Os efeitos da Alca, considerando-se o papel das empresas estrangeiras

Renato Baumann e Francisco Galrão Carneiro*

Resumo: A análise dos efeitos de um processo de integração regional é tradicionalmente feita a partir das estimativas de criação e desvio de comércio, com base na redução das barreiras comerciais existentes. Neste trabalho mostramos que a presença de subsidiárias de empresas estrangeiras – e a alta probabilidade de vínculos comerciais dessas empresas com suas matrizes – qualificam os resultados em termos dos impactos setoriais.

Palavras-chave: Alca, Impactos Setoriais, Papel das Empresas Estrangeiras.

1. Introdução

Desde o trabalho de Viner (1950), a análise dos efeitos dos processos de integração entre duas economias tem, tradicionalmente, se concentrado em identificar os efeitos – sobre a balança comercial e a estrutura produtiva dos países envolvidos – derivados da redução ou eliminação das barreiras comerciais.

Os dois conceitos básicos propostos por Viner – criação de comércio (surgimento de novas atividades no comércio entre os países envolvidos) e desvio de comércio (redução de importações de itens ofertados por terceiros países) – permanecem norteando a maior parte das análises. Assim, pode-se dizer que um processo de integração pode ser considerado benéfico do ponto de vista social quando o primeiro efeito supera o segundo, num horizonte de tempo aceitável.

A avaliação ex-ante das conseqüências de um exercício de integração tende, portanto, a identificar esses dois efeitos, a partir, basicamente, da simulação dos efeitos derivados da redução ou eliminação das barreiras comerciais entre os países participantes desse exercício.

Esse tipo de enfoque está baseado em alguns supostos, um dos quais o de que o comércio internacional tem lugar entre empresas distintas, nos diversos países. A produção de cada item é feita em uma planta produtiva, em um dado país. Os ganhos obtidos passam a compor a renda nacional do país em que cada empresa está sediada, e assim os países passam a atuar em apoio a suas unidades mais competitivas, em contraposição às unidades mais competitivas dos demais países (Markusen e Venables, 1995). No entanto, a literatura sobre empresas transnacionais tem chamado a atenção para alguns aspectos das relações entre matriz e subsidiárias que qualificam a propriedade e atualidade de tal suposto. Isso tem dado origem a todo um ramo da teoria de comércio internacional, associado às transações intra-firmas. No entanto, sua relação com as análises de processo de integração regional não tem sido devidamente explorada.

Neste trabalho, fazemos um esforço para aproximar esses dois campos teóricos a partir da análise da orientação geográfica das principais empresas exportadoras brasileiras, com inferências para os possíveis efeitos da criação de uma área de livre comércio hemisférica. O argumento é de que, se as empresas exportadoras de capital externo têm interação comercial com suas matrizes, então há argumentos para qualificar os resultados dos exercícios que procuram estimar a magnitude da criação e desvio de comércio associados à Alca.

A hipótese básica do trabalho é verificar se as empresas de capital estrangeiro com transações comerciais com o resto do mundo tendem a concentrar suas exportações e importações no país de origem do capital, mais que em outros países. Caso essa hipótese possa ser comprovada, existiriam argumentos que fazem supor que as estimativas de criação e desvio de comércio a partir da distribuição setorial das barreiras comerciais deveriam ser qualificadas pelo papel desempenhado pelos agentes econômicos atuantes em cada setor. A preocupação que norteia nossa análise está ancorada no processo de negociações para a formação da Alca, mas por tratarmos do caso das principais empresas exportadoras brasileiras ela é também de utilidade geral para qualificar exercícios de simulação de criação e desvio de comércio.

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* Renato Baumann é funcionário da CEPAL e professor da Universidade de Brasilia.
Francisco Galrão Carneiro é professor da Universidade Católica de Brasília.
As opiniões expressas aqui são de inteira responsabilidade dos autores, não refletindo necessariamente a posição das instituições mencionadas. Os autores agradecem à SECEX o acesso à base de dados de empresas exportadoras e a Rogério Boueri Miranda, Leandro Magalhães e Paulo Roberto da Silva Jr. pela ajuda no processamento dos dados.



2. Racionalidade

A explicação teórica para os fluxos de comércio internacional a partir da disponibilidade de fatores produtivos nos diversos países já há algum tempo tem se mostrado insuficiente. Desde a década de 50 o reconhecimento de que a maior parte do comércio internacional de bens consiste do intercâmbio de produtos industrializados e ocorre entre países desenvolvidos deu origem a proposições alternativas, que procuram explicar o comércio desse tipo de produtos. As formulações a partir de um “ciclo do produto” (Vernon, 1966) ou do hiato tecnológico entre países (Posner, 1961) são dois dos exemplos mais expressivos.

Mais recentemente, o enfoque teórico que associa organização industrial e teoria do comércio (a chamada “nova teoria de comércio”) foi um avanço metodológico (Helpman e Krugman, 1985). Tal enfoque permitiu explorar linhas explicativas para os resultados associados, por exemplo, a empresas transnacionais e às relações comerciais entre matriz e subsidiárias, ao considerar elementos como rendimentos crescentes de escala, concorrência imperfeita e diferenciação de produtos.

A incorporação desses elementos – rendimentos crescentes de escala, concorrência imperfeita e diferenciação de produtos – à análise permite, por exemplo, conceber que haja especialização no comércio em produtos que não correspondem à dotação relativa de fatores produtivos, do mesmo modo que dão margem a processos produtivos complementares, entre plantas produtivas situadas em países distintos, levando à intensificação de transações intra-firma, à diferença do postulado pela teoria tradicional. O argumento básico é de que, para certos tipos de produtos, a integração vertical internacional dos processos produtivos pode ser uma pré-condição para a eficiência produtiva.

Esse tipo de situação requer a identificação dos atributos que tornam as transações internas à firma mais rentáveis do que as transações com outras empresas. Com freqüência, os argumentos estão relacionados aos requerimentos – no processo produtivo – de trabalhadores com alto grau de especialização e/ou à hipótese de que a venda de produtos aos consumidores externos demanda mais do que simplesmente o processamento industrial do produto, envolvendo, adicionalmente, serviços de apoio técnico.

Resultado semelhante pode ser determinado, por exemplo, a partir dos efeitos de barreiras à movimentação internacional dessa mão-de-obra especializada, ou da existência de diferenças na legislação relativa a patentes, licenciamento e outras formas de operação por parte de grandes firmas

O aspecto relevante é que a existência de barreiras ou de requerimentos desse tipo para o processo de produção ou comercialização eleva os custos de uma empresa.  A empresa precisa controlar, em outro país, próximo aos consumidores, atividades que diferem do processo produtivo como tal. Isso impõe a necessidade de lidar com esse tipo de serviço no país de origem e no outro país, se a empresa pretende operar em ambos os mercados. Assim, pode vir a ser relativamente mais barato e eficiente para a grande empresa operar essas etapas internamente, sobretudo no caso de atividades que são específicas à empresa Isso dá origem a transações de tipo interno à firma, mesmo entre unidades localizadas em territórios nacionais distintos.

Cabe ressaltar que esse tipo de procedimento não é universal, e se aplica apenas (ou com mais intensidade) a alguns tipos de produtos. Em geral, aqueles produtos e serviços que demandam mais intensamente mão-de-obra altamente especializada. Assim, por exemplo, estudo recente da OCDE indica que o percentual de transações intra-firma tende a ser elevado (acima de 50% do total das transações internacionais das empresas) nas indústrias farmacêutica, de computadores, de semi-condutores e de veículos automotores. O mesmo estudo encontra percentuais inferiores a 10% para as indústrias de aço e vestuário (OCDE, 1996).

A conclusão é de que – confirmando a racionalização apresentada acima – as empresas das indústrias intensivas em conhecimentos científicos e produção em larga escala dependem mais de insumos de alta tecnologia, alta qualidade, alto grau de capacitação dos trabalhadores e peças e componentes altamente especializados. Sua aquisição tem elevado valor estratégico para as empresas, de modo que elas preferem manter controle direto sobre a provisão desses insumos, por meio de investimento direto e de transações internas à empresa.

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  1. Exemplos de modelos nessa linha são os de Markusen e Maskus (1999) e Baldwin (1988).
  2. Por exemplo, no caso de empresas que detêm o monopólio da patente da matéria-prima ou dos componentes e do produto final (farmacêutica, produtos de informática).
  3. Resultados semelhantes aos apresentados em Bonturi e Fukasaku (1993). Algo nessa linha foi encontrado igualmente para as relações comerciais entre empresas japonesas e suas subsidiárias em Takeuchi (1990
3. Metodologia

3.1 - Dados


Empiricamente, os dados sobre transações intra-firma são disponíveis de forma sistemática apenas para os Estados Unidos – a partir da publicação, pelo Departamento de Comércio, dos dados de comércio das empresas norte-americanas com suas subsidiárias – e para o Japão. As estimativas situam o comércio intra-firma como correspondendo a entre 30 e 40% do comércio externo total dos Estados Unidos.

No Brasil, apenas a partir do Censo do Capital Estrangeiro de 1995, feito pelo Banco Central, foi possível ter alguma idéia da dimensão relativa desse tipo de transações (em torno de 20%), embora não desagregada por setor

Estudo recente realizado pela Secretaria da Receita Federal a partir de amostra das seis maiores empresas exportadoras e sete maiores importadoras brasileiras confirma em parte a concentração setorial das transações intra-firma: os percentuais são mais elevados entre as primeiras na fabricação e montagem de veículos automotores e no comércio atacadista, e entre as importadoras na fabricação de produtos químicos e na fabricação de máquinas e equipamentos (SRF, 2002).

A inexistência de informações detalhadas por setores ou empresas no caso brasileiro é certamente uma dificuldade para pesquisas sobre comércio intra-firma. Uma alternativa metodológica alternativa foi adotada por Baumann (1995), e é esse o enfoque utilizado aqui. Dada a falta de informações específicas, supomos que exista uma relação estreita entre a propriedade do capital de uma empresa e os canais de comercialização de sua produção no país de origem do capital. Assim, para uma empresa cujo capital é preponderantemente originário de um país A, suas transações comerciais com esse país devem ser, essencialmente, com a matriz da empresa e com os canais de comercialização que a matriz utiliza em A, sendo as transações com terceiros, se existentes, em grau muito reduzido. Este não é certamente o conceito de comércio intra-firma, mas é a melhor aproximação empírica, em vista da disponibilidade de dados.

Para a análise, foi possível contar com tabulação especial fornecida pela Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), com dados das mil maiores empresas exportadoras do Brasil em 1995 e 2000. Cada firma foi identificada pela sua inscrição junto ao Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), de forma que empresas de um mesmo grupo, mas com CNPJs distintos, foram consideradas separadamente. Como a dimensão relevante para análise é a propriedade do capital das empresas, foi feita a identificação da propriedade de capital para essas empresas, a partir de informações sobre o país de origem do capital de cada empresa, com base nos sites das empresas na Internet e em publicações especializadas.

As informações disponíveis constavam, portanto, da propriedade do capital, dos valores das exportações em 2000 (discriminadas por país de destino das vendas por produtos), das exportações e mercado de destino por empresas e produtos para o ano de 1995, e das importações (por país de origem das importações de cada produto) realizadas pelas mil maiores exportadoras no ano de 2000. Essas empresas foram responsáveis por cerca de 84% do total das exportações brasileiras nesse período.

Foram obtidos valores das exportações em 1995 para 459 empresas e valores de importação em 2000 para 291 empresas. Do mesmo modo, foi necessário identificar o setor de atuação das empresas, a partir da classificação setorial dos principais produtos exportados por cada uma. O setor de atuação de cada empresa foi definido a partir da Tabela de Códigos e Descrições da Classificação Nacional de Atividades Econômicas – CNAE. Foi possível identificar o setor de atuação de 768 das mil empresas.

Os dados relativos ao patrimônio líquido das empresas (1995 e 2000) e às suas receitas líquidas (para os mesmos anos) foram coletados da edição anual das “Mil Maiores Empresas Brasileiras”, publicada pela Gazeta Mercantil. Foram obtidas informações de 356 empresas quanto à sua receita líquida em 1995, e de 435 quanto à sua receita líquida em 2000. Em relação ao patrimônio líquido das empresas, foram obtidas 318 informações para 1995 e 404 para o ano de 2000.

A maior dificuldade na identificação dos valores de receita e patrimônio líquido veio do fato de que aquela publicação agrega as várias empresas com CNPJ diferente em uma só holding, enquanto os dados da SECEX são desagregados por unidades produtivas. A solução encontrada foi dividir os totais de receita líquida e patrimônio líquido entre as diversas empresas de um mesmo grupo, nesses casos.

Considerando-se em forma conjunta todas as variáveis relevantes – exportações por países de destino, receita líquida e patrimônio líquido em 1995 e 2000 –, foram selecionadas 182 empresas. Dessas, 139 são de capital nacional. Assim, a análise de comportamento das empresas estrangeiras foi feita a partir de amostra com 43 empresas.

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  1. O segundo Censo do Capital Estrangeiro indicou que esse tipo de comércio atingiu em 2000 US$ 21 bilhões, correspondendo a 38% do total exportado. Do lado das importações o valor passou de US$ 8,5 bilhões para US$ 18,2 bilhões no mesmo período, representando respectivamente 17% e 33% do valor importado em 1995 e 2000.
  2. Como o Guia Interinvest e “Mil Maiores Empresas Brasileiras”, publicada pela Gazeta Mercantil. O critério básico foi classificar como estrangeiras as empresas com controle externo de pelo menos 25% do capital e/ou maior parte do capital votante.
  3. Exportações e importações em valores.

A Tabela 1 resume as informações básicas para cada variável.

Tabela 1 - Totais de Informação por Variável

Variável
N° de informações
Exportações 2000
1.000
Exportações 1995
459
Importações 2000
291
Receita Líquida 2000
435
Receita Líquida 1995
356
Patrimônio Líquido 2000
318
Patrimônio Líquido 1995
404
Setores Econômicos
768
Empresas com todas as informações (exportações por países de destino, receita líquida e patrimônio líquido em 1995 e 2000)
55
Empresas estrangeiras com todas as informações (exportações por países de destino, receita líquida e patrimônio líquido em 1995 e 2000)
43

3.2 – Estatísticas

Os gráficos 1 e 2 mostram a distribuição das exportações e importações realizadas pelas mil maiores empresas exportadoras, de acordo com o país de origem do capital controlador.

Gráfico 1 – Brasil – Mil Maiores Empresas Exportadoras em 2000:
Distribuição das Exportações por Origem de Capital

Gráfico – 2 Brasil – Mil Maiores Empresas Exportadoras em 2000:
Distribuição das Importações por País de Origem do Capital

Embora a maior parte das exportações da amostra seja realizada por empresas nacionais, as empresas com capital originário dos EUA, Alemanha e Itália ocupam posição de destaque neste quesito. De modo semelhante, observa-se forte concentração no valor importado, sendo mais de ¾ das importações efetuadas por empresas nacionais (mais da metade), norte-americanas e alemãs.

A Tabela 2 mostra o número de empresas por país de origem do capital controlador. Há uma forte concentração, entre as empresas estrangeiras do grupo das maiores exportadoras, de empresas com capital originário dos Estados Unidos, Alemanha e França (2/3 das 228 estrangeiras).

Tabela 2 - Número de Empresas por País

PAÍS
N° de Empresas
BRASIL

660

EUA

82

ALEMANHA

43

FRANÇA

22

JAPÃO

19

SUIÇA

18

ITÁLIA

15

CANADÁ   

2

BERMUDA

15

REINO UNIDO

12

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  1. Não foi possível conseguir maiores informações sobre aquelas empresas com capital registrado como de origem nas Bermudas.

Quando consideradas as exportações por setor, observa-se razoável concentração: as quatro principais atividades econômicas – Alimentos e Bebidas, Metalurgia, Veículos e Minerais Metálicos – são responsáveis por mais da metade das vendas ao exterior, e os doze maiores setores respondem por mais de 90% do total exportado da amostra, como pode ser visto no Gráfico 3.

Do lado das importações da amostra, 2/3 delas foram realizadas por empresas operando nos setores de veículos e autopeças, química e petroquímica, eletrodomésticos e metalurgia.

Gráfico 3 – Brasil – Mil Maiores Empresas Exportadoras em 2000:
Distribuição das Exportações por Setor Econômico

Gráfico 4 – Brasil – Mil Maiores Empresas Exportadoras em 2000:
Distribuição das Importações por Setor Econômico

 

 

4. Análise Empírica

Os resultados estimados para a análise dos determinantes do desempenho exportador das empresas consideradas aparecem na Tabela 3. As variáveis consideradas foram:

expinc – taxa de crescimento das exportações por empresa entre 1995 e 2000.

comext – taxa de inserção da empresa no comércio exterior (importações da empresa em 2000 mais exportações da empresa em 2000 sobre a receita da empresa em 2000).

impsal – proporção entre as importações da empresa em 2000 e sua receita líquida naquele ano.

salinc – taxa de crescimento da receita líquida por empresa entre 1995 e 2000.

destsur – variável dummy que capta se mais do que 25% das exportações da empresa em 2000 se destinaram a países do Mercosul.

destalca – variável dummy que capta se mais do que 45% das exportações da empresa em 2000 se destinaram a países da Alca.

destnafta – variável dummy que capta se mais do que 54% das exportações da empresa em 2000 se destinaram a países da Nafta.

Esses resultados sugerem que empresas com alto nível de inserção no comércio exterior e que registraram algum crescimento nas vendas entre 1995 e 2000 também apresentaram crescimento das exportações. Esse crescimento parece ter ocorrido preferencialmente em empresas com canais de exportação para países do Mercosul, Nafta e da Alca, como sugerem os coeficientes positivos das variáveis que indicam o destino preferencial das exportações dessas empresas (destsur, destalca e destnafta).

O modelo estimado apresenta-se estatisticamente robusto, com um coeficiente de determinação ajustado para o número de graus de liberdade de cerca de 37%, uma estatística Durbin-Watson de 1,895 (sugerindo que não há evidência de anormalidades nos resíduos e na forma funcional), e todas as variáveis explicativas com seus respectivos coeficientes estatisticamente diferentes de zero. 

A amostra para essa estimação continha apenas 43 empresas do total de 182  presentes no banco de dados. O menor número de empresas se deveu, principalmente, à falta de informações relativas às importações para várias empresas nos anos de 1995 e 2000. Assim, como estamos trabalhando com taxas de crescimento, a ausência de qualquer informação para qualquer das variáveis em apenas um desses anos implica a exclusão da respectiva empresa da amostra. Dessa forma, os resultados devem ser interpretados com o devido cuidado, uma vez que estão baseados numa amostra de tamanho reduzido.

O coeficiente da variável comext indica que um incremento de 1 ponto percentual na taxa de inserção no comércio exterior de uma determinada empresa implica um acréscimo de cerca de 2,14 pontos percentuais em suas exportações. Tal resultado é corroborado pelo coeficiente da variável salinc, que representa o aumento observado nas vendas das empresas entre 1995 e 2000. Seu coeficiente positivo indica que um incremento de 1 ponto percentual nas vendas traduz-se num incremento de cerca de 0,38 pontos percentuais nas exportações totais das empresas.

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  1. Os níveis de corte por blocos regionais foram determinados pelo procedimento descrito acima.
  2. Ver seção 3.2.

Chama a atenção na Tabela 3 a indicação de que, se a proporção entre as importações e a receita líquida da empresa cresce, a taxa de incremento de suas exportações decresce, como sinaliza o coeficiente negativo da variável impsal. Ou seja, para um incremento de 1 ponto percentual na razão importações/receita líquida, há uma redução na taxa de incremento das exportações em cerca de 1,70 ponto percentual. No entanto, o coeficiente negativo para impsal não implica necessariamente a inexistência de um círculo virtuoso entre importações e exportações: ele pode estar refletindo apenas o fato de empresas que já possuem grande participação no comércio exterior também apresentarem maior dificuldade em expandir tal participação. Para que fosse possível testar a existência desse círculo virtuoso, seriam necessários dados sobre importações em 1995.

No que diz respeito à relação entre propriedade de capital e destino das exportações, nossas estimativas mostram alguns resultados interessantes. Por exemplo, empresas que exportam preferencialmente para o Mercosul, para o Nafta, ou para a Alca tenderam a se beneficiar do maior volume de comércio gerado entre 1995 e 2000, em comparação com aquelas que exploraram, preferencialmente, outros mercados.

Essa afirmação é corroborada pelos coeficientes positivos e estatisticamente significativos das variáveis dummy destsul, destalca e destnafta, que capturam o impacto do destino das exportações de uma determinada empresa sobre a taxa de incremento de suas exportações totais. Assim, pode-se dizer que as empresas que destinaram mais de 25% de suas exportações totais para o Mercosul no ano de 2000 apresentaram uma taxa de incremento de suas exportações cerca de 0,76 ponto percentual acima daquela registrada pelas empresas que exportaram menos do que esse montante para o Mercosul.

Tabela 3 - Determinantes da Taxa de Incremento das Exportações
(1995 – 2000)

Variáveis Explicativas Coeficientes Estimados
Constante

Comext

Impsal

Salinc

Destsul

Destalca

Destnafta
-4,5524
(1,424)
2,1353
(0,503)
-1,6904
(0,397)
0,3834
(0,148)
0,7629
(0,495)
0,2447
(0,549)
1,1451
(0,484)

N
R2
R2 Ajustado
Durbin-Watson

43
0,4599
0,3699
1,8950

Nota: Os números entre parênteses são os erros-padrões de cada coeficiente.

Da mesma forma, as empresas que comprometeram mais de 45% de suas exportações com países da Alca apresentaram uma taxa de incremento de suas exportações que foi cerca de 0,25 ponto percentual superior àquela registrada pelas empresas que exportaram abaixo desse volume para a Alca.

Por fim, as estimativas indicam que empresas com percentagem de exportações para países do Nafta superior a 54% obtiveram uma vantagem em termos de incremento nas seus negócios externos de 1,15 ponto percentual em relação às demais, refletindo o destacado dinamismo daquele mercado no período considerado.

4.1 - O Caso das Empresas Norte-Americanas e Canadenses

As empresas norte-americanas e canadenses da amostra exportaram um total de US$ 6,3 bilhões em 2000, contra um total de US$ 2,9 bilhões em 1995, o que significa um crescimento de 114,2% nas exportações de tais empresas no período, bem superior ao crescimento das exportações totais da amostra, que foi de 20,7% (de US$ 38,3 bilhões para US$ 46,3 bilhões).

É interessante notar que a participação das exportações para os EUA e Canadá no total das exportações dessas empresas decresceu. Em 1995 elas exportavam 27,6% do total para EUA ou Canadá, enquanto que em 2000 essa proporção foi de 20,7%.

O Gráfico 5 mostra os outros principais países de destino das exportações das empresas com capital norte-americano e canadense, enquanto o Gráfico 6 mostra a participação setorial dessas exportações, o Gráfico 7 ilustra a distribuição geográfica dos países de origem das importações da amostra, e o Gráfico 8 mostra a distribuição das importações por setor econômico das empresas.

Gráfico 5 – Brasil – Maiores Exportadoras Canadenses e Norte-Americanas em 2000:
Destino das Exportações – Percentual por Países

Segundo o Gráfico 5, houve em 2000 uma razoável dispersão geográfica nas exportações dessas empresas: o agrupamento de “outros mercados” absorveu 57% do valor exportado. Merece destaque ainda o efeito Mercosul, com a Argentina sendo o mercado de destino para 14% das exportações.
Em termos setoriais, segundo o Gráfico 6, 40% do valor total exportado por essas empresas correspondeu àquelas situadas nos setores de veículos e autopeças, metalurgia e mecânica.
Ao se considerar a origem geográfica das importações (Gráfico 7), ainda o agrupamento “outros países” aparece como principal origem, com 56% (semelhante às exportações), mas o peso relativo dos EUA é o dobro do constatado nas vendas externas. Esse resultado reforça a relevância da análise do impacto potencial da Alca: as subsidiárias de empresas norte-americanas e canadenses em operação no Brasil têm uma estrutura geográfica razoavelmente diversificada para suas exportações, mas dependem dos EUA para quase 40% de suas importações.

Gráfico 6 – Brasil – Maiores Exportadoras Canadenses e Norte-Americanas em 2000:
Exportações – Percentual por Setores

Em termos setoriais (Gráfico 8), 2/3 das importações dessas subsidiárias são realizadas por empresas dos setores de veículos e autopeças, química e petroquímica, eletrodomésticos e metalurgia .

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  1. Note que há alguma semelhança com os setores nos quais o estudo da OCDE mencionado anteriormente encontrou indicações de transações mais intensas de tipo intra-firma.

Gráfico 7 – Brasil – Maiores Exportadoras Canadenses e Norte-Americanas em 2000:
Importações por Países


As importações realizadas por essas empresas em 2000 totalizaram US$ 3,6 bilhões, dos quais 38,3% foram provenientes de seus países de origem. É preciso destacar que, a despeito da proporção das importações ter sido maior que a das exportações em 2000 (37,5% contra 20,7%), o seu comércio com os países de origem foi superavitário em US$ 2,8 bilhões.

Gráfico 8 – Brasil – Maiores Exportadoras Canadenses e Norte-Americanas em 2000:
Distribuição das Importações por Setor Econômico

4.2 Considerando os Blocos Regionais

Foram realizados quatro experimentos análogos, utilizando-se um modelo probabilístico (Probit), para diferentes blocos comerciais. Em cada modelo, a variável dependente foi construída a partir da proporção das exportações de cada empresa para um determinado destino. Se essa proporção excedesse uma determinada linha de corte , a variável assumiria valor 1; caso contrário, o valor seria 0.

Esses quatro modelos utilizaram-se das mesmas variáveis exógenas. A variável expsal descreve a proporção entre as exportações totais em 2000 e a receita líquida da empresa em 2000; exppat é proporção entre as exportações totais em 2000 e o patrimônio líquido da empresa em 2000; expinc, a taxa de crescimento das exportações por empresa entre 1995 e 2000; salinc, a taxa de crescimento da receita líquida por empresa entre 1995 e 2000; e patinc, a taxa de crescimento do patrimônio líquido por empresa entre 1995 e 2000.

Os resultados estimados aparecem na Tabela 6. O número de observações utilizadas nas diversas estimações diferiu, em função das características dos modelos estimados e do banco de dados.

Nos modelos (2a), (3a) e (4a), foram utilizadas 182 observações, ou seja, todas as observações disponíveis que continham as seguintes variáveis: exportações da empresa por países de destino em 1995 e em 2000, receita líquida da empresa em 1995 e em 2000 e patrimônio líquido da empresa em 1995 e em 2000.

No modelo (1a), o número de observações utilizadas foi de apenas 43. Isso porque das 182 observações utilizadas nos modelos (2a), (3a) e (4a), 139 foram descartadas por tratarem-se de empresas brasileiras, não fazendo sentido o exame de suas exportações para o seu país de origem. Além disso, como todos os modelos fazem uso de diversas variáveis que são taxas de variação entre 1995 e 2000, a sua estimação para 1995 isoladamente não foi possível.

Pela Tabela 6, nota-se que, em todos os modelos apresentados, obtivemos o mesmo padrão. De uma forma geral, em todos os casos houve uma associação positiva entre o volume exportado, a taxa de crescimento da receita líquida e a taxa de crescimento das exportações. Já a proporção entre as exportações totais e a receita líquida, bem como a proporção entre as exportações totais e o patrimônio líquido da empresa, mostraram-se negativamente correlacionadas com a probabilidade de exportar para o país de origem do capital ou para algum bloco regional de comércio.


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  1. As linhas de corte – obtidas a partir de algoritmo específico – foram as seguintes: a) país de origem do capital majoritário da firma: 15%; países da ALCA: 33%; países do NAFTA: 39%; países do Mercosul: 25%.
Modelos ® Probit
Variáveis ¯   (1a) (2a) (3a) (4a)
Constante 0.6423 (0.448) 0.3021 (0.156) 0.7280 (0.165) 0.8716 (0.175)
Expsal
-0.0014 (0.001) -0.0012 (0.001) -0.0009 (.0005) -0.0003 (0.001)
Exppat
0.0000 (0.000) -0.0001 (0.000) 0.0002 (.0001) -0.0002 (0.000)
Expinc
0.0997 (0.063) 0.0303 (0.003) -0.0219 (0.010) 0.0249 (0.003)
Salinc
0.1998 (0.140) 0.0019 (0.000) 0.0009 (.0005) 0.0023 (0.000)
Patinc
0.0213 (0.160) -0.0228 (0.027) -.00007 (.0001) -0.0626 (0.044)
N 43 182   182
L.R. Chi-Square 59.16 199.79 201.96 149.95

Notas: Os números entre parênteses são os erros-padrões de cada coeficiente.

(1a) Variável dependente destino1 assume valor 1 se a proporção das exportações de cada empresa para o país de origem de seu capital exceder 15% do total, caso contrário assume valor 0.

(2a) Variável dependente destino2 assume valor 1 se a proporção das exportações de cada empresa para países da Alca exceder 33% do total, caso contrário assume valor 0.

(3a) Variável dependente destino3 assume valor 1 se a proporção das exportações de cada empresa para países do Mercosul exceder 25% do total, caso contrário assume valor 0. (2a) Variável dependente destino4 assume valor 1 se a proporção das exportações de cada empresa para países da Nafta exceder 39% do total, caso contrário assume valor 0.

A despeito do fato de os coeficientes estimados apresentarem um baixo valor absoluto, os coeficientes positivos associados às variáveis expinc e salinc sugerem que empresas com aumento das vendas e das exportações entre 1995 e 2000 canalizaram seus negócios para os países de origem de seu capital, bem como para países da Alca, do Mercosul e do Nafta, acima das proporções de referência.

Esses resultados confirmam – para as subsidiárias norte-americanas e canadenses – um padrão de relação entre tamanho e desempenho exportador semelhante ao do conjunto das empresas. O atributo diferenciado é a interação com o mercado do país de origem do capital. Com base nas empresas constantes de nossa amostra, tentamos estimar equações semelhantes para as firmas com matrizes européias e asiáticas. Os resultados econométricos, no entanto, não se apresentaram robustos. Apesar disso, a análise crua dos dados de exportações e importações dessas empresas sugere que o caso das firmas canadenses e norte-americanas não é uma excentricidade. Pela Tabela 7, por exemplo, pode-se constatar que o país de origem do capital continua sendo o destino preferido do comércio exterior das subsidiárias européias e asiáticas em operação no Brasil.

Isso reforça o apoio à nossa hipótese de que a análise dos agentes econômicos pode levar a resultados de impactos comerciais por setor distintos daqueles obtidos a partir de estimativas de criação e desvio de comércio com base nas estruturas das barreiras às importações.

Tabela 7 – Destino das Exportações e Importações por Origem do Capital – 1995 e 2000
PAÍSES
PERCENTAGEM DAS EXPORTAÇÕES PARA O PAÍS DE ORIGEM
PERCENTAGEM DAS EXPORTAÇÕES PARA O CONTINENTE DE ORIGEM
NÚMERO DE EMPRESAS
ALEMANHA
14,40
16,02
43
FRANÇA
4,60
26,70
23
ITÁLIA
16,31
22,65
16
REINO UNIDO
1,63
24,12
13
TOTAL EUROPA
21,15
95
JAPÃO
19,59
19,59
22
CORÉIA
38,72
38,72
5
TOTAL LESTE ÁSIA
24,27
27
ESTADOS UNIDOS
20,66
23,73
82
 
PAÍSES
PERCENTAGEM DAS IMPORTAÇÕES DO PAÍS DE ORIGEM
PERCENTAGEM DAS IMPORTAÇÕES DO CONTINENTE DE ORIGEM
NÚMERO DE EMPRESAS
ALEMANHA
38.7
44.5
27
FRANÇA
12.8
34.4
10
ITÁLIA
23.7
34.9
8
REINO UNIDO
6.1
27.8
7
HOLANDA
13.7
34.0
5
SUÍÇA
24.2
26.2
3
SUÉCIA
10.7
29.9
3
TOTAL EUROPA
36.0
63
JAPÃO
58.1
59.4
18
CORÉIA
52.9
61.5
2
TOTAL ÁSIA
43.0
52.2
20
ESTADOS UNIDOS
55.4
50


5. Conclusões

Os resultados encontrados neste trabalho indicam que as empresas exportadoras de capital externo têm forte interação com suas matrizes. As empresas que experimentaram um aumento das suas vendas e exportações entre 1995 e 2000 canalizaram seus negócios, preponderantemente, para os países de origem de seu capital.

Além disso, encontramos que, quanto maior o peso do comércio exterior em relação à receita líquida, tanto maior a probabilidade de que a empresa destine uma proporção crescente de suas exportações para o país de origem de seu capital. O mesmo efeito foi observado quando investigamos o impacto do incremento da receita líquida e das exportações totais sobre as exportações para o país de origem do capital.

Assim, pode-se dizer, por exemplo, que empresas com capital preponderantemente norte-americano ou canadense tendem a exportar mais para os EUA ou Canadá respectivamente, na medida em que crescem suas vendas totais e suas exportações totais, e quanto maior for a proporção do comércio exterior na sua receita líquida.

Ao analisarmos a origem geográfica das importações das empresas norte-americanas e canadenses, notamos que o peso relativo dos EUA é o dobro do constatado nas vendas externas, e que as importações são realizadas sobretudo por empresas dos setores de veículos e autopeças, química e petroquímica e eletrodomésticos, em relação aos quais há indicação (na literatura sobre os países industrializados) de incidência de comércio intra-firma.

Essas evidências reforçam a relevância da análise do impacto potencial da Alca: as subsidiárias de empresas norte-americanas e canadenses em operação no Brasil têm uma estrutura geográfica razoavelmente diversificada para suas exportações, mas dependem dos EUA para quase 40% de suas importações, enquanto suas vendas naquele mercado dependem da estrutura de comercialização de suas casas-matrizes.

Esse conjunto de resultados reforça, a nosso ver, o argumento central deste trabalho: a existência de transações intra-firma (que a literatura indica estarem mais concentradas nos setores que envolvem mão-de-obra especializada) pode qualificar as estimativas de efeitos associados a acordos de preferências comerciais, com uma distribuição setorial desses efeitos distinta daquela obtida nas estimativas de criação e desvio de comércio, a partir da estrutura de barreiras às importações.
A título de ilustração, Carvalho e Parente (1999) estimam os efeitos da Alca sobre as exportações e importações brasileiras, a partir de modelo de equilíbrio parcial, com simulação dos efeitos de uma eliminação das tarifas de importação. Seus resultados indicam um aumento de 6,5% nas exportações totais brasileiras, e de 20,6% nas importações totais.

Em comparação com os resultados obtidos aqui, chama a atenção que, no caso das exportações, o impacto estimado por Carvalho/Parente sobre as exportações da indústria química, maquinaria e equipamentos elétricos e equipamento de transporte seja inferior à média, da mesma forma que para as importações da indústria química. O que os indicadores apresentados neste trabalho sugerem é que, provavelmente, se forem levados em consideração os efeitos intra-firma – mais intensos exatamente em segmentos dessas indústrias –, é provável que os resultados sejam distintos daqueles obtidos a partir da análise apenas da estrutura de barreiras comerciais.

De uma forma mais geral, esse conjunto de resultados, ainda que incipiente, parece confirmar resultados de pesquisas para países como os Estados Unidos. Como relata Lipsey (1995), por exemplo, a existência de networks comerciais entre as empresas multinacionais parece melhorar a sua parcela de mercado de exportações, uma vez que as multinacionais norte-americanas tendem a exportar mais para países onde suas matrizes têm a maior concentração de seu capital, e menos para países onde não há filiais.

Acreditamos que os resultados apresentados aqui sejam ilustrativos da importância de se incorporar os tipos de agentes econômicos na análise dos impactos de processos de integração regional, e possam motivar novas análises nessa direção.

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TAKEUCHI, K. Does Japanese Direct Foreign Investment Promote Japanese Imports from Developing Countries?. World Bank, Working Papers No. 458.
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