A
prosperidade Argentina durante o padrão ouro Carlos Henrique Moojen de Abreu e Silva* Resumo. O trabalho formula uma hipótese sobre a origem da ideologia da dolarização na Argentina, a qual, não obstante a saída traumática do modelo da conversibilidade entre dezembro de 2001 e janeiro de 2002, ainda encanta determinados políticos e segmentos importantes da elite intelectual do país vizinho. Com efeito, dois traços característicos do período de maior prosperidade nacional, que coincide com a época do padrão ouro, consistiram numa relação especial com a potência dominante da época e na implantação, durante a maior parte da belle époque criolla, de um regime de câmbio fixo conhecido como caixa de conversão (equivocadamente chamado nos anos 90 de conversibilidade). A dolarização seria uma junção perfeita desses dois fatores, mas tem como fundamento uma leitura superficial dos acontecimentos. Palavras-chave: padrão-ouro, dolarização, economia argentina, caixas de compensação, taxas de câmbio fixas. Histórico
das caixas de conversão O primeiro CBA foi estabelecido nas Ilhas Maurício em 1849. Entre 1822 e 1825, um regime muito semelhante a um currency board foi implementado nas Províncias Unidas do Rio da Prata. Em 1822, o Banco de Buenos Ayres, também conhecido como Banco de Descuentos, formado por empresários, em sua maioria cidadãos britânicos, recebeu o monopólio da emissão de moeda conversível por 20 anos. Este arranjo não resistiu à crise financeira provocada pela guerra com o Brasil, tendo sido suspenso em 1825.2 As caixas de conversão atingiram seu apogeu em meados do século XX, quando chegaram a existir mais de 50 arranjos do gênero. Depois da Segunda Guerra Mundial, com o advento do processo de descolonização e da supremacia da doutrina keynesiana, a maioria foi sendo substituída por bancos centrais, com vistas, inter alia, à implementação de políticas monetárias ativas como instrumento para a promoção do desenvolvimento e do emprego. Poucas caixas de conversão sobreviveram a essa onda de desmantelamento, entre as quais as localizadas em Bermuda, Brunei, Gibraltar, Ilhas Cayman e Malvinas. John Williamson, autor de trabalho conclusivo sobre a caixa de conversão, assim definiu o regime: “A currency board is at bottom an arrangement that legislates a particular monetary rule: a rule that changes in the monetary base will be equal to the country’s overall balance of payments surplus or deficit (that is, the sum of the current account and the capital account). This gives a country a highly credible mechanism for defending a fixed exchange rate, but at the cost of abandoning its monetary sovereignty”.3 O objetivo do Império Britânico consistia em permitir o acesso dos habitantes de suas colônias a uma moeda conversível e estável (taxa de câmbio fixa), sem os custos decorrentes da utilização direta da libra esterlina, a saber: a) a necessidade de substituição de notas e moedas que fossem destruídas ou perdidas; e, b) a perda da senhoriagem, ou seja, dos juros provenientes da aplicação, em Londres, da libra esterlina utilizada como lastro da moeda local no âmbito do currency board. Com relação à alternativa do uso puro e simples da libra esterlina, o CBA apresentava-se, assim, como um arranjo mais vantajoso para as colônias. A metrópole, em contrapartida, assegurava a manutenção da ordem monetária em seus domínios e a participação destes no sistema do padrão ouro, fruto da Pax Britannica4. A solidez do sistema bancário e o equilíbrio das finanças públicas estavam de antemão garantidos, uma vez que as colônias não dispunham de autonomia em matéria fiscal e as filiais de bancos da metrópole operavam em seus territórios5. No regime de caixa de conversão, os ajustes a crises de balanço de pagamentos (resultantes, por exemplo, de brusca deterioração nos termos de intercâmbio ou de surto de desconfiança por parte de investidores) dão-se automaticamente mediante as chamadas gold standard rules, ou seja, por meio de processo deflacionário6. O funcionamento adequado do mecanismo de ajuste demanda, contudo, flexibilidade de preços e salários. Com efeito, quanto maior a elasticidade destes, tanto mais pronunciada é a deflação e menos duradoura a recessão. O regime exige, também, austeridade permanente na condução do erário: eventual necessidade de ajuste fiscal, em meio a um processo deflacionário e recessivo, contribuiria para prolongar a contração da atividade econômica, o que, ao diminuir a base tributária, acabaria comprometendo seriamente as finanças públicas e minando de vez a confiança dos investidores. Antecedentes
na Argentina A Argentina, em geral, era vista como um free rider do sistema do padrão ouro, sobretudo em função dos abandonos da caixa de conversão em 1876 e 1885. A primeira saída foi motivada por choques externos e internos (crise econômica mundial, na esteira da Guerra Franco-Prussiana, e política de crédito expansiva)9. A segunda, por sua vez, decorreu essencialmente de fatores internos (política de crédito expansiva). A saída de 1885, ademais, ao enfraquecer a regra monetária, criou condições para um crescente desequilíbrio fiscal, que resultou em endividamento externo excessivo e emissão descontrolada10. O resultado final desse processo foi a grave crise econômica argentina de 1890, mais conhecida como Crise de Baring, a qual, em meio a um quadro de insatisfação política, motivou a Revolución del Parque e uma renúncia presidencial11. A renúncia do presidente Miguel Juarez Celman não decorreu somente da crise econômica, mas de uma confluência de fatores entre os quais pesava uma insatisfação com a democracia censitária que imperava no país. Com a bandeira da luta contra a fraude eleitoral e a corrupção, foi criado um agrupamento chamado Unión Cívica, que se lançou em uma revolução. A Revolución del Parque, embora derrotada, provocou a renúncia de Celman e sua substituição pelo vice-presidente Carlos Pellegrini. Nascia, dessa forma, um movimento político do qual ia emergir, em 1891, a União Cívica Radical12. O comportamento da Argentina durante o período do padrão ouro contrastava com a estrita adesão às regras do jogo por parte das colônias britânicas. É freqüentemente citada por economistas e historiadores, como claro exemplo da opinião desfavorável de observadores britânicos sobre o compromisso do país com a estabilidade monetária, a seguinte observação de W. R. Lawson, publicada na Banker’s Magazine de 1899, sobre a América do Sul e, em particular, a Argentina: “siempre tienen problemas con su moneda. O bien es demasiado buena para uso interno o, como ocurre frecuentemente, es muy débil para el cambio extranjero. Generalmente tienen demasiada, pero la idea de ellos es que nunca tienen suficiente. (...) los argentinos alteran su moneda casi tan a menudo como cambian de presidentes. (...) Ningún pueblo del mundo tiene un interés tan penetrante en los experimentos monetarios, como el argentino”13. O melhor e mais pormenorizado exame sobre o funcionamento da economia argentina sob o padrão ouro foi realizado por A.G. Ford14. O trabalho analisou especificamente as caixas de conversão de 1883-1885 e 1899-1914 e demonstrou que: a) o funcionamento adequado do CBA e a manutenção deste pelo governo argentino dependiam fundamentalmente da existência de condições externas favoráveis que possibilitassem a obtenção de saldo no balanço de pagamentos (via incremento nas exportações e/ou entrada de capitais); e b) os interesses dos exportadores de produtos agropecuários e dos grandes proprietários de terras, que se reforçavam mutuamente, determinavam os momentos de entrada e saída da caixa de conversão: quando o balanço de pagamentos passava a ser superavitário, introduzia-se o CBA basicamente para deter a apreciação da taxa de câmbio; quando o balanço se tornava deficitário, o regime era abandonado, o que provocava a depreciação da moeda e o conseqüente aumento na rentabilidade das vendas externas. Formou-se consenso em torno da propriedade da análise de Ford, que passou a ser utilizada sistematicamente para descrever o funcionamento não só dos currency boards de 1883-1885 e 1899-1914, como também daqueles de 1867-1876 e 1927-1929. Pablo Gerchunoff e Lucas Llach, por exemplo, fazendo um balanço dessas quatro experiências da Argentina com o regime de caixa de conversão, denominado pelos dois economistas de convertibilidad, sustentam que: “La convertibilidad del peso no había sido demasiado resistente a los avatares de los términos de intercambio y a las marchas y contramarchas de los capitales. Tanto era así que parece natural considerar que la fijación del tipo de cambio era menos una medida con intenciones de ser permanente que una respuesta de la política económica a la excesiva valorización del peso, cuando ésta amenazaba con impactar los ingresos de los exportadores”15. Em estudo sobre caixas de conversão, o Fundo Monetário Internacional explica, também na linha de Ford, o abandono do arranjo pela Argentina tanto em 1914, quanto em 1929: “In Argentina, the CBA was suspended in both 1914 and 1929 as a result of large capital outflows linked with the advent of World War I, in the first case, and the worldwide recession and sustained drop of commodity prices, in the second. Pressures from the agricultural sector to devalue were a key factor underlying the suspension (which became permanent) of the second CBA”16. As recorrentes saídas e entradas da caixa de conversão pela Argentina levam, ainda nos dias de hoje, defensores incondicionais da adoção do regime por países em desenvolvimento a considerar a Argentina um free rider do padrão ouro. Steve Hanke e Kurt Schuler, por exemplo, qualificam-na como “a fair-weather adherent to the gold standard”17. Entretanto, um exame das características do sistema financeiro internacional durante o período do padrão ouro permite considerar o assunto por uma outra perspectiva18. Ressaltem-se, nesse contexto, as especificidades
do sistema financeiro da época, fundamentado na manutenção
de taxas de câmbio fixo: Aliás, um diretor do Bank of England, Otto Niemeyer, que esteve na Argentina a convite oficial para dar um parecer sobre a situação do país e sobre a necessidade de estabelecimento de uma autoridade monetária, desaconselhara, em 1933, a reintrodução de uma caixa de conversão, alegando incompatibilidade da mesma com uma economia sujeita a flutuações tão pronunciadas (a autoridade britânica recomendou a criação de um Banco Central, o que acabou ocorrendo em 1935): “No es probable que país alguno que sufre fluctuaciones naturales tan acentuadas en sus actividades económicas como la Argentina, pueda soportar por mucho tiempo un ajuste automático tan directo y rígido entre la cantidad de medio circulante y el balance de pagos externos”25. Ademais, diferentemente da grande maioria dos demais usuários de currency board arrangements (com os quais tendia naturalmente a ser comparada), a Argentina não era uma colônia britânica, mas um país independente. É natural que seu governo tenha sido mais vulnerável a pressões de grupos de interesse internos, seja para aumentar o gasto público, seja para sair ou entrar do CBA, dependendo da evolução da conjuntura, e que os bancos do país exibissem menor nível de integração com o sistema financeiro internacional (nas colônias britânicas, operavam filiais de bancos da metrópole) e, por conseqüência, maior fragilidade diante de crises econômicas. Para Barry Eichengreen, o comportamento da Argentina, com relação ao padrão ouro, estava em sintonia com a postura dos demais países do Hemisfério Ocidental, inclusive os EUA: “Throughout Latin America, as in the United States, depreciation was welcomed by landowners with fixed mortgage obligations and exporters wishing to enhance their competitive positions internationally. Nor did adherence to strict norms buttress the credibility of the exchange rate commitment at the periphery of the gold standard system. Latin American countries repeatedly failed to control their fiscal policies, leading to monetization of budget deficits, the suspension of gold convertibility, and currency depreciation. Even in the United States, fiscal imbalances threatened the commitment to the exchange rate peg in the 1890s. Thus most countries of the Western Hemisphere did not have unblemished reputations of obeying robust monetary rules ”26. É como se a Argentina, pragmaticamente,
tivesse buscado alcançar um meio-termo entre, de um lado, as
imposições de um exigente sistema financeiro internacional
e as oportunidades decorrentes da participação no mesmo,
sobretudo em termos de acesso ao mercado de capitais; e, de outro, as
limitações impostas pelas necessidades da economia real
e pelo quadro político do país na época. A
configuração interna de poder era tal que, entre a conhecida
impopularidade de uma desvalorização, que acarreta a imediata
transferência de ingressos da sociedade como um todo em favor
do setor agroexportador, e a manutenção da taxa de câmbio
fixo, o governo, invariavelmente, optava pela segunda alternativa28.
Alicerces
da prosperidade A resposta é que, não obstante ter sido a Argentina, justa ou injustamente, considerada um free rider do padrão ouro, a utilização do CBA, de fato, deve ter-se revestido de alguma importância. Não se deve, no entanto, superdimensionar a relevância do regime cambial na determinação das elevadíssimas taxas de crescimento médio, então verificadas na Argentina: o país chegou a ter, em determinado momento, a sexta renda per capita e o sétimo PIB do mundo31. Para que se tenha uma noção mais clara do papel exercido pelo CBA, é necessária, antes de tudo, uma recapitulação dos outros fatores que contribuíram para a belle époque criolla. Na realidade, uma extraordinária confluência de elementos exógenos e endógenos, muitos dos quais relacionados com a economia real e a liderança política argentina, que vão muito além da escolha de um regime cambial, possibilitou a inserção privilegiada do país na divisão internacional do trabalho estabelecida pela Pax Britannica. Entre
os fatores exógenos da prosperidade, ressaltem-se32
: Para a Inglaterra, o essencial era assegurar a disponibilidade de mercados para exportar sua produção e capital e de fornecedores de alimentos e matérias-primas. As condições estavam dadas, inclusive do ângulo tecnológico e da oferta de mão-de-obra, para a inserção proveitosa de um país com as vantagens comparativas e as carências econômico-financeiras da Argentina no sistema internacional sob a Pax Britannica. Mais uma vez, Lucas Llach e Pablo Gerchunnoff deram uma contribuição importante para uma melhor compreensão da história da política econômica argentina, desta feita no que diz respeito à extraordinária interação de fatores a explicar a prosperidade do país no período: “El optimismo colectivo acerca del futuro económico de la Argentina es comprensible dentro del contexto internacional de progreso del siglo XIX, especialmente a partir de la guerra franco-prusiana. Si es cierto que el progresismo de los gobernantes argentinos fue crucial para poner en marcha el motor del crecimiento, también lo es que sus fervorosas ideas habrían sido estériles en otro tiempo y en otro lugar. El encuentro entre circunstancias auspiciosas para el progreso e ideas apropiadas para esas circunstancias resultó ser una combinación exitosa, al menos juzgada con la vara de lo que la historia llamó la Generación del 80”33. Felix Luna assim descreveu a Generación del 80: “todos ellos estaban de acuerdo en postergar una reforma electoral que permitiese entregar el voto incondicionalmente a las masas (...) aunque no haya sido una generación, sino un grupo de doscientas o trescientas personalidades en todo el país. Generalmente habían sido formados en los mismos colegios y universidades, hablaban el mismo lenguaje, compartían una misma ideología y un mismo código de costumbres, se conocían entre sí, incluso eran amigos. Podían disputarse el poder ferozmente, pero en última instancia pensaban lo mismo acerca del país y de su destino”34. A Generación del 80, que governou o país durante o Régimen Conservador, soube aproveitar a janela de oportunidade que se abriu para a Argentina na esfera internacional. Inspirando-se na filosofia positivista, procedeu a uma ampla mobilização de recursos, com vistas a atingir o “progreso continuo”. Houve uma incorporação maciça ao sistema produtivo de imigrantes, infra-estrutura (em especial ferrovias), terras férteis abundantes (nada menos do que a pampa úmida), poupança externa e tecnologias, com vistas a alcançar a mais elevada taxa de crescimento possível. O liberalismo que inspirava a inserção do país no sistema internacional, na condição de provedor de produtos primários (a proteção tarifária decorria basicamente de necessidades fiscais ou de pressão específica de grupos internos, como os produtores de açúcar e vinho, localizados nas províncias de Tucumán e Mendoza), contrastava com o intervencionismo estatal na mobilização interna de recursos35. O general Júlio Argentino Roca, político mais proeminente da Generación del 80, sustentava que o governo tinha importante papel a desempenhar em um país “extenso, poblado y sin capital” e onde a ação privada era “todavía muy débil”. A obsessão pelo progresso sobrepunha-se a dogmatismos36. Em síntese, a liderança política argentina demonstrou competência e pragmatismo ao conseguir montar um modelo agroexportador com escala e competitividade suficientes para promover uma “relação especial” com a grande potência da época, fundamentada em uma sólida complementaridade econômica, o que possibilitou um período de grande prosperidade. O modelo foi mantido intacto mesmo depois de 1916, quando o país, na esteira de uma abertura no sistema político, passou a ser governado pela Democracia Radical, que permaneceu no poder até o golpe militar de 1930. Entre 1860 e 1880, as Presidencias Históricas tiveram de ocupar-se da eliminação das ameaças à própria autoridade estatal37. Por esse motivo, a Argentina demorou um pouco para inserir-se na acelerada expansão comercial e na internacionalização financeira sob a Pax Britannica.. No entanto, quando reuniu as condições internas para tanto, o fez rapidamente. Segundo Roberto Alemann, foi justamente a determinação de queimar etapas que, em última instância, motivou a crise econômica de 1890: “Nada hay más difícil, a escala humana, que pretender un progreso rápido con orden estable (...). La impetuosa voluntad de progreso que alienta a los grupos dirigentes argentinos de entonces y a los inmigrantes que vienen a buscar mejores condiciones de vida, no se arredra ante las dificultades ni acepta sin más, los límites naturales a su que hacer (...). El resultado del choque entre esa voluntad de progresar y las posibilidades reales del país para absorber, en tan poco tiempo, tanta inmigración, tanto capital y tanta iniciativa empresaria, es una crisis severa que conmueve toda la estructura económica del país”38 Papel da caixa de conversão. A descrição de Alemann sobre as circunstâncias que levaram à crise de 1890 chama a atenção para uma provável contribuição das caixas de conversão para a prosperidade argentina. Devem elas ter contribuído para evitar desequilíbrios mais acentuados nas finanças públicas e, por conseguinte, para dar maior sustentabilidade à expansão da atividade econômica. Com efeito, a saída do CBA de 1885 permitiu a emissão descontrolada para financiar o gasto público, preparando o terreno para a Crise de Baring39. A Argentina pagou um preço alto pela desordem monetária e fiscal. No começo da última década do século XIX, ocorreu uma redução expressiva na entrada de capitais externos e, conseqüentemente, nas taxas de crescimento. A manutenção da austeridade, contudo, foi restaurando a confiança aos poucos e, sobretudo a partir de 1887, os investimentos adquiriram nível mais significativo. A pouca credibilidade inicial da caixa de conversão de 1899, cuja implantação foi exigida, como de praxe, pelo setor agroexportador para deter a apreciação da moeda nacional na esteira da entrada de capitais, deve ter sido, em grande parte, ainda um reflexo da falta de comprometimento político com o arranjo cambial exibida quando do abandono do regime, em 1885. Foi somente em 1902 que quantidade expressiva de ouro começou a fluir para o CBA40. Percebe-se, a partir da crise de 1890, um maior interesse da classe dirigente argentina pela manutenção de uma regra monetária mais robusta. O “progresso contínuo” passava a encontrar limites econômicos dentro dos quais tinha de operar. A reabertura do mercado de capitais financiou um persistente déficit público, mas a emissão monetária, conquanto crescente em função da entrada de capitais, permaneceu sob controle. Uma hipótese plausível, portanto, é que as caixas de conversão tenham exercido uma função disciplinadora em matéria de política econômica. Pode esperar-se, em princípio, que uma política monetária passiva, como a embutida em um currency board, venha a contribuir para tanto. Com uma emissão monetária controlada, a Argentina conseguiu superar o que, muito tempo depois, foi chamado de “impossible trinity”: política monetária expansiva, câmbio fixo e livre mobilidade de capitais (para ser sustentável, uma política econômica só pode valer-se, ao mesmo tempo, de dois desses três expedientes)41. No entreguerras, com a utilização de uma política monetária mais ativa, a Argentina deixou flutuar a taxa de câmbio, até a efêmera reintrodução de um CBA, em 1927. Além de dar maior sustentabilidade ao crescimento, a participação no padrão ouro, mediante a utilização de caixas de conversão, deve, provavelmente, ter contribuído também para permitir maior e melhor acesso ao mercado de capitais, por mais que a Argentina tenha sido considerada um free rider. Afinal, o país participou plenamente durante boa parte do período do sistema financeiro internacional da época. Igualmente, a caixa de conversão pode ter ajudado a equiparar a Argentina, em particular perante os homens de negócio e financistas britânicos, às próprias províncias do Império, em termos de previsibilidade e transparência, ou melhor, de respeito às regras do jogo. Em suma, mediante a adoção do CBA e a conseqüente participação no padrão ouro, o país tornava-se ainda mais atraente e confiável para os investidores externos, especialmente os britânicos. No entanto, tão expressiva expansão da atividade econômica não decorre da mera adoção de uma ou outra política cambial, independentemente de que esta possa implicar uma regra monetária robusta e estar em plena sintonia com os fundamentos macroeconômicos e com o grau de abertura e o nível de flexibilidade dos fatores de produção de uma determinada economia. Mesmo se a Argentina tivesse sido o participante mais disciplinado do padrão ouro, os resultados, em termos de captação de investimentos e de crescimento, teriam sido provavelmente bem mais modestos, na ausência da extraordinária confluência de fatores endógenos e exógenos que possibilitaram uma inserção ímpar do país na divisão internacional do trabalho sob a Pax Britannica. A adoção de caixas de conversão deve ter figurado, ademais, entre os elementos de uma estratégia de aproximação com a Inglaterra, inclusive em termos de diplomacia econômica, mas de nenhuma forma explica a impressionante prosperidade do país no período. Evidência empírica da preponderância da conjugação de outros fatores sobre a existência de um currency board, em termos de atração de capitais, é que, entre 1884 e 1890, período durante a maior parte do qual não dispunha de CBA, a Argentina tenha recebido 11% da totalidade das novas emissões de bônus no mercado londrino (os Estados Unidos e o Canadá, em conjunto, absorveram 30%)42. Depois da crise econômica de 1890, entretanto, a Argentina teve de melhor adequar-se às regras do jogo para voltar a atrair quantidade expressiva de capitais. É sintomático da relevância que a Argentina já tinha adquirido como recipiendária de capitais britânicos o fato de que, durante a debácle econômica de 1889/1890, o Bank of England se tenha visto na contingência de recorrer a seus congêneres francês e russo para um empréstimo de 3 milhões de libras em ouro e, ao mesmo tempo, para uma promessa de assistência de 1,5 milhão de libras em ouro, em caso de necessidade, a fim de evitar nada menos do que uma crise financeira sistêmica43. No começo do século XX, 85% do investimento estrangeiro na Argentina era de origem britânica44. A interrupção do fluxo de capitais da Inglaterra em direção à Argentina, em 1914, foi a principal conseqüência econômica negativa da guerra para o país. Posteriormente, as “conseqüências econômicas da paz”, para usar uma expressão de Keynes, afastaram qualquer possibilidade de retomada nos investimentos e empréstimos britânicos em nível mais significativo. Em 1918, foi a Argentina que teve de estender uma linha de crédito no valor de 100 milhões de pesos-ouro para que os britânicos pudessem adquirir cereais45. O investimento britânico na Argentina cessou completamente durante a Primeira Grande Guerra e imediatamente após a conflagração, recuperando-se de forma muito modesta no decorrer da segunda metade dos anos 20. O estoque de capital britânico no país, que, em 1913, era de US$ 1,86 bilhão, aumentou ligeiramente, alcançando, em 1927, US$ 2 bilhões. Declínio
do modelo agroexportador A transição entre a Pax Britannica e a Pax Americana já estava em fase adiantada e, dessa forma, dois elementos centrais da prosperidade argentina deixavam paulatinamente de existir: a) a relação especial com a potência que se encontrava no centro do sistema econômico mundial. Em contraste com o relacionamento mantido com a Inglaterra durante a Pax Britannica, a relação da Argentina com os EUA, no decorrer de boa parte do século XX, foi permeada de suspeita e tensão, em um contexto de rivalidade política e comercial46; e b) o sistema econômico fundamentado na divisão internacional do trabalho e na especialização que a Inglaterra lograra montar e preservar relativamente intacto até a Primeira Grande Guerra. Dois dos principais alicerces do modelo agroexportador, montado no bojo de uma confluência extraordinária de fatores exógenos e endógenos, na época do padrão ouro, começaram lentamente a ser minados, tendo início, pari passu, um longo processo de declínio econômico, embora, ainda nos anos 40, a Argentina continuasse sendo vista para observadores externos como um país que, provavelmente, se encontraria entre os desenvolvidos em uma questão de poucas décadas47. Colin Clark, em seu livro The Economics of 1960, publicado em 1942, previa que a Argentina iria, em poucas décadas, exibir um padrão de vida comparável ao dos Estados Unidos48 . Paul Samuelson, anos depois, chegou a comentar que: “Si alguien hubiese preguntado en 1945 ¿qué parte del mundo espera usted que experimente el más dramático despegue económico en las próximas tres décadas?, probablemente yo habría dado una respuesta parecida a la siguiente: la Argentina es la ola del futuro”49 Entre 1939 e 1945, o crescimento da economia argentina foi razoável apenas se comparado com o das economias européias, que padeceram as agruras da Segunda Grande Guerra. As economias de outros países da América Latina, como as do Brasil, Chile e México e, sobretudo, as dos EUA e Canadá, que se beneficiaram da demanda por bens militares, cresceram a taxas mais elevadas50. Em 1952, o PIB per capita da Argentina era apenas 3% acima do verificado em 1943. No começo dos anos 50, a Venezuela passou a ter a maior renda per capita da América Latina, e o Brasil, por sua vez, ultrapassou a Argentina em termos de valor do comércio exterior51. Legado
de uma época Caberia ao governo do momento, como fez a Generación de los 80, analisar com propriedade as tendências do sistema mundial e mobilizar todos os recursos internos com a maior rapidez possível, de forma a possibilitar uma espécie de retorno a um passado de grandeza nacional. Evidentemente, com o passar do tempo, o sonho vai ficando cada vez mais distante. No entanto, mesmo nos dias de hoje, a Argentina ainda parece estar em busca permanente do atalho para o mundo desenvolvido, que, na época do padrão ouro, dera a impressão de existir para o país. Jorge Ávila saudou o retorno do CBA, em 1991, como: “un hito en la historia económica argentina. Es un giro copernicano de la política monetaria incluso más trascendente que las privatizaciones. Su adopción ha integrado por completo el mercado monetario argentino al norteamericano, pues ella equivale a un patrón dólar, y a determinado, en consecuencia, una obligada convergencia de la tasa de inflación y la tasa de interés básica de la Argentina en los niveles de los Estados Unidos. A principios de siglo ya habíamos experimentado una convergencia similar, cuando el gobierno Roca puso en práctica la Caja de Conversión”53 Para Jorge Castro, mais um dos muitos defensores atuais dessa busca permanente do atalho para o mundo desenvolvido: “Hoy la Argentina está alineada en forma clara y permanente con las principales democracias de Occidente, forjó una relación especial con la única potencia global, los Estados Unidos de América (...) En esta primera década del siglo XXI, la Argentina, tras diez años de profundas transformaciones políticas, económicas y sociales, ha logrado reconstruir las bases estructurales que le permitirán, en diez años más, colocarse entre los diez principales países emergentes del planeta”54 Nos dias de hoje, a dolarização negociada com os EUA parece ser, para muitos de seus defensores incondicionais, uma junção perfeita dos dois fatores históricos capazes de levar a Argentina a voltar a ocupar uma posição de maior relevo no cenário internacional. Ao representar um compromisso ainda mais firme com o câmbio fixo do que a caixa de conversão, a dolarização é encarada como um aprofundamento da conversibilidade. Nessa ordem de idéias, uma união monetária com a única superpotência possibilitaria, no bojo de um acordo de livre comércio, o salto qualitativo no sistema produtivo de que a Argentina tanto necessita. O alinhamento automático da política externa e de defesa argentina com a norte-americana, nos anos 90, contribuiria para dar à Argentina importância estratégica para os Estados Unidos, o que viabilizaria acordos bilaterais nos campos comercial e financeiro. Na época da Generación de los 80 e da Democracia Radical, ao contrário, o país orgulhava-se de sua política externa autônoma. A Argentina manteve a neutralidade por ocasião da Primeira Grande Guerra, tendo em vista, sobretudo, seus interesses comerciais, como principal fornecedor de alimentos, em especial da própria Inglaterra55. O fato é que, realisticamente, a macroestrutura do sistema internacional era outra e a Argentina reunia condições objetivas para desenvolver uma relação especial com a potência dominante na Pax Britannica, o que não tem sido o caso na Pax Americana. O futuro possível Uma postura solidária da parte do Brasil, dentro de nossas limitações econômico-financeiras, poderia contribuir para cristalizar, no país vizinho, a percepção de que as duas nações têm um destino a compartilhar. A sociedade argentina como um todo poderia ainda, nesse contexto, começar a melhor assimilar a idéia de um aprofundamento da Aliança Estratégica entre os dois países. O início de uma integração profunda, no bojo da consolidação da União Aduaneira, poderia conduzir ao estabelecimento de uma moeda comum. O Mercosul poderia transformar-se em um verdadeiro mercado comum e sustentar-se como tal, com benefícios mais que proporcionais para os países-membros, em termos políticos, econômicos e sociais e em matéria de peso específico no plano internacional. É possível que tenha sido somente no início dos anos 80 do século XX que a Argentina tenha começado a dar-se conta de que o mundo a considera um país latino-americano, em função não só do isolamento decorrente da Guerra das Malvinas, como também da crise da dívida externa. A Argentina, pela primeira vez, recebera nitidamente contágio de um problema oriundo de outro país latino-americano. Historicamente, eram eventos em países como a Austrália, Canadá e Nova Zelândia que repercutiam em sua economia. Nos anos 90, a Argentina iludiu-se com a possibilidade de um rápido retorno à belle époque criolla. Lamentavelmente, a aterrissagem definitiva na realidade regional estar-se-ia dando de forma traumática, e não como o resultado de um exercício natural de racionalização das circunstâncias em que o país e o mundo, objetivamente, se encontram há muitas décadas. Tratar-se-ia de desenvolvimento que, sem dúvida, teria atendido melhor não só aos interesses da Argentina, como também aos do Brasil e aos dos demais países da Região. References _______________ 1 O regime
cambial será chamado, indistintamente, de currency board arrangement
(CBA), currency board ou, por sua tradução para o português,
caixa de conversão. A idéia acerca da oportunidade de
criação de caixas de conversão originou-se no início
do século XIX no Reino Unido com um grupo de economistas conhecido
como Currency School. Para um breve histórico das caixas de conversão,
cf. Williamson, John. What Role for Currency Boards?. Washington DC:
Institute for International Economics, 1995, p. 5-11; Korhonen, Iikka;
Sutela, Pekka; Pautola, Niina; Zloch-Christy, Iliana. Why Currency Boards?.
In: Zloch-Christy, Iliana (ed.). Economic Policy in Eastern Europe:
Were Currency Boards a Solution?. Connecticut: Preager Publishers, 1995,
p. 67-69; Walters, Alan. Currency Boards and Their History. In: Liviatan,
Nissan (ed.). Proceedings of a Conference on Currency Substitution and
Currency Boards. Washington DC: Banco Mundial, Discussion Paper n°
207, 1993, p. 4-6. |