Globalização e o Brasil: riscos, oportunidades e desafios


Antônio Corrêa de Lacerda(*)

Resumo: O artigo discute as causas e implicações da vulnerabilidade externa da economia brasileira, a partir do contexto da globalização e os principais desafios e riscos que apresenta para os países, especialmente no que se refere ao financiamento externo e a viabilidade do desenvolvimento.
A abordagem parte da análise do processo de “financeirização”, que é caracterizado como uma nova fase do capitalismo e que representa significativas transformações na economia mundial, fator que é associado aos riscos da globalização.

Nesse contexto, a inserção externa da economia brasileira ao longo dos anos noventa implicou o aumento da vulnerabilidade externa, que exige ações e alternativas de política econômica para minimizar o problema e recriar as condições para a retomada do desenvolvimento em bases sustentadas.


Palavras-chave: Brazil: globalização, vulnerabilidade externa, “financeirização”, alternativas.

Este artigo discute a questão da globalização e os principais desafios e riscos que apresenta para os países, especialmente no que se refere à inserção externa da economia brasileira dos anos noventa.

A primeira seção trata da “financeirização” caracterizando-a como uma nova fase do capitalismo representando profundas mudanças no modo de acumulação. As questões da globalização, sua conceituação e principais efeitos sobre a economia mundial, são abordadas na segunda seção que também traz uma breve reflexão sobre as contradições e divergências quanto à caracterização do fenômeno. A terceira seção analisa a inserção externa da economia brasileira tendo como pano de fundo o novo quadro internacional. O caminho adotado é de analisar as causas e implicações do aumento da vulnerabilidade externa dado por um processo de inserção passiva do Brasil na globalização. Finalmente, na conclusão são apresentadas algumas alternativas para minimizar o problema da vulnerabilidade externa da economia brasileira e reverter o quadro de excessiva dependência de recursos externos para financiar o desenvolvimento brasileiro.

1. “Financeirização”, a nova fase do capitalismo
Um dos fatos marcantes da década de noventa é a percepção de que os ativos financeiros adquiriram uma expressão sem precedentes na história do capitalismo mundial. Observou-se um crescimento significativo da participação dos haveres financeiros na composição da riqueza privada.

Essa maior participação dos haveres financeiros, tanto nos ativos das famílias, quanto nos das empresas fez com que a taxa de juros passasse a ser uma variável determinante nas decisões de consumo e investimento. Esse movimento caracteriza-se como o fenômeno da “financeirização” das economias capitalistas.1

O processo de “financeirização” e rentismo das economias capitalistas extrapolou as fronteiras nacionais, configurando-se em um fenômeno internacional, aumentado pela liberalização dos mercados cambiais e desregulamentação dos fluxos de capitais.

Como bem destacam Coutinho & Belluzzo, este processo não se restringiu aos espaços nacionais, uma vez que aumentou significativamente a transnacionalização das aplicações financeiras, facilitadas pela liberalização dos mercados cambiais e desregulamentação dos controles sobre os fluxos de capitais, o que fez com que estes se expandissem em ritmo muito mais acelerado do que o crescimento do produto e do comércio mundiais, sendo que “o valor da massa de ativos financeiros transacionáveis nos mercados de capitais de todo o mundo saltou de cerca de US$ 5 trilhões no início dos anos 80 para US$ 35 trilhões em 1995, segundo estimativas do BIS.” (1998:137)

O crescimento do volume de riqueza financeira a uma taxa de 15% ao ano superou significativamente o desempenho do PIB e da acumulação dos ativos fixos, configurando um cenário de inflação de ativos e uma percepção de enriquecimento acelerado por parte dos agentes detentores desses títulos.

Uma certa percepção de “liquidez garantida” dos títulos de posse dos agentes retroalimenta o ciclo de valorização, sendo que muitas vezes leva os agentes a alavancar suas posições de compra de papeis mediante o aumento do endividamento junto ao sistema bancário.

As inovações financeiras - como os mercados de hedge e derivativos, por exemplo – aliadas aos recursos da telemática, que ampliaram significativamente a velocidade das transações, fazem com que esse processo de inflação de ativos se magnifique nos mercados, assim como ocorre com os riscos inerentes ao processo.

“O capital tem então essa propriedade de colocar-se sob múltiplas formas com a finalidade de valorizar-se. Essa autonomização financeiro-monetária pode gerar valorização fictícia no sentido de não ser regulada pelos parâmetros da valorização produtiva (taxas de retorno operacionais)” (Braga, 2000:198)

Nesse cenário, o papel das expectativas dos agentes torna-se um elemento crucial, tendo em vista um quadro de crescente instabilidade e incerteza:

a) o “efeito riqueza” torna mais instáveis o consumo e investimento;

b) a extrapolação do processo além das fronteiras nacionais aumenta o efeito contágio das crises.

Braga observa que ...”esta economia monetária, ou, mais precisamente monetário-financeira, com decisões descentralizadas e competitivas, em que o objetivo não é a produção para o consumo, mas sim a valorização dos capitais, o lucro, é uma economia estruturalmente instável.” (grifo no original), o que faz com que a sua dinâmica provoque as contínuas flutuações dos seus agregados, como renda (lucros e salários), investimento, emprego, nível de preços etc. Estas flutuações não apresentam padrões uniformes, mas intensificam-se “a ponto de desintegrar a ordem, coerência e coordenação, alcançadas durante um determinado período de tempo, gerando percalços para a reprodução ampliada” (2000:196).

O restabelecimento do sistema só é possível através da “renovação das estruturas técnico-produtivas e monetário-financeiras”. Ou seja, no que tange à instabilidade e incerteza, estas são inerentes ao sistema. Algo agora ampliado pela predominância das finanças que passam a ser decisivas na dinâmica da acumulação capitalista. A hegemonia financeira é um processo que impõe sua própria dinâmica, subordinando todos os demais movimentos à sua lógica de acumulação.

2. A globalização e seus impactos
O termo “global” apareceu originalmente nas grandes escolas norte-americanas de administração de empresas nos anos oitenta e foi popularizado através dos livros e artigos de consultores de estratégia e marketing. Em princípio difundido na mídia, rapidamente foi absorvido pelos adeptos do discurso neoliberal, então dominante.2

Há muita polêmica sobre o que é globalização. Mas podemos resumir seu conceito como a significativa expansão do comércio internacional e dos fluxos de capitais, tudo isso, concomitante ao excepcional avanço tecnológico, especialmente o advento da telemática (combinação das telecomunicações com a informática) ocorrido com maior intensidade a partir de meados dos anos oitenta, vem sendo genericamente definido como globalização.

A globalização possui várias vertentes e muita divergência teórica. Mas existe um consenso de que representa enormes desafios, redefinindo o papel do Estado, com a emergência das empresas multinacionais (ou transnacionais) que passam a ser os agentes mais influentes do processo.

Os processos de globalização (estratégias das empresas transnacionais) e de regionalização (formação de blocos econômicos) significam um desafio duplo para os países em desenvolvimento, uma vez que os dois fenômenos conjugados também podem significar para alguns a “exclusão involuntária”.

Enquanto a globalização é impulsionada por iniciativas microeconômicas, a regionalização é um processo político, não sendo estes dois fenômenos necessariamente antagônicos. Especialmente quando a regionalização ajuda a fomentar as forças competitivas, os dois processos podem interagir e fortalecer as estratégias locais.3

O processo de internacionalização da produção, que avançou substancialmente a partir dos anos 80, tem provocado transformações nos planos tecnológico, organizacional e financeiro e vem intensificando a concorrência em escala mundial.

Há ainda quem prefira entender a globalização como o “estágio superior” da internacionalização, conceito que se usa indiscriminadamente para tratar de fenômenos envolvendo investimento externo, tecnologia, estruturas de mercado, organização da produção, etc.

Chesnais prefere o termo mundialização, por entender que corresponde com maior exatidão à essência da expressão inglesa “globalização”, que, nas suas palavras, “traduz a capacidade estratégica de todo grande grupo oligopolista, voltado para a produção manufatureira ou para as principais atividades de serviços, de adotar, por conta própria, um enfoque e conduta ‘globais’ 4

Embora o esboço do que seria uma economia e sociedade global apareça de forma explícita e/ou implícita em todos estes autores, a realidade da internacionalização dos mercados abala modos de pensar e agir.

O fenômeno da globalização tem sido objeto de várias discussões, especialmente no que se refere à efetiva “novidade” 5 do fenômeno. A reflexão sobre os problemas advindos dessa fase do capitalismo globalizado tem trazido uma série de situações novas. De fato, a globalização da economia, abrangendo a internacionalização da produção, o incremento do comércio e a absorção de tecnologia, é um processo que tem gerado discussões no âmbito acadêmico e empresarial, além de implicar novos desafios para os estados nacionais, as empresas e os profissionais envolvidos.

O movimento de internacionalização, impulsionado pela crescente desregulamentação das economias, a sofisticação dos mercados financeiros e os novos recursos das telemática, criou o fator da intangibilidade da riqueza, fazendo com em que o os instrumentos tradicionais da política econômica se tornassem insuficientes para influenciar, significativamente, a dinâmica do processo. 6

A reestruturação produtiva decorrente implica profundas transformações tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento. A indústria tem o seu perfil alterado, com a crescente participação dos investimentos diretos estrangeiros, impulsionados em grande parte pelas fusões e aquisições, a privatização, e o aumento do coeficiente de comércio externo no produto. O setor de serviços ganha nova dimensão, tanto pelo peso crescente na pauta de exportações dos países, quanto por seu papel nas novas formas de geração de riqueza.

O processo de internacionalização da produção que avançou substancialmente a partir dos anos oitenta tem provocado transformações nos planos tecnológico, organizacional e financeiro, que tem intensificado a concorrência em escala mundial.
Não existe consenso a respeito do conceito de globalização. Há autores que o associam ao “grau, extensão, natureza e padrão da concorrência à escala mundial”. No entanto, se não há um consenso a respeito do conceito de globalização, não há dúvida de que esse é um fenômeno complexo que assume características distintas nas diferentes esferas das relações econômicas internacionais, produtiva, real, monetário-financeira, comercial e tecnológica.

Não obstante, parece haver dois elementos comuns à dinâmica do sistema econômico mundial, independentemente da esfera, que são a aceleração da internacionalização e o acirramento da competição. A globalização é um conceito novo e útil, à medida que envolve a sincronia desses dois elementos.

Do ponto de vista comercial, a globalização refere-se à expansão dos fluxos de comércio, num contexto de acirramento da concorrência em âmbito internacional, tornando a competitividade fator prioritário para o delineamento das políticas econômicas nacionais.

Do ponto de vista financeiro, a globalização está definida pela espetacular expansão dos fluxos financeiros internacionais. A tendência de desregulamentação financeira observada na maioria dos países, o avanço da internacionalização da produção de serviços financeiros (como a colocação de títulos no mercado internacional e de derivativos) e a liberalização cambial facilitaram a expansão das relações financeiras internacionais.

Na esfera produtiva, a globalização está ligada ao incremento dos fluxos de investimentos estrangeiros diretos, às estratégias da empresas transnacionais e ao processo de reestruturação empresarial para fazer frente a este mercado cada vez mais competitivo. Uma realidade cada vez mais presente nesse desafio é a percepção de que a expansão do investimento direto estrangeiro tem-se dado em proporção maior do que o desempenho do crescimento econômico dos países e das exportações.

A globalização fez com que, cada vez mais, taxas de câmbio determinassem de que modo se compara o custo da mão-de-obra de um país em relação ao outro. Note-se que este novo fator determinante, a taxa de câmbio, foge totalmente do controle empresarial, ao contrário do custo da mão-de-obra, que, como fator variável, pode ser sempre “ajustado” às circunstâncias.

Ou seja, do ponto de vista conceitual, globalização representa a sincronia dos fenômenos da aceleração da internacionalização da produção e do acirramento da competição, sob as ópticas: comercial, financeira, produtiva e tecnológica..

Uma das faces dessa transformação é o processo de fusões e aquisições de empresas, fenômeno internacional que tem crescido muito nos últimos anos. Os efeitos da globalização da economia, o acirramento da competitividade e maior exigência dos mercados têm obrigado as empresas a transformações que muitas vezes não conseguem realizar individualmente.

3. Brasil e a globalização: integração e vulnerabilidade.
Um aspecto importante do panorama da economia brasileira dos anos noventa, especialmente após a adoção do Plano Real, em 1994, é o crescente aumento da vulnerabilidade externa. Primeiro, pelo aumento sucessivo do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos; segundo pelo passivo externo acumulado.

O aumento da vulnerabilidade externa do país nos torna extremamente suscetíveis às alterações do cenário internacional. Como dependemos cada vez mais de recursos externos para fechar as necessidades de financiamento em moeda forte, todas as demais variáveis da economia, como o crescimento econômico, a geração de empregos e os programas sociais, se tornam subordinados à obtenção ou não dos recursos. Qualquer mudança no humor dos credores e investidores estrangeiros pode afetar o fluxo de recursos destinados ao Brasil, limitando o crescimento econômico.

O déficit em conta corrente do balanço de pagamentos reflete o resultado das contas da balança comercial (exportações e importações), da conta de serviços (remessas de pagamento de juros, lucros e dividendos, além de viagens internacionais, dentre outros itens) e a conta de transferências unilaterais, que basicamente reflete as remessas de trabalhadores brasileiros no exterior e de estrangeiros residentes no Brasil para seus países de origem.

A ampliação do déficit em conta corrente brasileiro é um fato notório nos últimos anos. Ele representava pouco mais de US$ 1,6 bilhão em 1994 e foi crescendo fortemente com o efeito da valorização do real, que implicou um aumento significativo das importações, que não foi acompanhada de um crescimento das exportações. Crescendo ano a ano, atingiu rapidamente mais de US$ 33 bilhões em 1997 e 1998 (Lacerda, 1998). A mudança cambial em 1999, especialmente pelo efeito da diminuição do déficit comercial, provocou sua redução para US$ 24 bilhões, número que deve se repetir em 2000. Ou seja, o problema reduziu-se com a desvalorização.

Um fator sempre apontado como minimizador do problema é a entrada de novos investimentos diretos estrangeiros, que têm coberto a totalidade, às vezes até ultrapassando, o montante do déficit em conta corrente. Ou seja, é financiamento que, pela sua característica, tem compromisso de longo prazo com o país, denotando evidentes vantagens, relativamente ao hot money.
Mas se pelo lado dos fluxos o cenário de curto prazo é de relativa tranqüilidade, do ponto de vista do estoque, representado pelo passivo externo líquido do país, é preocupante. O passivo externo líquido é a expressão dos compromissos em dólares do país, basicamente o total da dívida externa, mais o estoque acumulado de investimentos diretos estrangeiros, deduzidas as reservas cambiais e os depósitos brasileiros no exterior.

O aumento dos juros sobre os compromissos externos e a maior demanda por remessas de lucros e dividendos, por conta da crescente parcela de ativos estrangeiros, torna o serviço dos não fatores extremamente rígido (excluí-se a conta de viagens internacionais, que em geral tem dado boa resposta à desvalorização cambial).

Portanto, o quadro é de um agravamento das necessidades externas e é preciso gerar formas de compensar a rigidez do déficit da conta de serviços, que tem aumentado, devido aos fatores já apontados.

As condições para que o crescimento da economia brasileira se mostre sustentável ao longo do tempo têm gerado uma série de questionamentos. A dúvida mais freqüente é se o crescimento é continuado, ou apenas circunstancial, que seria então, como no passado, seguido de novos períodos de estagnação e mesmo recessão.

Ocorre que desde a desvalorização e a mudança no regime cambial, combinadas com a redução da taxa básica de juro real, o setor produtivo encontrou mais espaço para crescer, movido especialmente por alguns fatores bastante significativos: expansão das exportações, uma fase de substituição "fácil" dos importados e uma gradual retomada do crédito na economia.

São movimentos ainda tímidos e bastante aquém do potencial que representam, principalmente se observarmos o desempenho destes fatores em outros países em desenvolvimento, ou ainda a resposta ocorrida em outros momentos da economia brasileira.

Assim, esse é claramente um crescimento que decorre do longo período de engessamento da economia, fruto do processo de valorização cambial, combinado com uma elevada taxa de juros reais. Estes dois fatores tornaram as estratégias empresariais meramente adaptativas: restrição de exportações, cuja margem não justificava uma estratégia agressiva; aumento do coeficiente de importação, já que esta trazia um subsidio representado pela taxa de cambio valorizada; e postergação ou mesmo cancelamento de novos investimentos.

A estes dois fatores conjunturais, somem-se outros de ordem estrutural, ligados à competitividade sistêmica, o chamado "custo Brasil", que continuou representando uma desvantagem para a produção local vis-à-vis aos importados.

Aliás, ressalte-se que este foi agravado nos últimos anos pela incidência crescente dos impostos cumulativos, a resistência dos elevados custos logísticos, além de regras e práticas burocráticas.

A mudança no câmbio e nos juros representou uma significativa alteração do quadro, que já traz os seus frutos no desempenho da atividade econômica, uma lenta recuperação na balança comercial, embora negativamente influenciada por uma deterioração nos termos de troca, e uma ligeira mudança de sinal no nível de emprego.

No entanto, a continuidade e sustentação desse processo depende, além dos aspectos macroeconômicos, da elaboração e implantação de uma estratégia mais abrangente dos elementos da política de competitividade. Basicamente, a combinação das modernas políticas industrial, comercial, tecnológica e agrícola, para citar as mais importantes, no sentido de induzir as decisões empresariais de geração de valor agregado local, através do aumento do coeficiente de produção nacional.

Essa estratégia deveria abranger tanto a produção voltada para o mercado interno, substituindo importações, quanto no sentido de expandir as exportações, o que evidentemente também passa por um conjunto de medidas envolvendo as áreas de financiamento, promoção comercial e demais atividades. Do ponto de vista da demanda internacional, é fundamental direcionar nossa pauta exportadora àqueles produtos e nichos mais dinâmicos no comércio externo.

O desenvolvimento da produção local, especialmente nos setores de tecnologia mais avançada, e que coincidentemente são hoje grandes deficitários no comercio exterior, dependem de um projeto de capacitação tecnológica, algo que extrapola a ação isolada das empresas, mas precisa ser articulada com iniciativas na área acadêmica de pesquisa aplicada.

Dentre estes setores citados destacam-se, dentre outros, os complexos eletroeletrônico, químico-farmacêutico e metal-mecânico. São áreas em que a inovação tecnológica ocorre muito rapidamente, o que demanda importações crescentes, principalmente se não houver um esforço de desenvolvimento local.

Certamente não é possível para a economia brasileira adquirir condições de competir em todas as áreas dinâmicas, mas há um enorme espaço para a geração de atividades locais. Há vários exemplos de empresas de origem nacional e estrangeira instaladas no Brasil e que definiram sua plataforma de exportações a partir da excelente base de produção, propiciada pela magnitude do mercado interno. Nesse caso se destaca, não somente o potencial da demanda doméstica, mas também a cadeia de fornecedores qualificados, o que potencializa um significativo coeficiente de valor agregado nacional.

Do ponto de vista das políticas de competitividade, uma análise da experiência internacional mostra que tanto os países da OCDE, quanto países em desenvolvimento, com destaque para os do Leste Asiático, tem adotado práticas indutoras das decisões empresariais no sentido que acabamos de descrever.

Apesar de um certo ceticismo que se observa em áreas do governo e em parcela significativa dos formadores de opinião, a necessidade tem feito com que lentamente ocorra uma mudança de postura com relação a essa temática. O discurso do ajuste macroeconômico como único sinalizador para as decisões do mercado já não é tão eloqüente quanto em passado recente.

Com uma certa tibieza, há ações em andamento que revelam essa mudança e podem representar uma oportunidade de desenvolvimento. Dentre estas se destaca o reposicionamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) como financiador de projetos, o papel da Camex (Câmara de Comércio Exterior) como órgão coordenador das atividades de comércio exterior; as iniciativas no âmbito do Ministério do Desenvolvimento, como os fóruns de competitividade, envolvendo a articulação com setores industriais expressivos; e a criação, em pauta, da Agência de Promoção de Investimentos, entidade pública de direito privado, que está sendo constituída e que deve centrar sua ação no incentivo à absorção de investimentos destinados a setores de ponta e geradores de divisas.

São iniciativas válidas, mas ainda tímidas, especialmente pela resistência que parecem enfrentar dentro do próprio governo e o ceticismo de centros formadores de opinião pública. É preciso maior ênfase e agilidade nas decisões e implementação das medidas, pois o que está em jogo não são, como apregoam alguns, interesses de grupos econômico e de setores localizados da sociedade, mas a sustentabilidade do crescimento econômico brasileiro.

4. Conclusão
O Brasil ampliou significativamente o seu passivo externo nos últimos anos, o que agravou o processo de vulnerabilidade externa. A crescente dependência de recursos externos pode inviabilizar o crescimento sustentado da economia brasileira, principalmente mediante a ocorrência de alterações no cenário internacional.

A reversão deste quadro de aumento da vulnerabilidade externa da economia brasileira pressupõe uma postura mais ativa na estratégia de inserção internacional, que contemple, dentre outros, os seguintes pontos:

1) a primeira resposta possível está na balança comercial: a expansão das exportações e a substituição de importações, ambas induzidas por políticas de competitividade, deveriam gerar um superávit não inferior a 2% do PIB ao ano, de forma a reduzir nossa vulnerabilidade externa;

2) a segunda é incentivar a “multinacionalização” das empresas brasileiras, através do fortalecimento dos grupos nacionais, de forma que o Brasil possa aumentar sua receita de remessas de lucros e dividendos e ampliar sua participação no mercado externo;

3) a terceira é encarar o turismo como um fator gerador de divisas, a exemplo de vários países que usam essa estratégia para minimizar seu problema de contas externas. Isso também pressupõe um projeto para o setor;

4) a quarta é induzir investimentos nacionais e estrangeiros em setores de tecnologia avançada, de forma a criar novas oportunidades de exportação, além de motivar os grupos já existentes para incrementar negócios internacionais;
5) a quinta questão tem a ver indiretamente com o problema. A nossa estrutura tributária criou um viés antiexportador, extremamente desfavorável aos produtos nacionais. Hoje, a receita dos impostos cumulativos (que incidem em cascata) já representa um montante significativo dos impostos arrecadados sobre valor adicionado, denotando uma enorme distorção competitiva, que precisa ser corrigida.

Em resumo, é preciso promover a adoção de uma estratégia mais ativa de inserção no mercado globalizado. A passividade poderá inviabilizar nosso futuro, através da restrição externa imposta pelo crescente passivo em dólares.
Lentamente, observa-se por parte do governo um movimento, ainda que tímido nesse sentido. O fortalecimento da Camex (Câmara de Comércio Exterior), o novo papel do BNDES e a criação da Agência de Promoção de Investimentos Estrangeiros são iniciativas válidas e indicativas de mudança.

No entanto, é preciso maior determinação na implantação dessas ações e adicionalmente na articulação de políticas de competitividade, correlacionando aspectos da política industrial, comercial e de ciência e tecnologia, para induzir a geração de valor agregado local e inovações tecnológicas, que ampliem nossa pauta de exportação e a participação no mercado externo, hoje restrita a apenas 0,9% do comércio mundial.

Essas medidas propostas ainda encontram sérias restrições no âmbito de setores do governo, a despeito do agravamento do problema da vulnerabilidade externa e dos evidentes exemplos de sucesso de países que utilizam instrumentos aqui propostos como fatores de uma inserção bem-sucedida na economia internacional.

Livre da armadilha cambial que prevaleceu ao longo de cinco anos e que ampliou sobremaneira a nossa vulnerabilidade, a economia brasileira precisa decidir o papel a lhe ser reservado na história. Uma inserção virtuosa na economia globalizada, acompanhada de políticas econômicas voltadas para o desenvolvimento pode colocar o país na rota do crescimento sustentado de longo prazo. Por outro lado, ao permanecer refém da inércia e da passividade, a política econômica em vigor vai agravar a dependência externa, travando o desenvolvimento e provocando a deterioração ainda maior do quadro social.

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(*)Antônio Corrêa de Lacerda é Professor do Departamento de Economia da PUC-SP e Presidente da Sobeet-Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica.

1 Ver Braga (2000) e Coutinho & Beluzzo (1998).
2 Chesnais (1996). Seu livro, A mundialização do capital, é importante não só por precisar o conceito de globalização como também pela visão crítica com que trata o fenômeno. Reconhecendo-lhe as características através de uma análise apurada, o autor não se deixa naufragar no emaranhado de informações nem engrossar o “pensamento único” que pareceu envolver toda essa questão, pelo menos em determinada fase, inclusive acentuada pela maneira como as agências de notícias veiculavam as informações.
3 Reinaldo Gonçalves (1994), p.15.
4 François Chesnais, A mundialização do capital, p.17.
5A análise da globalização, especialmente no que se refere aos fluxos de investimentos diretos estrangeiros e quanto à inserção externa brasileira tem gerado uma série de estudos (Ver, especialmente: Gonçalves, 1994 e 1999; Fiori, 1998; Tavares e Melin, 1998; Lacerda, 1998 e 2000; Laplane & Sarti, 1999; Zockun, 1999)
6Ver Lacerda (1998).
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Referências Bibliográficas
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