A grande mudança: conseqüências econômicas da transição política no Brasil ALMEIDA, Paulo Roberto de. A grande mudança: conseqüências econômicas da transição política no Brasil. São Paulo: Códex, 2003, 199 p. _________________________________________________________________________________________________ Antônio Sérgio Bichir* O paulistano Paulo Roberto de Almeida formou-se em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas, na Bélgica. Prosseguiu seus estudos naquele país, obtendo o grau de Mestre em Planejamento Econômico em Antuérpia e o de Doutor em Ciências Sociais, ainda por Bruxelas. Ingressou na carreira diplomática em 1977 e, desde então, vem exercendo atividades acadêmicas e profissionais importantes. Além de professor universitário no Brasil e no exterior, desenvolve pesquisa na área de História econômica e relações econômicas internacionais do Brasil. Desde 1999, ocupa o cargo de ministro-conselheiro na embaixada do Brasil nos Estados Unidos, tendo até aquele ano servido no próprio Itamaraty, como chefe da Divisão de Política Financeira e de Desenvolvimento e nas embaixadas brasileiras na França, na Suíça e na Iugoslávia. Este breve curriculum vitae, no entanto, lhe faz parcial justiça; o que parece essencial é sua capacidade de articular temas e argumentos mais que relevantes, por seu papel na compreensão dos grandes dilemas da modernidade, no Brasil ou no mundo: o ocaso do chamado campo socialista; a crise das ideologias e o realinhamento do sistema mundial de poder; a indefectível globalização e suas ressonâncias no terreno da desigualdade e da pobreza; ou questões mais propriamente regionais ou tupiniquins, como a Alca ou a construção da chamada nova maioria social (que tornou possível a vitória do PT nas últimas eleições presidenciais). O
livro, a bem da verdade, reúne um total de doze capítulos
(melhor seria nomeá-los de “ensaios de livre-pensar”)
que representam textos escritos entre fevereiro e novembro de 2002,
com títulos bem-humorados e provocativos. Sem falar de seu posfácio
que, a rigor, constitui peça de timbre nietzscheano. A segunda parte, “As conseqüências econômicas da vitória”, inclui “Companheiros, muita calma: trata-se agora de não errar!”; “Administrando as relações econômicas internacionais do Brasil”; “Preparado para o poder? Pense duas vezes antes de agir”; e “Conseqüências econômicas da derrota: identificando vencedores e vencidos”. E o terceiro movimento, “Sinais trocados no cenário internacional”, completa a obra com “A globalização e as desigualdades: quais as evidências?”; “O boletim do império”; “Camaradas, agora é oficial: acabou o socialismo”; “Democratização do poder mundial: possível, realizável, imaginável ou simplesmente desejável?” e “Sinais trocados na Alca: teria a esquerda deixado de ser progressista?” O autor exerce seu ofício com a astúcia do livre-pensar: o ensaio é a mais bem-sucedida forma de persuasão. Diz ele: “Sou marxista, mas não religioso, entendida a boutade (em francês no original), obviamente, neste sentido especificamente marxista ou de qualificação filosófica, terreno no qual muitos dos marxistas teóricos ou práticos, mesmo contemporâneos, desenvolvem uma espécie de fervor religioso que os faz aderir a todos os instrumentos do culto sem rejeitar absolutamente nada, atitude da qual decorre um certo dogmatismo e uma espécie de cegueira mental que em muito prejudica uma análise marxista desprovida de preconceitos políticos. Sou irreverente e iconoclasta também em relação ao marxismo, por isso me afirmo como marxista não-religioso.” (p. 190) Cabe,
porém, a incômoda pergunta: é possível não
ser “religioso” no plano das idéias? Ou, dito de
outra forma: no campo da ideologia (para recorrer ao velho Émile
Durkheim, no terreno dos “modos de agir, sentir e pensar”),
o que se tem feito – sempre – é o velho expurgo da
dúvida, em favor da não menos velha adesão à
certeza? Os marxistas jurássicos, recorrendo a uma imagem do autor, diriam que seu livro pertence à tradição do oportunismo filosófico. Era assim que Vladimir Lênin acusava – filosoficamente – os social-democratas, socialistas-revolucionários ou esquerdistas menos cotados. Mas, como se sabe, o marxismo é um cadáver inconveniente e não há porque exumá-lo, aqui e agora, embora teime em ressuscitar vez por outra. Uma rápida consulta ao sumário da obra autoriza o comentário anterior, pois parte significativa dos ensaios é dedicada aos princípios da Economia Política (Ricardo e Marx, por exemplo) e às virtudes e defeitos do “socialismo realmente existente”, como o denomina Eric Hobsbawm, citado pelo autor. Alhures,
o autor se refere a um telefonema de George W. Bush ao seu colega russo
Vladimir Putin, cumprimentando-o pelo fato de a Rússia ter se
tornado uma economia de mercado (p.136). Ora, os que estão mais
acostumados com a história da Revolução Russa e
seus desdobramentos sabem que Leon Trotsky, uma das estrelas bolcheviques
de maior magnitude, defende em duas de suas obras clássicas,
A revolução traída e O fracasso do Plano Qüinqüenal,
a adoção do cálculo econômico, o estímulo
ao lucro nas pequenas e médias propriedades e os preços
de mercado na atividade geral de troca, além de construir uma
contundente crítica ao planejamento estatal, para tentar combater
a penúria e a desorganização que atingiam a sociedade
e a economia soviéticas nos anos 30. É do velho bolchevique
a seguinte pérola liberal: O que parece essencial e que deve ser retido: o liberalismo não é um construto mental ou cultural à serviço do empresário (essa a posição que o autor insinua defender); de fato, o laissez-faire só tende a valorizar aquilo que Oliveiros Ferreira chama de racionalidade e cupidez burguesas. Os argumentos liberais cuidam, a rigor, do papel preponderante do mercado (e não do empresário) quanto à geração eficiente de bens materiais e espirituais. O autor parece confundir os papéis, como já se viu antes, entre o ser liberal e o ser empresário. Ou atribuir ao Estado um caráter regulatório irreversível não revelaria uma atitude inconsistente? Antes de julgar é preciso entender. Mas esse é um dos pontos altos – talvez não o mais representativo – e agradáveis do texto de Almeida, porque nele se pratica o saudável hábito do debate de idéias. Sim, é precisamente disso que se trata: não estamos diante de uma obra acadêmica ou científica tout court; é um exercício de opinião que, como tal, fareja seus alvos mas não os escolhe. Cabe ao leitor fazê-lo. A coleção de ensaios críticos ora publicada por Paulo Roberto de Almeida, longe de se constituir, apenas, em um ecletismo filosófico ou reformismo social-democrático – que não o depreciam, diga-se –, convida à reflexão, sem opiniões estabelecidas ou prejuízos morais, tão ao gosto do grande Descartes e, por que não dizer, do próprio autor. Termino
esta resenha com uma breve passagem da obra, na qual dois princípios
básicos de justiça social são enunciados e, neles,
autor e obra se metamorfoseiam. De algum modo, define-se seu horizonte
intelectual e, ao mesmo tempo, sugere-se que A grande mudança...
seja lida como Tácito recomenda que se faça a História:
sine ira et studio (sem ódio e sem preconceito): Assim,
se o autor deseja conciliar o marxismo, como paradigma econômico,
e o liberalismo, como visão-de-mundo, auto-proclamando-se “marxista-capitalista”,
seria útil lembrar da máxima insuperável da ética
na política, tão vívida em dois dos maiores estrategistas
da ação (um deles já mencionado), Inácio
de Loyola e Leon Trotsky: quem quer os fins, aceita os meios! |