"Sou favorável àquele que vem ao Brasil para produzir e não àquele que vem para especular."
Entrevista: Antonio Ermírio de Moraes,
por Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos, Carlos Eduardo Evangelisti Mauro e Mariana Lemann



O empresário brasileiro Antônio Ermírio de Moraes é um apaixonado pelo Brasil. Em defesa do seu país, não poupa críticas ao governo e às empresas multinacionais. Mas não é apenas a paixão que o move. Antônio Ermírio fala sobre as questões econômicas do país com profundo conhecimento de causa. À frente de uma equipe de 35 mil funcionários, ele comanda empresas nas áreas de metais, cimento, papel e eletricidade, entre algumas outras. Antônio Ermírio sente, na pele, as dificuldades do empresariado brasileiro. Para ele, as empresas multinacionais que desembarcam no Brasil devem ter recursos próprios em matéria de energia. Aliás, este foi um dos temas principais da entrevista que o empresário concedeu à Estratégica, quando nos recebeu em sua sala de trabalho.

Veja, a seguir, o que pensa o empresário sobre crise energética, recessão, globalização e política:

Como o senhor analisa a questão da crise energética?
Eu acho que a explosão da crise de energia já era algo previsto. Esse problema de energia existe desde 1953. Estava claro que a crise viria, bastava para isso que o Brasil voltasse a crescer para que ela estourasse a qualquer momento. Eu avisei o presidente Fernando Henrique Cardoso disso há um ano. Nós já construímos 11 usinas hidrelétricas e estamos construindo mais duas, Machadinho e Pirajú no Paranapanema, que serão terminadas no ano 2001 e 2002. Teremos 65% de energia própria. E hoje, temos 55%. Sempre disse que o dia em que for para apagar a luz eu quero ser o último a fazê-lo. Mas o fato é que, infelizmente, ninguém contava com esse racionamento de energia tão abruptamente. Em 2002 nós não vamos ficar isentos de racionamento.

Quanto isso quer dizer em termos de prejuízo de produção?
Para nós é de 10% por que nós temos 55% de energia própria. Nós estamos expandindo com 70% de recursos próprios.

Como o senhor enxerga a questão de indústrias como a do alumínio numa condição normal, ou seja, empresas que tenham que correr por conta própria e conseguir energia elétrica do estado?
A maior produtora do mundo, a Alcoa, que tem uma produção de 90 mil toneladas em Poços de Caldas, já reduziu sua produção para 45 mil toneladas porque não tem energia elétrica. Eu acho que a obrigação do pessoal que vem de fora é ter uma produção equilibrada. Isso não quer dizer que produza 65%, mas que tenha condições de produzir 27%. Isso sim seria razoável. Outros exemplos são o da Albrás, que foi privatizada com 100% de energia subsidiada. A Alcan também não produz quase nada de energia própria. O que houve, nesse caso, foi um descuido por parte dos grandes produtores de alumínio que vieram para o Brasil. É importante que eles venham para o Brasil, mas sua operação deve ser economicamente viável. Essas empresas precisam destinar um pouco mais de recursos para tornar o empreendimento possível sem depender exclusivamente de uma tarifa protecionista do governo em relação a eles. Se essa pergunta for feita para a Eletronorte, será possível perceber que eles têm ódio dessas empresas. A sociedade brasileira está bancando empresas imensas que teriam recursos para fazer isso. Nós, no entanto, que somos pequeninos em comparação a eles, estamos numa posição confortável. Mas isso é resultado de 50 anos trabalho.

O senhor acha que isso é resultado de uma política pública equivocada?
Eu acho que o governo deveria ter chamado a atenção para o problema. Acho que o capital estrangeiro deve vir para o Brasil. Sou favorável àquele que vem aqui para produzir e não àquele que vem para especular. Nós já tivemos especulação demais por aqui. Quanto têm de energia? Essa pergunta deve ser feita. Se o mundo inteiro tem 27%, vocês têm que ter pelo menos 30% aqui no Brasil ou até mais.

Na sua opinião, o que vai acontecer daqui para frente?
Tem uns que querem que o consumidor pague 100%, o que não me parece muito justo. Eu acho que entre o gerador, o distribuidor e o consumidor, a distribuição da “conta” deveria ser de um terço para cada. Jogar tudo nas costas do consumidor seria injusto. Precisamos encontrar uma maneira eqüitativa que não prejudique o consumidor. Quando eu vejo um pobre na rua pedindo esmola, eu reconheço que também tenho minha parcela de culpa. Todos nós somos brasileiros, pagamos corretamente nossos impostos, mas cada um certamente poderia ter feito um pouco mais para evitar essa situação tremenda em que nós chegamos em São Paulo. São Paulo está uma calamidade.

Em termos de geração o que o senhor acha que deveria ser feito?
O nosso carvão é de péssima qualidade, tem muita cinza e enxofre e temos em pequena quantidade. O carvão está mal distribuído no mundo inteiro. Os EUA têm de 25% a 30% do carvão. Outros 25% estão na Rússia, 10% na China, 10% na África do Sul. Aí são 70%. Sobram 30%, dos quais o Brasil tem praticamente nada. Em gás natural nós também somos fracos. Nós importamos da Bolívia. O próprio presidente diz que o negócio não é usina térmica, mas a quantidade do gás que eles reservam para o Brasil dá 1,3 trilhões de metros cúbicos. É muita coisa. Nossa produção de petróleo está em 75%. Aliás, falando em petróleo, meu conselho é para que as pessoas visitem Campos. Aquilo é um negócio sensacional. São 42 plataformas marítimas. É uma engenharia que chega a arrepiar. Eu conversei com o presidente da Petrobrás recentemente e perguntei a ele porque que nós estamos queimando 8 milhões de metros cúbicos de gás. Oito milhões é muito mais do que São Paulo recebe. Ao mesmo tempo, a bacia de Campos não é uma bacia rica em gás. As bacias de gás no Brasil, por enquanto, são modestas. Na Amazônia já existe um gasoduto que está recebendo investimentos, mas não há quantidade de gás suficiente para trazer de lá para o sul. É muita distância para pouco gás.

Em quanto tempo é possível construir uma hidrelétrica de porte médio no Brasil?
Em no mínimo quatro anos. Hoje se perde muito tempo com os preparativos e cada vez se criam mais dificuldades. Há 12 anos estamos para construir uma barragem no Ribeira, mas não conseguimos. Já fizemos duas audiências públicas com o Estado de São Paulo: em Ribeira e outra no Paraná. Já temos o maquinário entregue. Primeiro, a usina foi aprovada por uma superintendente no Paraná, depois a secretária do meio ambiente em São Paulo aprovou. Depois houve uma reunião com um conselho superior do meio ambiente. Essa reunião começou às três horas da tarde e terminou às três horas da manhã. Nós vencemos por dezenove a quatro. Depois que estava tudo pronto para começar, disseram que o rio não era mais do estado de São Paulo e sim um rio federal. Aí voltou tudo para o ministério público e está uma luta danada. Se não sair agora, nunca mais. É uma barragem de 150 milhões. É uma burocracia. A realidade nacional é essa. A dificuldade para construir uma usina exige muita paciência. No caso de Machadinho, o próprio presidente da república disse que queria visitar. Na véspera, 150 pessoas invadiram o local. Dizem que foi o MST, mas eu não sei realmente quem foi. As pessoas tinham foices e revólveres. Eu acabei pedindo ao presidente que não fosse, por meio de uma nota que eu enviei ao palácio, para evitar problemas. Nós assentamos em Machadinho 1197 famílias que não tinham condições de viver, que estavam na área alagada. Infelizmente isso faz parte do jogo.

O senhor foi ouvido pelo governo em algum momento a respeito da crise energética?
Não.

E quem é ouvido?
Sinceramente eu não sei. Eu acho que o presidente da república cometeu um grave erro ao dizer que foi pego de surpresa. Isso parece desleixo. Se existe algo que um presidente deve ter na cabeça é que não pode faltar comida e energia num país. Todos nós temos nossos dias de infelicidade. O dia de infelicidade do presidente FHC foi o dia sete de maio.

Como o senhor vê a questão da taxa de juros e a crise da Argentina?
O Brasil estava embalado, o espírito da nação era bom, as pessoas estavam animadas. Com relação à Argentina, o problema é engraçado. A Argentina é auto-suficiente em petróleo, tem terras magníficas. Por isso é que eu acho que o que está acontecendo na Argentina é resultado de falta de disciplina. O Brasil precisa do Mercosul e o Mercosul precisa do Brasil. Até a desvalorização do real, o grande mercado do Mercosul para os argentinos era o Brasil. Depois da desvalorização do real, a coisa começou a favorecer o Brasil.

O que o senhor imagina que acontecerá daqui para frente?
Acho que eles vão encontrar uma solução, mas quanto mais demorar, mais difícil será. Eu não sou economista, não consigo analisar nem o meu país, quanto mais o dos outros.

Sobre a política no Brasil, o que é que o senhor acha que vai acontecer se a oposição fizer o presidente?
Eu acho que vai acontecer nada. Eu sinceramente não voto no Lula porque considero que um presidente precisa ter duas qualidades: ser honesto e competente. Apareceu no jornal recentemente que o Brizola, o homem mais conservador do Brasil, está querendo fazer a união do Ciro Gomes com o Itamar. O Ciro Gomes é um homem jovem, mas que já teve um discurso violento. Numa ocasião, quando ele estava com 41 anos, eu disse a ele: “Você teve uma boa formação. Deveria usar a estratégia da não violência”. E disse mais: “Você se parece até fisicamente com o Collor e está usando um discurso como o dele. Ou você muda ou não vai conseguir se eleger.” Já o Itamar é aquele negócio que conhecemos.

O senhor acha que o governo tem chance de achar um candidato?
Eu acho muito difícil. Esse é um problema sério.

E o Malan?
O Malan é um homem bem preparado, íntegro e que nunca aparece. Há seis anos no Ministério da Fazenda, que deve ter uns 200 mil casos que podem render um escândalo por dia, ele nunca se envolveu com nenhum tipo de problema. Ele mantém uma posição tranqüila. Eu sei que o presidente Fernando Henrique Cardoso gosta muito dele, mas ele está resistindo. Eu dei uma declaração ao Jornal do Brasil de que o Malan seria um ótimo candidato, mas há dúvidas de que ele terá votos. Mesmo assim, eu o considero o melhor standard no PSDB. É um homem firme nos debates.

“Quem é correto não precisa de sigilo bancário coisa nenhuma.”

O senhor tem vontade de se candidatar?
Não. Passei por isso em 86. Sinceramente, a coisa é muito mais sórdida do que você está pensando. Eu cheguei à conclusão que, ao morrer, eu quero deixar um nome decente para os meus filhos.

O senhor pode falar um pouco sobre o financiamento desta campanha?
Foi a coisa mais sórdida que eu vi na minha vida. O relatório final que você tem que fazer ao tribunal de contas eleitoral é absurdamente mentiroso. Eu me recusei a assinar. O sigilo bancário é o tipo da coisa que foi criada pela malandragem. Quem é correto não precisa de sigilo bancário coisa nenhuma. Isso é uma das coisas que não devia acontecer. Isso me deixou muito perturbado. Havia gente que dizia: “Ah, todo mundo faz isso”, mas eu não faço. É a consciência da gente. Eu tinha até entusiasmo, mas quando faltavam três meses para novembro, eu pedi a Deus que não me elegesse, porque é tanta sujeira, tanta malandragem, que me sentia mal, tive tensão nervosa própria de quando você faz algo que não quer.


Fonte: Revista Estratégica nº 2