“A permanência na Residência Artística FAAP, no centro de São Paulo, me deu a possibilidade da produção da minha última serie de quadros. A primeira sensação foi uma impressão mais pálida e fechada do que estava acostumado a viver no porto da cidade de Santos. Me senti “sem chão” e tinha que achar um modo de fazer alguma coisa a partir dessa situação. Massas de pessoas e mundos de concreto sem final eram os confusos elementos da minha permanente e cansativa busca de imagens. Incrível os contrastes insuperáveis. A miséria e a decadência trocando olhares com as  diferentes formas de riqueza e luxo. A violência e a velocidade do movimento dessa cidade lembram o apetite insaciável de um monstro que já se tornou mecanismo e vítima do próprio vicio dele. Assim fica difícil de achar histórias e vestígios de pessoas e coisas que foram escritas aqui antes de ser engolidos para sempre. Apesar disso, existem lugares escondidos e esquecidos que conseguiram salvar as mensagens misteriosas das avalanches da cidade. Elas começaram a me chamar a atenção para os mais ocultos vínculos e assim comecei a ler vestígios nas minhas expedições noturnas desnorteadas. As ruas abandonadas e solitárias do fluxo diário das multidões agora mostravam uma cara mais autentica e real. Aí estavam os restos de dias sumidos, muros com eco do passado ao lado do concreto liso que fita com o olhar vazio em um futuro lucrativo. Grafites estridentes brilharam na escassez e deixaram nascer as imagens mais estranhas na minha mente. Isso foi como um teatro surreal, um estrondo de som alto, congelado no silencio imóvel de vistas isoladas. Os moradores desses lugares, foragidos da sociedade e fracassados, que passam um tempo limitado entre assaltos e drogas, viraram uma companhia de confiança. De boa vontade guardaram cuidadosamente meus materiais de trabalho, como telas e cavalete em suas barracas, ou do contrário teria que arrastar tudo a largas distâncias. Até a seguinte noite que ia a passar de novo ali pintando. Desse jeito trabalhei durante esses meses de uma perspectiva muito diferente e até jamais conhecida por mim. A da realidade da Rua de São Paulo...”

                                                                                                          Jan Siebert

“O local da residência, Edifício Lutetia, na Praça do Patriarca, no coração da cidade, me fez entrar em contato imediato com a energia de São Paulo e me permitiu observar a cidade trabalhando, assim como sua disparidade e sua pluralidade.

(...)

Estou impressionada e inteiramente satisfeita com a minha experiência brasileira, pois pude desenvolver meu trabalho parte por parte, até a exposição. A qualidade desta experiência deveu-se também ao encontro com os brasileiros, sua gentileza, disponibilidade e reatividade em apoiar a realização do meu projeto artístico.”

                                                                                              Rachel Poignant

O Ed Lutetia, localizado na Praça Patriarca (...) interligada às ruas São Bento – que dá acesso ao comércio da 25 de Março – e Direita – que dá acesso à Pça da Sé e adjacências.
Esta configuração cria condições para um contato mais intenso com o centro da cidade, assim como, com as diversas manifestações de rua que acontecem diariamente: vendedores ambulantes com suas performances de marketing, exorcismos de “maus espíritos”, desfiles, reivindicações, entre outras. É um ponto estratégico também para se locomover para boa parte da cidade, seja de ônibus ou de metrô.

(...)

Em uma das apresentações que fiz na FAAP, ao ser questionado sobre a possibilidade de criar alguma proposta artística, respondi que diante tantas manifestações “espontâneas” que acontecem pelo centro da cidade, elas próprias, e por si, já eram proposições artísticas!

Porém, é inegável a contribuição que uma residência artística dá não só ao nosso processo artístico, mas também a nossa condição humana, pois nos vemos diante situações das mais diversas tipologias. Daí podermos vivenciar o quanto a relação arte-vida é pulsante e que nem sempre a percebemos com facilidade. Ações de deslocamento, deambulação e flanagem passaram a fazer parte do meu cotidiano, criando condições favoráveis para a fruição e apreensão do entorno urbano.

Quando me refiro ao deslocamento refiro-me ao descolocamento geográfico, isto é, me descolar do lugar usual para outro inusitado, ação esta que muda ritmo, pulsação, rotinas, humor, enfim, ocorre uma inversão de sensações em decorrência da mudança de costumes, hábitos e topografia que a “nova” cidade oferece. Se perder e se achar fazia parte das caminhadas diárias, que não eram caminhadas simplesmente, mas percursos contemplativos: as pessoas, os lugares, arquitetura, as cores, os cheiros e os sons são percebidos e vividos com outra intensidade.

(...)

A residência artística foi uma experiência ímpar e gratificante, pois me permitiu entrar em uma rotina diferente da minha vida usual de trabalho, refiro-me ao cotidiano do trabalho nem sempre artístico, mesmo que no campo da arte, e me dedicar às coisas relacionadas exclusivamente às artes.

No colocar-me e descolocar-me em outro campo cultural e estar entre contextos contrastantes me fez olhar pro meu próprio lugar de onde vim e onde hoje vivo, levando-me a estabelecer paralelos e compreender as divergências das vivências em diferentes rotinas e situações. Sem dúvidas, deslocar-se é algo prazeroso, libertador, criativo.

A importância dos encontros na FAAP foi uma experiência importante, pois para estar com as pessoas foi preciso organizar meu material de portifólio e isso me estimulou a pensar sobre possíveis curadorias de meus próprios trabalhos, além de lançar um olhar crítico das poéticas que venho investigando.

Como residente me vi incitado a vencer os limites estabelecidos pela cidade e ao mesmo tempo motivado a criar proposições, lançando mão de recursos até então não explorados nos meus trabalhos.

Tonico Portela