Empreendedorismo:
a revolução do novo Brasil
Resumo:
Trata-se de um amplo painel sobre o tema empreendedorismo, compreendendo
desde a origem da palavra até sua importância estratégica
para o desenvolvimento econômico do Brasil neste momento de novo
governo. O empreendedorismo, ainda que presente em toda a história
econômica contemporânea, é hoje um fenômeno
global, dadas as profundas mudanças nas relações
internacionais entre países e empresas, no modo de produção,
nos mercados de trabalho e na formação profissional. O
Brasil é apontado como um dos países mais empreendedores
do mundo, mas há muito a melhorar no que se relaciona às
condições de consolidação das milhares de
iniciativas de novas empresas. O empreendedor corporativo é um
perfil cada vez mais procurado pelas empresas, nas quais um dos principais
objetivos é a busca da eficiência. Investir na disseminação
organizada do empreendedorismo será fator fundamental de progresso
econômico e social e também fonte de geração
de novos empregos.
Palavras-chave: Brasil, desenvolvimento econômico, empreendedorismo,
empreendedor corporativo, emprego.
1.
A origem da palavra e definições
A raiz da palavra empreendedor remete-nos há 800 anos, com o
verbo francês entreprendre, que significa “fazer algo”.
Uma das primeiras definições da palavra “empreendedor”
foi elaborada no início do século XIX pelo economista
francês J.B. Say, como aquele que “transfere recursos econômicos
de um setor de produtividade mais baixa para um setor de produtividade
mais elevada e de maior rendimento”. O termo “entrepreneur”
foi incorporado à língua inglesa no início do século
XIX. Entre os economistas modernos, quem mais se debruçou sobre
o tema foi Joseph Schumpeter, que teve grande influência sobre
o desenvolvimento da teoria e prática do empreendedorismo. Em
seus estudos, ele o descreve como a “máquina propulsora
do desenvolvimento da economia. A inovação trazida pelo
empreendedorismo permite ao sistema econômico renovar-se e progredir
constantemente.” De acordo com Schumpeter, “sem inovação,
não há empreendedores, sem investimentos empreendedores,
não há retorno de capital e o capitalismo não se
propulsiona.”
Em minha longa jornada sobre este fascinante e absorvente assunto, resolvi
adotar a definição encontrada em um relatório da
Accenture, resultado de uma pesquisa internacional conduzida entre janeiro
de 2000 e junho de 2001: “Empreendedorismo é a criação
de valor por pessoas e organizações trabalhando juntas
para implementar uma idéia através da aplicação
de criatividade, capacidade de transformação e o desejo
de tomar aquilo que comumente se chamaria de risco.”
2.
Empreendedorismo e ambiente econômico
O empreendedorismo é hoje um fenômeno global, sobre o qual
diversas instituições públicas e privadas têm
investido para pesquisar e incentivar. Existe uma clara correlação
entre o empreendedorismo e o crescimento econômico. Os resultados
mais explícitos manifestam-se na forma de inovação,
desenvolvimento tecnológico e geração de novos
postos de trabalho. A riqueza gerada pelos empreendedores contribui
para a melhoria da qualidade de vida da população e, não
raras vezes, é reinvestida em novos empreendimentos e, de maneira
indireta, nas próprias comunidades.
O maior exemplo contemporâneo da força empreendedora foi
a criação de milhares de novas empresas e milhões
de novos empregos na economia norte-americana em seu recente período
de extraordinário crescimento. Nas palavras do mestre Peter Drucker,
“o surgimento da economia empreendedora é um evento tanto
cultural e psicológico, quanto econômico ou tecnológico.”
Estes mesmos traços de dinamismo podem ser encontrados, se bem
que com outros matizes, na economia brasileira.
O desenvolvimento econômico, segundo Schumpeter, tem três
pilares: a renovação tecnológica, o crédito
para novos investimentos e o empresário inovador. Este último,
agente principal da mudança, é capaz de erigir um novo
e lucrativo negócio, mesmo sem ser dono do capital. O que conta
são suas características de personalidade, seus valores
e a capacidade de utilizar os recursos disponíveis para modificar
ambientes e conjunturas. Do ponto de vista macro-econômico, os
empreendedores são capazes de romper os trajetos viciosos da
economia e criar novos paradigmas, marcados pela competitividade e pela
geração de oportunidades. Para além da necessária
busca do lucro, a ação positiva dos empreendedores melhora
a qualidade de vida a partir da oferta de novos produtos e serviços.
Esse trabalho é sempre capaz de “provocar” a concorrência
e estimular novos hábitos para clientes e consumidores finais.
Vamos mostrar que cada país pode desenvolver o clima mais apropriado
para o empreendedorismo sem colocar em segundo plano os valores de seu
sistema econômico e social, tais como redistribuição
de riqueza ou proteção social.
As alavancas fundamentais para o empreendedorismo em um determinado
país são: a) acesso ao capital de investimento; b) baixo
grau de intervenção e regulação do Estado;
c) padrões sócio-culturais que demonstrem uma postura
favorável à atividade empreendedora.
Podemos identificar
três modelos conceituais de ambiente empreendedor:
- O modelo de livre
mercado que conta com uma intervenção governamental
mínima, como é o caso dos Estados Unidos;
- O modelo de individualismo
monitorado baseado ainda no estímulo aos empreendimentos individuais,
mas utilizando políticas públicas como catalisadoras
das energias empreendedoras, casos de Cingapura e Taiwan;
- O modelo da social-democracia,
que combina o estímulo aos empreendimentos com forte ênfase
na proteção social, no qual o governo é um jogador-chave
no estabelecimento das regras sob as quais os empreendimentos podem
florescer, exemplos da Alemanha, Holanda e Suécia.
As diferenças
entre os países também refletem nos dois tipos de força
propulsora do empreendedorismo: os empreendimentos “de oportunidade”
e os “de necessidade”. Um empreendimento é “de
oportunidade” quando o empreendedor iniciou ou investiu em um negócio
a fim de aproveitar uma oportunidade percebida no mercado, e “de
necessidade” quando se trata da melhor opção de trabalho
disponível. Ambos florescem em países onde há desigualdade
na distribuição de renda, mas onde as pessoas têm
expectativa de que a situação econômica irá
melhorar. Os de oportunidade aparecem em maior número onde há
reduzida ênfase na manufatura, baixa intromissão governamental,
grande número de investidores informais e respeito pela atividade
empreendedora. Os de necessidade são mais comuns onde o desenvolvimento
econômico do país é relativamente pequeno, a economia
não depende tanto do mercado internacional, os benefícios
oferecidos pelo Estado são menos generosos e as mulheres têm
menos influência sobre a economia.
3.
O movimento empreendedor no Brasil
O relatório Global Entrepreneurship Monitor (GEM) – Monitor
Global do Empreendedorismo, organizado por duas renomadas escolas de administração,
o Babson College, dos EUA, e a London School of Business, da Inglaterra,
e realizado em 37 países em 2002, apontou os seguintes resultados
para o Brasil:
- O
Brasil possui um nível relativamente alto de atividade empreendedora:
13,5 em cada 100 adultos da População Economicamente Ativa
(PEA) são empreendedores, colocando o país em sétimo
lugar do mundo. No entanto, mais da metade deles está envolvida
por necessidade e não por oportunidade;
- As mulheres brasileiras são bastante empreendedoras: a proporção
é de cerca de 40%, uma das maiores entre todos os 37 países
participantes do levantamento;
- A intervenção governamental possui duas facetas: tem
diminuído, mas ainda se manifesta como um fardo burocrático;
- A disponibilidade de capital no Brasil é escassa. Muitos empreendedores
brasileiros ainda percebem o capital como algo difícil e custoso
de se obter. Para piorar, os programas de financiamento existentes não
são bem divulgados;
- A falta de tradição e o difícil acesso aos investimentos
continuam a ser os principais impedimentos à atividade empreendedora
no Brasil. Existe uma necessidade urgente de estimular as práticas
de investimento;
- O tamanho do país e suas diversidades regionais exigem programas
descentralizados. As diferenças regionais de cultura e infra-estrutura
também exigem uma abordagem localizada do capital de investimento
e dos programas de treinamento;
- Infraestrutura precária e pouca disponibilidade de mão-de-obra
qualificada têm impedido a proliferação de programas
de incubação de novos negócios fora dos grandes
centros urbanos;
- O ambiente político e econômico tem aumentado o nível
de risco e incerteza sobre a estabilidade e o crescimento. Com o novo
governo, aparentemente, estas expectativas melhorarão em 2003;
- Existe uma necessidade de aprimoramento no sistema educacional como
um todo, o que estimulará a cultura empreendedora entre os jovens
adultos. Os programas existentes têm sido percebidos como desconectados
da realidade, com pouca integração à graduação
e ensino básico;
- Não há proteção legal dos direitos de
propriedade intelectual, os custos para registro de patentes no país
e fora dele são altos e os mecanismos de transferência
tecnológica são parcos. As universidades ainda estão
isoladas da comunidade de empreendedores.
4.
O perfil empreendedor
O processo de empreender envolve todas as funções, atividades
e ações associadas à percepção de
oportunidades e à criação de organizações
que buscam organizadamente estas oportunidades. Cinco elementos ou qualidades
são fundamentais na caracterização de um empreendedor:
- Criatividade
e inovação: empreendedores conseguem identificar oportunidades,
grandes ou pequenas, onde ninguém mais consegue notar;
- Habilidade ao aplicar esta criatividade: eles conseguem direcionar
esforços num único objetivo;
- Força de vontade e fé: eles acreditam fervorosamente
em sua habilidade de mudar o modo como as coisas são feitas e
têm força de vontade e paixão para alcançar
o sucesso;
- Foco na geração de valor: eles desejam fazer as coisas
da melhor maneira possível, do modo mais rápido e mais
barato;
- Correr riscos: quebrando regras, encurtando distâncias e indo
contra o status quo.
Algumas
idéias equivocadas ainda existem no senso comum. Uma delas é
a de que o empreendedor é um herói solitário. Na
realidade, colaboração é a palavra-chave, empreendedores
de sucesso se unem a grupos e seguem trabalhando unidos em direção
a um único objetivo. Esses cinco elementos do empreendedorismo
têm mais força quando compartilhados por um time ou dentro
de uma organização.
Outro conceito errôneo é o de que um empreendimento necessariamente
precisa ser muito grande para ser considerado um sucesso. Muitas empresas
que se encaixam no critério de pequena e média são
bastante empreendedoras. A distinção está no resultado
desejado: seus proprietários a administram com o objetivo de
manter seu estilo de vida e o da sua família, ou eles reúnem
esforços a fim de explorar oportunidades, criar novos produtos
ou entregar serviços de modo inusitado?
Pequenos negócios desempenham um papel muito importante na economia.
É por meio da pequena empresa que obtemos os produtos e serviços
já tradicionais. Muitos donos de pequenas empresas possuem qualidades
empreendedoras ao buscar atender à demanda de produtos e satisfazer
os clientes. Mas o conceito de empreendedorismo está baseado
em indivíduos que misturam inovação com as melhores
práticas de comercialização de novos produtos e
serviços e que resultam em empresas de crescimento acelerado.
5.
Os mitos em torno do empreendedor
Existem ainda alguns mitos que fazem do empreendedor um ser fantástico
e de suas empresas uma obra inatingível ao simples mortais:
Há o mito do “tomador de risco”, segundo o qual a
maioria dos empreendedores corre riscos absurdos e incalculáveis
ao iniciar suas empresas: os empreendedores bem sucedidos estudam previamente
os mercados/produtos em que vão atuar, planejam suas ações
e ainda buscam investidores para compartilhar o risco do negócio
e seu retorno.
Segundo o mito das invenções high-tech, a maioria dos
empreendedores inicia suas empresas com uma invenção inusitada,
normalmente de natureza tecnológica. Mas não é
necessária a existência de uma idéia fabulosa: uma
“excepcional execução de uma idéia comum”
pode vir a ser um sucesso; o importante é se distinguir, uma
pequena variação ou a mudança no “pacote”
já fará com que o empreendimento se torne único.
O importante é proteger essa vantagem movendo-se rápido
e fazendo aprimoramentos freqüentes, sempre mantendo um passo a
frente dos concorrentes.
O mito do expert faz crer que a maioria dos empreendedores possui um
passado grandioso e muitos anos de experiência no mercado em que
atuam. Mas, na verdade, 40% dos fundadores dos 500 maiores empreendimentos
da história não tinham experiência anterior na indústria
em que entraram. Muitos deles, aliás, possuíam pouca experiência
de modo geral.
Pelo mito da “visão estratégica”, a maioria
dos empreendedores possui um plano de negócios muito bem estruturado
e pesquisou e desenvolveu suas idéias longamente antes de tomar
a ação, mas apenas 4% dos fundadores dos 500 maiores empreendimentos
da história possuíam um plano de negócios. Por
essa razão, os primeiros esforços de muitos empreendedores
não foram os produtos e serviços que trouxeram sucesso
a eles.
Segundo o mito do Venture capital, a maioria dos empreendedores começou
seu negócio com milhões de reais de investimento no desenvolvimento
de sua idéia, comprando suprimentos e contratando funcionários.
Entretanto, o Venture capital é comum em setores da indústria
nos quais há necessidade de capital para sair dos estágios
iniciais de crescimento como, por exemplo, biotecnologia.
6.
Para saber mais
Recentemente foram lançados alguns livros repletos de casos sobre
os empreendedores brasileiros, gente que montou seus negócios
em ambientes econômicos e de mercado nem sempre amistosos, persistiu
em seus objetivos mesmo em momentos adversos, criou novas idéias
e novos empregos e, acima de tudo, proporcionou um saudável efeito
demonstração.
Seguem alguns destaques
que valem a pena ser pesquisados:
| QUEM |
SETOR |
FONTE |
| Alair Martins |
Distribuição
|
Empreendedores Brasileiros |
| Aleksandar Mandic |
Internet |
Empreender não
é Brincadeira |
| Décio da Silva |
Motores Elétricos |
Empreendedores Brasileiros |
| Marcelo Salim |
Tecnologia da Informação |
www.endeavor.org.br |
| Nizan Guanaes |
Internet / Propaganda |
Empreender não
é Brincadeira |
| Salim Mattar |
Locação
de Automóveis |
Empreendedores Brasileiros |
Espero
que estes exemplos possam inspirar outros empreendedores a criar novos
negócios ou melhorar os existentes por meio das inúmeras
experiências relatadas.
7.
O empreendedor corporativo – um marco na história
A figura do empreendedor é, ainda hoje, associada romanticamente
ao navegador solitário ou ao desbravador de florestas, que se
valem de seus próprios recursos, talentos e contatos para atingir
determinado objetivo. Ao longo da história, os empreendedores
têm sido vistos como loucos ou Quixotes, criaturas imprudentes
que perseguem sonhos impossíveis. Eu gosto muito da definição
de Anita Roddick, fundadora das lojas inglesas Body Shop (www.bodyshop.com):
“Há uma linha tênue entre a mente de um empreendedor
e a de um louco. O sonho do empreendedor é quase uma loucura,
e quase sempre isolado. Quando você vê algo novo, sua visão,
geralmente, não é compartilhada pelos outros. A diferença
entre um louco e um empreendedor bem sucedido é que este pode
convencer os outros a compartilhar sua visão. Esta é a
força fundamental para empreender.”
A história, no entanto, mostra que esses intrépidos “irresponsáveis”
foram os próceres que tiraram os homens dos galhos das árvores
e os conduziram às estações espaciais. O viajante
veneziano Marco Polo é um desses pioneiros, capaz de unir culturas,
difundir o conhecimento e estabelecer as bases para o comércio
globalizado. No campo da fé, o apóstolo Paulo de Tarso
é um exemplo magnífico, ao disseminar competentemente
os ensinamentos de Jesus em terras estrangeiras. Entre os descobridores,
há que se celebrar a valentia e a determinação
de Cristóvão Colombo e de seus comandados.
Um exame mais minucioso dos fatos, no entanto, mostra que os três
eram, na verdade, também intra-empreendedores – uma categoria
particular de empreendedor, como veremos a seguir. Marco Polo viveu
por 17 anos na corte do imperador Kublai Khan, onde desenvolveu importantes
atividades administrativas. Definiu novas rotas comerciais, conquistou
mercados e organizou os negócios de uma grande “corporação
transnacional”. Paulo estabeleceu alguns dos pilares do Cristianismo.
Como dedicado parceiro de Pedro, sua obra de catequese foi fundamental
para consolidar uma importante “instituição”:
a Igreja. O atrevido Colombo insere-se nesse fantástico time
ao compor uma parceria empresarial com a Espanha. A serviço dos
reis católicos, assumiu a missão de estabelecer relações
comerciais com a Índia, o que poderia recuperar a economia espanhola.
Em 12 de outubro de 1492, desembarcou em uma das ilhas Bahamas. Tomou,
sim, posse do lugar, mas em nome de Castela.
O ato de empreender, portanto, tem praticamente a idade do homem. Iniciou-se
provavelmente quando um pedaço de osso foi transformado em arma
e ferramenta.. O intra-empreendedorismo, no entanto, mesmo presente
em momentos cruciais da história das civilizações,
é ainda tema novo e um tabu para a maior parte das modernas corporações.
Foi disseminado na década de 80 pelo consultor em administração
Gilfford Pinchot III, autor do best-seller Intrapreneuring (1985). Há
cerca de 15 anos, os dicionários passaram a apresentar o termo
“intrapreneur”, designativo da pessoa que, dentro de uma
grande corporação, assume a responsabilidade direta de
transformar uma idéia ou projeto em produto lucrativo. Para isso,
esse indivíduo introduzirá inovações e assumirá
riscos. O uso da palavra e de seus derivativos tornou-se corrente em
várias línguas, o que confirma a importância desse
conceito na nova ordem mundial.
8.
Empreendendo dentro das organizações
Empreender, também a partir de instituições já
consolidadas, impõe-se hoje como necessidade estratégica
e demonstração de sensatez. Em um mundo mutante e ultra-competitivo,
as exigências do mercado devem ser acompanhadas de uma conduta
pró-ativa, caracterizada pela busca permanente do aproveitamento
de oportunidades. Aquilo que hoje é apenas “mais um produto”
ou “um setor secundário” pode rapidamente se converter
na escora que manterá a empresa em pé nos próximos
anos.
Para parcela significativa dos empresários, os empreendedores
internos são “agitadores” e “subversivos”,
gente inquieta e permanentemente insatisfeita. Talvez tenham razão.
Normalmente, esses indivíduos possuem as seguintes características:
- Jamais
se contentam apenas em executar projetos propostos ou definidos por
seus superiores hierárquicos;
- Normalmente, oferecem sugestões sobre oportunidades que jamais
foram consideradas por seus colegas e chefes;
- Normalmente inteligentes e racionais, parecem não temer riscos
e adoram desafios;
- São criativos e comprometidos com a inovação;
- Trazem em suas biografias indícios dessa tendência. São
aqueles que desde cedo se apresentavam para organizar as quermesses
da escola ou que vendiam pipas para os garotos do bairro.
Com certeza,
esse admirável processo de “subversão” é
fundamental à sobrevivência das corporações
nos novos cenários concorrenciais. Segundo Joseph Schumpeter,
“o empreendedor é aquele que destrói a ordem econômica
existente pela introdução de novos produtos e serviços,
pela criação de novas formas de organização
ou pela exploração de novos recursos materiais”,
ensinava. O conceito-base em questão é o de “destruição
criativa”. Trata-se do impulso fundamental que aciona e mantém
em marcha o motor capitalista, criando melhores produtos, novos mercados
e oferecendo alternativas aos métodos menos eficientes e mais
caros. De acordo com o pensador, as novas tecnologias evidenciam o despropósito
dos sistemas de produção vigentes e os substituem. O processo
não tem fim. A criatividade permite sempre a geração
de um produto melhor e mais barato.
De certo, o intra-empreendedor deve pautar-se sempre pela busca da inovação,
ainda que precise compatibilizar os interesses gerais da corporação,
de acionistas e de investidores. Dessa forma, não basta que seja
competente, entusiasmado, ativo e preparado. Também é
preciso que seja racional, flexível, tolerante e persistente.
Deve assumir uma postura dialética, ouvindo e se projetando no
outro, modificando contextos dentro e fora da empresa. No ambiente externo,
será o responsável por procurar novos parceiros e investigar
novas tecnologias e oportunidades de negócios. No ambiente interno,
terá como atribuições mobilizar pessoas, aproveitar
inteligentemente recursos materiais e financeiros, potencializar e adaptar
os mecanismos produtivos já existentes, modificar hábitos
e regularmente prestar contas de suas iniciativas. Enfim, o intra-empreendedor
precisa atuar também com diplomacia e administrar interesses
eventualmente divergentes. Deve ser um expert em relacionamentos e precisa
cultivar a humildade para aprender permanentemente.
Do ponto de vista técnico, o intra-empreendedor deve conhecer
a fundo a corporação na qual trabalha. Precisa reconhecer
seus processos, a cultura gerencial, as práticas na área
de recursos humanos, as características dos mercados de inserção
e ter uma noção clara dos fluxos de caixa. Nem sempre
é fácil radiografar com minúcia uma grande empresa.
Na verdade, o gigantismo tem levado companhias tradicionais a naufragar.
A alternativa tem sido a adoção de medidas de descentralização
administrativa, nem sempre eficazes. Muitas vezes, uma empresa lenta
e antiquada é fragmentada em unidades de negócios menores.
Imagina-se, assim, que se alcançou a salvação da
lavoura. No entanto, com freqüência, essas novas divisões
continuam incapazes de enfrentar os desafios da nova onda produtiva.
A questão não se resolve apenas nos organogramas, mas
na mudança efetiva das mentalidades.
Portanto, o intra-empreendedor tem um complicadíssimo desafio
à frente de uma nova célula de negócios: deve impedir
que seja contaminada pelos velhos e nocivos hábitos de gestão
vigentes na empresa-mãe e, ao mesmo tempo, manter a coesão
interna, mantendo as diretrizes e compromissos gerais da organização.
Em suma, ao empreendedor convencional basicamente interessa agradar
clientes e consumidor. O intra-empreendedor precisa também ganhar
credibilidade entre diretores e acionistas e garantir a manutenção
do ânimo dos integrantes da equipe. Mais que qualquer um na empresa,
é cobrado em suas ações e sua sobrevivência
depende de bons resultados.
Para as corporações estabilizadas, o intra-empreendedorismo
representa uma oportunidade de recuperar a juventude e o vigor dos negócios
recém-iniciados. Numa época em que organismos empresariais
nascem e morrem tão rapidamente, é necessário que
sangue novo seja constantemente injetado em suas veias. Abdicar dessa
política de renovação significa fragilizar-se e
expor-se às intempéries da economia. Mais do que pela
ineficiência, as empresas hoje morrem pela obsolescência,
em processos rápidos e devastadores. O “obsoleto”
aqui pode se referir a produtos ou a modelos de gestão. Nos Estados
Unidos, atualmente, metade das empresas fecha as portas em até
quatro anos e 98% delas, em até 11 anos. No Japão e na
Europa, a vida média das empresas é de apenas 12,5 anos.
De acordo com o Sebrae, de cada 100 empresas criadas em São Paulo,
32 encerram as atividades antes de completar o primeiro aniversário.
Dessa forma, correr riscos em empreendimentos torna-se ironicamente
uma vacina contra o vírus da obsolescência. Valem aqui
os ditados populares “quem não arrisca já perdeu”
e “quem não faz poeira come poeira”. Hoje, administrar
seriamente uma empresa deve consistir em uma série de ações
que permitam torná-la ágil, competitiva e apta a assimilar
as mudanças súbitas no cenário político
e econômico. Assim, são necessários sistemas que
confiram poder de decisão aos profissionais realmente capazes
de prever percalços e desenhar novos caminhos para a organização.
Como diz Pinchot, “precisamos de pessoas mais interessadas em
conquistar resultados do que em ganhar influência.”
Numa empresa moderna, todos, da faxineira ao presidente, têm de
gerar valor. Todos têm de possuir a clara noção
de que são mini-centros de custos. E esta noção
tem vínculo direto com a empregabilidade de cada um. Dessa forma,
é necessário um espírito renovador que estimule
iniciativas em todos os departamentos da empresa. Para manter a competitividade,
os “gurus” afirmam que é fundamental modificar a
relação do indivíduo com a empresa:
- É
dever de todos zelar pela qualidade dos produtos e pela imagem da organização;
- É dever de todos produzir mais e viabilizar alternativas para
a redução de custos;
- Oferecer bons produtos e serviços não é apenas
um dever para com o empregador, mas um compromisso pessoal e ético
com a sociedade. Eficiência e disposição inovadora
são fundamentais.
Essa nova
noção de responsabilidade tende sempre a se disseminar
pelas equipes, incentivando-as no desenvolvimento de novos projetos.
Nas sociedades altamente tecnológicas, em que a Era Industrial
já cedeu lugar à Era Digital, é preciso que as
empresas renovem suas culturas. Numa época de processos cotidianos
interativos e dinâmicos, é difícil imaginar que
as pessoas se submetam livremente à repetição.
Numa época de diversificação de costumes, em que
cabelos azuis ou verdes definem opções pela diferença
e novos padrões de conduta, custa acreditar que as pessoas de
talento abdiquem da invenção. É preciso, portanto,
que exista a capacidade de implementar um novo modelo na vida corporativa,
capaz de filtrar e absorver as contribuições do espírito
criativo.
Essa nova atitude depende de sistemas de trabalho que libertem as pessoas
do controle “policial” e truculento das hierarquias. Esse
mecanismo arrogante e prepotente de manutenção do poder
tem historicamente exterminado o talento criativo de jovens talentos.
A experimentação, ao contrário, tem propiciado
enormes benefícios à humanidade. Desse exercício
de aplicação do conhecimento surgiram, por exemplo, o
telefone, a lâmpada elétrica e o avião. No âmbito
estrito das empresas, nasceram os programas que tornaram o computador
amigável e nos permitem usar interativamente a Internet. Está
demonstrado por várias organizações que o incentivo
ao empreendimento resulta, na maior parte das vezes, não somente
em lucro para a empresa, mas em riqueza coletiva.
A idéia básica é a de que as empresas podem se
valer de talentos para buscar negócios e desenvolver novos e
lucrativos produtos. Na verdade, não bastam as boas intenções.
É fundamental montar um cardápio de ações
para os homens e mulheres que se apresentam como voluntários
para essas fascinantes tarefas. O fomento de iniciativas dessa natureza
se materializa por meio de necessárias regras que possam balizar
atitudes, estipular metas e definir os foros decisórios.
9.
O empreendedor corporativo no Brasil
Apesar de não ser substancialmente diferente do observado em
outros países, o intra-empreendedorismo no Brasil ainda é
um conceito novo e tem suas particularidades. Este é um país
em que os juros são altos e os tributos excessivos. Só
isso seria suficiente para desanimar qualquer homem de negócios.
No entanto, apesar das dificuldades, ao longo do tempo, nossa economia
teima em crescer, nossa indústria insiste em se manter competitiva
e há sempre alguém disposto a assumir o risco do progresso.
O ideograma chinês para crise é o mesmo para a oportunidade.
Nada mais justo. Quem passa pela crise e resiste sai dela fortalecido.
Quem nasce na crise tem chances maiores de obter os conhecimentos necessários
à sobrevivência.
Talvez seja o nosso caso. Entre uma crise e outra, nossa democracia
fortalecida permitiu a alternância de poder e a ascensão
de novos personagens à ribalta política. Com eles, apresenta-se
um renovado conjunto de idéias e proposições. Não
há dúvida de que os ventos sopram a favor de novas ações
empreendedoras. Os tempos são de estímulo às atividades
produtivas e de um novo pacto entre os atores sociais. São eles:
o governo, o empresariado, os investidores e os trabalhadores. Sem dúvida,
ainda padecemos do fardo burocrático, da dificuldade de acesso
a investimentos e da falta de proteção aos direitos de
propriedade intelectual. No entanto, contamos com um mercado consumidor
em crescimento, uma base industrial razoável, uma disposição
do Congresso para atualizar as leis fiscais e trabalhistas, além
de considerável oferta de mão-de-obra qualificada. O brasileiro,
por natureza, tem facilidade de adaptação e aprende com
rapidez.
No que toca ao plano político, há razões para se
acreditar em uma mudança de rumos: especular menos e produzir
mais. Grosso modo, para financiar seus projetos sociais, o governo precisa
estimular a produção e aquecer o consumo. Só assim
poderá arrecadar mais e capacitar-se a eliminar a pobreza e oferecer
educação e saúde a todos os brasileiros. Portanto,
a função do intra-empreendedor reveste-se de especial
importância. Além de concretizar suas aspirações
pessoais no campo do trabalho, esse profissional funcionará como
dinamizador das empresas e como agente local da transformação
macro-econômica que deve marcar o Brasil do novo século.
Combinam-se, portanto, a “necessidade” e a “oportunidade”.
Em recente palestra, Peter Drucker destacou a competitividade brasileira
no novo cenário mundial. Segundo ele, o País prima pela
versatilidade e adaptabilidade, o que o credencia para aproveitar as
novas oportunidades nesse cenário de formação de
blocos comerciais e de fortalecimento de economias emergentes. Drucker
acredita que estamos mais adaptados a situações como joint-ventures,
parcerias e empreendedorismo do que muitos países europeus. “A
mudança não se gere. Descobre-se. Antecipa-se. Lidera-se.
Os tempos de transição e de oportunidade são para
empreendedores, não para gestores”, afirma.
Neste sentido, vale lembrar o que Pinchot afirma sobre as virtudes múltiplas
e necessárias do “intrapreneurismo”. Segundo ele,
não se trata somente de aumentar o nível de inovação
e de produtividade nas organizações. “Trata-se de
uma forma de organizar vastas empresas, de modo que o trabalho volte
a ser uma expressão alegre da contribuição da pessoa
à sociedade”, sentencia. A liberdade empreendedora deve
aproximar as empresas dos reais problemas do cotidiano. Os experimentos
devem resultar em soluções para as dificuldades do capitalismo,
especialmente no que tange a questões urgentes como preservação
ambiental, distribuição de renda, educação,
saúde e formação de profissionais e geração
de empregos. Aquilo que hoje se apresenta como obstáculo ao crescimento
econômico pode se transformar justamente no objeto das ações
empresariais no futuro. Trabalhar na eliminação desses
problemas crônicos representa um exercício da cidadania
e, ao mesmo tempo, uma chance de estabelecimento de novos negócios.
10.
A revolução do Novo Brasil
Este início de 2003 marca o início de um novo governo,
democraticamente eleito, sob o signo de um processo de transição
inimaginável no Brasil há menos de 12 anos. Um governo
que se propõe a realizar uma série de mudanças,
particularmente no terreno social. Entre as mudanças mais significativas
e esperadas encontra-se a geração de milhões de
empregos. Tarefa das mais difíceis, se não forem rapidamente
encontrados os caminhos do equilíbrio das finanças públicas
e, por conseguinte, do crescimento econômico.
Está provado no relatório do GEM, já mencionado,
e em outras tantas pesquisas locais e internacionais, que existe uma
correlação positiva entre atividade empreendedora e crescimento
da atividade econômica. Aqui se coloca uma excelente oportunidade
para que o novo governo pratique políticas públicas que
venham a estimular o empreendedorismo e a educação para
a abertura de novos negócios.
Nas palavras do jornalista Diógenes Ribeiro, da revista Empreendedor,
“o quadro complexo que se desenha para a nova administração
deve deixar os empreendedores numa lista de espera que conta ainda com
sem-terra, funcionários públicos, agricultores e aposentados.”
No entanto, diversas declarações do presidente Lula da
Silva e de membros seniores de seu gabinete têm confirmado suas
intenções manifestadas durante a campanha. Um bom exemplo
é a provável mudança de rumo que o BNDES deverá
implementar na concessão de empréstimos para as empresas
de pequeno e médio porte. Para que se tenha idéia de como
não é fácil a vida do empreendedor, do total de
empréstimos concedidos pela instituição até
setembro de 2002, somente 21% chegaram às mãos das pequenas
e médias empresas.
O estímulo ao empreendedorismo, sob diversas formas, pode e deve
facilitar o alcance do objetivo de gerar novos empregos. Basta fazê-lo
de forma articulada por meio dos diversos mecanismos e órgãos
já existentes como, por exemplo, o Sebrae e as diversas incubadoras
de novas empresas, e também por intermédio de parcerias
com as universidades e empresas privadas.
Segundo o estudo do GEM, existem pelo menos 14,4 milhões de brasileiros
que já estão tomando o risco de ser empresários,
27% deles na faixa de 25 a 34 anos, 42% mulheres. Um contingente que,
recebendo o apoio correto e necessário, pode alavancar milhões
de postos no mercado de trabalho.
O Brasil tem todos os elementos necessários para iniciar uma
verdadeira revolução empreendedora, com benefícios
tangíveis para toda a sociedade. É imprescindível
que os setores público e privado trabalhem em sintonia fina para
que isto se produza e possa se transformar numa profecia auto-realizável
ainda dentro deste mandato presidencial.
Referências
bibliográficas
BRITTO, F.; WEVER, L. Empreendedores Brasileiros. São
Paulo: Negócio Editora, 2002.
CHER, R. O Meu Próprio Negócio. São Paulo:
Negócio Editora, 2002.
DRUCKER, P. Desafios Gerenciais para o Século XXI e
outras obras de referência. Editora Pioneira, 1999 e outros anos.
DRUCKER, P. / EXPO MANAGEMENT. Management: A nova Organização
e a Nova Estratégia. Vídeo conferência, 2001.
JULIO, C. A. Reinventando Você. Rio de Janeiro: Editora
Campus, 2002.
MARCONDES, P.; WOLLHEIM, B. Empreender não é Brincadeira.
São Paulo: Negócio Editora, 2002.
PINCHOT III, G. Intrapreneuring – Por que você não
precisa deixar a empresa para tornar-se um empreendedor. São
Paulo: Editora Harbra Ltda.,1989.
SCHUMPETER, J. Capitalism, Socialism and Democracy. New York:
Harper, 1975.
The American Heritage Dictionary of the English Language, 1992:
(in-tra-pre-neur (InÕtre-pre-nur) n. A person within a large
corporation who takes direct responsibility for turning an idea into
a profitable finished product through assertive risk-taking and innovation
[intra(corporate) + (ENTRE)PRENEUR.])
www.endeavor.org.br – Instituto Empreender Endeavor
www.ibens.org – Instituto Brasileiro de Educação
em Negócios Sustentáveis
www.empreendedor.com.br – Revista Empreendedor
www.gemconsortium.org – Global Entrepreneur Monitor
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