Dimensões da globalização: comunicações, economia, política e ética.
José Maria Rodriguez Ramos*
Resumo:
O estudo da globalização desde os anos 80 implica a análise de
diversas variáveis: a evolução das comunicações, a globalização
econômica, a integração política e os valores éticos presentes
no relacionamento social e mundial. A ligação entre cada um desses
aspectos é clara: a revolução nas comunicações favorece e permite
a integração econômica. O fator econômico, por sua vez, é orientado
pelo cenário e relacionamento político. E o elemento político,
em última instância, está presidido por valores e princípios.
Palavras-chave: globalização, comunicações, crescimento
econômico, pobreza, desenvolvimento econômico, política, ética. |
I.
Introdução
Nas duas
últimas décadas, o tema da globalização
tem ocupado espaço cada vez maior nas pautas das reuniões
de organizações internacionais e nos fóruns de
debate mundiais. O recente fim de século e de milênio propiciou
uma oportunidade de reflexão em escala mundial sobre os rumos
da história ao longo dos últimos cem anos, e estimulou
o pensamento sobre o futuro da humanidade face aos novos desafios e
dilemas do mundo moderno.
Não é possível afirmar que exista qualquer consenso
ou diagnóstico definitivo sobre o passado, presente e futuro
do processo de globalização por que atravessa o mundo
moderno. A tentativa de comparar a atual integração mundial
com épocas de globalização no passado não
está isenta de perigos e armadilhas, em função
das novas circunstâncias e variáveis em que se insere o
processo de reestruturação da nova ordem internacional.
Para procurar compreender um fenômeno é preciso, em primeiro
lugar, definir os termos e, depois, dividir a questão de modo
a separar as possíveis variáveis que contribuem para explicar
o conjunto. Dada a complexidade do fenômeno da integração
mundial, torna-se especialmente necessária essa separação
dos fatores que estão contribuindo para a nova conformação
do cenário internacional.
Antes, porém de iniciar a análise, é importante
comentar que há duas visões, contraditórias e irreconciliáveis
em relação à globalização. Uma delas,
em face da complexidade do tema, renuncia a uma tentativa de compreensão
global do fenômeno e enuncia fatos ocorridos ao redor do globo
sem procurar uma explicação unitária, impossível
de ser alcançada sob este ponto de vista. A tentativa de interpretação
unitária, como um trabalho de Sísifo, estaria condenada
ao fracasso. Os eventos mundiais seriam apenas flashes que iluminariam
o escuro cenário mundial, impossível de ser captado de
modo unitário.
O outro
enfoque, mais próximo da perspectiva científica, procura
um método de análise, a partir da observação
da realidade e, ao mesmo tempo, divide o estudo das questões,
de modo a iluminar cada canto do cenário. A reconstituição
metódica das luzes permitiria uma visão integrada do quadro
mundial. Esta segunda perspectiva é mais desafiadora e fértil.
O presente estudo adota a segunda perspectiva e procura focalizar quatro
importantes fatores que têm contribuído de forma diversa
para configurar o processo de globalização nos últimos
vinte anos, ou seja, desde o início dos anos 80: a globalização
nas comunicações, a econômica, a política
e a dos valores presentes no convívio em todos os níveis:
pessoal, social, nacional e mundial. Cada um desses aspectos será
abordado nas quatro secções deste texto.
A ligação entre eles é clara: a revolução
nas comunicações favorece e permite a integração
econômica. O fator econômico, por sua vez, tem implicações
no cenário e no relacionamento político. E o elemento
político, em última instância, está presidido
por valores e princípios. A presença ou ausência
de valores éticos e princípios morais nas pessoas que
comandam a política, a cultura, a economia e as comunicações
é fundamental para compreender a evolução da humanidade
e o processo de globalização em curso.
Outra maneira de enunciar o mesmo processo é dizer que a informação
– favorecida pela comunicação – é necessária
para tomar decisões econômicas. A economia, por sua vez,
está a serviço da política e a política
deveria perseguir o bem da sociedade, norteada por princípios
ou valores éticos. Este ponto de partida descansa na idéia
de que a ação humana é intencional e as pessoas
se dirigem a determinados fins quando atuam.
O triste atentado terrorista ao coração de Nova York,
no ano passado, é um exemplo claro desse ponto de vista. Embora
condenável sob todos os pontos de vista, a motivação
dos terroristas suicidas provinha de valores compartilhados. Apesar
de os valores que motivaram suas ações serem totalmente
condenáveis, nem por isso deixam de ser valores.
Nas entrelinhas da Carta da América, divulgada em fevereiro de
2002 pelo Institute for American Values e assinada por 60 intelectuais
americanos, dentre eles Samuel Huntington e Francis Fukuyama, condenando
todos os radicalismos e extremismos que matam em nome da fé,
suprimem a liberdade das consciências, desrespeitam a liberdade
humana e ferem a dignidade da pessoa humana, encontram-se valores que
vão muito além dos interesses comerciais ou econômicos.
II. Revolução nas comunicações
O relacionamento humano, assim como o relacionamento comercial ou entre
países está baseado na comunicação. É
preciso comunicar-se para estabelecer elos que permitam a integração.
A língua e a linguagem são os meios que facilitam essa
comunicação. Nas últimas décadas, a integração
econômica mundial foi impulsionada pela revolução
das comunicações que, por sua vez, foi favorecida pelos
avanços na tecnologia.
Os avanços tecnológicos na área da informática
e das comunicações, tais como o microcomputador, os satélites,
a fibra ótica, a Internet, multiplicaram as possibilidades e
oportunidades de negócios a um custo cada vez menor. O deus Hermes,
na mitologia grega, filho de Zeus e de Maia, é o deus do comércio
por sua versatilidade, decisão, astúcia e rapidez de comunicação.
Era o mensageiro de Zeus. As sandálias aladas e asas no chapéu,
com que é representado, emprestavam ao deus a velocidade e mobilidade
necessárias ao exercício da atividade comercial.
Comunicar-se é o primeiro passo no mundo dos negócios.
Consideremos, por exemplo, o preço das comunicações.
Em 1930, o custo de uma chamada telefônica de três minutos
entre Nova York e Londres (a preços constantes) era 245 dólares.
Quarenta anos depois, em 1970, o custo era quase um décimo, 32
dólares. Decorridos vinte anos, em 1990, o custo foi novamente
dividido por dez, 3 dólares (UNDP, 1999).
O avanço das comunicações na década de 90
foi surpreendente, como mostram os indicadores de comunicação
global divulgados pela International Telecommunication Unit (ITU). De
1990 a 2000, a receita do mercado de telecomunicações
mais do que duplicou, passando de 508 bilhões para 1,16 trilhão
de dólares (a preços correntes).
Os principais responsáveis pelo aumento das receitas no mundo
das comunicações são os telefones celulares, os
microcomputadores e a internet. De acordo com o relatório da
ITU, o número de usuários de telefones celulares passou
de 11 milhões, em 1990, para 650 milhões, em 2000, e estimava-se
que esse número alcançaria 1 bilhão em 2002.
Na década de 90, de acordo com o mesmo relatório, quadruplicou
o uso de computadores pessoais e duplicou o número de linhas
telefônicas fixas. Em 1990, a ITU calculava que havia 2,6 milhões
de usuários dos serviços de Internet no mundo. No ano
de 1999 seriam 230, em 2000, 311 e, para 2002, a projeção
era de 500 milhões, um número próximo a 10% da
população mundial.
Esse crescimento vertiginoso das comunicações, entretanto,
não está ocorrendo de um modo simétrico no mundo
como um todo. O mercado da indústria de tecnologia está
concentrado nos países industrializados. De acordo com o European
Information Technology Observatory (1998), Europa (30%), Estados Unidos
(35%) e Japão (14%), concentram 79% do mercado mundial das tecnologias
de comunicação e informação. Ao resto do
mundo correspondem apenas 21% do mercado.
Os dados estatísticos do World Communication and Information
Report de 2000, divulgados pela Unesco, confirmam essa tendência
mundial. Enquanto serviços tradicionais de comunicação,
tais como cartas postadas no correio, têm declinado nos últimos
anos, as novas tecnologias alavancam o desenvolvimento das comunicações.
O número de cartas per capita postadas nos correios, por exemplo,
que em 1985 era 75, declinou para 69 em 1995, conforme dados da Universal
Postal Union (Unesco, 2000, p.150).
Com relação à imprensa diária, um veículo
também tradicional de informação, o número
de jornais diários publicados entre 1980 e 1995 permaneceu constante.
De acordo com a Unesco (Statistical Yearbook, 1998), verificou-se um
pequeno declínio na América do Norte e um pequeno aumento
na Europa. No resto do mundo não houve nenhuma alteração
substancial. A circulação diária de jornais por
1.000 habitantes manteve-se constante nos anos 90, também em
escala mundial.
O uso da Internet, entretanto, cresceu vertiginosamente nos últimos
anos. Se consideramos o número de provedores como variável
para avaliar a expansão da rede mundial de microcomputadores
ligados na internet, em apenas três anos, de 1995 a 1998, o número
de provedores passou de cinco para 30 milhões, no mundo inteiro,
ou seja, foi multiplicado por seis (Unesco, 2000, p.157).
Essa evolução, entretanto, precisa ser qualificada. O
relatório do Desenvolvimento Humano de 1999, publicado pelo Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento divulgou dados
que mostram que os países que se encontram no topo da pirâmide
da riqueza mundial – os 20% mais ricos - concentram 93,3% dos
usuários da internet.
De acordo com o mesmo relatório: “nos últimos anos
da década de 90, o quinto da população mundial
que vive nos países de renda mais elevada tinha (...) 74% das
linhas telefônicas mundiais, meios básicos de comunicação
atuais, enquanto que o quinto de menor renda possuía apenas 1,5%
das linhas. Alguns observadores previram uma tendência convergente.
No entanto, a década passada mostrou uma crescente concentração
de renda, recursos e riqueza entre pessoas, empresas e países”
(PNUD, 1999, p.5).
O avanço nas comunicações está relacionado
com a globalização econômica à medida que
a revolução na informação está abrindo
novos espaços e perspectivas econômicas em todos os níveis,
tanto para os países, quanto para as empresas e para as pessoas.
Representa um avanço real e significativo para o futuro mundial,
embora não esteja isento de perigos e desafios. O ideal de um
mercado com informação perfeita e instantânea está
deixando o status de utopia dos livros-texto de economia para tornar-se
uma possibilidade real graças ao baixo custo e rapidez da informação,
principalmente pelo uso da Internet.
A conclusão é clara: a revolução nas comunicações
transformou a atividade econômica nos últimos vinte anos
e – muito embora a sua distribuição tenha sido assimétrica
- favoreceu a integração entre países e o processo
de globalização.
III. Globalização econômica
A globalização econômica é uma faca de dois
gumes. De um lado, descortina novos horizontes para a economia mundial,
de outro, entretanto, pode abrir o fosso que separa pessoas e países,
aumentando o abismo entre os beneficiados com o processo e os desfavorecidos
da fortuna. Há um claro divisor de águas entre aqueles
que defendem os aspectos positivos da integração econômica
e aqueles que somente vêem as mazelas do processo, que são
conseqüência, mesmo que por vezes involuntária, da
integração econômica mundial.
Um estudo dessas questões, que procure ser objetivo, necessita
olhar tanto para as vantagens quanto para os inconvenientes da globalização
econômica à luz de dois aspectos: os dados compilados sobre
a economia mundial e, principalmente, os valores e princípios
que deveriam nortear esse processo.
Para muitos países, a divisão internacional do trabalho
e a teoria das vantagens comparativas do comércio internacional
estão alterando significativamente as relações
comerciais entre eles. Em 2000, o volume de comércio mundial
cresceu 12%. A taxa média de crescimento do comércio mundial
nos anos 90 foi de 7% ao ano. Em 2001, por causa dos atentados terroristas
contra os Estados Unidos, o comércio internacional estagnou.
Essa reversão foi encarada por vários autores como um
fim da era da globalização, porém ainda é
cedo para emitir diagnósticos definitivos.
Para as empresas, a globalização abriu novas fontes de
tecnologia, financiamento, trabalho e difusão dos seus produtos
e serviços. Ao mesmo tempo, a globalização acelerou
o processo de fusão e incorporação de empresas.
Observa-se uma concentração do capital e uma expansão
das empresas multinacionais. Novas marcas mundiais, com know-how e tecnologia
próprias avançam na maioria dos países. Tanto na
indústria automobilística quanto no setor bancário
ou nos supermercados, para não citar o caso da indústria
da informática, verifica-se uma concentração do
capital.
Também para as pessoas a globalização abre novas
perspectivas e modalidades de trabalho. Muitas tarefas podem ser realizadas,
graças à internet, fora do local habitual de trabalho.
A globalização, entretanto, também ameaça
muitas ocupações que, em função do avanço
das comunicações, não são mais necessárias.
O estudo desses aspectos é extremamente vasto e interessante,
porém foge ao propósito do presente estudo, que pretende
concentrar-se na análise econômica.
Restringindo a globalização ao âmbito da economia
durante o século XX, é importante distinguir dois períodos:
do início do século até 1980 e nas duas últimas
décadas. É dos anos 80 em diante que ganha força
a globalização econômica.
Crescimento econômico do início do século XX até
1980
O século XX, apesar das duas guerras mundiais e da grande depressão
dos anos 30, foi um século de crescimento econômico, principalmente
após a Segunda Guerra. A crise do petróleo de 1973 brecou,
porém não interrompeu o crescimento econômico mundial.
De acordo com o relatório do Banco Mundial de 1999, de 1975 a
1995 a taxa média de crescimento do Produto Nacional Bruto mundial
foi 2,8% ao ano. Em termos per capita essa taxa foi 1,1%.
O crescimento econômico favoreceu os pobres, porém não
solucionou o problema da pobreza no mundo. Com base em dados de 80 países
ao longo de quatro décadas, um estudo desenvolvido por Dollar
e Kraay concluiu que “o relacionamento entre o crescimento da
renda dos pobres e o crescimento da renda geral é um para um”
(2000, p. 27). Ou seja, a renda dos pobres aumentou na mesma proporção
em que a renda em geral .
Se ao longo do século passado o crescimento econômico foi
uma tendência generalizada, a riqueza gerada não se distribuiu
simetricamente. De acordo com o relatório do Desenvolvimento
Humano (1999), publicado pelas Nações Unidas, 20% dos
países mais ricos detêm 86% do PIB mundial, enquanto que
os 20% mais pobres participam apenas com 1% da produção
mundial.
Em relação às diferenças de renda entre
países, estudo desenvolvido por Nicholas Crafts sobre o crescimento
econômico no século XX conclui que houve um “generalizado
e sem precedentes distanciamento em termos de nível de renda
e desempenho entre países, e especialmente entre a OCDE e muitos
países em desenvolvimento, tanto na primeira quanto na segunda
metade do século XX” (2000, p. 4).
Independentemente dessa observação, a análise do
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ao longo do século
passado mostra que houve avanços significativos, fundamentalmente
por causa da redução generalizada da mortalidade. O estudo
histórico da evolução da renda nacional subestima
o crescimento nos padrões de vida.
Globalização econômica de 1980 em diante: crescimento,
pobreza e distribuição de renda
Para avaliar como a globalização afetou o crescimento
econômico, a pobreza e a distribuição de renda,
Dollar e Kraay (2001) reuniram dados de um grupo de mais de cem países.
Eles foram divididos em três grupos: países ricos, países
inseridos no processo de globalização (“globalizers”),
e países não inseridos na globalização (“non-globalizers”).
O critério para diferenciar os países inseridos na globalização
do resto dos países em desenvolvimento, de 1980 em diante, foi
fixado em função de duas variáveis: cortes de tarifas
e aumento do volume de comércio exterior.
Os países inseridos na globalização tiveram mudanças
significativas no volume de comércio exterior em relação
ao Produto Interno Bruto, passando de 16% para 32% nos últimos
vinte anos. Como elemento de comparação, nos países
ricos esse aumento foi de 29% para 50%. Ao mesmo tempo os países
inseridos na globalização reduziram as suas tarifas em
22 pontos percentuais (de 57% para 35%). Os países inseridos
na globalização representam metade da população
mundial, ou seja, mais de três bilhões de pessoas. Dentre
eles se encontram China, Índia, Brasil, México e Argentina.
As conclusões do estudo mostram que “enquanto as taxas
de crescimento dos países ricos declinaram nas décadas
passadas, as taxas de crescimento dos ´globalizers´ tem
seguido o caminho inverso, acelerando-se dos anos 70 para os 80 e 90.
O resto do mundo em desenvolvimento, por outro lado, seguiu o mesmo
caminho que os países ricos: desaceleração do crescimento
dos anos 70 para os 80 e 90. Nos anos 90 os países inseridos
na globalização tiveram um crescimento per capita de 5%
ao ano; os países ricos cresceram a 2,2% per capita e os países
não inseridos cresceram apenas 1,4% (Dollar e Kraay, 2001, p.
27). Ou seja, a distância entre países ricos e em desenvolvimento
declinou nas duas últimas décadas em relação
aos países inseridos na globalização e aumentou
para aqueles países não inseridos no processo.
O estudo sugere também que a taxa de inflação dos
países com maior abertura para o exterior declinou nas últimas
décadas.
Dos anos 80 para os anos 90, a inflação média desses
países passou de 24% ao ano para 12%. A estabilização
monetária deverá contribuir para que a renda dos pobres
cresça em torno de 0,4%. Em função desses resultados,
os autores do estudo comentam: “podemos esperar que uma maior
abertura deverá melhorar a vida material dos pobres. Também
sabemos que no curto prazo haverá alguns perdedores entre os
pobres e que a efetiva proteção social pode facilitar
a transição para uma economia mais aberta, de tal maneira
que todos os pobres se beneficiem com o desenvolvimento” (Dollar
e Kraay, 2001, p.6).
A globalização econômica – aumento de comércio
exterior e redução de tarifas – favorece o crescimento
e a diminuição da pobreza. O grande desafio da globalização,
entretanto, continua a ser a distribuição de renda entre
países e entre pessoas: “países que reduziram a
inflação e expandiram o comércio e viram acelerar
suas taxas de crescimento nos últimos 20 anos não tiveram
mudanças significativas na distribuição de renda”
(Dollar e Kraay, 2001, p. 5).
Analisando o índice de Gini de 23 países em desenvolvimento
inseridos no processo de globalização, em 11 deles a distribuição
de renda melhorou enquanto que em 12 esse índice foi pior, dentre
eles na China. Assim, em função das evidências empíricas
disponíveis não é possível concluir que
a globalização tenha contribuído para uma melhor
distribuição de renda.
O Banco Mundial também tem procurado evidências empíricas
do impacto da globalização sobre o crescimento econômico
e a pobreza, como mostra relatório de pesquisa sobre o tema,
publicado em 2002. A partir do diagnóstico da aceleração
da integração mundial nas últimas décadas,
enfatiza a divisão econômica do mundo em três esferas:
os países ricos, que representam um sexto da população
mundial e detém a maior parte da riqueza do mundo, os países
em desenvolvimento abertos à globalização, com
metade da população mundial – três bilhões
de pessoas – e com elevadas taxas de crescimento da renda nos
últimos anos e, por último, um grupo de países
que está à margem da globalização e da riqueza
em que vivem dois bilhões de pessoas, isto é, um terço
da população mundial.
Este último grupo de países representa um desafio para
o futuro econômico e político mundial. Na avaliação
do Banco Mundial, os países mais pobres, assim como os países
em desenvolvimento de modo geral, têm enfrentado diversas dificuldades
para crescer e competir com os países mais ricos. A primeira
delas é o protecionismo desses países: “as tarifas
dos países ricos são baixas, mas eles mantêm barreiras
exatamente nas áreas em que os países em desenvolvimento
têm vantagens comparativas: agricultura e manufaturas intensivas
em trabalho”. (World Bank, 2002, p.9).
Um segundo desafio são as restrições para o investimento
externo: “enquanto fluxos de capital privado para países
novos em termos de globalização têm crescido dramaticamente,
os países menos globalizados têm experimentado com freqüência
fugas de capital – desde 1990 perto de 40% da riqueza privada
da África foi enviada para fora do continente” (idem, p.
10).
A migração representa a terceira dificuldade. Se, de um
lado, as pressões econômicas para a migração
aumentam, do outro, a migração legal é altamente
restritiva: “Em comparação com cem anos atrás,
o mundo é muito menos globalizado no que se refere a fluxos de
mercado de trabalho. O número de migrantes residindo em países
diferentes da sua nacionalidade representa apenas 2% da população
mundial” (idem, p.11).
Além desses desafios, específicos dos países mais
pobres, a abertura econômica promovida pela globalização
aumentou a competição entre as empresas, valorizando o
fator educacional, as habilidades técnicas dos trabalhadores
e a experiência profissional. Ou seja, o fator capital humano,
adquiriu maior importância com a globalização. Ao
mesmo tempo, prejudicou o trabalhador de mais idade, ao enfrentar maiores
dificuldades para adaptar-se às novas tecnologias e aprender
novos ofícios.
Em função desse diagnóstico, “a combinação
de abertura com uma força de trabalho bem treinada e educada,
produz especialmente bons resultados para a redução da
pobreza e o bem-estar humano. Portanto, um bom sistema educacional que
providencie oportunidades para todos é crítico para o
sucesso neste mundo globalizado” (idem, p. 14).
Também a partir dessa avaliação, o Banco Mundial
propõe uma agenda para ação que permita que os
países mais pobres se beneficiem da globalização
nas seguintes áreas-chave:s 1) participação do
mercado global em expansão, favorecido por uma redução
das barreiras comerciais e uma nova rodada de negociações
comerciais; 2) melhorar o clima de investimento nos países em
desenvolvimento; 3) aperfeiçoar os serviços de educação
e saúde; 4) providenciar proteção social adequada
a um mercado de trabalho dinâmico em uma economia aberta; 5) maior
volume de ajuda externa; 6) perdão das dívidas, especialmente
para os países africanos; 7) preocupação com o
meio ambiente: aquecimento global e emissão de gases.
As propostas do Banco Mundial são importantes e relevantes. Não
há dúvida de que contribuiriam para elevar a renda e os
padrões de vida mundiais, principalmente nos países mais
pobres, ou seja, para um terço da população mundial.
A questão, entretanto, é como colocar em prática
essa agenda para a ação. A componente fundamental é
política e não econômica.
Resumindo, a análise comparativa da evolução econômica
mundial ao longo do século vinte e nas duas últimas décadas
mostra resultados interessantes. O século XX foi um século
de crescimento econômico. Esse crescimento, embora não
tenha solucionado o problema da pobreza no mundo, que continua a desafiar
o mundo moderno, favoreceu os pobres. O crescimento econômico,
por outro lado, não teve uma distribuição eqüitativa
entre os países e, em muitos casos, a distância entre países
ricos e pobres aumentou.
Esta conclusão geral que deriva da evidência empírica
observado no século XX assume características diferentes
com o advento do fenômeno da globalização, nos anos
80. O balanço das evidências empíricas sobre como
a globalização afetou o mundo nas últimas duas
décadas torna-se mais claro quando se distinguem três grupos
de países: países ricos, países em desenvolvimento
inseridos na globalização e países em desenvolvimento
não integrados no processo de globalização. Tanto
o primeiro – países ricos – quanto o segundo grupo
se beneficiou com a maior integração econômica,
tanto em termos de crescimento quanto de redução da pobreza.
O crescimento econômico do segundo grupo foi inclusive superior
ao primeiro. Entretanto, no último grupo, que corresponde a países
pobres não integrados na globalização, as suas
taxas de crescimento econômico foram as menores, o que provocou
um aumento da distância entre eles e o resto do mundo. Ao considerar
que nesses países reside um terço da população
mundial o desafio econômico é significativo e urgente.
A distribuição de renda, com base no índice de
Gini, não parece ter melhorado com a globalização
em nenhum desses grupos de países.
As soluções para modificar as sombras desse quadro mundial
passam pela política. Decisões como perdão da dívida,
ajuda e financiamento externo, redução de barreiras não
tarifárias, e muitas outras, implicam decisões políticas.
Tal como aponta o relatório do Banco Mundial, “a redução
do custo das comunicações, informação e
transporte que contribuiu para a globalização não
deverá ser revertida, mas a redução do comércio
e as barreiras ao investimento podem ser revertidas pelo protecionismo
e nacionalismo, como aconteceu nos anos 30. Protecionismo e nacionalismo
poderão provocar uma reação profundamente prejudicial
para as oportunidades criadas pela globalização”
(World Bank, 2002, p.22).
Embora a face mais visível da globalização seja
econômica, o processo como um todo não deve estar subordinado
aos interesses exclusivamente econômicos, mas, antes de tudo,
aos valores humanos. A globalização deve estar a serviço
da humanidade e não a humanidade a serviço da globalização.
Os interesses econômicos devem estar subordinados à ética
e não os valores éticos à globalização.
É por essa razão que as Nações Unidas dedicaram
o Relatório Mundial de 1999 ao tema: Globalização
com uma face humana. O primeiro Relatório do Desenvolvimento
Humano, de 1990, afirmava: “A verdadeira riqueza de uma nação
é o seu povo. E o objetivo do desenvolvimento é a criação
de um ambiente que permita às pessoas desfrutarem de uma vida
longa, saudável e criativa. Esta simples verdade é muitas
vezes esquecida quando se persegue a riqueza material e financeira”
(apud PNUD, 1999, p.4).
A questão fundamental envolvida na globalização
diz respeito, portanto, aos valores que presidem o processo. Quando
os interesses econômicos são privilegiados em detrimento
dos valores humanos, éticos, surge a face perversa da globalização.
É nessa direção que aponta o Relatório das
Nações Unidas quando afirma que “a crescente interdependência
da vida das pessoas apela para valores e compromissos compartilhados
em prol do desenvolvimento humano de todos os povos” (PNUD, 1999,
p.4).
Antes, porém, de analisar os valores, é importante tratar
da globalização em termos de política internacional.
IV. Globalização política
Se a integração nas comunicações impulsionada
pelo avanço tecnológico é um fato incontestado
e a globalização econômica alcançou dois
terços da população mundial nos últimos
vinte anos, a globalização política está
distante de ser uma realidade concreta e prática na vida dos
países.
Com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, a livre iniciativa
e o sistema de mercado se espalharam pelos países da antiga Cortina
de Ferro e pelo Extremo Oriente. A onda de liberalização
econômica, entretanto, não teve o mesmo impacto na arena
política. As fronteiras e a soberania nacional não se
alteraram e o Estado-nação continua a prevalecer no âmbito
das relações internacionais.
A questão de como a globalização está afetando
e afetará a soberania nacional e a delimitação
das fronteiras políticas dos países é polêmica.
De um lado, há analistas que prevêem uma diminuição
e enfraquecimento do Estado-nação, enquanto que, do outro
lado, há aqueles que olham com desconfiança e ceticismo
para a globalização política.
Este tema já estava presente nas primeiras décadas do
século XX. E. H. Carr (1939), analisando as relações
internacionais no período entre guerras, descrevia a interdependência
mundial com base na explicação oferecida por duas correntes
de pensamento opostas: utópica e realista.
O ponto de vista utópico descrevia um mundo ideal. O paradigma
utópico privilegiava o direito internacional, o cumprimento das
obrigações internacionais e via a paz como fruto da harmonia
e do interesse mútuos dos países. A razão humana
aplicada às relações internacionais conduziria
à paz entre os países.
Do outro lado, o pondo de vista realista estava baseado na idéia
de poder. O ideal utópico, que ignorava a política de
balanço do poder entre Estados, não corresponderia a uma
percepção correta da realidade internacional. A partir
de uma visão pessimista da natureza humana, o realismo analisa
a política como confronto de interesses em função
do poder. O conceito-chave é o de Estado-nação,
que representa o elemento básico das relações internacionais
e, na luta pelo poder, a moralidade deve estar subordinada aos interesses
políticos.
Para o ponto de vista neo-realista atual, a globalização
política não passa de uma utopia. As fronteiras políticas
e o poder do Estado-nação dominam e devem continuar a
dominar o cenário mundial. O debate utópico-realista não
teve continuidade ao longo das últimas décadas, mas a
chama das divergências em torno da globalização
política continua acesa. David e Held e Anthony McGrew (2001),
por exemplo, resumem o debate acadêmico a favor e contra a globalização
como a confronto entre duas visões: de um lado, a perspectiva
dos céticos e, do outro, a dos assim denominados pelos autores
como globalistas.
Os céticos olham com desconfiança para a globalização
enfatizando o predomínio do Estado nacional e do poder: “freqüentemente
associado a essa postura cética está um sólido
apego a uma ontologia essencialmente marxista ou realista”. (Held
e McGrew, 2002, p. 16). A ordem internacional - sob a égide cética
-, ao estar associada à atuação das nações
econômica e militarmente mais poderosas, dependeria das políticas
e preferências das grandes potências.
Os globalistas, por sua vez, salientam que, no novo cenário internacional,
o conceito de soberania, autonomia e legitimidade do Estado está
perdendo força. O Estado-nação está declinando
em áreas do multilateralismo entre países: “três
aspectos tendem a ser identificados na literatura globalista: a transformação
dos padrões dominantes da organização sócio-econômica,
a do principio territorial e a do poder. Ao fazer desaparecer as limitações
do espaço e do tempo nos padrões de interação
social, a globalização cria a possibilidade de novas formas
de organização social transnacional” (Held e McGrew,
2002, p. 21).
O debate deverá continuar nas próximas décadas.
A realidade mundial, entretanto, seguirá o seu curso, obrigando
a repensar os conceitos teóricos e a reformular as teorias das
relações internacionais, como de fato está ocorrendo
desde o tristemente famoso 11 de setembro de 2001.
O cenário atual, independentemente do que venha a ocorrer em
um futuro mais ou menos próximo, é de um mundo construído
com base em Estados-nações. Tal como comentava Fernando
Henrique Cardoso, por ocasião da sua visita à Rússia
em janeiro de 2002, “a economia está globalizada, mas a
política não” (O Estado de S.Paulo, 16/1/2002, p.A3).
A mesma opinião manifestou George Kennan, experiente diplomata
americano ao ser indagado pela revista Veja (10/12/97) sobre o que significava
globalização: “Para mim nada. No sentido comercial
e financeiro hoje há comunicações mais eficientes
entre países do que em outros tempos. No campo político,
ainda estamos longe disso. Graças a Deus! É uma boa política
temer qualquer tipo de arranjo que se pretenda global. Sou a favor dos
arranjos regionais, porque são os que realmente funcionam. Portanto,
não vejo nada de novo que justifique o uso e abuso de palavras
pomposas para descrever a presente situação internacional”.
Um último comentário de Joseph Nye, diretor da Kennedy
School of Government, de Harvard, escrevendo a respeito do poderio americano
no novo século, confirma os pontos de vista citados anteriormente:
“A revolução na informação, a mudança
tecnológica e a globalização não deverão
substituir o Estado-nação, porém deverão
contribuir para complicar os atores e questões no mundo político”
(The Economist, 23/3/2002, p. 25).
Conclui-se, portanto, que a globalização política,
em termos práticos, ainda não passa de um projeto não
realizado. O Estado-nação continua a ser o elemento-chave
do relacionamento internacional.
V. Globalização e Ética
A análise da globalização conduz-nos, finalmente,
ao tema crucial da globalização: os valores que presidem
o relacionamento internacional neste início de século
e de milênio. O atentado ao World Trade Center surpreendeu o mundo.
Após a fase inicial de estupor e revolta diante da tragédia,
o desastre começou a ser esclarecido. Ao compasso das investigações
sobre a ação terrorista, surgiram as tentativas de explicação
e a ética nas relações internacionais tornou-se
o tema do momento.
Inicialmente ganhou força a tese do choque das civilizações
enunciado por Samuel Huntington (1997). O futuro das relações
internacionais estaria associado ao fator cultural. As culturas que
impregnam as diversas civilizações entrariam em conflito
em uma conjuntura de integração mundial. A globalização,
de acordo com Huntington, contribuiu para esse cenário e tem
a sua parte de responsabilidade: “a globalização
incentiva e permite que gente como Bin Laden trame seus ataques ao centro
de Manhattan, enquanto está em uma gruta do Afeganistão
pobre”. (O Estado de S.Paulo, 28/10/2001, p. A23). O ataque terrorista,
na opinião de Huntington, restituiu ao Ocidente sua identidade
comum.
A interpretação dos ataques aos Estados Unidos levantou
a questão de quais são os valores que presidem as diversas
civilizações como elementos subjacentes à explicação
dos acontecimentos e da história. É preciso esclarecer,
entretanto, que o responsável pela tragédia não
foi o mundo islâmico, mas apenas um grupo radical que não
representa adequadamente o Islã. Como apontou Henry Kissinger,
“a América e seus aliados precisam tomar cuidado para não
apresentar esta nova política como choque de civilizações
entre o Ocidente e o Islã. A batalha é contra uma minoria
radical que macula os aspectos humanos manifestados pelo islamismo em
seus períodos grandiosos”. (Folha de S.Paulo, 20/11/2001,
Especial, p.6)
O episódio das Torres Gêmeas, entretanto, alertou o mundo
quanto à importância dos valores que presidem as culturas
e civilizações. Ou seja, a ética nas comunicações,
na economia, na política e na cultura é o elemento-chave
para o futuro do mundo. Este é o fator fundamental que deve ser
analisado na globalização.
Antes de avançar nesse estudo é necessário indagar:
há uma única ética correta, aplicável a
uma determinada situação, ou a ética é passível
de interpretação diversa em função de fatores
circunstanciais? Mais: há valores universais, que se aplicam
a todos os povos de todos os tempos, ou os valores éticos são
relativos?
O mundo presente vive mergulhado no relativismo ético. Sob a
égide do relativismo, a ética torna-se subjetiva sendo
impossível chegar a qualquer conclusão objetiva e permanente.
Esse é o grande dilema e limitação do mundo moderno:
a ética esqueceu as suas origens como estudo filosófico,
na Grécia clássica, sob a poderosa luz da inteligência
de Sócrates.
Nas relações internacionais, por exemplo, o dualismo ético
foi formulado por Max Weber ao distinguir entre uma ética da
convicção e uma ética da responsabilidade: “toda
a atividade orientada segundo a ética pode ser subordinada a
duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente opostas.
Pode orientar-se segunda a ética da responsabilidade ou segundo
a ética da convicção” (Weber, 1968, p. 113).
O partidário da ética da convicção deve
velar pela doutrina pura. Seus atos “visam apenas àquele
fim: estimular perpetuamente a chama da própria convicção”
(idem, p. 114). A ética da responsabilidade, por sua vez, tem
como guia as previsíveis conseqüências dos atos: “o
partidário da ética da responsabilidade, ao contrário,
contará com as fraquezas comuns do homem [...] e entenderá
que não pode lançar a ombros alheios as conseqüências
previsíveis da sua própria ação” (idem,
pp. 113-14).
Sob este ponto de vista, Weber afirma que os meios podem justificar
os fins: “para alcançar fins ‘bons’, vemo-nos
com freqüência, compelidos a recorrer, de uma parte, a meios
desonestos ou, pelo menos, perigosos, e compelidos, de outra parte,
a contar com a possibilidade e mesmo a eventualidade de conseqüências
desagradáveis” (idem, p.114). A diferença entre
essas duas éticas, tal como resume Dahrendorf, consiste em que
“a primeira abraça valores absolutos; é a moralidade
dos santos. A segunda reconhece a complexidade das relações
meios-fins; é a ética dos políticos” (1997,
p. 86).
É possível conviver com as duas éticas? Tanto para
Weber, quanto para muitos políticos e teóricos das relações
internacionais, sim. Para Dahrendorf, não, e explica: “a
insistência na qualidade absoluta de determinados valores fundamentais
foi, creio eu, a razão de ser da tese que apresentei em Homo
Sociologicus. Nunca confie na autoridade, pois é possível
usá-la de forma horrivelmente abusiva. É certo que há
condições – e as vimos prevalecer em tantos países,
durante este século – nas quais a ‘ética da
convicção’ é a única moralidade válida”
(1997, p. 87).
É somente a partir de uma ética da convicção
que a análise dos valores nas relações internacionais
e, portanto, na presente conjuntura de globalização por
que atravessa o mundo, pode ser frutífera. E precisamente a ética
que presidiu o pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles,
na Grécia clássica.
A partir do momento em que há um reconhecimento de que a ética
não é relativa, é possível analisar quais
os valores que devem estar presentes nos diversos aspectos da globalização.
Estudar os valores presentes na globalização é
analisar as motivações humanas. Muitas respostas foram
dadas a esta questão, porém a proposta de Aristóteles
na sua obra Ética a Nicômaco, permanece atual e importante.
Para Aristóteles as pessoas atuam procurando um bem, sendo que
o bem mais importante é a felicidade.
É possível estabelecer uma ponte entre os valores da globalização
e a obra de Aristóteles. Reconhecendo que há diversas
opiniões sobre a felicidade,
Aristóteles afirma que alguns colocam a felicidade no prazer,
ou na riqueza, ou em outras coisas. A maioria das pessoas coloca a felicidade
na riqueza e no prazer, porém, de acordo com o filósofo,
nesse objetivo não reside a felicidade. Espíritos mais
refinados põem a felicidade na glória, porém também
não é nas honras que reside a felicidade. A felicidade
se encontra na virtude. É na virtude que reside o fim do homem.
Para quem coloca a felicidade na riqueza, a globalização
econômica pode ser uma fonte de oportunidades. Para Aristóteles,
a riqueza é um bem exterior necessário como um meio, pois
é impossível fazer o bem quando faltam recursos, porém
não deixa de ser um meio e não um fim da vida humana.
A glória da vida pública está associada ao poder
político. Também não é o fim da vida humana,
de acordo com Aristóteles. A virtude é o verdadeiro fim
do homem. É por essa razão que Aristóteles dedica
a sua ética ao estudo da virtude. Como definir e alcançar
as virtudes, como meio para uma vida feliz. No processo de globalização,
os fatores econômicos e políticos são importantes
como meios para que as pessoas possam praticar as virtudes. A virtude
que destaca nesse processo é a justiça. E a esta virtude
é que o filósofo grego dedica o livro V da sua obra.
A justiça deveria presidir a evolução da globalização
como um valor universalmente presente no processo. O reconhecimento
do valor universal da justiça como virtude para todos e a ser
praticada por todos seria um bom começo para o futuro dos âmbitos
econômico e político. Entretanto, a prática da justiça
pura e simples não conduziria a eliminar o fosso existente entre
países ou a superar as limitações e dificuldades
econômicas de países ou pessoas que carecem dos mínimos
meios para a própria subsistência. É nesse ponto
que entra um novo valor, não econômico, para amenizar e
corrigir as distorções ou assimetrias promovidas pela
globalização: a solidariedade.
A solidariedade não se impõe. É um valor humano
que vem de dentro. Somente a solidariedade pode ajudar a mudar o que
a simples justiça não pode alterar. Nas últimas
décadas, pari passu com a globalização, tem aumentado
o número de organizações de voluntários,
ONGs, instituições religiosas e entidades diversas que
têm contribuído para sarar as feridas abertas da desigualdade,
porém ainda um sexto da população mundial vive
em países muito pobres. Há muito a ser feito e somente
a partir dos valores é possível corrigir aquilo que a
política e a economia, no novo mundo a caminho de uma maior integração,
não conseguem solucionar de um modo satisfatório.
São, portanto, os valores presentes nas civilizações
os verdadeiros responsáveis pelo destino do futuro mundial nas
próximas décadas e séculos. Se a justiça
e a solidariedade prevalecerem sobre a riqueza e o poder, ainda há
esperança para o nosso futuro comum.
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