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Conferências do Estoril 2011: FAAP presente!
A FAAP se fez representar de forma significativa nas edições de 2011 das Conferências do Estoril, evento que se realiza a cada dois anos com a presença de nomes destacados no cenário mundial.
Na primeira edição, realizada em 2009, participaram, entre outros, Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil (1995-2002), Tony Blair, primeiro-ministro da Inglaterra (1997-2007), José María Aznar, primeiro-ministro da Espanha (1996-2004), George Stiglitz, ganhador do Prêmio Nobel de Economia (2001), a atriz Daryl Hannah e muitos outros.
Sob a denominação geral Desafios Globais, Respostas Locais, a conferência teve, além dos pronunciamentos especiais de Tony Blair, Fernando Henrique Cardoso e Joseph Stiglitz, quatro painéis sobre os seguintes temas: Arquitetura Multilateral e Desafios Globais, Negócios Internacional e Desafios Locais, Recursos e Sustentabilidade e Valores, Identidades e Mercados – a Globalização é Governável?
Na edição de 2011, que novamente teve como tema geral Desafios Globais, Respostas Locais, as figuras de maior destaque foram Mohamed ElBaradei, ganhador do Prêmio Nobel da Paz (2005), Dominique de Villepin, primeiro-ministro da França (), Nouriel Roubini, que se tornou mundialmente conhecido como o economista que melhor previu a crise financeira cujo ápice ocorreu entre 2007 e 2009, o jornalista Larry King, da CNN, e Charles Fukuyama, autor do consagrado livro O fim da história e o último homem, além da Princesa Laurentien dos Países Baixos, que representou a UNESCO na premiação do melhor livro sobre temas ligados à globalização, cujo ganhador foi Charles Beitz, autor do livro The idea of human rights.
Excepcionalmente bem organizado, o evento teve lugar de 04 a 06 de maio de 2011 no Centro de Congressos do Estoril e, logo após a tocante cerimônia de abertura, contou com a palestra de Howard Dean, ex-governador do estado de Vermont e ex-presidente do Comitê Nacional do Partido Democrata.
Logo em seguida, Nouriel Roubini, apelidado por alguns analistas de “Profeta do Apocalipse”, falou sobre o tema A crise financeira internacional e a Zona do Euro.
Demonstrando enorme domínio sobre a conjuntura econômica internacional, Roubini brindou a plateia com uma análise profunda e abrangente dos diferentes aspectos que se interligam para formar o complexo quadro da economia mundial, cuja principal característica é o esforço de recuperação dos Estados Unidos, da União Europeia e do Japão, provavelmente os mais atingidos pela crise financeira originada no setor hipotecário norte-americano e cuja gravidade se tornou mundialmente percebida com a falência do Banco Lehmann Brothers.
Contudo, Iglesias apontou que a América Latina de maior sucesso é a “do Panamá para baixo”, com relações comerciais mais voltadas para o Pacífico, em particular a China. Do “Panamá para cima”, os ventos são frios, sobretudo pelas dificuldades dos Estados Unidos, muito mais influentes nessa sub-região. A primeira é a que também atrai mais investimentos estrangeiros.
No dia 05 de maio, a programação foi aberta com a realização do primeiro painel intitulado A arquitetura da governança global, que teve os seguintes painelistas: Daniel Direrner professor da Universidade de Tufts (EUA); Jean-Marie Guilhenno, diretor do Centro Internacional de Resolução de Conflitos da Universidade de Columbia, em Nova York, e antigo secretário-geral adjunto das Nações Unidas para as Operações de Manutenção da Paz; Jing Huang, professor da Universidade Nacional de Singapura; Sergey Karaganov, reitor da School of International Economics and Foreign Affairs of the National Research University – Higher Scholl of Economics, em Moscou, Carlos Lopes, subecretário-geral das Nações Unidas e diretor executivo do United Nations Institute for Training and Research – UNITAR, e Fernando Jorge Cardoso, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais (IEEI) em Lisboa e professor da Universidade Fernando Pessoa, no Porto.
Sob a presidência de José Vital Morgado e tendo como moderador o jornalista Ricardo Costa, os painelistas examinaram variadas facetas atuais da governança global, tendo em comum a ênfase no processo de modificação em curso, em que se observa o fortalecimento de novos atores, como, por exemplo, o G-20, numa tentativa de adequar o arcabouço institucional internacional ao dinâmico e complexo funcionamento da economia globalizada.
Dando prosseguimento à programação, Larry King, o mundialmente conhecido apresentador do programa Larry King Live, da CNN, foi entrevistado por Mario Crespo, um dos mais renomados jornalistas de Portugal, tendo por tema de fundo O futuro da democracia face aos desafios globais. Iniciou dizendo que foi um privilégio ficar por tantos anos fazendo aquilo que gostava tanto de fazer e diz que sente falta da televisão, lamentando não ter coberto o tsunami no Japão, as mudanças políticas no Oriente Médio ou a morte de Osama Bin Laden. Mas disse que assim é a vida e concluiu afirmando que segue aprendendo com os acontecimentos do dia a dia e que torce muito pelo fortalecimento da democracia para a superação dos enormes desafios do mundo globalizado.
Abrindo a programação da tarde, Rodrigo Moita de Deus, CEO da empresa Nextpower, de Portugal, na sessão denominada Glotalks, falou sobre o tema Revolução dos “Social Media”.
O segundo painel, intitulado Depois da crise?, foi presidido por Luis Mira Amaral, presidente executivo do Banco BIC Português e teve como moderador a jornalista Clara de Sousa.
Os painelistas foram: Fátima Carioca, professora de Fator Humano na Organização da AESE – Escola de Direção e Negócios; Abdullah Dahlan, antigo membro da Shura, o parlamento saudita, e secretário-geral da Câmara do Comércio e Indústria de Jeddah, atual presidente do Conselho de Administração do College of Business Administration; David Held, professor de Ciência Política e codiretor do Centro de Estudos de Governança Global na London School of Economics and Political Science; Luiz Alberto Machado, professor de História de Pensamento Econômico e vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP e conselheiro do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial e da Fundação Brasil Criativo; Pauline van der Meer Mohr, presidente do Conselho Executivo da Erasmus University, em Rotterdam, e conselheira do governo holandês para as questões relacionadas à cultura do sistema bancário e a sua reforma; Gulliz Zoega, membro do Comitê de Política Monetária do Banco Central da Islândia e professor de Economia na Universidade da Islândia e no Birbeck College da Universidade de Londres.
Em suas exposições, cada panelista utilizou os sete minutos que tinha à sua disposição para explicar como a crise financeira atingiu o país ou região em que vive e à forma como ela foi enfrentada, bem como a situação em que se encontram e as lições por ela deixadas.
O professor Machado, último painelista a se apresentar, afirmou que a maneira favorável pela qual o Brasil passou pela crise é consequência de um conjunto de fatores que tiveram lugar nos últimos 25 anos e não de acertos pontuais dos governantes de plantão.
Os fatores apontados por Machado como responsáveis pelo êxito do Brasil e pela radical melhora da imagem do país no mundo foram a redemocratização ocorrida em meados da década de 1980, a abertura da economia, impulsionada pelo presidente Fernando Collor no início da década de 1990, e a estabilidade econômica, afinal obtida em 1994 com o Plano Real.
Depois de ressaltar a contribuição extraordinária dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva, em especial a continuidade das principais linhas da política econômica, Machado mencionou os três aspectos que, em sua opinião, foram fundamentais para a manutenção da estabilidade nos últimos dezesseis anos: o regime de metas de inflação, a taxa de câmbio flutuante e a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Machado concluiu sua exposição alertando para os desafios ora enfrentados pela presidente Dilma Rousseff, destacando a ameaça de elevação da inflação, as dificuldades resultantes do câmbio apreciado e o atraso nas obras das instalações e da infraestrutura para os dois grandes eventos que o Brasil promoverá – Copa do Mundo e Olimpíadas –, que poderá ter efeitos terríveis a médio e a longo prazos.
Encerrando as atividades do segundo dia das Conferências do Estoril houve a exposição de Francis Fukuyama sobre o tema O impacto global na situação do Oriente Médio.
Fukuyama é o autor do polêmico livro O fim da história e o último homem, publicado em 1992, em que afirmava que importantes acontecimentos ocorridos naquela época, com destaque para a implosão do império soviético e a queda do Muro de Berlim indicavam de forma insofismável a supremacia da democracia no plano político e do capitalismo no plano econômico.
A enorme repercussão causada pelas ideias do livro transformou Fukuyama, até então um desconhecido funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, num dos mais requisitados conferencistas internacionais. Admirado por uns, odiados por outros, a única coisa que as ideias de Fujuyama não provocavam era indiferença. Quase vinte anos depois da publicação de O fim da história e o último homem, Fukuyama, agora reconhecido como um dos mais influentes intelectuais da atualidade, continua sendo convidado para debates e conferências de alto nível nas diferentes partes do planeta.
Fukuyama é o autor do polêmico livro O fim da história e o último homem, publicado em 1992, em que afirmava que importantes acontecimentos ocorridos naquela época, com destaque para a implosão do império soviético e a queda do Muro de Berlim indicavam de forma insofismável a supremacia da democracia no plano político e do capitalismo no plano econômico.
Em sua fala, Fukuyama reforçou a convicção das ideias essencias de seu polêmico livro, fazendo uma interessante análise do que vem ocorrendo no Oriente Médio, na Europa, nos Estados Unidos e na China, não encontrando em nenhum desses casos elementos suficientes para levá-lo a uma mudança de opinião. O que Fukuyama identificou como ameaça à continuidade da supremacia do capitalismo democrático foi o comportamento do que ele chamou de maus atores, entre os quais destacou os maus ditadores, as grandes corporações financeiras e, as agências de avaliação de risco. No caso das duas últimas, em razão do enorme poder que concentram em suas mãos.
O terceiro painel, realizado na manhã do último dia da Conferência teve o título de Ameaças Globais – Desafios para a Segurança Humana e cortou com os seguintes painelistas: Luis Urrutia Corral, diretor de regulação e supervisão do Banco Central do México; Mia Couto, escritor moçambicano, autor de 28 livros, traduzidos e distribuídos em 27 países, que em 1998 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras; Charles Kupchan, professor de Assuntos Internacionais da Universidade de Georgetown, EUA; Georges Landau, professor do curso de Relações Internacionais da FAAP e presidente da Prismax Consultoria, empresa voltada à captação de recursos externos para financiamento de empreendimentos no Brasil e em outros países da América Latina; Viriato Soromenho-Marques, professor de Filosofia e Estudos Europeus na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e coordenador cientifico do Programa Gulbenkian Ambiente; e Alex Bennet, co-fundadora do Quest Mountain Institute, um centro de pesquisa dedicado à promoção do crescimento pessoal e profissional, está ligada a várias universidades norte-americanas e leciona também na Universidade de Bangkok. Presidido por Antonio Figueiredo Lopes, presidente do Euro Defense – Portugal, e professor convidado do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, o painel foi moderado pelo jornalista Paulo Magalhães. Entre os relatos das diferentes formas de ameaças que põem em risco a segurança de humanidade, destaque para as ações contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo tanto no México como internacionalmente narradas por Luis Urrutia Corral, e os riscos que a humanidade corre em decorrência da deterioração ambiental relatadas pelo professor Viriato Soromenho – Marques.
Georges Landau, professor da FAAP, focalizou em sua intervenção a questão da segurança energética, dando ênfase ao papel ainda fundamental representado pelo petróleo enquanto fonte energética e a enorme vulnerabilidade a que o planeta está exposto em razão desta forte dependência. Landau chamou atenção para a existência de diversos pontos geograficamente estratégicos espalhados pelo mundo, cujo bloqueio acarretaria graves problemas à distribuição do produto e, em consequência disso, para o próprio funcionamento da economia de numerosos países. Nesse quadro, o Brasil, por conta do pré-sal e por seus demais recursos em matéria de energias renováveis, representa uma luz de esperança capaz de oferecer algum alento ao cenário sombrio.
O depoimento mais aplaudido do painel foi, sem dúvida, o do escritor moçambicano Mia Couto que, dizendo-se incapaz de falar improvisadamente no espaço de apenas 7 minutos, leu uma instigante mensagem, reproduzida integralmente em destaque à página
Em seguida, completando a programação matutina da Conferência, Dominique de Villepin, primeiro-ministro da França (2005-2007), proferiu a palestra Desafios atuais da Construção Europeia.
O depoimento mais aplaudido do painel foi, sem dúvida, o do escritor moçambicano Mia Couto que, dizendo-se incapaz de falar improvisadamente no espaço de apenas 7 minutos, leu uma instigante mensagem, reproduzida integralmente em destaque à página
Em seguida, completando a programação matutina da Conferência, Dominique de Villepin, primeiro-ministro da França (2005-2007), proferiu a palestra Desafios atuais da Construção Europeia.
A programação do período vespertino teve início, a exemplo do que havia ocorrido no dia anterior, com a Glotalk Ligação num Mundo Globalizado, a cargo de Salem Samkoud, CEO da & Samhoud, empresa de consultoria com escritórios nos Países Baixos e na Espanha.
A seguir, o quarto e último painel das Conferências do Estoril 2011 focalizou o tema Globalização e Políticas Internas. Foi presidido por Paulo Vila Maior, que alertou para a relevância das políticas públicas na economia globalizada e teve como moderador o jornalista Carlos Vargas.
Os oradores desse painel foram: Victor Gao, diretor da Associação Nacional Chinesa de Estudos Internacionais, afiliada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros Chineses, Roberto Macedo, professor associado à FAAP, editor da Revista de Economia & Relações Internacionais, publicada pela Faculdade de Economia da FAAP e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda na gestão do ministro Marcílio Marques Moreira, Jordi Pujol, fundador e líder da coligação nacionalista catalã convergência i Unío, foi presidente da Generalitat da Catalunia entre 1980 e 2003; Matlotlendg Matlou, CEO do Africa Institute of South Africa e um dos principais especialistas sul-africanos sobre a temática das migrações, e Salem Samhoud, responsável pela Glotalk que precedeu ao painel.
Abrindo o painel, Victor Gao falou sobre a experiência chinesa, afirmando que os dois pilares estruturais de seu país são o crescimento com estabilidade e a promoção da paz mundial. Para tanto, ressaltou a relevância de quatro mega tendências: industrialização, urbanização, modernização e globalização, Gao concluiu sua intervenção dizendo que o desafio atual da China consiste em transformar o modelo de crescimento baseado no binômio investimento e exportações num modelo em que o consumo passe a ter também um papel significativo.
Roberto Macedo, numa bem-humorada intervenção que arrancou aplausos da platéia, falou sobre uma expressão por ele criada, globrasilização, que significa “a globalização que interessa ao Brasil”. A resposta a isso passa por cinco critérios: 1) o crescimento econômico; 2) o desenvolvimento social; 3) o aprimoramento competitivo; 4) a redução da vulnerabilidade; 5) o foco em instituições internacionais ligadas ao comércio e às finanças. Por esses critérios, Macedo conclui que a globalização tem sido favorável ao Brasil, de tal forma que para ele os maiores desafios que o País tem pela frente são de ordem interna, destacando-se entre eles a necessidade de aumentar a taxa de poupança e de investimento. A China investe 40% de seu PIB e cresce perto de 10% ao ano; a índia investe 30% e cresce perto de 8%; o Brasil poupa e investe apenas 20% e isso tem levado a uma taxa média de crescimento em torno de 5%, um caso de subdesempenho satisfatório: “é admirado internacionalmente, internamente o povo se mostra feliz e Lula elegeu sua sucessora; mas poderia estar muito melhor”.
Outro momento de destaque nesse painel ocorreu com a apresentação de Matlotheng Matlou, que fez questão de chamar a atenção para o desconhecimento do continente Africano por parte do resto do mundo – a começar pelo fato de se referirem à África como uma coisa só, desconsiderando as brutais diferenças e peculiaridades dos 54 países que compõem o continente – e disse que tanto os países que lá estiveram como os que lá estão, todos como colonizadores, continuam muito mais envolvidos com seus próprios interesses do que com o desenvolvimento dos países africanos.
Jordi Pujol advertiu para o fato de que uma efetiva integração ou alargamento (ou qualquer outro nome que se queira dar), um dos ideais-chave da globalização só terá possibilidade de êxito se houver respeito pelas culturas locais, acentuando o fato deque nesse aspecto, local não quer necessariamente dizer a mesma coisa que nacional.
Encerrando o painel, Salem Samhoud fez duas menções especiais. A primeira sobre a necessidade de estímulo ao empreendedorismo, uma arma fundamental para fazer frente aos elevados índices de desemprego que se observam em diversos países da União Europeia. A segunda sobre a necessidade de ações conjuntas entre países que possuem relações de afinidade como Portugal e Brasil, ou de proximidade, como Portugal e Espanha ou Holanda e Alemanha.
Finalizando a programação das Conferências do Estoril de 2011, Mohamed ElBaradei, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica – AIEA (1997-2009) e ganhador-juntamente com a AIEA – do Prêmio Nobel da Paz “pelos seus esforços para que a energia nuclear seja utilizada para fins militares e para assegurar que a sua utilização para fins pacíficos seja a mais segura possível”. ElBaradei abordou o tema A Natureza das Revoluções no Magrebe.
A mensagem de ElBaradei pode ser sintetizada na ideia de que a solução para os grandes problemas existentes no mundo só será obtida com a adesão dos povos, uma vez que independentemente do lugar em que vivem, da religião que professam ou da língua que falam, todos nós somos seres humanos e, enquanto seres humanos, temos direito a viver com dignidade.
ElBaradei partiu dessa ideia básica, com a qual disse concordar integralmente, para explicar os recentes acontecimentos que tiveram lugar no Egito e na Tunísia, provocando a queda dos governos autoritários que estavam no poder há décadas, e que continuam acontecendo noutros países da região, sem que seja possível, por enquanto, saber que desfecho terão.
Com uma tranqüilidade e uma segurança que só a experiência produz, o diplomata egípcio mundialmente reconhecido recomendou paciência no acompanhamento dos futuros acontecimento no Egito. Dizendo não ser possível fazer a transição de décadas e décadas de autoritarismo para uma democracia madura num prazo de seis meses, ElBaradei falou da importância da fase de transição em curso, ao longo da qual serão construídos os alicerces que servirão de base para o novo país que emergirá da presente situação. Os próximos passos, portanto, serão decisivos, e na agenda haverá necessidade de definir as “regras do jogo” que balizarão a vida política do país. A constituição que surgirá nessa etapa terá de conter os princípios que não poderão ser violados em nenhuma circunstância para que os egípcios encontrem, enfim, as condições adequadas para que possam viver com dignidade.
Além dessa transição gradual no plano político, ElBaradei alertou para os desafios econômicos que não são pequenos, uma vez que a instabilidade afetou a situação e muitas ações deverão ser adotadas. Concluindo seu pronunciamento, afirmou “Apesar da complexidade do quadro, crio que estamos diante de uma janela de oportunidade no Egito, e estou confiante na nossa capacidade de aproveitá-la”.
Ao final do pronunciamento de ElBaradei, o ministro da economia, da inovação e do Desenvolvimento de Portugal, José Vieira da Silva, falou da importância de um evento com a magnitude das conferências do Estoril, cumprimentou os organizadores e anunciou a terceira edição do evento para 2013, quem sabe num ambiente menos obscuro e mais promissor para seu país.
Impossível quantificar o volume de oportunidades de reflexão proporcionadas num evento com tamanha quantidade de oradores de elevadíssimo nível.
Três conclusões, no entanto, podem ser tiradas:
1) A situação da União Européia é difícil, e a de Portugal, em particular, dramática.
2) A importância dos países emergentes, com destaque para a China, é cada vez mais reconhecida.
3) O Brasil, quem diria, virou exemplo, e sua estabilidade política e econômica desperta admiração em boa parte do mundo.
Em seguida, completando a programação matutina da Conferência, Dominique de Villepin, primeiro-ministro da França (2005-2007), proferiu a palestra Desafios atuais da Construção Europeia.
A programação do período vespertino teve início, a exemplo do que havia ocorrido no dia anterior, com a Glotalk Ligação num Mundo Globalizado, a cargo de Salem Samkoud, CEO da & Samhoud, empresa de consultoria com escritórios nos Países Baixos e na Espanha.
A seguir, o quarto e último painel das Conferências do Estoril 2011 focalizou o tema Globalização e Políticas Internas. Foi presidido por Paulo Vila Maior, que alertou para a relevância das políticas públicas na economia globalizada e teve como moderador o jornalista Carlos Vargas.
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MURAR O MEDO
O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em
celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os
anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da
segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da
diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo,
quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte
da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos,
mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância
reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que
reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar
que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da
fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.
O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a
minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a
audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que
estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo
mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.
No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um
invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os
chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu
barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os
fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes
junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e
Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência.
O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o
continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as
mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados
e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há
memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a
facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos
seus próprios fracassos.
A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou,
inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente.
Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios
de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de
intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era
ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o
que era religião passou a ser estratégia de poder.
Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é
imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um
dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam
decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças
domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança
privada e menos privacidade. Para enfrentar as ameaças globais precisamos
de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da
nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro.
Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos
melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”.
Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a
demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a
realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é
imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente
limiar de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades
individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a
racionalidade deve ser suspensa.
Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas
incomodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a
indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um
trilião e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje
tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas
venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais
seminários sobre segurança do que sobre justiça?
Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos
que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição
massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que sejam
precisos pretextos de guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21,
um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome
mundial seria uma fracção pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Num planeta
que imaginamos como uma única aldeia, a realidade mais globalizada é a
miséria.
O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o
continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as
mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados
e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de que há
memória. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a
facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos
seus próprios fracassos.
Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada
três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o
seu tempo de vida. Não há aqui nenhum laivo de feminismo, nenhum
paternalismo dos que dizem cuidar dos chamados grupos vulneráveis. A
verdade é que sobre metade das pessoas que estão nesta sala pesa uma
condenação antecipada pelo simples facto de serem mulheres.
A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos
convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem
farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir
razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a
barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer
prova de coerência nem de legalidade.
É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço
seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a
China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou
os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha
do que vítimas das invasões do Norte. Diz-se que alguns dos trabalhadores
que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos
convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode
aprisionar.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não
há hoje muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as
mesmas nuvens cinzentas aprendemos a reduzir os sonhos e esperanças para
um tamanho aceitável. Acerca dessa histeria colectiva, Eduardo Galeano
escreveu o seguinte:
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.
Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.
Quem não têm medo da fome, têm medo da comida.
Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas,
as armas têm medo da falta de guerras.
E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe. |
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LIÇÕES DE PORTUGAL
Como um dos representantes da FAAP, no início de maio fui a evento em Portugal, mais uma das Conferências do Estoril, organizadas a cada dois anos pela Câmara Municipal de Cascais, com apoio do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais de Lisboa, e patrocínio da Presidência da República, entre outras instituições. As conferências refletem sobre a globalização, com ênfase na interação de desafios globais com respostas locais.
No evento, falei sobre o tema na perspectiva do Brasil, e ouvi figurões locais e de outros países. Como o economista Nouriel Roubini, famoso pelas previsões que fez da última crise econômica internacional, o egípcio Mohamed ElBaradei, Nobel da Paz de 2005, que falou sobre as mudanças políticas em seu país e do seu papel nesta fase de transição para um novo regime, o cientista político Francis Fukuyama, conhecido pelo livro O fim da História, e Larry King, entrevistador da CNN, lá entrevistado. Ao ser fotografado era instado a abrir o paletó e mostrar suspensórios, notória marca de sua figura.
Aproveitei para saber mais sobre a crise econômica portuguesa, via jornais locais e conversas com economistas do país. No dia 5 minha presença coincidiu com o anúncio de um daqueles pacotes de grandes ajustes na economia, outrora tão comuns no Brasil. E, ainda, com a presença de um velho conhecido, o FMI. Só que lá o pacote foi negociado com o que chamam de troika, que também inclui a União Europeia e o Banco Central Europeu. Isto tornou a negociação e o cumprimento do acordo mais complexos, pois há que lidar com essa trinca. E ele veio numa situação agravada pelo fato de o país estar sob governo provisório, já que o atual, do primeiro-ministro José Sócrates, perdeu apoio no Parlamento e novas eleições foram convocadas.
Mas, de que país estamos falando? Segundo os últimos dados da ONU, em 2009 Portugal tinha 10,7 milhões de habitantes, equivalentes a apenas 5,6% da população do nosso país, de 190,8 milhões pelo censo de 2010.
Quanto ao PIB, ainda segundo a ONU, o português era de US$ 233,5 bilhões em 2009, também pequeno diante do brasileiro, este de US$1,6 trilhão, mas representando 14,9% do nosso, uma porcentagem bem maior do que a da comparação anterior. Assim, os portugueses, com um PIB por habitante de US$ 21,8 mil no mesmo ano, estão bem à frente dos brasileiros, com seus US$ 8,1 mil. Mas, seguem atrás de irmãos europeus mais ao Norte, onde esse PIB foi de US$41,2 mil na França, US$40,5 mil na Alemanha e US$35,3 mil na Itália.
No ano passado, o PIB português subiu apenas 1,4%, o do Brasil cresceu 7,5%, com o que estamos menos distantes. Nos próximos anos, a diferença deve cair a nosso favor, pois o Brasil seguirá crescendo, ainda que um pouco menos, e Portugal sofrerá com esse indigesto pacote.
Quão indigesto? Portugal vai tomar da troika um empréstimo de 78 bilhões de euros, ou cerca de US$110 bilhões! Nunca antes este Brasil de PIB bem maior teve um pacote tão enorme. Com ele, segundo um jornal local, a dívida portuguesa deverá alcançar 130% do PIB, e será a segunda maior dívida da União Européia em 2014!
Quanto ao conteúdo, é enorme a lista de medidas, que tomou duas páginas de um jornal local, algumas mais drásticas que as já vistas por aqui. Entre elas: redução de pessoal na Defesa e de “compensações salariais” em pelo menos 10%, privatizações de várias empresas, entre elas a aérea TAP, aumento do imposto predial e do capital próprio dos bancos, maiores tarifas de serviços públicos, cobrança do ICMS local sobre os serviços de correio, corte de 15% dos dirigentes e organismos autárquicos, imposição de limites de endividamento às empresas estatais, redução das pensões acima de 1.500 euros por mês, teto para as deduções com despesas de saúde na declaração do Imposto de Renda e uma particularmente invejável, o enterro do projeto do trem-bala português.
E qual é a encrenca? Já na União Europeia houve Portugal uma fase de preparação para a chegada do euro em 1999. A inflação caiu, o risco-país também. As taxas de juros, idem. Isso, e a expectativa de que o euro facilitaria a convergência com o desempenho de outros países, estimularam uma política fiscal expansionista, e fortes aumentos do consumo e investimento com queda do desemprego entre 1995 e 2001. Mas, a dívida pública subiu e a competividade do país caiu, acumulando fortes déficits na conta corrente com o exterior financiados com endividamento.
Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não
há hoje muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as
mesmas nuvens cinzentas aprendemos a reduzir os sonhos e esperanças para
um tamanho aceitável. Acerca dessa histeria colectiva, Eduardo Galeano
escreveu o seguinte:
Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.
Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.
Quem não têm medo da fome, têm medo da comida.
Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas,
as armas têm medo da falta de guerras.
Desde 2002, entretanto, no que tinha de favorável esse quadro se reverteu; no que tinha de preocupante, se agravou. Assim, sobreveio um período de taxas baixas ou mesmo negativas de crescimento do PIB e aumento de desemprego, que a crise internacional do final da década só fez agravar, levando a uma deterioração séria do déficit em conta corrente, das dívidas privadas, do déficit público e da dívida do setor. Com tudo isso, o país tropeçou e caiu nos braços da troika.
O Brasil difere de Portugal sob muitos aspectos, como no tamanho citado e na sua estrutura produtiva. Mas, também temos problemas similares, como a má gestão do setor público, os crescentes déficits em conta corrente, o mau estado da educação, e a falta de competitividade, principalmente da indústria e dos serviços. Ainda ontem soube que desde o ano passado o Brasil perdeu seis posições numa avaliação de competitividade internacional.
Portugal, portanto, desde já pode dar lições ao Brasil quanto ao que não fazer, como o exagero nos déficit público e externo, e projetos de viabilidade muito duvidosa, como esse do trem-bala. Também será importante apoiar o país e acompanhar o esforço de seu governo espremido entre seu povo e a troika. Seguramente, será uma experiência cheia de novos ensinamentos. |
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Foto 1 – Flagrante da tocante Cerimônia de Abertura das Conferências do Estoril.

Foto 2 – As belíssimas instalações do Centro de Congressos do Estoril.

Foto 3 – Os três professores da FAAP que participaram como painelistas nas Conferências do Estoril: Roberto Macedo, Georges Landau e Luiz Alberto Machado.

Foto 4 – Francis Fukuyama.

Foto 5 – Larry King, em sua entrevista com o jornalista Mario Crespo.
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