A ordem internacional hoje: segurança, estabilidade e bens públicos in-ternacionais

Eiiti Sato*

Resumo: Os ataques de 11 de setembro foram, de fato, um evento que marcou profundamente as relações internacionais. Não porque tenha trazido novos padrões para o relacionamento entre os países, mas principalmente porque, ao exibir as vulnerabilidades da sociedade norte-americana em seu próprio território, esse evento acelerou de forma dramática algumas tendên-cias e mudanças em curso no meio internacional. Este artigo trata de um aspecto muito pouco discutido, mas central nesse processo: como conciliar o provimento de bens públicos interna-cionais como estabilidade política, regras de convivência econômica, proteção do meio ambi-ente, combate a ilícitos internacionais, entre outros, com um mundo de nações que se fecham cada vez mais na defesa de seus interesses individuais, abandonando qualquer noção de res-ponsabilidade sobre a construção e manutenção de uma ordem internacional?

Palavras-chave: Ordem Internacional; Segurança Internacional; Bens Coletivos Internacio-nais; Política Internacional.

1. O significado dos ataques de 11 de setembro

A afirmação de que o mundo não seria mais o mesmo depois dos ataques terroris-tas de 11 de setembro tornou-se um verdadeiro lugar comum. O impacto desses ataques foi, de fato, enorme. Foi um choque para as pessoas comuns e provocou mudanças fun-damentais na atitude dos governos. Uma avaliação mais precisa e completa, contudo, ainda está por ser feita. A guerra que derrubou o Taliban no Afeganistão foi apenas uma das conseqüências visíveis, mas outras ainda estão em curso. As percepções dos estadis-tas e das pessoas comuns sofreram mudanças, mas, estruturalmente, tanto as forças que desencadearam a ação terrorista quanto os meios empregados nos ataques já faziam par-te da prática corrente há bastante tempo. Pode-se dizer que, de muitas formas, o ataque de 11 de setembro revelou de forma trágica uma face da chamada globalização que ain-da não tinha sido percebida pelos analistas.

Entre as percepções que emergiram após os atentados de 11 de setembro, as de maior visibilidade são aquelas que se referem a mudanças na agenda da política interna-cional. As questões relacionadas à segurança internacional voltaram a ter primazia so-bre os temas relacionados ao crescimento da economia internacional, às questões ambi-entais, à promoção dos direitos humanos e a outras questões incluídas pelos analistas no conceito de low politics. Os ataques terroristas não apenas reintroduziram a temática da segurança na agenda internacional, mas o fizeram de modo dramático, surpreendente e sob novas bases.

Desde o fim da Guerra Fria, a globalização vinha sendo uma expressão emprega-da para definir o quadro geral das relações internacionais. Associada a essa noção, ar-gumentava-se que as relações comerciais e financeiras haviam se tornado mais importantes que as questões relativas à segurança internacional, e que o Estado estaria deixando de ser o ator central nas relações internacionais e na própria organização das sociedades. Os acontecimentos recentes puseram a descoberto facetas novas da globali-zação e, em certa medida, recuperaram conceitos antigos na explicação da agenda inter-nacional.
Em que medida os eventos de 11 de setembro alteraram ou simplesmente servi-ram para expor padrões vigentes nas relações internacionais? Nesse quadro, que pers-pectivas se apresentam para a ordem internacional? Essas são duas questões básicas a serem respondidas e, talvez, uma forma de compreendê-las seja tomar como ponto de partida os elementos de permanência e de continuidade visíveis na ordem internacional. Isto é, agora, passados os momentos de choque provocados pela dramaticidade dos ata-ques terroristas, alguns elementos de continuidade são mais visíveis e tornam-se mais evidentes algumas mudanças na forma de perceber o meio internacional, a ação diplo-mática e o papel das instituições e das grandes potências no atual quadro das relações internacionais.

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* Eiiti Sato é professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

2. O que permanece e o que muda na percepção americana sobre a ordem interna e a política externa

Um primeiro aspecto que se destaca no cenário internacional refere-se ao papel dos Estados Unidos no mundo. A importância e a presença norte-americana no mundo deverá continuar sendo um fator central nas relações internacionais e, portanto, tentar compreender as ações externas dos Estados Unidos constitui parte essencial do esforço mais geral de interpretar as forças em ação no meio internacional. Frank Klingberg, a-inda no início da década de 1950, analisando a política externa dos Estados Unidos, identificou fases de introspecção e extroversão que teriam se alternado ao longo do tempo1. Sua periodização da história da política externa norte-americana vai até a déca-da de 1940, e pode-se dizer que até então, efetivamente, fosse possível observar perío-dos de extroversão e de introversão se sucedendo na atitude do governo norte-americano em relação ao meio internacional.

A década de 40, contudo, marcou a tomada de consciência por parte das elites políticas e da própria sociedade norte-americana de sua condição de potência mundial. Arnold Toynbee, em conferência proferida no início de 19612 , na Universidade da Pen-silvânia, sobre o papel dos Estados Unidos do mundo, lembrava que “os fortes e os ri-cos não são cobrados apenas no limite de suas responsabilidades; são também transformados em bode expiatório para tudo aquilo que ocorre de errado em toda parte, mesmo quando esteja além de seu poder tornar as coisas melhores.” Essa afirmação de Toynbee, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, não foi feita no sentido de sugerir que os Estados Unidos não deveriam ser cobrados por suas responsabilidades em termos mundiais, mas sim para lembrar que constitui um atributo inescapável da grande potência o fato de que suas ações sempre têm repercussões internacionais, mesmo aque-las que, aparentemente, referem-se apenas ao plano doméstico. Dessa forma, o papel mundial dos Estados Unidos deixou de ser uma opção de seus governantes para tornar-se uma condição inerente a seu status de primeira potência mundial. Nessas circunstân-cias, um governo mais voltado para dentro, dedicando pouca atenção às questões inter-nacionais, não mais seria identificado como introspectivo ou não-intervencionista. Seria qualificado, no mínimo, como um governo omisso. Além disso, políticas visando uni-camente à defesa dos interesses norte-americanos produzem efeitos desestabilizadores inevitáveis sobre a ordem internacional.

Essa característica inerente à grande potência implica que mudanças na atitude política dos Estados Unidos produzem alterações no quadro geral das relações interna-cionais, e algumas dessas alterações já são visíveis. Entre elas, o combate ao terrorismo tornou-se um elemento central na política norte-americana, e esse fato vem trazendo inúmeros desdobramentos no contexto das relações internacionais. Nesse quadro, parece essencial tentar compreender as motivações da política norte-americana neste momento, isto é, por que os atentados terroristas se revestiram de tanta importância para os Esta-dos Unidos.
Além da indignação pela extensão da tragédia, a dimensão da reação norte-americana também se deveu à percepção de que não se tratava apenas de um ataque ter-rorista contra um alvo específico. Não consistiu num ataque a um político influente, a uma agência ou instituição identificada com ações anti-terroristas ou anti-islâmicas, e nem mesmo contra um símbolo norte-americano ou do capitalismo, como alguns chega-ram a sugerir. Tudo indica que, tanto por parte do governo quanto por parte da socieda-de, a ação terrorista foi entendida como um ataque direto a fundamentos básicos da sociedade norte-americana. Os efeitos dos ataques se fizeram sentir diretamente sobre as liberdades civis que, ao longo de sua existência como nação independente, têm sido um verdadeiro eixo da vida econômica e das instituições políticas e sociais dos Estados Unidos. Na mensagem anual ao Congresso, em janeiro de 1941, o presidente Roosevelt fez uma elaborada consideração sobre como a guerra que se iniciava estava intrinseca-mente associada à defesa da liberdade contra a tirania. A mensagem ficou conhecida como “o discurso das quatro liberdades” ao afirmar que a sociedade livre deveria estar baseada em quatro liberdades essenciais: a liberdade de fé (“freedom of worship”), a liberdade da palavra (“freedom of speech”), a liberdade das necessidades (“freedom from want”) e a liberdade em relação ao medo (“freedom from fear”).

Em larga medida, entendeu-se que os ataques terroristas do dia 11 de setembro atingiram em cheio esse entendimento da liberdade e, por essa razão, muitas referências foram feitas à idéia de que tiveram um significado muito mais profundo que o do ataque japonês de 7 de dezembro de 1941. Com efeito, Pearl Harbor era uma base militar situ-ada muito além das fronteiras norte-americanas. Foi um ato típico de guerra, no seu sen-tido tradicional. Os oponentes usavam uniformes, organizavam-se em exércitos regulares, estavam baseados territorialmente e tinham objetivos determinados, entre os quais defender sua própria população civil. A ação típica do novo terrorismo, ao contrá-rio, não apresenta nenhum desses elementos e, pela primeira vez, mostrava que a socie-dade norte-americana estava vulnerável e essa vulnerabilidade decorria, entre outras razões, das liberdades civis – um valor do qual os norte-americanos tanto se orgulha-vam.

Os ataques revelaram que qualquer indivíduo ou local público pode ser alvo de ataque perpetrado, na maioria dos casos, de dentro do próprio território nacional. Barra-gens podem ser destruídas, reservatórios de água e sistemas de refrigeração podem ser contaminados, cartas-bomba podem ser enviadas etc. Levanta-se, até mesmo, a hipótese de que uma contaminação radioativa de largas proporções poderia ser provocada em-pregando-se apenas rejeitos de material nuclear.

Nos ataques de 11 de setembro os recursos empregados foram todos civis, mos-trando que, para um ataque terrorista, qualquer material ou recurso pode ser transfor-mado em armas letais quando os alvos a serem atingidos não são instalações militares, mas indivíduos comuns e lugares públicos. Os homens-bomba já vinham, há tempos, mostrando essa nova face do terrorismo. As ações terroristas de grupos como o ETA, na Espanha, ou o IRA, no Reino Unido, não apresentavam algumas componentes importan-tes desse novo terrorismo. Embora pudessem, eventualmente, provocar danos e até mesmo a morte de civis, os alvos dos ataques eram, basicamente, político-estratégicos. Na verdade, em vários ataques de grupos como o ETA e o IRA, a explosão de bombas em locais com afluência pública era precedida de avisos para que os locais fossem eva-cuados a tempo de evitar que civis fossem atingidos. Esses grupos sempre tiveram em suas ações objetivos políticos bem definidos, notadamente o estabelecimento de um estado independente para, no seu entendimento, poderem estabelecer uma nova entidade soberana e, como tal, viver de acordo com as regras da comunidade internacional.

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  1. Klingberg, F. I., The Historical Alternation of Moods in American Foreign Policy. In World Politics, vol. IV, n.º 2, Jan/1952, p. 239-273.
  2. Toynbee, A. J., America and the World Revolution. Oxford University Press, 1962, p. 3-4.

3. A crise de hegemonia e as incertezas na ordem internacional

Do ponto de vista das relações internacionais, a orientação da política norte-americana no sentido de desenvolver ações unilaterais pode trazer conseqüências gra-ves. Hedley Bull, em seu estudo clássico sobre a “sociedade anárquica” , discute em detalhe o papel da grande potência na construção e manutenção da ordem internacional. Emprega-se aqui a expressão “3 ordem internacional” no mesmo sentido utilizado por Bull, isto é, como sinônimo de paz ou estabilidade constituindo, portanto, um padrão primário das relações internacionais. Em outras palavras, a ordem internacional define um conjunto relativamente coerente de padrões de conduta no relacionamento entre Es-tados e povos em um determinado momento. Esse conjunto inclui tanto os tratados e arranjos formalmente constituídos quanto práticas e instituições informais. Dessa for-ma, não se confunde com o conceito de regime internacional empregado pelos estudio-sos de relações internacionais4 .

Os regimes, na conceituação construída por esses estudiosos, referem-se a pa-drões que vigoram em áreas específicas das relações internacionais: no comércio, nas questões ambientais, na segurança etc., enquanto o conceito de ordem internacional, por sua vez, inclui todo o conjunto de regimes internacionais, pois diz respeito aos elemen-tos que estariam subjacentes a esses regimes, dando-lhes algum tipo de coerência entre si. O direito divino, a estrutura feudal e o movimento das cruzadas são instituições que só podem ser entendidas dentro da ordem medieval, do mesmo modo que a liberdade econômica e a democracia são ingredientes inerentes às sociedades modernas. Neste trabalho, contudo, o conceito de ordem internacional não é entendido em termos desses valores fundamentais que marcaram o fim do mundo medieval, mas em termos de pa-drões de conduta dentro da sociedade internacional moderna, de amplitude mundial e que se estabeleceu a partir das revoluções sociais e políticas ocorridas essencialmente a partir do século XVIII e da consolidação da sociedade de base tecnológica, também ini-ciada em fins do século XVIII.

Outro aspecto que precisa ser esclarecido para efeito desta análise é o fato de que toda ordem é passível de crítica, seja ela entendida no nível das relações entre os Esta-dos e os povos ou no âmbito interno dos países e até mesmo dentro de grupos sociais. Do mesmo modo que, ao longo da história, sempre surgiram alegações de que as nações poderosas impõem padrões com as quais as nações menores não concordam, também na ordem interna dos países e de grupos sociais mais restritos o debate sobre a ordem vi-gente e a ordem desejável sempre foi alvo de controvérsias. Esse é um debate constante nas sociedades livres e uma aspiração dos povos submetidos a regimes de força. Mesmo em sociedades onde prevalecem elevados padrões de bem-estar para a maioria da popu-lação, de algum modo esse debate se faz presente. Por outro lado, também faz parte do entendimento do conceito de ordem o fato de que toda ordem é dinâmica e a mudança é inerente à sua natureza.
Sociedades consideradas tradicionalmente estáveis também vivem em constante estado de mudança, especialmente quando são abertas e mantêm interação relativamente intensa com outras sociedades. Apenas para citar um exemplo desse fenômeno, basta lembrar que as mudanças tecnológicas são contínuas, afetam de modo substancial os padrões de emprego e os costumes e seus efeitos, inevitavelmente, se propagam pelo mundo sem respeitar fronteiras formalmente estabelecidas. Nesse ambiente, não há co-mo evitar que o debate sobre a ordem atual e a ordem desejada faça parte da rotina da análise econômica, social e política. Essas mesmas considerações se aplicam às relações internacionais. Fluxos comerciais e financeiros vivem contínuas mudanças, assim como as inúmeras formas pelas quais a informação e os indivíduos transitam entre regiões e países, produzindo novas realidades que suscitam debates sobre regimes e práticas in-ternacionais e sua adequação às aspirações individuais e coletivas.

Do ponto de vista do entendimento de ordem internacional aqui utilizado, pode-se dizer que tanto os 50 anos que precederam a Primeira Guerra Mundial quanto as cin-co décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial foram períodos em que os valo-res liberais desempenharam um papel central, definindo os principais padrões no relacionamento entre os povos e os Estados. Apesar disso, esses períodos foram marca-dos por diferenças substanciais. Entre outras diferenças, podem ser citadas algumas que se destacam de modo mais evidente: 1) a Europa – e mais particularmente o Reino Uni-do – tinha uma posição pivotal na ordem do século XIX enquanto, depois de 1945, os Estados Unidos passaram a ocupar essa posição; 2) somente depois da Segunda Guerra Mundial o Estado passou a incorporar um papel mais abrangente na economia, indo muito além de suas funções normativas e centralizando as ações voltadas para a estabi-lidade e o crescimento econômico; 3) organizações internacionais formalmente estabe-lecidas já existiam antes de 1914, mas foi depois de 1945 que essas entidades passaram a desempenhar, efetivamente, funções de relevo no ordenamento das relações interna-cionais.

Além dessas, obviamente, muitas outras diferenças poderiam ser apontadas como marcantes desses períodos. No entanto, no sentido aqui empregado de ordem interna-cional, essas diferenças resumem os elementos mais importantes que caracterizaram esses períodos.

A novidade do debate corrente sobre a ordem internacional, tornada crítica pelos acontecimentos de 11 de setembro, não se refere à discussão sobre a ordem vigente e a ordem desejada (que é corriqueira), mas refere-se à própria existência de alguma ordem, da ordem como contraposição à desordem, à anomia internacional. Nesse sentido, em-bora não haja uma percepção generalizada sobre esse fato, a discussão sobre o tipo de ordem que se tem ou que se deseja tornou-se, neste momento, um debate sobre um pa-drão secundário da ordem internacional. Não se trata aqui de argumentar que a defini-ção do tipo de ordem que se tem ou que se deseja seja de importância menor, mas trata-se de considerar o fato de que qualquer ordem, uma vez considerada indesejável ou in-sustentável, tem sido, ao longo do tempo, eliminada e substituída. A questão crítica que surge, associada a esse processo, é como as mudanças fundamentais na ordem interna-cional ocorrem e que perspectivas podem ser visualizadas para as transformações em curso. Se esse processo poderá se desdobrar em formas radicais e violentas ou se poderá ser gradual e pacífico. Em outras palavras, tudo indica que a ordem internacional passa por mudanças substanciais e a preocupação é saber se haverá aumento no nível de vio-lência internacional ou se haverá um processo de acomodação das forças emergentes de forma menos dramática do que aquele experimentado no passado recente. Infelizmente, os últimos acontecimentos têm apontado para a hipótese mais pessimista, de violência crescente.

Com efeito, a substituição da ordem internacional do século XIX deu-se de forma trágica. Três grandes crises fizeram parte desse processo: a Primeira Guerra Mundial, a grande crise da década de 1930 e a Segunda Guerra Mundial. Subjacente a essas crises houve uma série de mudanças das quais, para efeito desta análise, cabe destacar três transformações essenciais para a ordem internacional ocorrida entre os fins do século XIX e os padrões que emergiram depois da Segunda Guerra Mundial: a) um novo papel para o Estado na vida econômica; b) um nível de institucionalização da cooperação in-ternacional jamais experimentado; c) uma nova distribuição de poder e riqueza entre povos e regiões.

O período do entre-guerras foi marcado por turbulências e inquietações. A Pri-meira Guerra Mundial, apesar de suas trágicas dimensões, não fora suficiente para dar o golpe de misericórdia na ordem internacional do século XIX, e menos ainda para lançar as bases para uma nova ordem. O livro Vinte Anos de Crise. 1919-1939, de E. H. Carr, publicado no momento em que a Inglaterra declarava guerra à Alemanha em setembro de 1939, apresenta um balanço bastante completo e eloqüente dessa difícil transição de uma ordem para outra, em que padrões tradicionais de comportamento e de percepções deveriam ser abandonados sem que houvesse, contudo, clareza suficiente sobre quais deveriam ser os novos padrões e, conseqüentemente, os meios pelos quais uma nova ordem internacional haveria de se estabelecer5 .

Em 1919, a Conferência de Versalhes selou o fim das hostilidades da Primeira Guerra Mundial basicamente nos termos dos padrões vigentes na prática das relações internacionais do século XIX. As três principais potências que influenciaram as deci-sões da Conferência foram a Inglaterra, a França e os Estados Unidos. Lloyd George e Clemenceau eram estadistas formados nas visões e práticas do século XIX e Woodrow Wilson, tido como um visionário da ordem futura, foi uma liderança incompreendida em seu próprio país. Keynes, que integrara a delegação britânica, percebera os equívo-cos contidos no Tratado de Versalhes ao enfatizar a insensatez da punição dos vencidos, que incluía a disposição de eliminar qualquer possibilidade de reerguimento da Alema-nha. Por outro lado, a Liga das Nações, proposta por Wilson, foi efetivamente criada, mas jamais conseguiu representar um instrumento efetivo para o manejo da ordem in-ternacional. Na verdade, seu idealizador viu seu projeto ser rejeitado pelo seu país e seus biógrafos relatam que a sua saúde declinou drasticamente, tornando melancólicos os meses que restavam de seu governo.

Um fato bastante revelador dessa percepção equivocada sobre os fundamentos da ordem internacional foi a tentativa generalizada de restaurar os padrões vigentes até 1914. Na opinião dos estadistas mais influentes, a guerra havia sido uma insensatez produzida por lideranças e nações gananciosas e irresponsáveis que haviam rompido o longo período de relativa paz e prosperidade e, uma vez que essas nações haviam sido derrotadas, a missão das potências vencedoras passava ser a de restaurar a antiga or-dem, que se associava às boas lembranças de uma verdadeira belle époque. O fato dos Estados Unidos se retirarem para uma postura isolacionista, deixando as questões da política internacional para as potências européias tradicionais, era visto como um des-dobramento natural e não como um problema. Não se percebia que uma potência como os Estados Unidos, que já haviam suplantado o poderio econômico da Europa, não po-deriam desenvolver políticas autônomas sem se tornar uma fonte irresistível de instabi-lidade, especialmente quando as próprias potências européias também faziam o mesmo.
Conforme Carr apontava com veemência, essas percepções eram coerentes com a fé no liberalismo à moda do século XIX, que enxergava nas forças de mercado a garan-tia suficiente para a prosperidade ordeira, sem atentar para o fato de que a expansão econômica e a integração dos mercados haviam produzido uma nova realidade interna-cional muito mais complexa. Tomando emprestado uma imagem dos behavioristas, o meio internacional havia se tornado uma realidade peculiar e diferente da simples soma das individualidades. Políticas desenvolvidas de forma autônoma pelos Estados revela-vam-se completamente inadequadas para o novo ambiente. A cooperação internacional deixara de ser um elemento do postulado idealista para se transformar numa exigência de qualquer política de cunho mais pragmático que visse as vantagens de um ambiente de estabilidade internacional. Essa percepção, no entanto, estava longe de ser assimila-da pelo ambiente intelectual e político dos contemporâneos da paz de Versalhes.

Com efeito, a década que se seguiu a Versalhes foi marcada pelos esforços lide-rados pela Inglaterra de voltar à ordem do século XIX, e a crise que se estendeu pela década de 1930 refletiu a total inadequação desses esforços. Na verdade, nos primeiros três anos que se seguiram ao colapso da Bolsa de Nova York, cada governo tentou, à sua maneira, enfrentar a crise com as velhas ferramentas herdadas do século XIX. A convivência internacional passava a exigir que mecanismos fossem criados para que a cooperação regular entre os Estados e as nações pudesse ser institucionalizada, evitan-do, assim, a competição predatória e reduzindo as incertezas que haviam caracterizado a década de 1930.

A Segunda Guerra Mundial foi, na verdade, o trágico epílogo dessa longa agonia. Com efeito, em Bretton Woods, quando a guerra chegava ao seu fim, não havia muita certeza quanto às instituições e práticas que deveriam orientar as relações internacionais sendo, no entanto, objeto de amplo consenso a noção de que não deveriam ser os mes-mos padrões sobre os quais a ordem econômica e política do século XIX havia se sus-tentado. Nos anos que seguiram ao fim da guerra, gradativamente, os novos padrões foram emergindo e ganhando forma mais definida nas instituições e práticas internacio-nais.

Em primeiro lugar, os Estados Unidos assumiram de maneira inequívoca seu pa-pel de grande potência exercendo sua liderança na construção da ordem internacional. Uma disposição que se tornou ainda mais decidida com o advento da Guerra Fria. Insti-tuições internacionais foram criadas para articular as relações econômicas e políticas, tornando a cooperação sistemática e organizada um fator de estabilidade e segurança internacional. Juntamente com esses novos padrões, as noções de liberdade e de libera-lismo incorporaram a idéia de que a ação do Estado constituía um elemento essencial na preservação da sanidade dos mercados. O desenvolvimento e a disseminação dos bene-fícios do progresso econômico passaram também a se constituir em orientações a serem seguidas como fatores de estabilidade social e de promoção de princípios sobre os quais as sociedades deveriam assentar sua organização social e política.

Esses padrões que passaram a predominar na ordem internacional não surgiram de uma só vez como um conjunto organizado e coerente a partir de uma visão estrutura-da a respeito daquilo que poderiam ser as relações internacionais. A proposta de Keynes feita em Bretton Woods, no sentido de que os Estados Unidos deveriam injetar algo em torno de US$ 25 bilhões na economia internacional para superar a estagnação econômi-ca do pós-guerra devido à escassez da única moeda aceita internacionalmente, fora re-jeitada como possível fonte de pressão inflacionária. Três anos depois, no entanto, essa injeção de dólares na economia européia seria implementada na forma do Plano Mar-shall por razões político-estratégicas promovendo, assim, a reconstrução da Europa e a recuperação do dinamismo econômico internacional.

Em relação a outras partes do mundo, o efeito combinado da Guerra Fria com a disposição dos Estados Unidos de disseminar seus valores políticos, econômicos e soci-ais fazia com que houvesse uma ordem mundial relativamente bem definida. A conten-ção nuclear mútua produzia um equilíbrio de poder global enquanto, regionalmente, o estabelecimento de esferas de influência relativamente bem definidas das duas superpo-tências não deixava de desempenhar um papel estabilizador6 . Por outro lado, os amplos programas de ajuda ao desenvolvimento produziram um longo período de crescimento que se espalhou por todo o globo. Conforme o Relatório Pearson, na década de 1950, assim como na década seguinte, meia centena de países manteve taxas de crescimento real acima de 2% ao ano7 . Esse longo período de crescimento generalizado também ope-rava como fator de estabilização da ordem internacional, ao evitar que focos de tensão surgissem ou que os existentes se tornassem insustentáveis para as condições de equilí-brio regional e global.

O reerguimento econômico da Europa e do Japão, assim como a formação de núcleos de industrialização acelerada em algumas regiões periféricas, foi um processo acompanhado por crises sucessivas na economia internacional e pelo progressivo declí-nio da União Soviética até o completo colapso do bloco soviético. Essas transformações produziram uma total mudança na ordem internacional, com conseqüências para as per-cepções sobre o papel das potências, das organizações internacionais e das “regras do jogo” da política internacional.

Entre essas mudanças de percepção com repercussões diretas sobre a conduta dos atores na política mundial destacam-se: a valorização do mercado e a desconfiança no papel do Estado; a descrença nas instituições internacionais (a cooperação perde credi-bilidade como instrumento de solução de disputas e acomodação de interesses interna-cionais); e a rejeição da noção de que a grande potência possui privilégios e também responsabilidades especiais na manutenção da ordem internacional. Essas mudanças nas percepções significam mudanças também na forma de ver e conduzir as instituições e as ações externas dos Estados, especialmente no que tange à questão crítica do forneci-mento de bens públicos internacionais. Essa é uma questão que, de uma forma geral, vem passando a ser vista como afeita a nenhum ator em particular: os Estados mais po-derosos, ao mesmo tempo em que são repelidos pelos Estados mais fracos, também não se sentem responsáveis pela manutenção da ordem e da estabilidade internacional, pre-ferindo a simples defesa de seus interesses mais específicos e imediatos. As organiza-ções internacionais, por sua vez, revelam-se incapazes de fornecer esses bens públicos pelo simples fato de que sua ação depende da disposição dos Estados que as mantêm.

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  1. Bull, H. The Anarchical Society. Columbia University Press, 1977. Uma tradução brasileira dessa obra foi lançada em 2002, dentro da coleção “Clássicos IPRI” (Brasília e São Paulo: Instituto de Pesquisa de Relações Interna-cionais, Editora Universidade de Brasília e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
  2. Krasner, Young e Ruggie são os autores mais lembrados como estudiosos das relações internacionais a partir do conceito de regime internacional. Um marco nessa abordagem foi a publicação, em 1983, da obra coletiva International Regimes, S. D. Krasner (ed.), Cornell University Press.
  3. Carr, E.H. Vinte Anos de Crise. 1919-1939. Recentemente publicado em nova edição revisada pelo Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI) em co-edição com a Editora Univ. de Brasília e a Imprensa Oficial do Estado de S. Paulo, na coleção “Clássicos IPRI” de obras consideradas fundamentais no estudo das relações inter-nacionais.
  4. Vide Bull, op.cit., na qual o autor discute em profundidade a noção de equilíbrio de poder num contexto de segu-rança estratégica entre as superpotências nucleares.
  5. O Relatório Pearson foi publicado no Brasil com o título de Sócios no Progresso (Rio de Janeiro: APEC Editora S.A., 1971). O quarto de século que antecedeu a crise do petróleo desencadeada em 1973 foi chamado por muitos autores como “os anos dourados do pós-guerra” em virtude desse desempenho da economia internacional (ver, por exemplo, Glyn et al., The Rise and Fall of the Golden Age. Helsinki: World Institute for Development Economics Research, 1988).

4. Bens públicos internacionais e distribuição de custos

O processo de decadência e colapso do bloco soviético foi acompanhado pelo ressurgimento da Europa, do Japão e, mais recentemente, da China como pólos de poder no mundo. Além disso, alguns países em desenvolvimento, particularmente na Ásia e na América Latina, avançaram na industrialização e passaram, em alguns casos, a disputar também considerável fatia dos mercados internacionais. Do ponto de vista dos padrões vigentes nas relações internacionais, esses desenvolvimentos constituem partes impor-tantes de um deslocamento bastante radical nas concepções e doutrinas com vistas ao manejo da ordem internacional. De um lado, a questão da segurança internacional dei-xou de ser vista como o produto de uma aliança ou articulação globalmente concebida. De outro, o processo que se poderia chamar de “desideologização” fez com que iniciati-vas políticas internacionais passassem a ser vistas, cada vez mais, como articulação de interesses e não como implementação de princípios políticos e sociais. Essa combinação foi decisiva para que a construção e manutenção da ordem internacional se tornassem uma questão que deveria ser entendida como um empreendimento coletivo e não como atribuição da potência hegemônica. Conseqüentemente, a distribuição dos custos da manutenção da ordem internacional (burden sharing) passou a se constituir em tema central de debate nas negociações internacionais.

No auge da Guerra Fria, John Kennedy declarava em seu discurso de posse, em janeiro de 1961: “Que todas as nações saibam, quer nos queiram bem ou mal, que esta-mos dispostos a pagar qualquer preço, a suportar qualquer fardo e a enfrentar qualquer desafio para socorrer todos os nossos amigos e para nos opor aos nossos inimigos para assegurar a sobrevivência e o triunfo da liberdade.” O tom de seu discurso refletia em toda a extensão a forma com que os Estados Unidos encaravam seu papel no mundo, manifestando sua disposição de assumir até solitariamente custos e riscos em nome da construção de uma ordem mundial baseada em princípios e valores políticos da socieda-de norte-americana.

Contrastando com essa declaração, duas décadas depois, Ronald Reagan assumia a presidência dos Estados Unidos com um discurso cujo tom era manifestamente dife-rente: “(...) responder lealdade com lealdade, lutar pelas relações mutuamente benéficas e não usar nossa amizade para impormo-nos sobre suas soberanias, uma vez que a nossa soberania não está à venda.” Na verdade, já no início dos anos 70, quando o presidente Nixon anunciou oficialmente o fim da conversibilidade do dólar (um anúncio que o mundo já esperava), a disposição do governo norte-americano quanto ao seu papel na ordem internacional pode ser resumida numa de suas afirmações: “we will no longer fight with an arm behind our back” (“não lutaremos mais com uma mão nas costas”).

O curto governo Kennedy marcou a culminância de um dos períodos da história norte-americana em que a noção de “destino manifesto” prevaleceu sobre a tendência ao isolacionismo. Essa alternância entre uma atitude mais extrovertida e outra mais intro-vertida está presente desde o surgimento dos Estados Unidos como nação independente. Henry Kissinger, em seu livro Diplomacia, dedica um capítulo a esse tema da alternân-cia das duas tendências na história política norte-americana comparando duas figuras do começo do século XX: Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson8 . As ações e as atitudes desses dois estadistas servem, na análise de Kissinger, para ilustrar como essa questão continuava presente, mas se tornava mais complexa em face do inevitável envolvimento dos Estados Unidos nas questões internacionais: Roosevelt entendia que um equilíbrio de poder em termos globais era impossível sem a participação norte-americana, a maior potência industrial do mundo; Wilson, por sua vez, entendia que a América tinha um papel internacional verdadeiramente messiânico e sua obrigação não era com o equilí-brio de poder, mas com a disseminação pelo mundo dos valores e princípios que nortea-vam a organização política da sociedade americana.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a reconstrução da Europa e do Japão foi fei-ta com a ajuda dos Estados Unidos, que viam nesse esforço uma componente estratégica para a consolidação de uma ordem mundial favorável à preservação de seus valores po-líticos e sociais. A bem-sucedida recuperação dessas regiões, de fato, produziu um am-biente favorável aos valores sociais e políticos básicos da sociedade norte-americana, mas também produziu competidores capazes de rivalizar com os Estados Unidos na dis-puta por mercados em toda parte, inclusive no mercado norte-americano. Os Estados Unidos, desde a Conferência de Bretton Woods, proporcionavam à economia mundial os recursos para a sustentação do sistema monetário internacional, cujo objetivo era assegurar, por meio de instituições estáveis, instrumentos operacionais e um ambiente propício ao reerguimento da economia mundial, que ainda sofria os efeitos da guerra. O abandono da conversibilidade do dólar em 1971 e a prerrogativa estendida à moeda nor-te-americana de poder flutuar ao sabor do mercado refletiam a nova realidade. O reer-guimento da economia mundial tornou o sistema monetário internacional um bem público, cuja manutenção e operação não mais poderiam ser sustentadas apenas pelos Estados Unidos e sua moeda. Os custos dessa tarefa excediam a capacidade da econo-mia norte-americana enquanto, por outro lado, também seu funcionamento não poderia estar em desacordo com os interesses e necessidades dos novos centros de poder comer-cial e financeiro do mundo. Nesse quadro, as decisões compartilhadas passaram a ser acompanhadas de discussões sobre custos que também deveriam ser compartilhados. Nas sucessivas reuniões que se seguiram ao anúncio do fim da conversibilidade do dó-lar, cada vez mais, as negociações passaram a estar fortemente centradas na difícil bus-ca de um razoável equilíbrio entre a defesa de interesses individuais e a distribuição dos custos resultantes do provimento de bens públicos internacionais necessários à manu-tenção da estabilidade e à promoção do crescimento na economia internacional. Esse é um tema que continua presente nas reuniões do grupo das nações mais ricas e poderosas do mundo.

Politicamente, as questões regionais passaram a ser avaliadas e tratadas a partir do interesse local e regional, onde o nível de envolvimento das grandes potências pas-sou a variar de acordo com os interesses mais próximos e imediatos. A eliminação do regime do apartheid na África do Sul, por exemplo, foi acelerado com o fim da Guerra Fria. Dentro da nova configuração do jogo de forças, a África do Sul deixou de ter o mesmo papel estratégico que havia desempenhado ao longo da Guerra Fria. A segurança e a estabilidade do sul do continente africano deixaram de ser parte de uma estratégia mais geral de segurança internacional manejada pelas duas superpotências, tornando-se uma questão a ser administrada regionalmente, com envolvimento mais direto apenas de nações com interesses mais imediatos. Do mesmo modo, a guerra civil em Angola tam-bém sofreu conseqüências parecidas. Essa guerra, que havia se iniciado como parte do processo de descolonização, tornou-se uma questão a ser resolvida primeiro no âmbito doméstico e, depois, no plano regional. O envolvimento de potências estrangeiras pas-sou a depender basicamente do entendimento que cada um tenha acerca dos possíveis desdobramentos da guerra em termos de seus interesses individualmente considerados.

Desse modo, ordem, estabilidade e crescimento econômico global tornaram-se bens públicos cujo fornecimento nenhuma grande potência está mais disposta a prover e nem está mais em condições de fazê-lo sozinha. A cooperação internacional virtualmen-te deixou de ser uma expressão associada à noção de ajuda internacional, como havia sido no quarto de século que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial. Especial-mente após o colapso da URSS, a cooperação internacional tornou-se cada vez mais um exercício de negociação continuada sobre regimes nos mais diferentes campos das rela-ções internacionais, com particular destaque para a avaliação e distribuição de custos e responsabilidades. Essa questão pode assumir muitas formas: desde uma intervenção humanitária ou a constituição de uma força de paz em regiões assoladas por conflitos até, de maneira mais articulada e duradoura, um regime internacional para a segurança ou para as relações econômicas. Os efeitos de um conflito regional afetam de maneira diferenciada as grandes potências, assim como os interesses comerciais e financeiros também variam de acordo com as características e peculiaridades de cada país ou regi-ão.

De qualquer modo, a questão da distribuição dos custos emerge nas negociações como parte essencial dos acordos e arranjos internacionais, uma vez que os Estados U-nidos, apesar de continuarem como nação líder, perderam aquela condição de suprema-cia que lhes permitia arbitrar questões internacionais no âmbito da aliança ocidental. Nas duas últimas décadas do século XX, diferentemente do que ocorrera nas duas pri-meiras décadas do pós-guerra, a supremacia dos Estados Unidos deixara de ser ampla e inquestionável no campo econômico enquanto, no campo da segurança, as perspectivas de um conflito armado entre grandes potências tornaram-se virtualmente inexistentes. Os impasses nas negociações comerciais foram marcantes na Rodada Uruguai, assim como também nas questões relativas a medidas de proteção ambiental em escala plane-tária. Com efeito, recentemente, a relutância dos Estados Unidos em pagar sua contribu-ição à Organização das Nações Unidas e as pressões do Congresso para que a quota de contribuição norte-americana seja reduzida têm por origem essa nova característica da ordem internacional. A ONU faz parte de um conjunto de instituições com o objetivo de prover o meio internacional com um bem comum essencial: a estabilidade, que é uma denominação mais neutra para a paz. Essa questão, no entanto, assume feições seme-lhantes nas muitas outras áreas cujos reflexos no plano internacional são significativos, como aquelas relacionadas com o meio ambiente, com o comércio ou mesmo com as várias formas de ilícitos, notadamente narcotráfico e lavagem de dinheiro.

A estabilidade internacional (ou paz) pode ser comparada ao ar limpo, à proteção da camada de ozônio e ao combate à corrupção. Qualquer um desses elementos constitui componente fundamental para um ambiente propício, para que as sociedades possam prosperar e desfrutar de qualidade de vida condizente com padrões de educação e bem-estar considerados saudáveis. A validade de cada um desses elementos não precisa ser demonstrada; todavia, na condição de bens públicos, são claramente definidos em seu significado, porém difusos no que diz respeito a responsabilidades e benefícios. As so-ciedades, organizadas em Estados, procuram promover seus interesses comerciais, polí-ticos e até mesmo culturais sem considerar, ou considerando apenas secundariamente, a preservação ou promoção de bens públicos. Por que o crescimento da economia, que significa mais empregos e melhores ganhos, deve ser contido ou reduzido devido a con-siderações sobre eventuais danos ao meio ambiente, especialmente quando esses danos afetam muito mais outros países ou quando seus efeitos mais dramáticos serão sentidos apenas a médio e longo prazos? Por que destinar recursos públicos escassos ao combate a ilícitos internacionais se o narcotráfico ou a lavagem de dinheiro estão trazendo fun-dos para o país, especialmente quando se sabe que, se o dinheiro oriundo dessas ativi-dades não vier para este país, irá para outros países que não combatem ou simplesmente fingem combater esses ilícitos? Por que patrocinar intervenções humanitárias em áreas distantes, que não ameaçam diretamente a estabilidade social e a segurança do país? Para que sustentar o funcionamento de entidades internacionais que podem, eventual-mente, tomar decisões ou envolver-se com questões que não são de interesse direto e imediato dos contribuintes que elegeram os titulares de mandatos públicos?

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  1. Kissinger, H. Diplomacia. São Paulo: Livraria Francisco Alves, 1997. Capítulo 2, p. 25-57.

5 – Uma perspectiva para a ordem internacional

A tendência à diluição de responsabilidades em relação ao provimento de bens públicos internacionais já era bastante visível ao longo da última década do século XX. No pós-guerra, a Europa construiu seu espaço na ordem internacional a partir da supre-macia norte-americana e, seja porque essa atitude poderia se afigurar mais cômoda e menos dispendiosa, ou porque os europeus foram deliberadamente compelidos a essa postura pela ação política dos Estados Unidos, suas responsabilidades no provimento de bens públicos internacionais sempre foram consideradas apenas secundariamente em relação a seus interesses nacionais. Para essas potências, o interesse no manejo de crises internacionais tem dependido diretamente da avaliação do grau em que essas crises pu-dessem vir a afetar seus interesses mais imediatos. No caso do Japão, essa questão cla-ramente só pode ser vista a partir da política norte-americana em relação ao país e em relação à região. Os Estados Unidos, por sua vez, como já foi mencionado, de algum tempo vinham questionando seu próprio papel no mundo enquanto, por outro lado, o sentimento anti-americano também se alastrava, inclusive entre seus tradicionais alia-dos. Não é objeto deste trabalho discutir as possíveis razões para esse fenômeno, mas sim considerar suas conseqüências para a ordem internacional.

Os ataques de 11 de setembro aceleraram essa tendência. A propensão ao isola-cionismo, que de tempos em tempos surge na sociedade norte-americana recebeu forte impulso. Dadas as características do mundo atual, no entanto, esse isolacionismo assu-me um caráter diferente daquele que havia no entre-guerras e em outros tempos. O iso-lacionismo de hoje toma a forma de ações unilaterais nas mais diferentes instâncias: na política comercial, no âmbito das organizações internacionais, nos compromissos na esfera social, ambiental ou dos direitos humanos e também, obviamente, nas ações com vistas a questões de segurança internacional, que passaram a ser vistas essencialmente a partir da ótica da segurança doméstica.

Esse quadro afigura-se bastante preocupante não apenas porque, aparentemente, nenhuma grande potência se apresenta com disposição de prover bens públicos essenci-ais à estabilidade da ordem internacional, mas porque sem a participação ativa dos Es-tados Unidos nesse sentido qualquer ação se afigura inócua.

Na década de 1920, os Estados Unidos eram o maior centro industrial e financei-ro do mundo, mas desenvolviam políticas financeiras autônomas tendo em vista apenas os interesses imediatos de sua economia, constituindo-se assim num elemento desesta-bilizador do sistema monetário e financeiro internacional, levando H. Cleveland a com-parar os Estados Unidos a “um touro se movendo na loja de porcelanas do sistema monetário do mundo” 9. No mundo atual, é difícil saber que ações efetivamente constru-tivas os Estados Unidos poderiam desenvolver para a construção de uma ordem interna-cional mais justa e estável. No entanto, é perfeitamente claro que ações unilaterais por parte de uma potência com as dimensões e com o diferencial de poder dos Estados Uni-dos são eminentemente desestabilizadoras. Iniciativas construtivas de outras nações podem ser solapadas por ações unilaterais norte-americanas, mesmo que essas ações tenham por objetivo a simples defesa de interesses nacionais como o fazem rotineira-mente todos os países. A comunidade internacional (uma noção muito vaga, mas que inclui principalmente as grandes potências da Europa e da Ásia), por sua vez, repete experiências passadas e, indiferente à necessidade de construção de uma ordem interna-cional mais estável e mais justa, vem agindo movida essencialmente por seus interesses individuais mais imediatos. Joseph Nye, em livro recente, fala da necessidade dos Esta-dos Unidos procurarem na cooperação internacional a única forma de exercer uma lide-rança efetivamente eficaz e construtiva, mas essa concertação só é possível quando as partes se revelam interessadas e dispostas a assumirem responsabilidades10 . Este, entre-tanto, não parece ser o caso do ambiente internacional hoje.

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  1. Cleveland, H.v.B. The International Monetary System in the Interwar Period. In Rowland, B.M. Balance of Power or Hegemony: the Interwar Monetary System. New York University Press, 1976, p. 43.
  2. Nye Jr, J.S. O Paradoxo do Poder Americano. Por que a Única Superpotência do Mundo Não Pode Prosseguir Isolada. Editora UNESP, 2002.

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