POLÊMICA NA PRAÇA


Moradores do Pacaembu protestam contra estacionamento na Charles Miller

Erika Sallum


Fotos Rogério Montenegro
A área de 30.000 metros quadrados: tombada em 1991 pelo Condephaat

Com o reinício das aulas na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), na última segunda-feira, os moradores do Pacaembu reacenderam as discussões sobre o uso da Praça Charles Miller. A vizinhança teme que a área de 30.000 metros quadrados seja novamente invadida por veículos. Em dezembro, a prefeitura ensaiou a revitalização do espaço. Proibiu a realização das feiras de automóveis que aconteciam no local. A Administração Regional da Sé, responsável pelo terreno, prometeu que em janeiro determinaria quais atividades seriam permitidas ali. Até a semana passada, porém, nada de concreto havia sido decidido. "Queremos destiná-la ao lazer e à recreação", diz Iênidis Benfati, coordenadora-geral da associação Viva Pacaembu por São Paulo. "Não é justo que seja aproveitada apenas por quem não tem onde parar o carro."

A faculdade conta com apenas 240 vagas de estacionamento para os cerca de 11.500 matriculados. A solução encontrada pelos estudantes foi deixar os veículos na Charles Miller. Muitos pagam até 5 reais por dia ou 80 reais por mês para os flanelinhas que dominam o pedaço. Silvio Passarelli, diretor da Faculdade de Artes Plásticas, afirma que a Faap tem projeto para uma garagem subterrânea com capacidade para 1.100 vagas. A obra, no entanto, pode levar anos para ser construída, já que precisa de aprovação da prefeitura e do Condephaat. "Não somos contra a revitalização da praça, pelo contrário", diz ele. "Mas, enquanto não decidem o que fazer com ela, obviamente os estudantes continuarão a usá-la."


"Não é possível que um terreno tão nobre sirva de estacionamento para alunos da Faap. Vamos batalhar para fazer dele um ponto de lazer."
IÊNIDIS BENFATI, presidente do Viva Pacaembu
"Enquanto não é decidido o que fazer com a praça, obviamente os estudantes continuarão a usá-la como um local para deixar o carro."
SILVIO PASSARELLI, diretor da Faculdade de Artes Plásticas da Faap

A Charles Miller pouco se parece com uma praça. A vegetação existente está malcuidada. Com a construção do piscinão, em 1995, sumiram as poucas esculturas que havia ali (veja quadro abaixo). Sem fiscalização, as exposições de automóveis antigos e jipes tomavam todo o terreno e seus organizadores não pagavam nada para usar a área pública. Após a proibição, a Regional da Sé e os moradores agendaram uma reunião no dia 15 de janeiro, para discutir o que fazer com o espaço - quase 10 000 metros quadrados maior que a Praça Buenos Aires, em Higienópolis. "Foi sugerido que um estacionamento pago seria a melhor saída", conta Iênidis. "Repudiamos qualquer idéia desse tipo." Sem acordo, a prefeitura programou um novo encontro no dia 29, que, sem explicações, foi desmarcado. Segundo a Regional, ainda não há data prevista para a reunião. "Estamos esperando que nos recebam novamente", diz a coordenadora do Viva Pacaembu. "Quem sabe depois do Carnaval, né?"

Onde foi parar a fonte de 1926?

Arquivo pessoal de Celso Calixto Rios
Fotos Rogério Montenegro
A família Rios na biquinha, em 1928. Hoje, a peça (à dir.) está aposentada no centro esportivo


Estátua da tenista Maria Esther Bueno: pouco destaque depois do piscinão
Muito antes de a Praça Charles Miller ser motivo de discussões, o amplo terreno do Pacaembu abrigava uma singela fonte doada pela Cia. City em 1926. Até o início das obras do estádio, em 1936, ela era visitada por muitos moradores do bairro. "Meu avô costumava levar meu pai para beber a água da biquinha", conta o restaurador Celso Calixto Rios, referindo-se ao senhor de chapéu encostado na fonte em foto de 1928. Desaparecida durante décadas, foi encontrada nos anos 90, quando o estádio passou por uma reforma. "Acharam a peça enterrada embaixo da piscina", afirma a pesquisadora Aglaê Rogano. Outro símbolo esquecido é a estátua da tenista Maria Esther Bueno, que ficou em frente ao estádio até a construção do piscinão, em 1995. "Alguns vândalos conseguiram quebrar a raquete que ela segurava", diz Aglaê. Depois da restauração, a estátua ganhou o mesmo destaque da fonte: um canto do centro esportivo, freqüentado por, no máximo, 6 000 sócios


Fonte: Veja São Paulo, www.vejinha.com.br , fevereiro/2002.