Os empresários e as negociações externas: nota sobre a posição da Coalizão Empresarial Brasileira
_________________________________________________________________________________________________

Roberto Teixeira da Costa*

Resumo: É apresentado o posicionamento de uma iniciativa da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), a Coalizão Empresarial Brasileira, organizada em 1996 para buscar posições comuns de empresários com respeito à inserção internacional do País. Defende-se uma participação ativa do empresariado nas negociações de acordos comerciais internacionais. Em particular, são apresentadas as posições da Coalização Empresarial Brasileira quanto às negociações no âmbito da Alca, da OMC e da União Européia. O texto faz também um balanço do que se passou em 2003 nessas três esferas de negociações.

Palavras-chave: Participação empresarial em negociações e acordos internacionais, Coalizão Empresarial Brasileira, Alca, OMC e União Européia.

A Coalizão Empresarial Brasileira, iniciativa da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), foi organizada em 1996 para buscar posições comuns de empresários brasileiros com respeito à inserção internacional do País. Desde então, a Coalizão vem desempenhando um importante papel nas complexas negociações em que o Brasil está envolvido.

A coalizão foi uma resposta do setor industrial brasileiro para melhor organizar-se diante dos desafios das negociações de diferentes acordos comerciais internacionais em que o Brasil estaria envolvido, particularmente em relação à Alca, OMC e União Européia.

Buscar posições consensuais de diferentes setores relativamente ao que se discute nos plenários internacionais não é uma tarefa simples. São múltiplos os interesses em jogo, e o que a Coalizão se propôs a fazer é encontrar uma posição equilibrada que possa representar a opinião mais próxima do consenso dos diferentes setores envolvidos. Muito embora seja reconhecida a necessidade de uma maior participação do Brasil no cenário internacional, cada setor obviamente procura defender seus interesses e lutar para que sua atividade seja minimamente afetada nos acordos internacionais de liberalização comercial e de serviços.

Essas considerações são necessárias para entender o contexto das diversas reuniões ocorridas em Brasília no último trimestre de 2003, quando a Coalizão Empresarial encontrou-se com os diferentes ministros envolvidos nas negociações externas para apresentar suas considerações sobre as três importantes discussões internacionais em que o Brasil está envolvido, a saber:

  • a reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Cancun;
  • as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca); e
  • as negociações do Mercosul com a União Européia.

Destaco duas reuniões: a primeira assistida pelo ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, e com uma participação mais aberta, onde também estiveram presentes representantes do Itamaraty, dos Ministérios da Fazenda e da Agricultura e muitos assessores e empresários do setor privado; e outra, mais fechada, do chamado Núcleo Estratégico da Coalizão, com o ministro das Relações Exteriores, Embaixador Celso Amorim.

Nas duas ocasiões foi discutido o documento da CNI intitulado Posicionamento da CEB sobre as estratégias brasileiras nas negociações comerciais, anexo a esta nota. Resumindo as discussões ocorridas, particularmente a segunda reunião, que foi mais participativa e com troca de opiniões, diria que as posições de empresários e do Governo estavam bem próximas de um denominador comum.

É importante que essa afinidade exista porque, afinal de contas, o mandato negociador que o Governo recebe para esses foros deve representar a opinião da sociedade brasileira, e particularmente dos setores mais diretamente envolvidos. São negociações transcendentais, pois irão determinar o rumo da economia brasileira e sua participação em acordos internacionais. Devemos evitar precipitações e atitudes isolacionistas que nos excluam de uma maior e necessária participação no comércio mundial. Prudência e ousadia, difícil de conciliar, têm de ser combinadas.

Sabemos que, no fim, a busca do consenso é uma missão quase impossível e, no seu mandato de negociador, não será possível o Governo atender a todos. Assim, ele, por meio de seus negociadores, terá de exercer o papel de árbitro.

Não há dúvidas de que evoluímos muito nos debates ligados à inserção internacional do Brasil. Esse tipo de diálogo é fundamental, muito embora ainda estejamos longe de uma solução plenamente satisfatória. De qualquer forma, na Reunião de Cancun houve pela primeira vez espaço para uma delegação brasileira marcar sua presença e não mais ser apenas informada por terceiros sobre o que está acontecendo nas negociações.

Tenho registrado, nesses e em outros encontros da mesma natureza, o reconhecimento de uma atuação agressiva das autoridades brasileiras nos diferentes embates que se travam, quer em Genebra, Bruxelas ou Washington, nos quais vêm afirmando claramente nossas posições e lutando intransigentemente pelos nossos interesses.

No entanto, por mais eficaz que seja essa atuação, o setor privado deverá marcar sua posição no exterior com maior agressividade. É preciso lembrar também que quem estiver do nosso ou do outro lado negociando tem de prestar conta aos seus Congressos Nacionais e aos formadores de opinião dentro de cada país. Portanto, ao mesmo tempo em que aceleramos e aprofundamos o diálogo com nossas autoridades, como empresários não devemos deixar de marcar também uma posição no exterior, registrando claramente nossas posições, o que somos e o que estamos buscando na condição de afetados pelas decisões finais do processo de negociação. Nessa atuação, não devemos limitar-nos a uma atuação interna, mas também registrar nossa presença junto aos legisladores e formadores de opinião, onde nossos interesses estarão em jogo.

Revendo estas observações ao concluir este artigo no fim de 2003, apresento também um balanço do que se passou nas três referidas esferas de negociações internacionais em que o Brasil está envolvido.

  1. Infelizmente as negociações em Cancun não levaram a nenhum avanço que permitisse vislumbrar que a Rodada de Doha pudesse ter desdobramentos que atendessem especificamente às necessidades do Brasil e dos países em desenvolvimento. Como nota positiva, houve a formação do Grupo dos 20, posteriormente rebatizado como GX, em que Brasil, China, Índia e África do Sul, entre outros, tiveram posição marcante na defesa de seus interesses em contraposição aos dos países desenvolvidos. No limiar de 2004, não foram percebidos progressos substanciais de uma agenda positiva da OMC que atendesse às nossas demandas, fortemente centradas na questão dos subsídios agrícolas.
  2. No que toca à Alca, depois da reunião dos Ministros de Comércio Exterior em Miami, em novembro, foi reconhecida a dificuldade de levar adiante um projeto mais ambicioso dentro do que havia sido acordado em 1994. Diante da posição rígida dos Estados Unidos em não querer discutir a questão dos subsídios agrícolas e da maneira com que aplicam a legislação de proteção comercial, decidiu-se que a Alca terá um espaço bem mais limitado, deixando-se de lado temas complexos com propriedade intelectual, compras governamentais e investimentos para o âmbito da OMC.
  3. No que se refere ao acordo entre União Européia e o Mercosul, muito embora nas ultimas reuniões tenha havido algum sinal de flexibilização, certamente a questão agrícola continua sendo um grande impedimento para as negociações.

Assim, entramos em 2004 com os temas comerciais em segundo plano, e a segurança interna ficando com a primazia na agenda dos países centrais.

ANEXO

Posicionamento da CEB sobre as estratégias brasileiras nas negociações comerciais
(Agosto de 2003)

Introdução
Desde que foi criada em 1997, a CEB vem procurando contribuir para a definição da agenda de negociação do Brasil, reunindo setores empresariais diversos, promovendo o debate interno, levando ao Governo brasileiro as recomendações dos empresários, e defendendo em foros empresariais internacionais posições que reforcem a defesa dos interesses brasileiros. No atual cenário, em que os rumos das principais negociações em que o Brasil está envolvido estão sendo redefinidos, é imperioso estreitar os atendimentos entre os formuladores das estratégias nacionais e o setor empresarial.

Os últimos meses têm se caracterizado pela intensificação das atividades ligadas às negociações comerciais em que o Brasil e o Mercosul se encontram envolvidos. Em todas as frentes, o quadro negociador ganha em complexidade, na medida em que os processos entram em etapas mais avançadas, exigindo dos participantes definições e decisões muitas vezes difíceis.

Os cronogramas das diversas negociações deixam prever que esta situação somente se acentuará nos próximos meses: na OMC (Organização Mundial do Comércio), a Reunião Ministerial de Cancun, em setembro, definirá as possibilidades de sucesso e o grau de ambição da Rodada de Doha. Na Alca (Área de Livre Comércio das Américas), mantido o prazo de 2005 para a conclusão das negociações, a discussão deve se centrar na troca de concessões de acesso ao mercado e na definição do alcance do acordo em áreas de negociação consideradas sensíveis pelos principais “players” na negociação (Brasil e EUA). Nas negociações Mercosul-União Européia, as possibilidades de sucesso do acordo bi-regional se tornarão muito mais nítidas na medida em que se aprofundam as negociações de acesso em bens, o que depende, em grande medida, de que a recém-anunciada reforma da política agrícola comum se traduza em maior flexibilidade dos europeus nas negociações de liberalização do comércio agrícola.

No plano doméstico, o Governo brasileiro, ao mesmo tempo em que fortaleceu seu compromisso com a conclusão das negociações da Alca em 2005, explicitou uma nova posição em relação à agenda deste processo negociador: trata-se da opção por um acordo concentrado em temas de acesso e contemplando regras menos ambiciosas do que as desejadas por outros países em temas censurados sensíveis, como investimentos, compras governamentais, serviços e direitos de propriedade intelectual. Nesta proposta, o aprofundamento de regras nestas áreas deveria ser remetido às negociações multilaterais.

Diante deste quadro marcado por mudanças significativas e pela emergência de novos desafios, a CEB considera oportuno explicitar seu posicionamento em relação às negociações em curso.

Na visão da CEB, dois são os critérios que devem guiar o exame das estratégias de negociação do Brasil nos três processos de negociação:

  • Não excluir o país – e seu setor produtivo – das negociações; e
  • Preservar os interesses do setor produtivo, nas negociações concretas sobre cronogramas, conteúdo da agenda, na definição de “trade-offs” entre diferentes temas da agenda etc.

Além disso, a CEB defende a preservação e a ampliação da coesão interna do Mercosul, a partir de um processo de formação de posições sub-regionais que contemplem de forma adequada os interesses do setor produtivo brasileiro.
Consideradas as questões atualmente em jogo nos diferentes processos de negociação e os desafios que estes colocarão para o país nos próximos meses, os critérios acima enunciados se traduzem nos seguintes posicionamentos:

Na OMC:

  1. O Brasil tem todo o interesse em uma rodada multilateral ampla e bem-sucedida, sendo condição “sine qua non” deste sucesso a obtenção de resultados efetivos na área da agricultura, onde o país apresenta fortes e diversificadas vantagens comparativas. Sem reduzir sua ambição estratégica na eliminação das políticas dos países desenvolvidos que distorcem o comércio agrícola, o país deve pautar sua atuação no curto prazo por uma postura pragmática que se traduza (i) na participação nos esforços para desbloquear a agenda agrícola na OMC; e (ii) na busca de obter melhorias significativas das condições de acesso a mercados que hoje enfrentam seus principais produtos de exportação de origem agropecuária.
  2. Nas negociações de acesso para bens industriais, a CEB concorda, sob as condições abaixo explicitadas, com algumas das idéias expressas no documento do Presidente do Grupo Negociador de Acesso a Mercados.
    O elemento central da proposta apresentada é a fórmula para a redução de tarifas, que tem como aspectos interessantes a ponderação da tarifa base pela tarifa base-média e a introdução de um parâmetro A cujo valor está ainda por ser definido. Esses fatores dão flexibilidade para acomodar impactos menores sobre os compromissos tarifários dos países em desenvolvimento, ao mesmo tempo que permitem vislumbrar uma redução importante de picos tarifários em países com tarifa média reduzida. No entanto, para que essa fórmula atenda aos interesses do setor industrial brasileiro é necessário adequá-la ao compromisso de “less than full reciprocity” em acesso a mercados definido no mandato de Doha, fixando o parâmetro B da fórmula em valor não inferior a 3 para os países em desenvolvimento e igual a l para os desenvolvidos, preservando-se ademais a possibilidade de um prazo mais longo para a implementação das reduções.
    A definição da tarifa consolada na OMC como base para a liberalização tarifária é outro aspecto importante do documento, como também o compromisso com a maior consolidação de linhas tarifárias pelos países em desenvolvimento, uma vez que o Brasil já consolidou todo o seu universo tarifário. Além disso, interessa ao setor empresarial brasileiro que as tarifas não-“ad valorem” sejam transformadas em equivalentes “ad valorem” e que estejam sujeitas ao processo de desgravação que venha a ser acordado
    No entanto, a CEB não concorda com a proposta, também constante do documento, de eliminação de tarifas para alguns setores industriais, entendendo que a adoção desta metodologia de liberalização não atende aos interesses brasileiros e representa um passo na direção da “setorialização” das negociações de acesso a mercados na OMC.
    Na área de regras comerciais, tendo em vista as dificuldades de se obter avanços significativos nos foros regionais e bilaterais em alguns temas de interesse do País, como a revisão das normas “antidumping”, a CEB considera fundamental o estabelecimento de regras mais claras e transparentes e uma uniformidade de interpretação e aplicação dos dispositivos do Acordo, como vem sendo defendido pelos “Friends of Antidumping”.
  3. Cancun deverá adotar decisões relevantes relacionadas às modalidades de inclusão na agenda multilateral de novos temas, como investimentos, política de concorrência, transparência em compras governamentais e facilitação de negócios. Estes temas já fazem parte das agendas das negociações preferenciais em que o Brasil está envolvido.
    A CEB entende que estes temas deveriam fazer parte integral da agenda de negociações multilaterais e que, no caso de investimentos, as orientações básicas do mandato de Doha devem ser rigorosamente seguidas; negociações centradas em investimentos diretos, uso de metodologia de listas positivas para negociação de pré-estabelecimento etc.

Na ALCA:

  1. Com o prazo definido (compromisso com 2005) e baixa probabilidade de que a fórmula 4+1 das ofertas diferenciadas por blocos apresentadas pelos EUA, a questão estratégica central das negociações hemisféricas concentra-se na composição da agenda.
    O Governo brasileiro vem defendendo o “enxugamento” da agenda, que evitaria regras e disciplinas ambiciosas em temas considerados sensíveis para o Brasil. Do ponto de vista da CEB, esta estratégia pode levar o país a aceitar prematuramente a idéia de que os ganhos de acesso a mercados para suas exportações, decorrentes do acordo, serão limitados. A ausência de avanços no disciplinamento da utilização de medidas “antidumping” e de direitos compensatórios com fins protecionistas, por exemplo, pode inviabilizar as exportações de setores competitivos no Brasil.
    Além disso, a concentração da agenda em acesso a mercados tende a aumentar a pressão por resultados fortes e rápidos nesta área, ao reduzir substancialmente as possibilidades de “trade-offs” entre diferentes áreas de negociação. O argumento de que este seria o custo a pagar pela preservação de margens de liberdade de que o país dispõe para fazer política industrial perde força, no plano interno, se não se explicitam quais os elementos e objetivos desta política.
    Diante deste quadro, a CEB defende (i) a manutenção das regras do jogo acordadas em acesso de bens (prazos e ritmos de desgravação, cestas, respeito a sensibilidades etc); e (ii) a exploração, pelo Governo brasileiro, de alternativas que permitam preservar seus interesses essenciais em busca de um acordo, sem aumentar pressões por liberalização mais rápida na área de acesso de bens, preservando as possibilidades de ”trade-offs” entre áreas de negociação.
    As resistências da maioria dos parceiros que estão negociando a Alca em aceitar um enxugamento da agenda negociadora somam-se à necessidade de que o Brasil obtenha um acordo equilibrado para indicar que é conveniente para o país considerar hoje alternativas de negociação que atendam a estes condicionantes.
    Estas alternativas devem combinar a redução do grau de ambição do acordo em áreas mais afeitas ao âmbito multilateral e sensíveis para o Brasil com a manutenção na esfera das negociações da Alca de uma agenda temática abrangente.
    Para atingir esses objetivos devem ser consideradas as seguintes estratégias:
    Reservas em relação a dispositivos do Acordo: Procurar estabelecer reservas em relação a compromissos que sejam negociados nos temas mais sensíveis ao Brasil. Nesse caso, o Brasil proporia critérios para o estabelecimento de reservas que, sem retirar a efetividade da matéria acordada, permitam aos países evitar compromissos com determinados dispositivos que causam dificuldades em algumas das áreas de negociação.
    Remoção de itens mais sensíveis ou dos “elementos sistêmicos” de algumas áreas de negociação para o âmbito multilateral ou, como alternativa, definir uma “built-ín agenda” para a Alca pós-2005: Procurar definir em alguns temas os aspectos mais difíceis de serem negociados no âmbito regional ou os componentes sistêmicos dos temas (aspectos cuja regulação só faz sentido em plano multilateral), como novos compromissos em propriedade intelectual e direitos de pré-estabelecimento em investimentos, por exemplo. Esses aspectos deveriam ser remetidos para a OMC, ou mesmo ser incluídos em uma agenda para a negociação na Alca, após firmado o acordo inicial.
  2. No curto prazo, a indefinição em relação a questões de métodos e modalidades de acesso aos mercados dificultará cada vez mais os trabalhos de elaboração da oferta revisada brasileira e de apresentação, pela CEB, de pedidos de melhoria de oferta a outros países. Para lidar com estas questões, a CEB propõe que:
  • os pedidos de melhoria de ofertas de bens sejam elaborados a partir do pressuposto, confirmado explicitamente pelo governo, de que o conceito de NMF regional para o período de transição foi abandonado. Nesse caso, a eventual recuperação do conceito não pode implicar em regionalização automática das melhores concessões oferecidas a um determinado país;
  • sejam superadas as indefinições relativas a métodos e modalidades em serviços, investimentos e compras governamentais, adotando-se, nas duas primeiras áreas, o enfoque de listas positivas para a negociação de acesso e, em compras governamentais, a combinação de listas positivas (para serviços e obras) e negativas (para bens) acordada no grupo de negociação;
  • seja definido pelo CNC – Confederação Nacional do Comércio – um prazo para iniciar a apresentação de ofertas revisadas compatível com as necessidades de harmonização dos interesses domésticos e intra-Mercosul;
  • sejam definidos, pelos Governos dos países do Mercosul, critérios para a harmonização de posições intra-bloco, evitando que as negociações externas sejam instrumentalizadas para contornar diferenças entre os paises em relação à TEC (Tarifa Externa Comum); e
  • o Brasil não deixe de apresentar pedidos de melhoria de ofertas para países do hemisfério com os quais está em negociação, atualmente.

Nas negociações Mercosul-União Européia:

  1. As negociações com a União Européia têm merecido menor atenção da opinião pública e, em geral, são percebidas como menos problemáticas do que as negociações da Alca. É verdade que em alguns temas sensíveis para o Brasil, como serviços e investimentos, as metodologias de negociação adotadas pelos europeus são mais compatíveis com os interesses brasileiros, quando comparadas a propostas em discussão no âmbito da Alca. Todavia, do ponto de vista da CEB, as negociações com a UE na área de bens são tão ou mais complexas do que as negociações da Alca e devem exigir avaliação criteriosa por parte do Brasil para que se possam alcançar resultados equilibrados em termos de acesso a mercados.
  2. Depois do ciclo de apresentação de ofertas melhoradas, em março, novos pedidos estão sendo apresentados. A nova demanda da União Européia, além de ambiciosa, inclui diversas novas condicionalidades, horizontais e setoriais, que supostamente deveriam ser contempladas pelo Mercosul em sua revisão de oferta.
    Entre as condicionalidades, destaca-se o uso como tarifa-base da TEC (Tarifa Externa Comum)-1995 com as reduções posteriores, a demanda para que o Mercosul utilize o cronograma de desgravação adotado pela UE, a adesão do Mercosul a acordos setoriais da OMC etc.
    A CEB entende que tais condicionalidades devem ser rejeitadas pelo Mercosul e que as duas Partes deveriam buscar obter consenso em pontos pendentes de métodos e modalidades de acesso de bens para evitar que as negociações nesta área caminhem para um impasse.
  3. Além disso, a CEB reafirma sua adesão (i) ao princípio da reciprocidade assimétrica nas negociações bi-regionais de acesso; e (ii) às posições já encaminhadas formalmente ao Governo em relação às regras aplicáveis ao comércio de bens, especialmente a possibilidade de manutenção das regras de “drawback” ao final do período de transição do acordo, o tratamento não-discriminado dos produtos produzidos nas zonas francas, e a incorporação da cláusula de indústria nascente.

Em outras negociações do Mercosul:

  1. O Brasil deve ser agressivo nas negociações bilaterais em formato 4+1. A CEB entende que para ganhar competitividade nos mercados internacionais em um cenário marcado pela proliferação de acordos de preferências regionais e bilaterais, o Brasil precisa ser ágil na celebração desse tipo de acordo.
  2. Tendo em vista o compromisso de concluir as negociações hemisféricas até 2005, é preciso avançar rapidamente com os acordos sub-regionais em negociação pelo Mercosul com os países latino-americanos. Além da importância de concluir esses acordos antes que a Alca esteja em vigor, é imprescindível que o grau de ambição a ser alcançado em termos de condições de acesso a mercados seja mais profundo do que os esquemas de liberalização que estão sendo negociados no âmbito hemisférico.
  3. Atenção prioritária deve ser dada à negociação com os países andinos, seja no formato entre os blocos Mercosul-CAN (Comunidade Andina de Nações), seja em entendimentos com cada um dos países em separado. A celebração de acordo de livre comércio com a CAN tem sido apontada como prioritária por diversos setores empresariais brasileiros.

Nos processos de construção de posicionamento do Brasil e do Mercosul:

  1. Na atual fase das negociações da Alca e com a UE, é desejável que esse processo permita uma ampla discussão e busca de construção de consenso entre interesses inter e intra-setoriais, algumas vezes diferentes. Para tanto, é necessário que compromissos com prazos para a apresentação de listas permitam que esse exercício seja realizado.
  2. Os esforços para a definição de critérios para a harmonização de posições intra-Mercosul para todas as negociações de acesso a mercados necessitam ser aprofundados. Dadas as assimetrias de estrutura produtiva entre os países membros do bloco e, conseqüentemente, os diferentes interesses em relação à estrutura de proteção, as diferenças de posições em relação a ofertas e pedidos de liberalização têm sido expressivas. Os atuais mecanismos de harmonização de posições pela via do somatório de listas acabam por gerar distorções importantes e não são compatíveis com a preservação dos interesses da indústria brasileira nas etapas finais da negociação.

A agenda doméstica de políticas e as negociações comerciais:

  1. Maximizar as oportunidades e mitigar riscos associados às negociações comerciais depende não somente da estratégia negociadora dos países, mas também da capacidade destes para preparar-se para os desafios da integração. Os prazos de transição previstos nas negociações da Alca e com a União Européia devem ser utilizados para que o Brasil supere várias de suas atuais deficiências competitivas, traduzindo em aumento das exportações e em atração de investimentos a sua participação nestes acordos.
  2. A reforma tributária e outras iniciativas voltadas para reduzir o Custo Brasil devem desempenhar papel central neste processo, da mesma forma que políticas industriais voltadas para a inovação e a capacitação podem contribuir decisivamente para permitir ao país retirar dos resultados dos processos em curso todos os seus benefícios potenciais

_______________
* Roberto Teixeira da Costa é economista, empresário, foi o primeiro Presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e é membro do Conselho de Administração de várias empresas. Participa da Coalizão Empresarial Brasileira integrando o seu Conselho de Orientação Estratégica.

Voltar