Globalização e trabalho, depois do 11 de setembro e do caso Enron


Leonardo Trevisan (*)

Resumo: A análise dos motivos que levaram os agentes dos serviços de inteligência britânicos a pretender, em 2002, o ingresso em um sindicato para defendê-los é bom exercício de compreensão sobre o que de fato mudou, no mundo do trabalho, depois da chamada globalização. É possível responsabilizar os ataques de 11 de setembro pelo aumento da instabilidade de todos os empregos – inclusive os dos espiões. Porém, para o mundo do trabalho, o símbolo da grande mudança pós globalização talvez seja a falência da Enron, mais do que a derrubada das torres de Nova York. Quando as incertezas aumentam, a cobrança de maior “segurança social” apressa a volta do histórico duelo entre privilegiar mais o setor público ou o privado. Esse duelo sempre ocorreu pós-recessão, tanto em 1873 como em 1929, formando ciclos oscilantes entre o predomínio do Estado e o do mercado. A vitória do Estado, pós-Grande Depressão na década de 1930, por exemplo, durou até os anos 70. Outro ciclo, de sinal contrário, iniciado em 1979 estaria terminando? A análise dos fatores totais de produtividade da economia norte-americana não sugere, contudo, que o ciclo de segurança social via mercado, iniciado no início dos anos 80, tenha encerrado seu curso.

Palavras-chave: globalização, mercado de trabalho, produtividade, segurança social.


Na era em que quase tudo que era impensável já se transformou em realidade, Jonathan Baume, o secretário geral do sindicato dos funcionários públicos de alto escalão do Reino Unido recebeu, com a devida surpresa, a inusitada solicitação dos "empregados" do serviços de inteligência britânicos - o MI 5 e MI 6 - para filiação naquele sindicato. A notícia, publicada com a discrição necessária no Financial Times, edição de 17 de abril de 2002, em matéria assinada por Jimmy Burns, informava que a razão do pedido era o receio da "categoria" em relação a pressa com que o governo inglês pretendia contratar centenas de novos agentes para fazer frente "às novas obrigações no mundo pós 11 de setembro". Quando pediram a filiação sindical, os agentes do MI 5 e MI 6 fizeram poucas exigências, a primeira delas, bastante compreensível, foi a preservação do anonimato.

Os "trabalhadores" do serviço de inteligência britânicos pediam ajuda ao sindicato para defenderem-se "coletivamente" contra possíveis inadimplências do "patrão" e, também, contra possíveis acusações feitas contra eles de fora da instituição. Os candidatos a sindicalizados avisavam que se comprometiam a não fazer greves mas pleiteavam que, de modo algum, o sindicato permitisse a publicação dos nomes dos novos afiliados nas listas anuais de membros das "unions", uma tradição sindical britânica.

Analisar as razões pelas quais os descendentes de James Bond querem, em 2002, ter um sindicato para defendê-los é um promissor exercício de compreensão sobre o que de fato mudou no mundo do trabalho depois da assim chamada globalização. Primeiro, é possível entender que essa estranha solicitação revele, como sustentou Giddens (2001, pg. 47), que as expectativas dos ingleses de buscar proteção para os seus mais variados pleitos no movimento sindical não acabaram, apesar de terem sido seriamente abalada por todas as mudanças implementadas por Margareth Thatcher. Aliás, quando agentes secretos optam por se defender coletivamente das pressões do "patrão", não estaríamos frente a uma curiosa permanência de um espirito de classe e não de ação individual para preservar "direitos?”

A essência da questão, no entanto, permanece restrita à forma como o trabalhador, depois de todas as mudanças do mundo na década de 90, procura proteger o que julga ser seu direito. Seria difícil encontrar materialização mais completa do conceito de flexibilidade no trabalho do que no ofício de espião. Todas as características da flexibilidade estão nessa profissão: horário livre, inventividade, compromisso com resultados, criatividade operacional... Se, seguimos na linha de análise de (Rifkins, 1995), o pioneiro na interpretação pessimista (lembrando o título de seu capítulo mais perturbador Réquiem para a classe trabalhadora do texto sobre o "fim dos empregos") ou, então, lembramos do otimismo preocupado dos textos da "escola inglesa" representada pelas idéias de Gallie e Purcell (1996), é muito difícil escapar da conclusão de que o novo contexto de exercício profissional nos anos 90 construiu uma espécie de "consciência flexível" sobre tradicionais direitos trabalhistas. Se os trabalhadores se conformaram com os empregos "flexíveis", com direitos trabalhistas limitados , por que até os espiões querem se sindicalizar? E, sem dúvida, esse pedido acentua o aspecto mais intrigante dessa questão: por que trabalhadores tão flexibilizados, como os agentes da inteligência britânicos, pedem esse retorno ao tipo mais tradicional de proteção ao trabalho e ao trabalhador?

É possível apontar que o grau de instabilidade dos novos empregos, surgidos durante a década de 90, entorpeceu a "consciência flexível". É possível também, apenas, responsabilizar os atentados de 11 de setembro em New York pelo crescimento no grau de instabilidade de todos os ofícios - não só o dos espiões. Não há dúvida de que 2001 será lembrado na História Econômica como símbolo de um "ano horrível". Em 2001, todas as previsões de crescimento não se confirmaram; o World Economic Outlook (2000), publicado em outubro de 2000, do Fundo Monetário Internacional, previu crescimento de 4,2 % para o mundo em 2001 e de 3,2% para a economia norte-americana. A realidade desse crescimento foi de 1,2% no mundo e de 1,1% na economia dos Estados Unidos.

King (2002) mostrou que os motivos desse erro de previsão não podem ser creditados, exclusivamente à derrubada das torres do World Trade Center, pois todas as previsões de crescimento da economia mundial em 2001 foram feitas a partir da dependência do mundo em relação à demanda da economia americana. King apontou que essa demanda despencou, em 2001, desde o começo do ano quando se acentuou o medo quanto ao real valor das ações de Wall Street e não depois dos atentados. Para diferentes analistas econômicos que seguiram a mesma lógica de King, o atentado de 11 de setembro foi "simplesmente" o coup de gráce em uma debacle econômica de há muito anunciada. Aliás, basta lembrar o numero de vezes que o presidente do Federal Reserve Bank, Allan Greenspan, falou em "exuberância irracional" do mercado acionário norte-americano, para que se relativize a interpretação de que o atentado de 11 de setembro foi, de fato, o maior responsável por 2001 ser um símbolo histórico de "ano horrível".

A obsolescência da lealdade
Para o mundo do trabalho, a grande mudança, talvez, também, não tenha sido desencadeada pela derrubada das torres gêmeas do World Trade Center, mas sim pela falência da Enron, a grande companhia de eletricidade norte-americana. O problema dessa quebra de empresa não estava em seu conteúdo - afinal, Paul O'Neill secretário do Tesouro norte-americano, tem razão quando afirma sobre essa falência: "empresas abrem e fecham todos os dias", mas não da forma como essa falência ocorreu. Krugman (2002), apesar de todo o ranço crítico que tem contra o governo Bush, identificou com muita clareza a grave diferença, nesse "ano horrível" entre cada um desses desastres, o do WTC e o da Enron. O professor de Princeton fez distinção essencial: qualquer evento, inclusive um brutal ataque terrrorista, "só muda tudo se esse evento mudar o modo como você considera a si próprio". Krugman notou que o ataque ao WTC não fez isso. Os atentados de 11 de setembro foram um brutal ataque terrorista em que os americanos foram apenas vitimas. O escândalo da Enron, completa Krugman, "diz respeito sobre nós, mostrou coisas a nosso respeito que, provavelmente, deveríamos saber mas demos um jeito de não ver".

O artigo do professor de Princeton insiste que o escândalo da Enron trata de maneira exemplar de como as aparências enganam. O problema é de que aparências estamos falando: a Enron "vendia" um verniz high tech sobre uma estrutura que parecia sólida, com uma filosofia de trabalho voltada para a lealdade mútua entre executivos, trabalhadores e acionistas. O que se viu quando a hora da verdade chegou é que a nem a empresa era sólida, nem havia qualquer lealdade real.

Será inesquecível o impacto causado no mundo inteiro quando os funcionários da Enron saíram, de uma hora para outra, carregando para fora do prédio sede da companhia seus pertences pessoais em caixas arrumadas às pressas. É preciso lembrar que até o último momento muita gente acreditou, dentro e fora da empresa, em tudo que a Enron representava como "segunda modernidade" do capitalismo, para relembramos o conceito de Beck (2000). Até que tiveram que carregar as caixas...

A Enron era uma empresa plenamente informatizada, com alta flexibilidade no uso de mão-de-obra, com todos os critérios exigidos da moderna administração. Na calçada em frente ao prédio sede, com as caixas na mão, os empregados descobriram que não foram apenas seus empregos que desapareceram, mas também o dinheiro dos fundos de pensão, que garantiria suas aposentadorias, não existia mais. O dinheiro desses fundos também tinha sido usado nas fraudes. Agora os recursos dos fundos dos empregados da Enron eram tão virtuais quanto a "integração virtual da nossa empresa" para repetir o slogan preferido do CEO, Jeffrey Skilling. O que explodiu junto com a Enron foi um certo grau de confiabilidade em certas atitudes da moderníssimo mundo do trabalho. Krugman foi direto ao ponto que importa: a maioria de americanos, hoje, vive de negócios e o estilo Enron de falir mostrou o quanto a sua vida poderia ser "perigosa".

Certas fórmulas de gerir as relações de trabalho, que eram apresentadas como "intactas", desmancharam com o resultado do escândalo Enron. Ainda que se multiplicassem por mil as passeatas pelas ruas de Seatle e de Gênova dos dois últimos encontros do Fórum Econômico Mundial, mesmo que cem vezes mais denúncias tivessem sido feitas nos discursos do Forum Social de Porto Alegre, o impacto gerado não alcançaria talvez sequer pequena parcela do impacto causado nos empregados do mundo inteiro assistindo, nos telejornais da noite, aos trabalhadores da Enron, absolutamente lívidos e surpresos, carregando, de repente, caixas com o que sobrara de sua vida profissional naquela empresa.

A forma como a Enron faliu consolidou uma perigosa sensação de engano no ar. Em um texto escrito pouco antes dos ataques, Robert Reich, ex-secretário do trabalho dos Estados Unidos durante os dois governos Clinton, captou em uma única expressão, "obsolescência da lealdade", o clima de crise de confiança existente no novo mundo do trabalho. Explorando a idéia sobre a quem pertence a responsabilidade de qualquer atitude, ato ou decisão que prejudicam ou destroem empresas, o ex-secretário percebeu que quem faz o quê ou quem ganha o quê estava diluído em uma infinidade de contratos temporários que não tem como levar em consideração todos os problemas ou variáveis possíveis. "Quando o adesivo que une as partes de uma empresa é pouco mais do que uma porção de contratos temporários, quem é o responsável pela garantia de que o sistema como um todo funcionará conforme planejado?" (Reich, 2002, pag, 94). Essa percepção de que há uma "obsolescência da lealdade" como motor de relações profissionais - a lealdade é tão temporária quanto o contrato - foi percebida por Reich meses antes dos empregados da Enron ficarem na calçada com caixas na mão...

O editorial do Washington Post, publicado dois dias depois da falência, não poderia ser mais claro: o caso Enron "encerrou uma era. Por muito tempo nós assumimos que o conflito fundamental no capitalismo estava entre donos e trabalhadores. O caso Enron provou que o verdadeiro conflito está entre insiders e outsiders. Os perdedores na Enron foram dois: os trabalhadores e os acionistas". O editorial do Post sintetizou essa sensação de engano. Um dos símbolos mágicos da Nova Economia, a Enron, que era capaz de ganhar rios de dólares vendendo "papéis" e não energia elétrica, dominando todo esse poder "virtual" de transformar pequenas espertezas em bilhões de dólares, terminou, apenas, em uma fraude monumental. Esconder perdas e prejuízos sempre foi uma arte na história do capitalismo. No caso da Enron essa "arte" se transformou em negócio. Como notou o editorial do Post, depois desse escândalo, a "era do capitalismo presunçoso tinha acabado". O problema era o custo ampliado desse "fim" como também perguntou o jornal, deixando bem insinuado um claro sinal de que a Enron não estava sozinha em suas "artes". Alguns meses depois "The Wall Street Journal" (2002) publicou em matéria de primeira página, assinada por Pullam S. e Blumenstein R., que as autoridades da Securities and Exchange Comission, a Comissão de Valores Mobiliários americana, estavam muito preocupadas com uma "explosão de transações que falsamente criaram a impressão de negócios em expansão por vários setores e que estava fazendo uma radical investigação de um conjunto de práticas que nos últimos anos inflaram os faturamentos". A duvida essencial sobre as legitimidades das receitas das empresas "estava se espalhando de setor para setor levantando muitas incertezas sobre se tais práticas podem ter contribuído para o enorme crescimento do mercado no fim dos anos 90" (The WSJ, edição de 16 de maio de 2002, página 1).

O foco da nossa preocupação não é, obviamente, o desencadear de problemas macroeconômicos pós caso Enron. Nossa atenção é o sentido que esse caso teve como epílogo de uma espiral de desilusões com o novo relacionamento entre capital e trabalho. Na esteira dos atentados de 11 de setembro, sem dúvida, o caso Enron consolidou uma forte desconfiança na crença no poder do "mercado" enquanto instituição mágica, capaz de solucionar qualquer problema, crença que tanto caracterizou os anos 90. Não seria necessário, mas é prudente apontar que não há juízo de valor, de qualquer espécie, nessa última observação, apenas, única e tão somente constatação de fatos.

As instituições americanas saíram ilesas do episódio Enron. Primeiro, não ocorreu qualquer complacência da Justiça com as responsabilidades nos fatos dos diretores da empresa envolvidos no episódio. Também não ficou provado que um único dólar do contribuinte norte-americano foi encaminhado para impedir a debacle final (apesar de todas as ligações políticas da empresa com o estabilishment republicano no poder); porém, também nenhuma comiseração especial foi destinada aos trabalhadores que ficaram sem emprego, sem direitos e sem qualquer aposentadoria.

O único apoio oferecido aos ex-trabalhadores da Enron veio de um inusitado concurso realizado pela revista Playboy para a publicação de fotos das ex-empregadas da empresa. Gary Cole, diretor de fotografia da revista, adaptou a frase de Paul O'Neill, secretário do Tesouro, dizendo: "quando uma porta se fecha outra se abre" justificando o convite às ex-funcionárias e apontando que era uma chance de nova carreira, sem esquecer de dizer que a oferta destinava-se "a mulheres sem emprego". Debora De Forge, presidente da Coalizão dos Empregados Demitidos da Enron, reagiu de forma esperançosa ao convite: "temos enfrentado muitas notícias estressantes e, de repente, vem algo que é bom". A edição do Jornal da Tarde, de 26 de março de 2002, página A 15, oferece os demais detalhes da oferta da revista e das regras do concurso.

O retorno do pêndulo
É inconstestável, no entanto, que se as instituições americanas funcionaram, a forte sensação de engano que ficou no ar depois do escândalo Enron começou a provocar outros "resultados". Coggan, experiente colunista do Financial Times, captou, no artigo de 20 de abril de 2002, o resultado mais imediato dos últimos meses de "profunda incerteza", que apenas começaram no declínio das empresas ponto.com e avançaram no medo das taxas de desemprego que não cediam nas economias industrializadas desde 2000 e terminaram nos ataques terroristas em Nova York. O espírito desse "resultado" está resumido no título do texto de Coggan: "Revanche do setor público".

Coggan parte de uma lógica perturbadora, lembrando que depois de 11 de setembro, muitas pessoas refletiram que, "numa emergência real, um bombeiro é muito mais útil do que um banqueiro investidor". O autor mostra como no Reino Unido e mesmo nos Estados Unidos, "terra do livre mercado", o tom do debate entre setor público e privado mudou muito depois dos atentados. Defesa e segurança interna passaram a ser áreas prioritárias e esse tipo de serviço "dificilmente" pode ser privado.

Certas áreas em que a ação do Estado vinha sendo paulatinamente contida sofreram uma "reversão" e Coggan mencionou como exemplo disso a novíssima atenção no orçamento, dada pelo governo trabalhista britânico para o setor de saúde pública. O autor apontou que está apenas começando uma "onda de reação histórica de cobrança" para que os governos ofereçam mais segurança social, tanto nas ruas como no trabalho. E isso custará, obviamente, mais impostos. Na conclusão, Coggan escreveu que a globalização fez a equação entre público e privado "perder o equilíbrio" porque é relativamente fácil para qualquer companhia mover seus investimentos para fora de qualquer país, "quando as taxas e impostos subirem". E ele fez a pergunta essencial: depois de cortes tão fundos no poder de Estado, como foi feito nos últimos anos, como fazer para que os serviços públicos voltem a ter um "diferencial competitivo favorável", exigido pelos novos tempos, sem aumentar impostos?

A cobrança de maior "segurança social" quando as incertezas aumentam está no cerne do duelo entre privilegiar mais o setor público ou o privado. Coggan acertou quando usou a expressão "onda de reação histórica de cobrança", porque é disto mesmo que se trata, de "ondas" que vem e voltam, na cobrança de maior ou menor proteção do Estado, quando as incertezas aumentam muito na sociedade. A questão efetivamente importante, portanto, é: os ataques de 11 de setembro, ou o caso Enron, como preferem autores como Krugman, terão a força suficiente para reverter o sentido da "onda" de crença absoluta no mercado, iniciada com a vitória de Margareth Thatcher em 1979? Será que a fé, inabalável, no poder de Estado está de volta?

A história dos processos de "proteção social", talvez, não nos ajude a responder inteiramente a essa pergunta, mas permite encontrar algumas pistas. A extensa pesquisa de Royle (1987) mostra que a idéia de "ajuda social", mais ou menos próxima dos moldes que hoje conhecemos, começou na Inglaterra (sempre lá...) devido aos violentos resultados da fortíssima recessão de 1873/75. Sobre essa recessão, as informações de Dobb (1973) permanecem essenciais. A violência da crise que acometeu o sistema internacional no terço final do século XIX, no que se convencionou chamar de começo do capitalismo monopolista, foi muito grave, tanto pelos "negócios irregulares" realizados em Londres e Nova York com "aventuras indescritíveis" em companhias ferroviárias como, especialmente, pelo default de muitos empréstimos feitos de 1867 a 1873 a países como Egito, Rússia, Hungria, Peru, Chile e Brasil (Dobb, pg 372). A quebra em cadeia de bancos que operavam com "investimentos no exterior" tanto em Londres como em Nova York fez com que secassem todas as fontes de capital que sustentavam a impressionante "bolha" de crescimento econômico: por exemplo, entre 1866 e 1872, a produção de ferro gusa dobrou na Inglaterra, com expansão, nunca vista, de 50% na instalação de altos fornos (Dobb pag. 368). No auge da recessão 70% desses fornos foram desativados com um violento desemprego atingindo toda a cadeia de produção. A rapidez da crise fez com que a pobreza nas ruas de Londres ou de Manchester avançasse em proporcional velocidade.

A depressão de 1873/75 forçou que a "questão social" se transformasse em algo mais do que um assunto entre o chefe de polícia e seus comandados. Algumas ações do Estado acabaram dirigidas para essa "questão social". Foram processos muito tíbios, mas que funcionaram como uma espécie de "ensaio" do que poderia ser feito. Royle descreveu em detalhes o Alkali Acts de 1874 promulgado para impedir a adulteração da comida dos pobres no Reino Unido. O Factory Acts, do mesmo ano, determinava limitações mínimas para o trabalho de mulheres e crianças. A situação se deteriorou a tal ponto que itens do Alkali Acts passaram a ser usados como severa punição para a não comunicação de mortes (Royle, pag 203). O autor reconhecia que apesar da legislação a fiscalização permanecia permissiva e limitada no seu alcance. Curiosamente Royle mostra como esse início de legislação social foi essencialmente uma ação local (ele chama de "municipal socialism") e apenas nesses limites locais era aceita. Em 1875, o Public Health Act obrigava os hospitais a não recusar pacientes sem recursos e estabelecia os termos do reembolso pelo Estado dos tratamentos realizados.

Durou pouco a onda de proteção do Estado para os vitimas da recessão, como reconhecem diferentes autores, no máximo até meados da década de 1880, quando a disputa entre Alemanha e Inglaterra ocupou todo o espaço das idéias e do crescimento econômico. Porém, a violência da recessão de 1873/75, inegavelmente, provocou em parcela considerável da elite britânica um significativo processo de "consciência social". O nome de sir William Beveridge, pouco conhecido no mundo latino, é o representante mais consistente desse processo. Apesar do surto de crescimento econômico que marcou toda a Belle Époque, Beveridge conseguiu aprovar em 1905 o Unemployed Workmen's Act, a primeira autorização para que autoridades locais pagassem uma forma embrionária de seguro-desemprego a chefes de família. No entanto, estas compunham atitudes isoladas. De fato, o pêndulo tinha oscilado um pouco para o lado do Estado no auge da recessão de 1873, mas, com certa rapidez, voltou à posição mais constante, até então, de privilegiar a perspectiva do mercado.

O pêndulo só voltou a oscilar na década de 1930. A Grande Depressão de 1929 teve poder de fogo suficiente para trazer de volta aquela "cobrança" de que falou Coggan. A inflexão máxima desse movimento do pêndulo foi, obviamente, o New Deal de Roosevelt e toda a sua visão de mundo keynesiana. Mas o processo de preparação de ação mais efetiva do Estado curiosamente não começou nos EUA e sim na Inglaterra e, pasmem os críticos apressados, em um governo conservador. Desde 1926, o gabinete conservador de Stanley Baldwin havia transformado uma extensão de rede elétrica para áreas muito pobres em "empresa pública". Em 1930, o gabinete do conservador Macmillan avançou muito nessa direção: preocupado com os "altos níveis de má nutrição" na população britânica, o primeiro-ministro conservador Macmillan organizou, com o apoio do Correio, um impressionante programa de distribuição estatizada de pão e margarina que cobriu todo o país. (Macmillan, 1966) Era só a primeira de uma série de medidas para atenuar o forte efeito da recessão no início dos anos 30. A Grande Depressão provocou um movimento de longa duração no pêndulo que equilibra a disputa entre o setor privado e público. Iniciado na década de 30, o pêndulo permaneceria no lado do Estado até o final da década de 1970.

A Segunda Grande Guerra e todo o processo de reconstrução do mundo deu um fôlego especial à duração dessa onda de vitória do Estado. O tranqüilo equilíbrio do padrão-ouro do pós-guerra, o petróleo muito barato e, principalmente, os termos da Guerra Fria asseguraram uma vida mais longa para esse movimento do pêndulo pró-Estado, iniciado na década de 30.

As novas tecnologias, que começaram a automatizar a produção no final da década de 60 e, principalmente, as mudanças no padrão ouro e as pressões inflacionárias decorrentes, devolveram ao pêndulo o ímpeto de voltar a movimentar-se. No início da década de 70, as economias industrializadas patinavam em padrões de produtividade lentos, conhecidos, ineficientes... Não foi sem motivo que a mesma Inglaterra que garantia a mais longa duração do pêndulo na direção da proteção do Estado ofereceu também o cenário para a vitória da visão que traria de volta o pêndulo na direção do mercado. Em, 1979, dois anos antes da vitória de Ronald Reagan nos Estados Unidos, o estilo Margareth Thatcher prometeu aos assustados ingleses que a velocidade da decadência da economia britânica seria reduzida. O estilo Thatcher pretendia, apenas e simplesmente, criar as condições para que o pêndulo iniciasse a viagem de volta do Estado para o mercado. E, sem dúvida, o caso inglês foi o mais significativo dessa oscilação do pêndulo iniciada desde meados dos anos 70.

Entre 1979 e 1995, a quantidade de funcionários públicos no Reino Unido despencou de dois milhões para menos de 800 mil (Artis, 1996). Não existe nenhum exemplo semelhante em qualquer outra economia industrializada de tamanha redução de quadros públicos. Essa transformação foi, é claro, acompanhada de outras mudanças no mundo do trabalho: os 8,4 milhões de empregos no setor industrial no Reino Unido em 1978 encolheram para 4,1 milhões em 1994 (OECD - 1995). Nesse mesmo período entre 1978 e 1994 os empregos do setor bancário e financeiro ganharam aproximadamente dois milhões de novos postos de trabalho. O boom de geração de trabalho não ficou restrito ao setor financeiro. No setor de educação e saúde, apenas entre 1984 e 1994 foram abertos mais de um milhão de novos empregos (Artis, 1996). O amplo processo de privatização da economia britânica foi, obviamente, o motor dessa nudança, que alterou a própria geografia do emprego: entre 1979 e 1989 a região da Grande Londres perdeu 23% dos postos de trabalho que possuía. As regiões do interior da Inglaterra, com industrialização mais tradicional, como North West ou West Midlands sofreram um pesado processo de transformação com impressionantes reflexos sociais (Martin e Taylor, 1992)

A confirmação de que o pêndulo, de fato, tinha mudado de lado na Inglaterra ocorreu em meados dos anos 80 quando a o governo Thatcher decidiu permitir seguidas compras "populares" de ações das recém-privatizadas companhias dos mais diversos setores. Em 1981, pouco mais de 6% dos ingleses possuíam algum tipo de ação entre seus investimentos. Em 1992, esse índice alcançara 27% e em 1998 ultrapassava 38%. Inegavelmente a privatização funcionou como um autêntico detonador de uma explosão reformadora que gerou um ambiente econômico completamente novo. (Rowning, 1994).
É possível também detectar essa mudança do pêndulo na estrutura social britânica. Entre 1979 e 1989 o número de trabalhadores sindicalizados na Inglaterra caiu de 13,6 milhóes (dos quais 12,1 milhões pertenciam a uma mesma central sindical a Trade Union Congress - TUC) para 9,8 milhões em 1989 (dos quais 8,4 continuavam pertencendo aos quadros da TUC). Em relação à porcentagem da força de trabalho empregada, a queda da sindicalização foi também muito forte: em 1979, 57,3% da força de trabalho empregada era sindicalizada; em 2985 esse número tinha caído para 48,4%; em 1991 essa sindicalização atingia apenas 33% da força de trabalho (Pasture, 1996).

Os anos de confronto dos sindicatos ingleses tinham terminado. A violência do desemprego fruto das seguidas recessões, a pulverização da força de trabalho por meio da mudança do emprego para o setor de serviços, o avanço do emprego "por conta própria" tinham "quebrado a resistência de uma ordem política construída sob a proteção do Estado" em todo o Reino Unido (Beaumont e Harrys, 1994). A ordem econômica internacional, de fato, primeiro observou e depois participou ativamente da cópia desse modelo, especialmente nos anos 90.

O emprego New Age
É preciso lembrar, que a sociedade inglesa não acompanhou a viagem de volta do pêndulo do Estado para o mercado sem ter identificado significativas vantagens. A primeira delas ocorreu no nível de emprego. Por toda a década de 90 o nível de desemprego no Reino Unido foi, de longe, o mais baixo de toda a União Européia. Entre 1995 e 2000, enquanto as principais economias da União Européia lutavam com média de desemprego superiores a 10% da População Economicamente Ativa, a Inglaterra oscilou durante todo esse período entre 5,4% e 5,8% de desemprego.(The Stationery Office, 2002). Essas taxas de desemprego só eram superadas pelas taxas alcançadas nos Estados Unidos nesse mesmo período.

A questão do crescimento da produtividade - um conceito bastante complexo - na Inglaterra também precisa ser lembrada para explicar essa adesão da sociedade britânica ao movimento do pêndulo em direção do mercado. Na questão da produtividade, o modelo inglês da era Thatcher tem a apresentar um forte componente de crescimento quantitativo: entre 1980 e 1999 a produtividade inglesa (como fator total) cresceu a uma média de 0,35% ao ano, um recorde mundial. (Card e Freeman, 2002) Nesse mesmo estudo, esses autores também mostraram que ao lado do fato de que a liberdade de mercado permitiu forte crescimento da produtividade eles também alertaram que há uma forte distinção entre políticas de avanço de produtividade que "afetam a acumulação física de capital e políticas capazes de afetar a capacidade de inovação". E o modelo inglês que sintetiza a vitória do mercado não está bem em referência a este último item.

Um instituto britânico especializado em comparar dados econômicos internacionais divulgou estudo mostrando que, entre 1979 e 1999, a quantidade de horas trabalhadas por pessoa da População Economicamente Ativa caiu 0,1% ao ano na Inglaterra, enquanto subiu 0,5% ao ano nos Estados Unidos. É importante notar que por esse mesmo critério e nesse mesmo período a quantidade de horas trabalhadas por pessoa na França e Alemanha caiu 1,1% ao ano. (National Institute of Economic Review, 2002)

Hutton (2002), em artigo publicado com destaque no Financial Times (esse fato merece especial atenção), mostrou que o cruzamento da quantidade de horas trabalhadas por trabalhador com o crescimento da produtividade por hora trabalhada sugeriam que o fato da Inglaterra ter baixa taxa de desemprego não representava o melhor dos mundos. Hutton mostrou que ao longo da década de 90 "o compromisso do empregado e o envolvimento dele com a produção caíra muito. A Inglaterra tem sido muito bem-sucedida em criar empregos mas muito menos eficiente em assegurar que esses empregos sejam produtivos e úteis". Ele mencionou o estudo da Stanford Business School que analisou a qualidade dos empregos em 17 "visionárias" companhias, que perderam o foco de seu "negócio principal", avançam em diferentes setores, inflam seu valor de suas ações em Bolsa, mas "não avançam em produtividade e prejudicam seriamente sua principal atividade". Os empregos nessas organizações crescem mas são inseguros. Toda semelhança não é mera coincidência com o episódio Enron.

O impacto maior do trabalho de Hutton refere-se à queda do compromisso do empregado com seu trabalho. A Inglaterra condicionou a expansão do mercado de trabalho ao emprego temporário e de meio período. Os números são indiscutíveis: entre 1979 e 1994 o número de trabalhadores de meio período na Inglaterra multiplicou-se por dez entre os homens e dobrou entre as mulheres. Entre 1981 e 1994 o chamado "trabalho por conta própria", sem vínculo empregaticio, saltou de 2,1 milhões de registros para 3,2 milhões (Artis, 1996). Em 2001, 25,5% de todos os empregos na Inglaterra eram empregos de meio período (The Stationery Office, 2002, pg 149). A má qualidade desses empregos e os baixos salários pagos por eles são tão indiscutíveis quanto o avanço numérico deles (Stephens, 2002).

A solução inglesa para enfrentar o desemprego atravessou, em meados dos anos 90, o Canal da Mancha. Um artigo de Barber (2002) mostrou que mais da metade - 51% - de todos os novos empregos criados na União Européia, entre 1994 e 1998, "eram trabalho de meio período e trabalhos temporários". Nesse artigo, Barber também mostrou como países com estruturas econômicas específicas, como Áustria, Irlanda, Luxemburgo, Holanda e até Portugal, conquistaram "admiráveis recordes" na tarefa de criar empregos usando as "táticas inglesas". O autor, no entanto, alertou que as grandes economias européias, notadamente França, Alemanha e Itália, estão enfrentando "impressionante resistência" para adotar essa solução e persistem com taxas de desemprego ao redor de 10% da força de trabalho ativa.

É uma visão muito simplificada da realidade - e provavelmente errada - concluir que a dura situação social gerada pelo emprego de meio período ou temporário, com subutilização de mão-de-obra muito qualificada para desempenho de funções quase mecânicas, gere um descontentamento tão forte capaz de fazer o pêndulo deixar a solução de mercado e voltar para a proteção do Estado.

A resistência às mudanças exibidas pela sociedade alemã, francesa e italiana não quer dizer que a lógica de Estado voltou a encantar as mentes. Há notória perda de competitividade na indústria desses países. Samuelson (2002) mostrou como relações trabalhistas inflexíveis inibem reduções de prejuízos e quanto "vitórias sindicais de curto prazo só aceleram o processo de transferências da produção em caráter permanente para outros centros, mais flexíveis com as relações de trabalho". O establishment político desses três países - tanto o progressista como o conservador - está convencido de que é preciso mudar, mas as mudanças não ocorrem. E, o mais grave é, como alertou Barber (2001), os dirigentes dessas três grandes economias européias terem sucessivamente "sucumbido à tentação" de reduzir a velocidade das reformas econômicas ao menor sinal de que a atividade econômica tenha recuperado sua eficiência porque se prometeu ceder algum espaço à lógica do mercado.
Por outro lado, se é difícil aderir, de fato, à lógica do mercado, é igualmente difícil empurrar o pêndulo de volta à lógica do Estado, apesar de todos os problemas com o "mercado". Giddens (2001) mostrou que a derrota dos conservadores de John Major em 1997 não significou a derrota da visão de mercado. As propostas eleitorais de Tony Blair deixavam rigorosamente explícito que a lógica de mercado não seria abandonada. O que havia no final da era conservadora era um esgotamento natural com os excessos praticados pelos conservadores, especialmente, no que diz respeito ao abandono de certas funções de proteção social, típicas do Estado, em especial, no contexto europeu.

Na verdade, apesar de todas as restrições, apesar de todo o impacto provocado pelo caso Enron, é preciso reconhecer que o pêndulo balançou, mas ainda não se moveu do espirito de mercado para a lógica de proteção do Estado. A principal razão dessa estabilidade - alguns , talvez, preferissem falar em inércia - é, sem dúvida, o desempenho real da economia de mercado nos Estados Unidos, um efeito-demonstração demolidor. Um estudo de O'Mahony e Boer (2002) mostrou que entre 1999 e 2000 o Produto Interno Bruto por trabalhador da economia de mercado dos Estados Unidos era 37% maior do que o de cada trabalhador do Reino Unido, 24% maior que o da Alemanha e 17% maior que o da França.

Essa diferença de potencial de acumulação per capita entre os EUA e os maiores países da União Européia foi construída pelo sensível gap nas horas de trabalho por trabalhador a cada ano entre os dois lados do Atlântico Norte e pela baixa produtividade por hora trabalhada do trabalhador europeu. A comparação entre os fatores totais de produtividade, que envolvem capital físico e humano, indicam que aquela diferença na capacidade de inovação identificada no estudo de Hutton tem, de fato, grande peso. Em outras palavras, no mundo real de competição de mercado, a proteção do Estado pode não ter o poder de eficiência suficiente para gerar "inovação". Apesar da Enron e do 11 de setembro, o pêndulo balançou mas não se moveu, ainda, porque as pessoas não falam mas percebem, e muito bem, essa realidade.

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(*) Leonardo Trevisan é jornalista de "O Estado de S. Paulo" e professor do Programa de Pós-Graduação em Administração de Empresas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e do curso de Relações Internacionais da FAAP.

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