanhadas por uma drástica mudança na estratégia de desenvolvimento econômico: as empresas estatais passaram a ser vendidas, barreiras tarifárias abolidas e empresas multinacionais cortejadas, numa tendência que veio a se acelerar no decorrer da década de 90 (Velasco Jr., 1997 e 1997a).

No caso específico do processo de privatizações, é fato que a primeira fase (1982-89) foi marcada pela tentativa de saneamento do BNDES, muito longe da expressividade que essa receita "neoliberal" viria a ter em toda a América Latina no decênio seguinte. "A motivação básica foi eliminar de sua carteira (BNDES/BNDESPAR) empresas assumidas involuntariamente e que consumiam parcela significativa de seus desembolsos. Ao final, foram alienadas 38 empresas no período, todas de pequeno ou médio porte, totalizando uma receita de apenas US$ 736,3 milhões" (Passanezi Filho, 1997, p. 387).

As privatizações ocorridas durante o período pré-90, portanto, situavam-se na esfera da redefinição do papel do Estado em algumas áreas em favor do setor privado, embora pouco representativas frente ao Programa Nacional de Desestatização (PND) que foi levado a cabo durante os anos seguintes.

Apenas a partir do governo Collor é que o programa de privatizações toma corpo. Entre 1990 e 1993 foram vendidas várias empresas, principalmente dos setores de siderurgia, petroquímica e fertilizantes, uma vez que restrições constitucionais impediam, até então, a privatização dos setores correspondentes aos serviços de monopólio natural do Estado, tais como o petrolífero, o de telecomunicações, energia elétrica etc.

Outro fator de grande importância no Brasil foi a criação das moedas de privatização, qual seja, um amplo leque de papéis da dívida interna aceitos como pagamento, ao passo que países vizinhos como Argentina e Chile aceitavam preponderantemente moeda e títulos da dívida externa como meios de pagamento 5 (Passanezi Filho, 1997; Velasco Jr., 1997).

Uma característica relevante na utilização das moedas de privatização no PND foi, com exceção de alguns papéis da dívida pública externa, a aceitação dos títulos da dívida de médio e longo prazo de estatais e do governo federal, de forma geral, pelo seu valor de face na compra das empresas, o que salientava os objetivos fiscais do Plano de Desestatização (Pinheiro & Landau, 1995). As moedas de privatização tiveram participação essencial nos resultados em confronto com a reduzida utilização de moeda corrente durante a primeira fase do PND (81% contra 19%). Na fase seguinte (1995-2002), entretanto, o uso de moeda corrente correspondeu a 95% dos resultados totais.

Em suma, o caráter de obter ganhos fiscais nessa segunda fase das privatizações (1990-94) torna-se explícito, embora atingindo resultado inferior ao almejado. Os ganhos para o Tesouro Nacional vinham principalmente da superavaliação dos preços mínimos das empresas e da política de deságios dos títulos aceitos 6, principalmente por meio de ganhos no processo de aceitação das moedas de privatização, redução do saldo devedor, redução das taxas de juros ou mesmo um alívio nos prazos de vencimento. Ou seja, desde então o setor público dispunha de seu patrimônio para sanear custos, com reduzida ou nenhuma preocupação com os resultados para o consumidor. Os elevados prêmios cobrados sobre o patrimônio líquido das empresas já se mostravam como um incentivo para que as mesmas tentassem recompor o ágio pago nas privatizações, mesmo naquelas onde a venda ocorreu pelo preço mínimo.

Ademais, a privatização é tradicionalmente vista como um elemento no processo de ajuste fiscal, ou mesmo, em alguns casos (não o brasileiro), para financiar gastos correntes7 . Essa visão fiscalista acerca do processo de alienação das empresas estatais nos países latinos está presente em Pinheiro & Landau:

"É na América Latina, de fato, onde a privatização tem sido mais freqüentemente acoplada a esquemas de trocas de ações por dívida. Em parte isso se explica pela importância da dívida externa na crise que a região viveu na década passada" (Pinheiro & Landau, 1995, p. 3).

A associação entre privatização e ajuste se dá, na visão desses autores, por meio de duas formas:

"Primeiro, porque, em geral, é difícil reduzir ou eliminar o déficit das empresas estatais sem transferi-las para o setor privado. Segundo, porque as receitas da privatização podem financiar o déficit público sem a necessidade de recurso à emissão de dívida ou moeda" (Ibid, p. 3).

É justamente nesse contexto que o processo de privatização ganha destaque como um dos sustentáculos da política econômica no período de estabilização, atingindo seu "auge" no primeiro mandato do governo Fernando Henrique Cardoso 8 .

Serviços altamente regulados como o de energia elétrica e telecomunicações, de competência exclusiva da União segundo a Constituição de 1988 9 , passam a ser cedidos (sob regime de concessão) para exploração do setor privado, o que acabou com o monopólio público sobre esses serviços, gerando impactos sobre o estoque de dívida pública e sobre o potencial de ganhos de eficiência sistêmica e em nível microeconômico 10 .

No entanto, somente a partir de 1996 a privatização começa a desempenhar seu papel macroeconômico de maior importância. Com as adversidades provocadas pelas crises asiática (1997) e russa (1998), as receitas oriundas da alienação das empresas estatais serviram como um "colchão" para que a estabilidade fosse mantida por meio do equacionamento dos déficits em conta corrente e da dívida pública, em trajetória ascendente desde 1994.

Ou seja, durante esse período de retração dos mercados, a receita da privatização vem desempenhar duplo papel de extrema importância. Em primeiro lugar, o montante de investimentos estrangeiros (IED) que foi canalizado na compra dos ativos estatais reduzia significativamente as necessidades de contratar empréstimos externos para o financiamento do déficit corrente. Para Giambiagi e Além, a intenção do governo era "que o país passasse pela etapa crítica do fechamento parcial do mercado de capitais, após a contração de liquidez internacional iniciada em 1997" (Giambiagi & Além, 1999, p. 331).

Em segundo lugar, os recursos da privatização permitiam ao governo evitar que a dívida pública se tornasse insustentável, uma vez que o aumento desta em proporção do PIB mostrava-se objeto de preocupação desde 1994. O objetivo principal "era evitar que o desequilíbrio fiscal pressionasse muito a dívida pública, enquanto se aprovavam as medidas de ajuste requeridas para a redução das NFSP. Se a estratégia se revelasse correta, a dívida pública teria seu processo de crescimento contido inicialmente através da privatização e, na seqüência, através do esforço fiscal" (Ibid).

De forma conclusiva, novamente o setor público brasileiro encontrou um "jeitinho" para escapar de um novo estrangulamento externo que se iniciava com a crise asiática de 1997. O problema consistia, a exemplo do que ocorria com a receita de senhoriagem durante o período de alta inflação, em até quando o Estado conseguiria manter nos trilhos essa estratégia econômica. Discutiam-se então as possíveis conseqüências do esgotamento das receitas de privatização, o que ocorreu ao fim de 1998, provocando a necessidade (tantas vezes adiada) de urgentes ajustes nas contas fiscais e externas. Pastore ilustra essa preocupação, presente no debate econômico à época:

"A receita real do governo derivada da emissão de base monetária - a senhoriagem - foi uma fonte de financiamento dos déficits públicos suficientemente importante para impedir o crescimento explosivo da dívida pública, nos anos de inflações elevadas... [Atualmente a] receita de privatizações trunca o crescimento da dívida pública por dois anos, mas não impede que o seu crescimento seja não sustentável quando as privatizações se encerrarem" (Pastore apud Giambiagi & Além, 1999, p. 149).

De fato, tal qual uma profecia auto-realizável, o mercado internacional fechou-se novamente em fins de 1997 e o processo de privatização perdeu totalmente o fôlego apresentado no biênio 1997-98. A partir de então, os inúmeros desequilíbrios econômicos, principalmente o fiscal, passaram a ser responsabilizados pelo esgotamento dos ganhos trazidos pelo Plano Real, em particular após a queda da âncora cambial com a forte desvalorização de 1999. Portanto, de uma política de elevação e descontrole de gastos no mandato 1995-98, parte-se para o outro extremo ao fixar metas de déficit a partir de 1999, o que é o objeto da última seção.

Do ajuste precário às metas de déficit: os três períodos fiscais da década de 90

O período 1990-94


Resumidamente, o diagnóstico macroeconômico dos primeiros anos da década apresentava:

  • Aceleração de uma taxa de inflação extremamente elevada;
  • Necessidades de Financiamento do Setor Público (NFSP), no conceito operacional, modestas, pois a inflação facilitava o ajuste das contas públicas, conforme explicaremos em seguida;
  • Taxa de câmbio extremamente desvalorizada, reflexo ainda da contração do mercado de crédito externo ao país na década de 80;
  • Situação de tranqüilidade nas contas externas (Pinheiro et al, 1999).

Na implementação das reformas estatais, particularmente voltadas para o controle da inflação, o combate ao déficit público ganhou destaque importante na agenda do governo. As medidas adotadas nos Planos Collor I e II, com destaque para o congelamento dos títulos públicos pelo governo, inclusive, permitiram reduzir consideravelmente a dívida pública e as despesas com juros11 , de forma que, comparativamente, o superávit primário passa para 2,8% do PIB entre o período de 1990-94, em contraste com a relação de 0,7% entre 1985-89. De maneira semelhante, os juros reais líquidos em relação ao produto caem de 5,8% para 2,8% comparando-se os mesmos períodos 12 .

O ajuste fiscal proposto, conforme sustenta Filgueiras, "... tinha como objetivo fundamental a obtenção de um superávit operacional de 2% do PIB, através de um esforço fiscal que corresponderia 10% do PIB. Ele consistiu de medidas tributárias (indexação e redução dos prazos de recolhimento dos impostos, ampliação da tributação, aumento das alíquotas, suspensão dos incentivos regionais - exceto da Zona Franca de Manaus - e cobrança do IOF em operações de bolsa, caderneta de poupança e títulos em geral); de uma Reforma Patrimonial (venda de ativos da União e privatização das empresas estatais) e de uma reforma administrativa (reorganização do Estado e corte de gastos da máquina governamental" (Filgueiras, 2000, p. 87).

Mesmo com o fim abrupto do governo Collor, em 1992, as políticas de ajuste (redução das alíquotas, privatização e combate ao déficit público) foram mantidas pelo seu sucessor, Itamar Franco, em cuja gestão foi lançado o Plano Real, o mais bem sucedido plano de estabilização da história brasileira.

Da mesma forma que se abordou o impacto que o déficit fiscal exerce sobre a inflação, faz-se necessário tratar, também, a situação inversa. Ou seja, a inflação sobre o tamanho do déficit. O "efeito-Tanzi", no caso brasileiro, não assumiu as proporções observadas em outros países com elevadas taxas de inflação. Isso se deveu, principalmente, a um sofisticado sistema de indexação tributária que reduzia o intervalo do recolhimento dos tributos e indexava os valores a serem cobrados dos contribuintes (por meio de valores referenciais).

Outro fator ainda mais importante foi o papel da inflação na redução dos valores reais dos gastos do governo, o que gerava uma noção "artificial" de controle de déficit. A este foi atribuído o nome de "efeito-Tanzi da despesa", ou "efeito-Tanzi ao contrário" ou ainda de "efeito-Bacha" 13. Este nada mais era do que de um controle de gastos exercido através de uma inflação ascendente: "... a inflação era um 'véu', que ocultava a incompatibilidade entre as demandas sociais e a capacidade do governo de satisfazer a elas, já que quase todas as demandas eram atendidas, nominalmente" (Giambiagi & Além, 1999, p. 118). Desse modo, as discussões sobre um (ou qualquer) plano de estabilização deveriam estar relacionadas a um ajuste fiscal de caráter estrutural e definitivo, o que não ocorreu até o presente e, dado o compromisso político do governo à época,"estava longe de ser inevitável" (Ibid).

O ajuste precário, uma vez que não atacava as raízes do problema, deu-se, então, a partir de três fatores. Em primeiro lugar, o "efeito-Bacha"; em segundo, alguns ajustes de gastos que incluíam redução em benefícios da previdência social e eliminação de transferências às empresas estatais; por último, o aumento da receita provocado pela recuperação econômica a partir de 1993.

A combinação desses fatores permitiu diminuir inclusive, as NFSP operacionais entre 1990-94, com destaque para os dois anos que apresentaram superávit operacional (90 e 94) e forte elevação da receita em proporção do produto, atingindo 27,9% do PIB em 1994.

A dívida pública líquida, por sua vez, após atingir o pico de 55,8% do PIB em 1984, passou a apresentar tendência declinante, chegando ao patamar de 29% do PIB em 1994, uma proporção muito semelhante ao quadro apresentado no início da década. Ademais, é interessante salientar que a redução da dívida líquida apresentou significativa relação com a variação nos índices de inflação, o que guarda estreita relação com o mecanismo de financiamento através do imposto inflacionário.

O Período 1995-98

Os planos de estabilização de sucesso nos 80 e 90 tinham, em maior ou menor, um componente de ajuste fiscal e, como não poderia ser diferente, o tema tornou-se o centro das discussões acerca das pré-condições para adoção de um plano de combate à inflação no Brasil. Nesse debate, distinguem-se duas correntes. A primeira entendia o ajuste ocorrido entre 1990 e 1993 como precário, embora suficiente para estabelecer uma "ponte para estabilidade", até que as reformas estruturais pudessem ser implementadas. Contrariamente, a outra linha de economistas não enxergava melhora relevante nas contas públicas no período referido, como não acreditava na eficácia de um ajuste temporário .

A primeira corrente, que representava a posição oficial, conseguiu então aprovar o Fundo Social de Emergência (FSE), no início de 1994. O FSE diminuía as transferências vinculadas do governo por um período de dois anos, muito embora fosse na época considerada por estes como uma medida de caráter permanente. A Medida Provisória que criou a Unidade Real de Valor (URV), inclusive, promulgou que, com a criação do FSE, estaria garantido o equilíbrio entre as receitas e despesas (Giambiagi & Além, 1999).

Com a queda da inflação, em contraste com período imediatamente anterior, o desempenho macroeconômico no primeiro mandato de Fernando Henrique foi o inverso do observado nos primeiros anos da década, e pode ser sucintamente resumido por meio das seguintes características:

  • Inflação baixa (para os padrões brasileiros) e declinante;
  • Elevado desequilíbrio nas contas públicas (sucessiva piora nos resultados primários);
  • Taxa de câmbio significativamente sobrevalorizada;
  • Deterioração dos resultados em transações correntes (Pinheiro et al, 1999).

Essa inconsistência macroeconômica gerou um crescimento da relação dívida/PIB, atenuada pela receita das privatizações, que, como visto, sustentava déficits elevados nas contas públicas e em conta corrente. O fim do imposto inflacionário como mecanismo de financiamento gerou um acréscimo significativo nos gastos nas três esferas de governo que, anteriormente à estabilização, produzia receita superior a 2,0% do PIB, o que caiu para menos de 0,5% no pós-Real (Banco Central, 1999).

A expansão dos gastos, por parte do governo central, derivava, principalmente, dos aumentos das transferências a estados e municípios, benefícios pagos pelo INSS e pela conta de outras despesas de custeio e capital, a OCC 15 . Como mecanismos de contenção fiscal, por outro lado, dispunha-se do imposto provisório sobre movimentações financeiras (IPMF), posteriormente CPMF; do FSE, renovado para fundo de estabilização fiscal (FEF) a partir de 1996 16; a receita das privatizações e concessões e o aumento no imposto de renda sobre aplicações financeiras a vigorar a partir de 1998. No entanto, todos esses fatores mostraram-se de natureza temporária e insuficientes para equilibrar receitas e despesas, o que levou a preocupações legítimas quanto à sustentabilidade do déficit e da dívida pública. Houve, de forma clara, deterioração geral nas contas públicas na segunda metade da década, enfatizando-se a expressiva piora no quadro da dívida interna (principal fator da elevação da dívida total), bem como as diferentes componentes e esferas de governo.

Logo, com a implantação do Plano Real e o fim da inflação, os déficits públicos crescentes passaram a ser o principal responsável pela elevação do déficit em transações correntes (ocorrência de déficits gêmeos) e pela impossibilidade de flexibilizar a política cambial. Dado que nos meios decisórios temia-se que a depreciação necessária da moeda (expressivamente sobrevalorizada no critério da PPC) pudesse trazer de volta a inflação, a idéia predominante no meio oficial era que a estabilidade fazia-se necessária e suficiente para o crescimento e distribuição de renda (estabilização como meio e fim) 17 . Portanto, políticas especificamente voltadas para o crescimento e para a distribuição ficaram fora de plano durante o período (Sayad, 1999).

O período pós-99: as metas de déficit fiscal e perspectivas críticas

A desvalorização forçada da moeda brasileira, no início de 1999, provocou uma alteração no regime cambial adotado, passando para o regime de taxas flutuantes e, mais importante, obrigou o Estado a adotar medidas de ajuste há tanto adiadas em virtude dos elevados ônus político e social e que tinham sua necessidade clara desde a crise de 1997. No entanto, em contraste com as desvalorizações nos países asiáticos, a crise não atingiu proporções dramáticas: "o PIB teve um crescimento ligeiramente positivo; e não houve nada minimamente parecido com uma crise financeira" 18 (Averburg & Giambiagi, 2000, p. 7).

Como mostrado, a política econômica do período 1994-99 (conhecida como primeira fase do Real), embasada em uma política fiscal expansionista, numa política monetária restritiva e cambial equivocada, provocou uma série de desequilíbrios macroeconômicos, e tinha caráter insustentável num horizonte de poucos anos.

Ademais, por motivos políticos, somente após a reeleição presidencial as tardias medidas de ajuste foram adotadas. Portanto, de um cenário de superávits fiscais entre 1990 e 1994 e de uma trajetória de rápida deterioração a partir de 1995, o setor público passou a ter a necessidade de gerar superávits primários superiores a 3% do PIB para tentar reduzir gradualmente a relação da dívida líquida em proporção deste 19 .

A política econômica, a partir de então, passa a ser caracterizada pelos seguintes objetivos:

  • Metas de déficit resultado primário, ou seja, comprometimento com uma maior austeridade fiscal;
  • Aprovação de reformas;
  • Adoção de um sistema de metas de inflação;
  • Câmbio flutuante (Ibid).

Buscava-se, com sucessivos e crescentes superávits primários, assegurar a sustentabilidade da dívida pública, muito embora o sucesso nessa direção dependesse de reformas atravancadas no Congresso Nacional. Merece destaque, no entanto, a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal em 2000, um importante e necessário alicerce para que as diferentes unidades de governo pudessem buscar um ajuste estrutural e definitivo.

Contrariando a tradição brasileira de não cumprir as metas assumidas das NFSP assumidas com o Fundo Monetário, a partir de 1999 essa condição muda com a alteração do "termômetro" fiscal, que passa a ser o resultado primário, considerando-se que as fortes oscilações das taxas de juros (freqüentes num contexto de crise de capitais) tornavam o acordo vulnerável. Com essa mudança, permitiu-se a evolução significativa dos resultados primários do setor público, chegando a superar a relação de 4% no acumulado em 12 meses. É importante salientar o aumento do compromisso público com o superávit primário, mesmo que este se mostrasse insuficiente para fazer frente às despesas de juros.

No entanto, entendemos que tal situação poder-se-ia reverter com um maior crescimento e menores taxas de juros. De forma contrária, cobra-se um custo por demais elevado da sociedade ao tentar adequar os resultados primários às necessidades de financiamento do setor público.

Notas finais

Este artigo tratou de apontar os percalços de uma política que navegou ao sabor das diretrizes políticas e econômico-financeiras internacionais. Uma sucessão de políticas econômicas inconsistentes com os desejos constantemente anunciados pelo governo em promover a prosperidade econômica, principalmente a partir de empreendimentos privados. Essa estratégia de responsabilizar o setor privado pelo investimento produtivo mostrava-se contraditória com a condução da política econômica em toda a década de 90. As altas taxas de juros praticadas no período direcionaram a poupança privada para o financiamento público. Essa distorção implicou em escassez de crédito para o setor produtivo, bem como na mudança no próprio direcionamento das atividades deste, por exemplo, com empresas aplicando no mercado financeiro em vez de investir nas suas atividades, por conta de retornos financeiros altamente atraentes 20 .

Não é propósito discordar, ou mesmo abrir uma discussão a respeito, do fato de o Estado brasileiro encontrar-se quebrado e de necessitar de urgentes reformas em todos os seus setores (fiscal, tributário, previdenciário etc) ou mesmo concordar com a supremacia presumida do setor privado sobre o público, visto que este não se apresenta capaz de realizar os investimentos necessários a exemplo do que ocorreu em décadas passadas. No entanto, em nenhum período da história pátria observou-se tamanho "entreguismo" e dependência. Abriu-se a economia de maneira indiscriminada e privatizaram-se os principais ativos do Estado. Pode-se argumentar que algumas estradas melhoraram, vários serviços públicos foram ampliados etc, mas cabem aqui diversas indagações: todos os brasileiros podem pagar ou mesmo dispor dos mesmos? Para quem irá a conta quando os contra-efeitos tornarem-se evidentes e de difícil controle, como aparentemente caminham?

Como observa Tavares: "Além dos desempregados e dos sem-terra, o que fará a maioria da população que vive de serviços onde se acotovelam desde a elite dos trabalhadores da infra-estrutura decadente, dos setores financeiros falidos e de alta tecnologia sucateada, até a maioria esmagadora dos trabalhadores braçais, das classes médias, dos funcionários públicos desmoralizados e dos miseráveis deste país? Devem devorar-se uns aos outros, com a bênção do mercado flexível e desregulado enquanto não chega o Admirável Mundo Novo?" (Tavares, 1996).

Ademais, o sucesso inequívoco da estabilização tornou-se meio e fim, a despeito de qualquer outro mal econômico ou social que pudesse justificar o seu elevadíssimo custo. A "conta" do fim da inflação, passada a euforia dos primeiros anos do Plano, recaiu sobre os salários, sobre o crescimento, sobre o desemprego e outros males que uma moeda mais estável não foi capaz de resolver. Por esses e outros fatores, a década de 90 parece ter estacionado, ou mesmo, conforme alguns critérios, "andado para trás" 21 . Por isso mesmo, permanece o desafio de refletir intensamente sobre o que nela se passou, indispensável para que a economia brasileira encontre melhores caminhos.

Referências Bibliográficas

AVERBUG, André & GIAMBIAGI, Fábio. A Crise Brasileira de 1998/1999 - Origens e Conseqüências. Texto para Discussão nº 77, Rio de Janeiro, 2000.

BANCO CENTRAL DO BRASIL. Dívida Líquida e Necessidade de Financiamento do Setor Público. Agosto de 1999. mimeo.

BELLUZZO, Luiz Gonzaga de Mello. "Nostalgia do Futuro" In Carta Capital, 8 jan. 2003. mimeo.

CARNEIRO, R. Desenvolvimento em crise: a economia brasileira no último quarto do século XX. São Paulo: Ed. Unesp, IE - Unicamp, 2002.

FILGUEIRAS, Luiz. História do Plano Real - Fundamentos, Impactos e Contradições. Biotempo Editorial, 2000.

FIORI, José Luís. In memoriam. In: MERCADANTE, Aloizio (org.). O Brasil pós-Real: a política econômica em debate. Campinas: IE - Unicamp, 1998.

FRANCO, Gustavo Henrique Barroso. O Desafio Brasileiro: Ensaios sobre Desenvolvimento, Globalização e Moeda. Rio de Janeiro: Ed 34, 1999.

FRANCO, Gustavo Henrique Barroso. O Plano Real e outros ensaios. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 2ª edição, 1995.

GIAMBIAGI, Fábio. Necessidade de Financiamento do Setor Público: bases para a discussão do ajuste fiscal no Brasil - 1991/96. Texto para discussão nº 53, DEPEC/BNDES, Rio de Janeiro, 1997.

GIAMBIAGI, Fábio; ALÉM, Cláudia. Finanças Públicas: Teoria e Prática no Brasil. Rio de Janeiro: Ed Campus, 1999.

MALAN, Pedro Sampaio. "Transcrição da palestra do ministro Pedro Malan no XI Fórum Nacional do Instituto Nacional de Altos Estudos - Inae", Rio de Janeiro, 17/05/1999. mimeo.

MERCADANTE, Aloizio. Plano Real e o neoliberalismo tardio. In: MERCADANTE, Aloizio (org.). O Brasil pós-Real: a política econômica em debate. Campinas: IE - Unicamp, 1998.

PASSANEZI FILHO, Reynaldo. Impactos Fiscais da Privatização: aspectos conceituais e análise do caso brasileiro. In: MEYER, Arno. Finanças públicas: ensaios selecionados. Brasília: IPEA; São Paulo: FUNDAP, 1997.

PINHEIRO, Armando Castelar; LANDAU, Elena. Privatização e Dívida Pública. Texto para Discussão nº 29, DEPEC/BNDES, Rio de Janeiro, 1995.

PINHEIRO, Armando Castelar et al. O Brasil na Década de 90: uma transição bem sucedida? Texto para Discussão nº 91, DEPEC/BNDES, Rio de Janeiro, 2001.

PINHEIRO, Armando Castelar et al. O Desempenho Macroeconômico do Brasil nos Anos 90. In: GIAMBIAGI & MOREIRA. A Economia Brasileira nos Anos 90. Rio de Janeiro: DEPEC/BNDES, 1999.

SAYAD, João. O Vermelho e o Negro. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política n° 4. Rio de Janeiro, junho de 1999.

TAVARES, Maria da Conceição. O Real: Uma Estória Mal Contada. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 30 set. 1996.

VELASCO JR., Licínio. A Economia Política das Políticas Públicas: as privatizações e a reforma do Estado. Texto para discussão nº 55, DEPEC/BNDES, Rio de Janeiro, 1997.

VELASCO JR., Licínio. A Economia Política das Políticas Públicas: fatores que favoreceram as privatizações no período 1985/94. Texto para discussão nº 54, DEPEC/BNDES, Rio de Janeiro, 1997.

_______________
* Érico Henrique Garcia de Brito é Economista, formado pela FAAP em 2003. Áquilas Mendes é Professor de Economia da FAAP, vice-presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde e técnico do Cepam. Este artigo refere-se ao capítulo 3 da Monografia apresentada à Faculdade de Economia da FAAP, orientada por Áquilas Mendes, sob o título Política Fiscal e a Dinâmica das Contas Públicas: os impasses da economia brasileira nos anos 80 e 90, como requisito parcial para obtenção da graduação em Ciências Econômicas em 2003, e selecionada para publicação parcial.

1 Aos interessados em se aprofundar no financiamento das contas externas na década de 90, ver Carneiro, 2002, capítulo 8.
2
Acreditamos que esse autor esteja considerando o ajuste precário de 1993 como um "ajuste fiscal" da ordem que se fazia necessária, o que é natural por parte de quem esteve presente na implantação do plano de estabilização, e que historicamente considera direta a relação entre déficit e inflação.
3 Faz-se muito claro perceber que, a exemplo da defasagem que havia ocorrido com as tarifas das empresas públicas em anos anteriores, o investidor privado não se arriscaria a correr risco semelhante, o que constituía um prognóstico negativo quanto à evolução futura das tarifas.
4 O crescimento do PIB registrado em 2000 foi de 4,36% e diversos analistas projetavam variações positivas para os anos seguintes, o que não se confirmou em virtude, principalmente, no âmbito interno, pela crise energética e, no externo, pela crise argentina e norte-americana.
5 As moedas de privatização tiveram origem em 1990 com a criação dos Certificados de Privatização (CPS). Posteriormente, houve a inclusão de títulos da dívida interna, como debêntures da Siderbrás, as Obrigações do Fundo Nacional de Desenvolvimento (OFND) e Títulos da Dívida Agrária (TDA). Em seguida, foram incluídos títulos referentes à securitização de créditos podres de diversas origens, tais como as Letras Hipotecárias da Caixa Econômica Federal, entre outros. Os critérios de seleção dessas moedas nunca foram transparentes; no entanto, seu papel foi relevante. Em setembro de 1991, seu estoque correspondia a US$ 5,3 bilhões. Em julho de 1993, já havia sofrido acréscimo de 70%, alcançando US$ 9,0 bilhões (Passanezi Filho, 1997). Com a redução das incertezas e da fama de mau pagador do governo, bem como o avanço das alienações, o uso de moeda corrente tornou-se predominante a partir de 1995 (Giambiagi & Além, 1999).
6 Era comum a prática de deságio no mercando secundário, uma vez que, de maneira geral, as moedas eram aceitas pelo seu valor de face (Passanezi Filho, 1997; Velasco Jr., 1997).
7 Curiosa é a opinião de Simonsen sobre o uso da receita da venda para este último fim: "Privatizar uma empresa estatal e financiar gasto corrente é como vender um apartamento e usar o dinheiro para ir passear na Europa" (Simonsen apud Giambiagi & Além, 1999, p. 307).
8 A receita das privatizações foi superior a US$ 73 bilhões entre 1995-98.
9 O principal marco desse processo foi a aprovação, em fevereiro de 1995, da Lei de Concessões, que estabelece regras gerais para que o governo conceda a terceiros o direito de exploração a serviços públicos.
10Para uma discussão mais aprofundada acerca do debate entre privatização e eficiência, ver Passanezi Filho, 1997 e Velasco Jr. 1997, 1997a.
11 A redução na despesa de juros ocorreu por duas razões principais: a queda da dívida pública até 1994 e a nova metodologia adotada para apuração das NFSP a partir de 1989 (Giambiagi & Além, 1999).
12 As NFSP (e seus componentes), no caso brasileiro, são tratadas em % do PIB devido, principalmente, à pouca consistência dos dados apurados até meados da década de 80 e às diversas reformas monetárias ocorridas num intervalo relativamente curto (Giambiagi, 1997).
13 O nome "efeito-Bacha", a exemplo de "efeito-Tanzi", foi atribuído ao autor que teorizou primeiramente o assunto (Giambiagi & Além, 1999).
14 A respeito das precondições fiscais para adoção do Plano Real, ver Franco, 1995.
15 Essa conta corresponde às despesas do governo, exceto pessoal, benefícios previdenciários, transferências e juros da dívida pública. Nessa rubrica é expresso claramente o conflito entre o econômico e o político, ou seja, era amplamente afetado pelo poder discricionário do Estado.
16 Atualmente DRU (Desvinculação das Receitas da União).
17 A estabilização, combinada com os números positivos de algumas variáveis-chave como crescimento, desemprego etc, nos primeiros anos do Real, parecia encher esses autores de razão. No entanto, a "festa" acabaria com a deflagração das crises já amplamente citadas.
18 Aos interessados nos motivos pelos quais o autor afirma que o caso brasileiro diferia significativamente do caso asiático, ver seção 2 do mesmo estudo.
19 A relação dívida líquida/PIB, no entanto, ultrapassaria momentaneamente o patamar de 60% no ano de 2002, mesmo com um ajuste superior a 3,5%.
20 Acerca deste efeito, denominado "crowding-out", ver Franco, 1999, p. 77-80.
21 Ver Belluzzo, 2003.

Voltar