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O Fator Religioso e as Relações Internacionais

 José Maria Rodriguez Ramos
e Fernanda Petena Magnotta,
professores da Faculdade de Economia.

 

Considerações iniciais

Embora o fator religioso tenha sido, de alguma forma, pouco explorado nas relações internacionais durante o fim do século XX (haja vistas as próprias características da Guerra Fria) e tenha se resgatado no Ocidente, em grande parte, por decorrência dos atentados terroristas de setembro de 2001 nos Estados Unidos, não se pode negar que esta temática sempre integrou os debates clássicos da história política da humanidade e que, igualmente, permanece fazendo com que abundem leituras e interpretações concernentes a ela.

Justamente com o objetivo de sistematizar a multiplicidade teórica que envolve a questão, o professor britânico Scott Thomas listou em sua obra Religion and International Conflict (In: DARK, K.R. Religion and International Relations. Grã-Bretanha: Palgrave, 2000) algumas formas pelas quais a religião impactaria as relações internacionais e as diversas maneiras através das quais ela seria entendida pelos estudiosos das RI ao longo do tempo.

De acordo com este compilado organizado por Thomas, a religião estaria sendo tratada para um grande número de autores, em primeiro lugar, como forma de ideologia, de modo que ao contrário das disputas territoriais ou dos conflitos em torno de comércio, finanças ou recursos naturais, os embates que envolvem idéias enfrentariam maiores dificuldades para serem dirimidos e seriam reflexos de percepções centenárias.

Partindo para versões mais relacionadas à sociologia, a religião estaria também sendo tida como fonte principal da identidade social e individual responsável pela diferenciação entre os diversos grupos, bem como estaria ligada à emergência das noções de comunidades interpretativas, e de áreas culturais/civilizações.

Ademais, tornou-se comum também analisar a religião como um tipo de idéia transnacional capaz de integrar pessoas de diferentes localidades a um sistema comum de crenças, a um conceito único de moralidade e ao respeito às leis e normas, ou como forma de soft power (em referência ao conceito de ‘poder brando’ do prof. Joseph Nye).

Isso sem contar os movimentos religiosos que podem ser analisados como agentes que sedimentam base para atores internacionais e organizações não governamentais, não apenas no que diz respeito ao terrorismo, mas ao próprio caso da existência do Vaticano.

Dada a importância do assunto e a sua sensibilidade na seara internacional, especialmente no que diz respeito à geração de conflitos, bem como a necessidade de discuti-lo a partir de uma ótica renovada e voltada à busca de alternativas de entendimento e conciliação, a FAAP teve o prazer de receber o embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, que ministrou palestra para alunos e professores de Relações Internacionais no dia 27 de abril de 2010.

Quem é o embaixador Seixas Corrêa
 
Nomeado embaixador brasileiro junto a Santa Sé, em outubro de 2008, Luis Felipe de Seixas Corrêa apresentou suas credenciais ao Papa Bento XVI em fevereiro de 2009. Corrêa iniciou sua carreira no Itamarati em 1967. Durante a década de 1990, foi embaixador do Brasil no México, na Espanha, e na Argentina. Ocupou também duas vezes o cargo de secretário-geral das Relações Exteriores e é o representante do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) e no escritório da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra, na Suíça.

A palestra

Seixas Corrêa iniciou sua apresentação enfatizando a retomada da discussão ligada à componente religiosa. Para ilustrar esta percepção optou por comentar que em recente reunião na Embaixada da França teve conhecimento de que o Ministério de Relações Exteriores daquele país inaugurou um “Pólo de Estudos da Religião” com a finalidade de acompanhar alguns elementos como o (a) crescimento das igrejas evangélicas, (b) o desenvolvimento religioso das crises e (c) a sua gerência em matéria religiosa. Isso porque, de acordo com as conclusões desse núcleo, o cidadão francês precisaria ser sensibilizado para estas questões.

O embaixador reforçou a leitura já discutida por Thomas (idem, ibidem) de que, no século XXI, as religiões podem ter a mesma influência atribuída às ideologias durante o século XX (à exemplo da discussão acerca do comunismo, socialismo, liberalismo e capitalismo). Essa observação contradiria a imagem delineada pela Paz de Westfália (1648), segundo a qual a questão religiosa estaria alheia ao tema da conservação do poder.

 Em termos simples, o embaixador advogou no sentido de afirmar que, na atualidade, o poderio econômico, militar e de comunicação não garantiria um determinado comportamento dos indivíduos, pautado também por crenças religiosas, ao ponto de que, em situações extremas, o ser humano seria capaz de sacrificar a vida por sua fé, preferindo morrer a se submeter.

Dada esta definição, Seixas Corrêa passou a fundamentar a crescente proeminência atribuída ao tema da fé. Neste sentido, embora a América Latina esteja em certa medida alheia à questão religiosa, e este ponto não se configure uma prioridade central de nossa realidade diária, a ampla dispersão do assunto mundo afora é inegável.

No Ocidente, especialmente dentro dos EUA, os atentados ao World Trade Center funcionaram como um marco do ressurgimento do fator religioso, iniciando um movimento de militarização da diplomacia, dentro de um processo traduzido pelo embaixador Rubens Ricupero (Revista Política Externa, vol. 18, n. 2, Set/Out/Nov, 2009) como a “islamização da agenda internacional”.

Em termos simples, a reação dos norte-americanos após o ataque terrorista às torres gêmeas e ao pentágono em 2001 teria associado o medo da sociedade daquele país à sua necessidade de geração de poder “criando a impressão de que se havia desencadeado uma “nova Guerra Fria” ou uma “longa guerra” contra inimigos identificados como fundamentalistas islâmicos” e iniciado, como ele mesmo sugeriu, uma verdadeira “cruzada anti-muçulmana” (idem, ibidem: 01).

Desta percepção teriam resultado as guerras do Iraque e do Afeganistão, atentados no Reino Unido e Espanha, além de diversas “conspirações frustradas pelos serviços de segurança dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Alemanha, da França, da Itália, de Cingapura, de países do norte da Europa, os ataques em Bali ou no Quênia, na Arábia Saudita ou nas águas do Iêmen, [além do] recrudescimento terrorista em Marrocos e na Argélia” (idem, ibidem: 02).

Com relação ao caso europeu, acumulam-se notícias relacionadas à expressão social da religiosidade, vis-à-vis os recentes dilemas na França e na Bélgica, por exemplo. Nesta situação, a maneira encontrada para lidar com os conflitos internos do continente teriam se manifestado através da proibição de símbolos religiosos, como o uso de véus como a burca e o nicab, além da construção de mesquitas e o próprio ingresso da Turquia na União Europeia. Assim, para o embaixador Seixas Corrêa, nota-se a tendência por uma via incomum no tratamento da diferença. Ela não estaria voltada nem ao diálogo e tampouco à confrontação, mas à segregação.

No que tange ao papel do Vaticano, Seixas Corrêa afirmou que a Santa Sé tem-se concentrado no diálogo com o mundo muçulmano e, tendo consciência de que o islamismo é um mosaico onde não há uma representação unificada, tem investido na atuação de sua comissão para o diálogo inter-religioso. Neste ponto cabe listar igualmente a preocupação com o alargamento das igrejas pentecostais, uma tendência cada vez mais acentuada por todo o globo.

Também não se podem ignorar as recorrentes tensões em curso na Rússia e na antiga Federação da Iugoslávia, especialmente voltadas às diferenças entre sérvios (ortodoxos), croatas (católicos) e bósnios (muçulmanos) e a questão de Kosovo. Isso sem mencionar o dilema católico-protestante entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda.

Algo parecido se desenvolve também no Oriente Médio, berço das três maiores religiões monoteístas da humanidade (cristianismo, islamismo e judaísmo) e palco de inúmeros impasses históricos, especialmente naquele que se convencionou chamar de “arco das crises” (RICUPERO, 2009) e que inclui basicamente Afeganistão, Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Síria, Líbano, Israel (considerando os territórios palestinos), Egito, Sudão e Somália, espaço em que a temática da fé esteve sempre latente, mesmo enquanto o mundo ocidental secularizado teria se afastado da prática religiosa.

Na Ásia, o embaixador destacou o caso chinês, bem como a influência cada vez mais intensa destes atores na Índia e Paquistão, aos quais podem somar-se os conflitos na Indonésia (com o Timor Leste), na Tailândia, nas Filipinas e no Sri Lanka, além do caso da Nigéria, no continente africano.

Todas estas perspectivas permitem, portanto, resgatar uma noção que já estava presente na análise de Samuel Huntington quando escreveu seu célebre artigo O choque das civilizações (1993) e que, hoje, divide os pensadores entre aqueles que, seguindo a Huntington, vislumbram o futuro como um choque de culturas e aqueles que defendem o diálogo religioso.

Neste ponto, Seixas Corrêa citou o professor Andrea Riccardi, fundador da Comunidade Santo Egídio como referência daqueles que defendem a criação de uma área de aproximação entre as religiões e, para quem, a solução em termos de contato encontrar-se-ia não no confronto, mas na integração.

O embaixador finalizou sua fala fazendo referência à participação do Brasil frente ao tema. Ele apontou que o Rio de Janeiro deverá sediar uma reunião para discutir a questão religiosa em 2011 e que, se o País realmente almeja um papel de destaque na agenda internacional, deve desenvolver sua sensibilidade no tratamento destas questões.

É preciso voltar a reconhecer a complexidade da realidade internacional, suas novas ameaças e desafios e, deste modo, aprender a conduzir de outras formas os pontos de inflexão da agenda. Neste sentido, talvez seja interessante pensar na figura do semelhante, como sugeriu Otávio Velho em Globalização: Antropologia e Religião (In: ORO, Ari Pedro; STEIL, Carlos Alberto (Org.). Globalização e religião. Petrópolis: Vozes, 1997), em detrimento da leitura convencional que considera apenas a diferença entre os povos, pois desta forma, seria possível reconhecer a viabilidade de aproximações contingentes e outras experimentações analíticas que não tem alocação, necessariamente, em posições políticas já pré-determinadas.

Fotos e legendas

 

 

Foto 1 – Embaixador Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia, fala sobre a importância do tema da palestra, tendo à sua esquerda os embaixadores Celso Lafer e Luiz Felipe de Seixas Corrêa e à sua direita o professor José Maria Rodriguez Ramos, dos cursos de Ciências Econômicas e Relações Internacionais.


 

Foto 2 – Embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa.


 

Foto 3 – Alunos dos cursos de Relações Internacionais e Ciências Econômicas acompanham atentamente a exposição do embaixador Seixas Corrêa.